Novos Percursos Profissionais - 10ano

Novos Edição do Professor PORTUGUÊS 1 3URȃVVLRQDLV Ana Catarino Isabel Castiajo Maria José Peixoto De acordo com

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Novos

Edição do Professor

PORTUGUÊS 1

3URȃVVLRQDLV

Ana Catarino

Isabel Castiajo Maria José Peixoto

De acordo com

Novo Programa

12 PROJETO DE LEITURA

14 PARA COMEÇAR

MÓDULO 1

1.

POESIA TROVADORESCA

18 PARA CONTEXTUALIZAR

19 PARA INICIAR

22 PARA DESENVOLVER

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

INFORMAR

LEITURA

22 “A poesia trovadoresca”

20 Exposição sobre um tema “Feiras medievais”

22 “Cantiga” 23 “Os agentes difusores da poesia trovadoresca”

21 Apreciação crítica “Pela liberdade na Idade Média”

CANTIGAS DE AMOR

28 “Quer’eu em maneira de proençal”, Dom Dinis

24 “A figura feminina nas cantigas de amor”

30 “Se eu pudesse desamar”, Pero da Ponte

26 Exposição sobre um tema “A sociedade portuguesa do século XIII” 33 Apreciação crítica “O poder, talvez”

30 “Que soidade de mha senhor ei”, Dom Dinis

CANTIGAS DE AMIGO

36 “Ai flores, ai flores do verde pino”, Dom Dinis

35 “Refrão”

42 Artigo de divulgação científica “Amor: cria dependência como uma droga, mas sabe bem como o chocolate”

50 “Cantigas de escárnio e maldizer”

48

34 ”Cantigas de amigo” e “Paralelismo”

37 “Nom chegou, madr’, o meu amigo”, Dom Dinis 38 “Bailemos nós já todas tres, ai amigas”, Airas Nunes 39 “Ondas do mar de Vigo”, Martim Codax 40 “Poys nossas madres van a San Simon”, Pero Viviaez 40 “Sedia-m’ eu na ermida de San Simión”, Mendinho CANTIGAS DE ESCÁRNIO E MALDIZER

52 “Roi Queimado morreu com amor”, Pero Garcia Burgalês 53 “Ai, dona fea, foste-vos queixar”, Joam Garcia de Guilhade

“Vídeos na Internet”

51 “Cantigas de escárnio” e “Cantigas de maldizer”

54 “Foi um dia Lopo jograr”, Martim Soares

58 PARA SABER

2

59 PARA VERIFICAR

60 PARA RECUPERAR

ÍNDICE

ORALIDADE

ESCRITA

GRAMÁTICA

24 EXPRESSÃO ORAL Arte de Trovar – relação texto vs. imagem

27 Exposição sobre um tema Divertimentos característicos da Idade Média

31

Formação de palavras

31

Conectores

31

Subordinação

32 ORALIDADE/EDUCAÇÃO LITERÁRIA Apresentação Oral/Tópico de Programa Canção de Paulo Gonzo e Olavo Bilac

29 Exposição sobre um tema Poema “Namoro”

19 COMPREENSÃO DO ORAL Reportagem “Viagem Medieval em Terra de Santa Maria”

41 ORALIDADE/EDUCAÇÃO LITERÁRIA Apresentação Oral/Tópico de Programa Cantiga “Poys nossas madres van a San Simon” e a imagem Festas do concelho de Gondomar

41, 55 Étimo 41

Funções sintáticas

49, 55 Pronome pessoal em adjacência verbal

49 9 Ex E Exposição xposição so sobre um tema Virtudes e riscos do uso do Facebook

49

Formação de palavras

55

Classe de palavras

55

Funções sintáticas

55

Conector

49, 55 Referente 55

Subordinação

APRENDER / APLICAR

61 PARA AVALIAR

44

Evolução do português

56

Fonética e fonologia / etimologia

3

MÓDULO 1

2.

FERNÃO LOPES CRÓNICA DE D. JOÃO I (Excertos da 1.a parte)

66 PARA CONTEXTUALIZAR

67 PARA INICIAR

69 PARA DESENVOLVER

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

INFORMAR

LEITURA

75 “Fernão Lopes e a Crónica de D. João I”

69 Exposição sobre um tema D. João I

Crónica de D. João I 76

Capítulo 11 (excerto)

82

Capítulo 115 (excerto)

84

Capítulo 148 (excerto)

86 PARA SABER

72 Exposição sobre um tema “A maior das vitórias”

87 PARA VERIFICAR

88 PARA RECUPERAR

94 PARA CONTEXTUALIZAR

95 PARA INICIAR

96 PARA DESENVOLVER

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

INFORMAR

LEITURA

97 “A sátira e o ideal de ordem”

118 Exposição sobre um tema “A verdade das relações”

MÓDULO 2

1.

GIL VICENTE FARSA DE INÊS PEREIRA

Farsa de Inês Pereira 98

(A vida de solteira de Inês – excerto 1)

104

(A carta de Pero Marques – excerto 2)

110

(Os judeus casamenteiros – excerto 3)

112

(Apresentação do Escudeiro e casamento de Inês – excerto 4)

115

(A vida de casada de Inês – excerto 5)

124

(Inês livre para novos amores – excerto 6)

130 PARA SABER

4

97 “Farsa e auto – natureza e estrutura da obra”

132 PARA VERIFICAR

129 Apreciação crítica “Um homem, uma mulher e um tribunal”

134 PARA RECUPERAR

ORALIDADE

ESCRITA

GRAMÁTICA

67 EXPRESSÃO ORAL Pesquisa a partir de imagens

70 Síntese “Fernão Lopes – o historiador” Como escrever uma síntese

77 Processos fonológicos

68 COMPREENSÃO DO ORAL “Fernão Lopes – vida e obra” 68 EXPRESSÃO ORAL Síntese “Fernão Lopes – vida e obra”

73 Síntese A maior das vitórias” 74 Exposição sobre um tema D. João I

74 COMPREENSÃO DO ORAL “Conta-me História”, RTP

APRENDER / APLICAR

78 Funções sintáticas I 89 PARA AVALIAR

ORALIDADE

ESCRITA

GRAMÁTICA

95 EXPRESSÃO ORAL Adequação de imagens à obra de Gil Vicente

114 Síntese do conteúdo do excerto 4, Farsa de Inês Pereira

101, 119 Conectores

96 COMPREENSÃO / EXPRESSÃO ORAL Documentário “Grandes livros - Gil Vicente”

120 Apreciação crítica Como escrever uma apreciação crítica

96 EXPRESSÃO ORAL Síntese de uma entrevista

121 Apreciação crítica a partir de uma imagem

128 EXPRESSÃO ORAL Apreciação crítica de prancha de BD vs. obra em estudo

101

Processos fonológicos

107, 119 Funções sintáticas 107

Classe de palavras

119

Subordinação

APRENDER / APLICAR

102

Lexicologia: campo semântico e campo lexical

108

Lexicologia: arcaísmos e neologismos

122

Processos irregulares de formação de palavras

135 PARA AVALIAR

5

MÓDULO 2

2.

LUÍS VAZ DE CAMÕES RIMAS

138 PARA CONTEXTUALIZAR

139 PARA INICIAR

140 PARA DESENVOLVER

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

INFORMAR

LEITURA

Rimas

140 “Lírica tradicional e renascentista”

REPRESENTAÇÃO DA AMADA

142 “Ondados fios d’ouro reluzente” 143 “Um mover d’olhos, brando e piadoso”

141 “Petrarquismo em Camões: influência e originalidade”

144 “Descalça vai para a fonte” 146 “Endechas”

A EXPERIÊNCIA AMOROSA E A REFLEXÃO SOBRE O AMOR

149 “Quem ora soubesse”

148 “A tensão amorosa em Camões”

150 “Tanto de meu estado me acho incerto” A REPRESENTAÇÃO DA NATUREZA

152 “Alegres campos, verdes arvoredos”

151 “Locus amoenus”

153 “Aquela triste e leda madrugada A REFLEXÃO SOBRE A VIDA PESSOAL

155 “O dia em que eu nasci, moura e pereça”

154 Camões: a época, o homem e o poeta”

O TEMA DA MUDANÇA E DO DESCONCERTO

157 “Correm turvas as águas deste rio”

156 “A lírica camoniana”

158 “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”

161 Apreciação crítica “Um justo entre as Nações” 164 Exposição “Os pintores descobrem a realidade”

160 “Que me quereis, perpétuas saüdades?” 160 “Os bons vi sempre passar”

166 PARA SABER

6

168 PARA VERIFICAR

169 PARA RECUPERAR

ORALIDADE

ESCRITA

GRAMÁTICA

147 Exposição sobre um tema Representação da mulher na lírica camoniana

145 Subordinação

139 COMPREENSÃO DO ORAL Documentário sobre Luís de Camões

145 COMPREENSÃO / EXPRESSÃO ORAL Áudio “Garota de Ipanema”, Tom Jobim e Vinicius de Moraes

145 Classe de palavras

147 COMPREENSÃO / EXPRESSÃO ORAL Apreciação crítica Áudio “Endechas”, Sérgio Godinho

159 COMPREENSÃO DO ORAL Anúncio publicitário

157 Referente 157 Funções sintáticas

APRENDER / APLICAR

162 Funções sintáticas II 170 PARA AVALIAR

7

MÓDULO 3

1.

LUÍS VAZ DE CAMÕES OS LUSÍADAS

174 PARA CONTEXTUALIZAR

175 PARA INICIAR

177 PARA DESENVOLVER

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

INFORMAR

LEITURA

180 Canto I, ests. 1 a 3 Imaginário épico – Proposição

177 “Origem e valor simbólico do termo ‘lusíadas’”

206 Artigo de divulgação científica “Explorando Vénus”

181 Canto I, ests. 4 a 5 Imaginário épico – Invocação

177 “A génese de Os Lusíadas”

214 Exposição sobre um tema “Exploradores oceânicos”

182 Canto I, ests. 6 a 18 Imaginário épico – Dedicatória 186 Canto I, ests. 105 e 106 Reflexões do poeta (A fragilidade da vida humana)

178 “Poema épico Estruturação interna e externa de Os Lusíadas” 195 “Simbologia da Ilha dos Amores” 215 O conteúdo de cada canto

187 Canto V, ests. 92 a 100 Reflexões do poeta (O desprezo pelas artes) 189 Canto VII, ests. 78 a 87 Reflexões do poeta (Lamentações de teor autobiográfico) 194 Canto VIII, ests. 96 a 99 Reflexões do poeta (O poder do vil dinheiro) 196 Canto IX, ests. 52, 53 e 66 a 70 Imaginário épico (A Ilha dos Amores) 198 Canto IX, ests. 88 a 95 Imaginário épico e Reflexões do poeta (A imortalidade) 200 Canto X, ests. 75 a 91 Imaginário épico (A máquina do Mundo) 207 Canto X, ests. 145 a 156 Reflexões do poeta (Lamentações do poeta)

218 PARA CONSOLIDAR

8

220 PARA VERIFICAR

222 PARA RECUPERAR

ORALIDADE

ESCRITA

GRAMÁTICA

175 EXPRESSÃO ORAL Leitura de imagens

185 Reescrita de texto (sinonímia/economia lexical)

185, 199, Funções sintáticas 202, 210

176 COMPREENSÃO DO ORAL Documentário “Grandes Livros − Os Lusíadas”

203 Exposição sobre um tema Os Descobrimentos

185, 210 Campo lexical/Campo semântico

181 COMPREENSÃO DO ORAL Áudio Tema “Contentores”, Xutos e Pontapés 186 COMPREENSÃO / EXPRESSÃO ORAL Áudio Apreciação crítica de uma canção 211 COMPREENSÃO DO ORAL Reportagem “World of Discoveries”

210 Exposição sobre um tema As qualidades bélicas e literárias de Luís de Camões

185

Classe de palavras

191

Conector

191, 210, Coordenação/Subordinação 214 199, 202 Tempo e modo verbal 202

Referente

210

Processos fonológicos

APRENDER / APLICAR

192

Frase complexa: coordenação

204

Frase complexa: subordinação Orações subordinadas adverbiais

212

Orações subordinadas substantivas e adjetivas

224 PARA AVALIAR

9

MÓDULO 3

2.

HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA “AS TERRÍVEIS AVENTURAS DE JORGE DE ALBUQUERQUE COELHO (1565)”

228 PARA CONTEXTUALIZAR

229 PARA INICIAR

232 PARA DESENVOLVER

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

INFORMAR

LEITURA

233 “Antecedentes − missão de Jorge de Albuquerque Coelho”(Excerto 1)

232 “A História Trágico-Marítima”

231 Exposição sobre um tema “A carreira da Índia”

237 “A nau”

240 Apreciação crítica “Sucessos e naufrágios das naus portuguesas“

235 “Partida” (Excerto 2) 238 “Encontro com os corsários” (Excerto 3)

241 Exposição sobre um tema “As viagens dos Descobrimentos”

242 “Tempestade” (Excerto 4) 244 “Regresso a Lisboa” (Excerto 5)

254 PARA CONSOLIDAR

248 Relato de viagem “Dois anos a pedalar…”

255 PARA VERIFICAR

BLOCO INFORMATIVO I – GRAMÁTICA (Sistematização) 260

Classes de palavras

267

Verbo · Formas finitas e formas não finitas; modos e tempos · Verbos regulares / irregulares · Conjugações verbais · Verbos defetivos (pessoais e unipessoais)

269

Pronome pessoal em adjacência verbal – regras de utilização

271

Funções sintáticas

274

Frases ativas e passivas

275

Discurso direto e indireto

277

Processos de coordenação e de subordinação entre orações

277

Contacto de línguas · Substrato · Superstrato

278

Palavras convergentes e divergentes

278

Processos fonológicos · Inserção · Supressão · Alteração

10

256 PARA RECUPERAR

ORALIDADE

ESCRITA

GRAMÁTICA

229 COMPREENSÃO DO ORAL Documentário “História Trágico-Marítima – os naufrágios do Império”

241 Síntese As viagens dos Descobrimentos

Funções sintáticas 234, 239, 247

243 Apreciação crítica Quadro de William Turner

Subordinação 234, 239, 247

230 EXPRESSÃO ORAL Comparação do “Poema da malta das naus” com o documentário

245 Texto lacunar

COMPREENSÃO / EXPRESSÃO ORAL

246

247 Apreciação crítica (imagem)

Relação temática Canção (“Fado português”) e História Trágico-Marítima

239, 249 Tempo e modo verbal 245

Classe de palavras

245

Relações semânticas

246

Campo lexical

APRENDER / APLICAR

250

Geografia do português no mundo

257 PARA AVALIAR

279

Arcaísmos e neologismos

280

Formação de palavras · Derivação · Composição

281

Processos irregulares de formação de palavras

281

Palavras monossémicas e polissémicas

282

Campo semântico e lexical

282

Relações semânticas

283 II – GÉNEROS TEXTUAIS 284 III – RECURSOS EXPRESSIVOS 285 IV – NOÇÕES DE VERSIFICAÇÃO 286 V – TEXTO DRAMÁTICO 287 Domínios de Referência, Objetivos e Descritores de Desempenho – 10.° Ano

11

PROJETO INDIVIDUAL DE LEITU RA

Segue-se uma breve abordagem de três obras propostas no programa de Português para o PIL (Projeto Individual de Leitura). Depois de as ler, preencha a ficha-modelo apresentada na página seguinte.

1 Os da minha rua

D ONDJAKI

1977

iz o autor que são estórias… E, de facto, são. São a história da sua infância e princípio da adolescência, a história da sua Luanda, a história da sua Rua Fernão Mendes Pinto… Estórias onde vivem amigos que se oferecem para almoçar lá em casa e beber Fanta, irmãs que partilham óculos, familiares próximos e outros nem tanto, cães aconchegados de mimos e outros repudiados, piscinas especiais, carnavais tradicionais, festivais da canção, telenovelas brasileiras na televisão mais linda do mundo!… Tudo isto numa escrita inicialmente simples, que depois cresce ao mesmo ritmo que o seu autor.

2 Capitães da areia

S JORGE AMADO

1912-2001

ão meninos abandonados, órfãos, vítimas da fome, da miséria, da doença e do preconceito. Meninos que são obrigados a crescer à força para sobreviver. E, como sobreviver é difícil nas ruas da Baía, tornam-se marginais, num bando temido, chefiado por Pedro Bala, que rouba e inquieta os respeitáveis da cidade. Um bando feito de carências, de ausências, de sonhos, de afetos… Enfim, um bando feito de crianças que nunca o foram, mas que o são, por vezes, num velho carrossel multicolor, tão desamparado como eles!

3 Robinson Crusoé

P DANIEL DEFOE

1660-1731

12

ublicado em 1719, este romance relata, na primeira pessoa, as venturas e desventuras de Robinson, um náufrago que sobrevive durante cerca de três décadas numa ilha remota e desconhecida dos Trópicos. De início, completamente só, Robinson debate-se com sérias dificuldades na luta pela sobrevivência. Até que numa sexta-feira encontra uma estranha personagem… É uma narrativa empolgante, com selvagens, canibais e uma fauna e flora desconhecidas do Velho Mundo. É o confronto de duas civilizações: a do colonizador imperialista e a do colonizado frágil e facilmente escravizado. Mas é também uma história de cooperação e de descoberta do outro.

FICHA FIC H A DE LEITURA/APRECIAÇÃO LEITURA/AP R EC IAÇ ÃO CRÍTICA C RÍTICA DA OBRA

SOBRE O AUTOR E A SUA ESCRITA

Título: Editora/ano da edição: SOBRE A OBRA SELECIONADA

Estrutura: divisão em capítulos Sim. Quantos? Não. Características da obra e registo discursivo:

Tema: SOBRE A HISTÓRIA, A AÇÃO, OS EVENTOS OCORRIDOS

SOBRE O ESPAÇO E O TEMPO (lugares e características principais)

Acontecimentos principais:

Outros acontecimentos:

O espaço:

O tempo:

Protagonista(s): SOBRE AS PERSONAGENS E/OU O NARRADOR

Caracterização do(s) protagonista(s): Outras personagens: Narrador: Relevância para a compreensão da obra:

Descrição sucinta da obra: Ç APRECIAÇÃO CRÍTICA

Comentário crítico:

13

PA R A C O M E Ç A R COMPREENSÃO DO ORAL Visione uma primeira vez um vídeo sobre um projeto destinado a estudantes. 1.

1. Complete as seguintes afirmações. 1.1

O filme é uma pequena reportagem exibida pela a. b. .

1.2 O programa decorrerá na cidade de a.

sobre o

e terá a duração de b.

dias. 1.3 Os países envolvidos neste intercâmbio são: a. c. e d. , além de Portugal.

1.4 Na peça jornalística são destacadas as estudantes a. aluna portuguesa, e b. , uma aluna c. .

Monção recebe alunos de 5 países europeus no âmbito do projeto Comenius

PROFESSOR

, Noruega, b.

,

, uma

2. Escolha a opção que completa melhor o sentido da frase. 2.1 Considerando o conteúdo da reportagem, o projeto envolve

Vídeo “Monção recebe alunos de 5 países europeus no âmbito do projeto Comenius” Compreensão do oral 1.1 a. Alto Minho TV; b. Projeto Comenius 1.2 a. Monção; b. sete 1.3 a. Chipre; b. Finlândia c. Polónia; d. Croácia 1.4 a. Adriana; b. Olga; c. polaca 2.1 [D] 2.2 [B] 2.3 [C] 3. Promoção da aprendizagem da língua inglesa; construção de novas amizades, a nível pessoal.

[A] as escolas e as autarquias. [B] o Ministério da Educação e o presidente da Câmara. [C] os alunos e os professores. [D] toda a comunidade de uma certa região. 2.2 Durante o período de duração do programa, os participantes ficam alojados em [A] hotéis pagos por eles. [B] casa dos seus correspondentes. [C] habitações destinadas ao turismo. [D] casas alugadas para esse fim específico. 2.3 O conhecimento do país, da região e da sua cultura far-se-á através [A] da participação em palestras e do visionamento de filmes e documentários. [B] do visionamento de documentários e da frequência de aulas. [C] da frequência de aulas, de atividades diversas e visitas pelo Alto Minho. [D] da realização de atividades diversas e visitas pelo Alto Minho.

Expressão oral 1. Resposta de caráter pessoal. Contudo, os alunos podem referir os seguintes aspetos: enriquecimento ao nível pessoal, pois conhece-se outras culturas, outras pessoas; fazem-se novas amizades; aprende-se línguas em situação real; pode-se viajar, sem preocupações com alojamento, sentindo-se o jovem mais amparado, porque acolhido.

14

Visione uma segunda vez o vídeo. 3. Enumere os argumentos apresentados pelos alunos para incentivar este tipo de

atividade.

EXPRESSÃO ORAL 1. Recupere o conteúdo do vídeo visionado e expresse a sua opinião, num discurso de

2-3 minutos, sobre o contributo deste tipo de atividades para reconhecimento de culturas diferentes da nossa.

LEITURA Leia atentamente um excerto de uma reportagem sobre o Ensino Profissional.

Ensino Profissional: o sistema e os novos desafios Por Anabela Pato

Encontro desvendou as competências do ensino profissional e os obstáculos ultrapassados até ao momento

5

10

15

20

25

O que é que o mercado de trabalho procura hoje em dia? Esta é questão base que qualquer profissional deve colocar a si próprio atualmente, quando enfrenta pela primeira vez o mercado de trabalho. Para além da vocação, vontade, competência e capacidade de trabalho, há um fator central em todo este processo: a formação. Uma realidade que cruza cada vez mais com a crescente exigência por parte das empresas ao nível do recrutamento. Este foi o alerta emitido aos cerca de 200 jovens alunos, professores e diretores de escolas públicas e de escolas profissionais, que marcaram presença na Conferência “Ensino Profissional: Competências do futuro”, levada a cabo pelo jornal “Região de Leiria”, no auditório da Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Leiria. Com índices de empregabilidade muito elevados, como foi afirmado pelos quatro oradores intervenientes na conferência, o ensino profissional público e privado tem sido, ao longo dos anos, alvo de evoluções e inovações, principalmente desde há quatro anos. Fundado em 1889, o ensino profissional foi “o protagonista da mudança”, como frisa José Luís Presa, presidente da Associação Nacional de Escolas Profissionais, uma vez que esta “alternativa ao sistema regular de ensino” sempre contou com o apoio de atores locais, como autarquias e sindicatos.

30

35

Com um reforço das competências qualificativas, para além das quantitativas, hoje o ensino profissional aposta cada vez mais em adequar o desenho curricular proposto aos jovens, às empresas e às necessidades do tecido económico e social. Esta é a opinião dos quatro oradores. Para Ana Penim, administradora delegada do Instituto de Negócios e Vendas, as escolas profissionais públicas e privadas devem centrar as suas atenções nos alunos e estes, por sua vez, devem ter a noção de que “no mercado atual não basta parecê-lo, temos de sê-lo.” in www.gustaveeiffel.pt/Downloads/eventos/ J_Leiria-Reportagem.pdf (texto adaptado, consultado em dezembro de 2016).

1. Selecione a opção correta, de acordo com o sentido do texto. 1.1

O texto é uma reportagem porque [A] está disposto graficamente em duas colunas. [B] transmite a opinião de quem escreve. [C] noticia um acontecimento, apresentando testemunhos de intervenientes.

15

Po es i a Trova d o resca 1.2 A utilização de aspas na linha 13 deve-se PROFESSOR

[A] à reprodução das falas de um dos oradores.

1.

[B] ao título de um artigo publicado pelo jornal “Região de Leiria”. [C] à designação da conferência promovida pelo jornal “Região de Leiria”.

Leitura

1.3 Os quatro oradores intervenientes partilham a opinião de que

1.1 [C] 1.2 [C] 1.3 [B] 1.4 [A]

[A] a Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Leiria tem índices de empre-

gabilidade muito elevados. [B] os índices de empregabilidade são muito elevados nas escolas profissionais.

Gramática 1.1 a. Complemento direto. b. Complemento agente da passiva. c. Sujeito. d. Predicativo do sujeito. e. Complemento oblíquo. 1.2 Oração subordinada adverbial causal. 1.3 Pretérito perfeito composto do indicativo. 1.4 Palavra derivada por sufixação.

[C] o ensino profissional público tem índices de empregabilidade mais eleva-

dos que o ensino profissional privado. 1.4 O ensino profissional aposta essencialmente [A] na adequação do ensino às necessidades do mercado de trabalho. [B] na preparação dos alunos para apoiar as autarquias e os sindicatos. [C] no reforço da quantidade de matérias a lecionar.

GRAMÁTICA 1. Tenha em atenção as seguintes passagens textuais selecionadas do texto.

Escrita Resposta de caráter pessoal, contudo os alunos podem referir os seguintes aspetos: Introdução: a escola é um instrumento privilegiado na promoção pessoal, social e profissional. Desenvolvimento: contacto com pessoas de todas as classes sociais, aprendizagem de vários valores, entre os quais os de cidadania; desenvolvimento de competências e aquisição de habilitações para o exercício de uma profissão no futuro. Conclusão: pelo exposto, a escola torna-nos pessoas mais conscientes, mais bem formadas e melhores cidadãos.

a. “Esta é a questão base que qualquer profissional deve colocar a si próprio

atualmente, quando enfrenta pela primeira vez o mercado de trabalho.” (ll. 2-4) b. “como foi afirmado pelos quatro oradores intervenientes na conferência.” (ll. 16-18) c. “o ensino profissional público e privado tem sido, ao longo dos anos, alvo de

inovações e evoluções, principalmente desde há quatro anos.” (ll. 18-20) d. “Fundado em 1889, o ensino profissional foi o protagonista da mudança.” (ll. 20-21) e. “uma vez que esta ‘alternativa ao sistema regular sempre contou com o apoio

de atores locais’” (ll. 23-25) 1.1

Indique as funções sintáticas desempenhadas pelas expressões sublinhadas.

1.2 Classifique a oração da alínea e. 1.3 Indique o tempo e o modo da forma verbal “tem sido” (l. 18). 1.4 Designe o processo de formação da palavra “atualmente” (l. 3).

E S C R I TA Para uns, a escola é mal-amada; para outros, é uma fonte de saber e permite a abertura de janelas para o mundo. Elabore um texto, de 100 a 140 palavras, exprimindo a sua opinião sobre a importância da escola para a formação dos jovens. Deve respeitar a seguinte estrutura tripartida:

• introdução − apresentação sucinta do tema e da posição assumida; • desenvolvimento − defesa da posição por meio de apresentação de duas razões; • conclusão – fecho do texto e considerações finais.

16

MÓDULO

1

1. Poesia Trovadoresca PARA CONTEXTUALIZAR | PARA INICIAR PARA DESENVOLVER

Educação Literária Poesia trovadoresca

• Cantigas de amor • Cantigas de amigo • Cantigas de escárnio e maldizer Leitura Exposição sobre um tema Apreciação crítica Artigo de divulgação científica Escrita Exposição sobre um tema Oralidade [Comprensão/Expressão Oral] Reportagem [Compreensão do Oral] Gramática Evolução do português [Aprender/Aplicar] Fonética e fonologia/etimologia [Aprender/Aplicar]

• Formação de palavras • Conectores • Subordinação • Funções sintáticas • Classe de palavras • Referente • Processos fonológicos • Étimo • Pronome pessoal em adjacência verbal PARA SABER | PARA VERIFICAR | PARA RECUPERAR | PARA AVALIAR

PARA CONTEXTUALIZAR

476 Queda do Império Romano no Ocidente – início da Idade Média

1096

1143

1261

Concessão do condado Portucalense a Henrique de Borgonha por Afonso VI de Leão e Castela

Fundação da nacionalidade portuguesa

Nascimento do rei poeta D. Dinis

Os valores culturais da Idade Média

5

• A cultura na Idade Média cingia-se a um grupo social privilegiado: o clero. • A minoria clerical controlava a produção e a reprodução de texto escrito, geralmente de teor religioso: Bíblia e as obras de Santo Agostinho. • Os membros do clero mais categorizados viajavam bastante (sobretudo nos séculos XIII e XIV), comunicando em latim, que era língua da escrita, sendo utilizada em várias nações. Elaborado a partir de José Mattoso, O essencial sobre a cultura medieval portuguesa: séculos XI a XIV, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985, p. 3.

5

10

Elaborado a partir de Maria de Lurdes Rosa, "Sagrado, devoções, religiosidade", in José Mattoso (dir.), História da vida privada em Portugal, Idade Média, vol. I, coordenação de Bernardo Vasconcelos e Sousa, Lisboa, Temas e Debates, 2011, p. 376.

18

Transferência da Universidade para Coimbra

1325 Morte de D. Dinis

A nação portuguesa e a evolução da língua

5

10

A religião na sociedade medieval • A Igreja montou e geriu aquilo a que poderíamos chamar uma visão do mundo exclusivamente confessional. • A religião confundia-se com a própria sociedade, estando presente na esfera pública (procissões) e privada (oratório privado e o convento de clausura). • A prática cristã dominava todas as fases da vida: do nascimento, marcado pelo batismo, até à morte. • O mundo do Além estava sempre presente: quer nas orações pelos mortos quer nos pedidos de intercessão aos santos.

1308

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20

• Alguns autores separam o galego do português muito cedo, por altura da fundação do reino de Portugal, enquanto outros defendem que essas línguas constituem uma única até aos nossos dias. • Os trovadores – galegos, portugueses e castelhanos – escreviam todos na mesma língua, artificial, e não necessariamente a que cada um falava. Trata-se de uma língua literária, usada pelos poetas. • A separação definitiva entre o galego e o português ocorreu a partir do século XV. • O processo de evolução da língua foi influenciado: - pela peste negra, que dizimou grande parte da população adulta, originando um salto de gerações; - pelas guerras de D. Fernando e de D. João I com Castela, que perturbaram o equilíbrio político. • A nobreza da primeira dinastia, que tinha ajudado D. Afonso Henriques a fundar o reino e a governá-lo durante séculos, toma o partido de D. Beatriz, filha de D. Fernando, o que resultou na perda da guerra e do poder. • Uma nova nobreza, que recebe terras e poder económico. • Lisboa torna-se a capital do país, perdendo o norte do país a sua influência. • A língua portuguesa atinge o fim do seu período de formação e de crescimento. Elaborado a partir de Ivo Castro, Introdução a história português [2004], 2.a ed., revista e muito ampliada, Lisboa, Colibri, 2006, pp. 76-77.

PARA INICIAR COMPREENSÃO DO ORAL Visione e escute atentamente um excerto de uma reportagem transmitida pela SIC. 1. Tendo em conta a informação recolhida, selecione a opção correta. 1.1

A peça jornalística refere-se a uma situação que [A] já aconteceu. Viagem Medieval em Terra de Santa Maria

[B] está a acontecer. [C] vai acontecer.

PROFESSOR

1.2 A situação retratada diz respeito a uma manifestação [A] cultural. [B] social.

Vídeo “Viagem Medieval

[C] militar.

em Terra de Santa Maria”

1.3 A peça jornalística foca [A] as várias atividades que o evento proporciona. [B] a comparação entre este evento e outro do mesmo género. [C] um acontecimento específico do evento.

Proceda, agora, a um segundo visionamento da reportagem. 2. Registe como verdadeiras ou falsas as afirmações seguintes. Corrija as falsas.

a. A Viagem Medieval em Santa Maria da Feira é um acontecimento que, anualmente, reconstitui o reinado de D. Afonso IV. b. Um dos acontecimentos retratados nesta Viagem Medieval diz respeito ao acampamento cedido por João da Maia a um conjunto de fidalgos e de militares. c. Durante o espetáculo, assiste-se à simulação de um ataque ao acampamento conduzido por mercenários. d. O assalto ao acampamento tem-se revelado como um dos pontos altos da Viagem Medieval. e. Os voluntários têm, todos eles, grande experiência de participação nestes espetáculo.

Oralidade 1.1; 1.4; 1.5; 1.6; 1.7 1.1 [B]; 1.2 [A]; 1.3 [C] 2 a. F – Todos os anos a viagem medieval destaca um reinado diferente. b. F – O acampamento foi cedido por D. Afonso IV. João da Maia era o responsável pelo acampamento. c. V d. V e. F – Há voluntários, como o caso da entrevistada, que participam pela primeira vez no espetáculo. f. V 3. a. jornalístico b. informar c. atualidade d. profunda e. local f. depoimentos g. intervenientes

f. Apesar de voluntários, estes intervenientes tiveram formação técnica. 3. Sistematize as marcas próprias deste género jornalístico, selecionando a opção

que lhe permite obtê-las. A reportagem é um género a. (jornalístico/literário), cuja finalidade é (deleitar/informar) o público sobre um acontecimento do(a) c. (atualidade/passado) com interesse mediático. Trata, normalmente, a informação de uma forma mais d. (superficial/profunda), cobrindo um evento e. (local/internacional), recorrendo a f. (depoimentos/memórias) de vários g. (escritores/ intervenientes). b.

BLOCO INFORMATIVO – p. 283

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Po es i a Trova d o resca

LEITURA Leia o texto a seguir apresentado.

Feiras medievais

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As feiras medievais correspondiam a uma das instituições mais curiosas do período medieval; a sua função económica consistia fundamentalmente na localização, em prazos e termos determinados, de produtores, consumidores e distribuidores, corrigindo assim a falta de comunicações fáceis e rápidas. Quase todas as feiras se realizavam em épocas relacionadas com festas da Igreja: no local onde se faziam existia uma paz especial, a paz de feira, que proibia toda a disputa ou vingança, ou todo o ato de hostilidade, sob penas severas em caso de transgressão. A primeira menção duma feira portuguesa nitidamente diferente do mercado local é a que vem registada no Foral de Castelo Mendo, de 1229, e que se realizava três vezes no ano e durante oito dias de cada vez. Todos os que a ela acorressem, tanto nacionais como estrangeiros, teriam segurança desde oito dias antes até oito dias depois da feira, na ida e na volta, contra qualquer responsabilidade civil ou criminal que pesasse sobre eles.

Feira medieval de Lendit, in Grandes Crónicas de França, Jean Fouquet, século XIV. 20

Entre os privilégios que mais favoreceram o desenvolvimento das feiras, cumpre mencionar o que isentava os feirantes do pagamento de direitos fiscais (portagens e costumagens). Às que usufruíam desta regalia deu-se o nome de feiras francas. in http://concelho-sernancelhe.planetaclix.pt/Feira_Aquiliniana-2004-03.html (adaptado, consultado em fevereiro de 2017).

1. Selecione a opção correta. PROFESSOR

1.1 Leitura 7.1; 7.2; 7.4; 8.1 1.1 [A] 1.2 [C] 1.3 [D] 1.4 [C] 1.5 [D]

O objetivo principal deste texto é [A] transmitir informação.

[C] expressar uma opinião.

[B] apresentar um ponto de vista.

[D] apresentar um conjunto de sugestões.

1.2 O texto é predominantemente [A] narrativo.

[C] expositivo.

[B] argumentativo.

[D] conversacional.

1.3 O texto apresenta marcas de [A] discurso pessoal.

[C] clareza e subjetividade.

[B] lirismo.

[D] clareza e objetividade.

1.4 O texto apresenta uma linguagem predominantemente [A] conotativa.

[C] denotativa.

[B] metafórica.

[D] simbólica.

1.5 Pelas características atrás identificadas, podemos concluir que estamos perante

20

[A] uma síntese.

[C] um texto de opinião.

[B] um texto de apreciação crítica.

[D] um texto expositivo.

LEITURA Leia o texto de apreciação crítica abaixo e responda, de seguida, aos itens apresentados.

Pela liberdade, na Idade Média O Nome Nome o om da Ro Rosa, osa, sa de e Umb Umberto m ert mb rto o Eco, Eco, Li Lisboa: isbo sboa: a: Dif D Di Difel, el, 2004, 20 004, 04 50 506 6p pp. p p.

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Este foi o romance que deu a conhecer Umberto Eco ao grande público, constituindo um enorme êxito de vendas em Portugal desde que foi publicado pela primeira vez, e continua ainda a ser uma obra bastante popular. E não é de espantar: escrito com imenso humor, o romance dá-nos a conhecer de uma forma expressiva o que era viver num mosteiro medieval. O tema central do romance e a liberdade de estudo e de ensino, a livre circulação do conhecimento. [Numa época] mergulhada em obscurantismo1 durante séculos, os mosteiros cristãos constituíam fortalezas onde o conhecimento era preservado com imensas dificuldades. Dado a inexistência da imprensa, os livros tinham de ser copiados à mão por monges dedicados; em consequência, os livros eram bastante raros e de difícil acesso. […] Evidentemente, havia outros obstáculos à livre circulação do conhecimento, na Idade Média, além do problema tecnológico de não existir ainda a imprensa. Um dos mais importantes, tema central deste livro, era o dogmatismo2 religioso, que encarava o conhecimento como potencialmente perigoso. O romance de Umberto Eco apresenta-se como um livro de detetives: uma série de misteriosas mortes afetam um mosteiro e o protagonista tem por missão descobrir a verdade, um pouco ao estilo de Sherlock Holmes. […] Entretanto, o leitor fica preso da primeira à última página, precisamente para saber como se resolve o mistério. […] A imaginação fervilhante do autor acaba por vezes por ser labiríntica, levando a que quase se perca o fio da história. Mas a bondosa relação do protagonista com o seu discípulo, a sua defesa da racionalidade límpida e sem cedências, a oposição ao dogmatismo que procurava fazer paralisar o conhecimento – todos estes elementos fazem deste romance uma experiência inesquecível. Desidério Murcho, in http://criticanarede.com/lds_nomedarosa.html (consultado em janeiro de 2015, adaptado).

1. O autor deste artigo faz uma apreciação crítica de uma obra. Complete os tópicos

que se seguem com dados do texto. a. Titulo da obra e autor b. Época e local onde decorre a ação c. Duas características da época retratada 1. O Nome da Rosa revela o papel do clero na reprodução de livros e na divulgação de

1 trevas, escuridão; estado de completa ignorância 2 afirmar ou crer em algo como sendo verdadeiro e indiscutível

PROFESSOR Leitura 7.1; 7.2; 8.1 a. O Nome da Rosa, de Umberto Eco. b. Idade Média, mosteiro medieval. c. Os livros eram raros e de difícil acesso; inexistência da imprensa; falta de circulação do conhecimento, dogmatismo religioso, que encarava o conhecimento, como potencialmente perigoso. 2. “os mosteiros cristãos constituíam fortalezas onde o conhecimento era preservado”; “os livros tinham de ser copiados à mão por monges dedicados”; “dogmatismo que procurava fazer paralisar o conhecimento”

conhecimento. Comprove a afirmação com exemplos textuais.

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Po es i a Trova d o resca

PROFESSOR Leitura/Educação Literária 8.1; 15.1

PARA DESENVOLVER INFORMAR Leia os tópicos apresentados abaixo e resolva a atividade proposta na página seguinte.

TEXTO A Apresentação Poesia trovadoresca – Contextualização histórico-literária

A poesia trovadoresca • A poesia galego-portuguesa é um marco relevante na Idade Média Europeia. • Está compilada em três grandes cancioneiros profanos – Cancioneiro da Ajuda (CA); Cancioneiro da Biblioteca Nacional (CBN) e Cancioneiro da Vaticana (CV).

• É, inicialmente, da autoria dos trovadores (trobadors) provençais, que adotam como língua literária a língua d’oc, sendo Guilherme, IX Duque da Aquitania e VII Conde de Poitiers (1071-1127), o primeiro trovador de que há notícia.

• Nascida na corte requintada da Provença (sul de França), é a poesia da fin’amors (um amor puro, idealizado e fiel).

• Espalha-se pela Europa, para as cortes do Norte da França, Inglaterra, Sicília, Itália, Alemanha, atravessa os Pirenéus, fixa-se na Catalunha e no reino de Aragão e atinge a região galego-portuguesa (século XII), onde se encontra e entrecruza com uma poesia indígena (nativa).

• É do encontro de duas linhas poéticas, uma estrangeira, refletida nos cantares de amor, a outra peninsular (indígena), espelhada nas cantigas de amigo (e também nas cantigas de natureza satírica), que resultam as composições reunidas nos três cancioneiros profanos referidos acima. Elaborado com base em Aida Fernanda Dias, História crítica da literatura portuguesa. A Idade Média, vol. I, Lisboa, Editorial Verbo, 1998, pp. 99-100.

TEXTO B

Cantiga • O termo cantiga é de uso geral na Arte de Trovar do Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa, utilizando-se também o termo cantar com o mesmo significado.

• As cantigas ou cantares são composições constituídas por letra e música, estando estas interligadas. Manuscrito do Cancioneiro da Ajuda, séc XIII.

• Apresentam quatro tipos de classificação (géneros): cantigas de amor e cantigas de amigo, de conteúdo amoroso, e cantigas de escárnio e cantigas de maldizer, de conteúdo satírico e burlesco. Elaborado com base em Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani (org. e coord.), Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa, trad. José Colaço Barreiros e Artur Guerra, Lisboa, Editorial Caminho, 1993, pp. 132-133.

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TEXTO C

Os agentes difusores da poesia trovadoresca Trovadores, jograis e jogralesas ou soldadeiras dão vida à arte de trobar, principalmente nas cortes e nas casas dos grandes senhores, mas também na praça, para um público mais vasto e de outra condição social.

• O trovador é um nobre que compõe os seus textos e que apenas os executa por um prazer pessoal ou por um ato de galanteria para com as damas.

• O jogral é executante, difusor de textos alheios e próprios. • A jogralesa trabalha ao lado do jogral, dançando e cantando, ao som de instrumentos por ele tangidos, ou tocando ela própria. Elaborado a partir de Aida Fernanda Dias, História crítica da literatura portuguesa. A Idade Média, vol. I, Lisboa, Editorial Verbo, 1998, pp. 102-103.

1. Associe cada elemento da coluna A ao da coluna B que lhe completa o sentido. PROFESSOR

Coluna A

Coluna B

[A] A lírica trovadoresca

[1] acompanhava o jogral, executando um instrumento e dançando.

[B] Esta arte de trovar, posteriormente,

[2] cantavam e tocavam em praças públicas, para o povo.

[C] O cantar de amor provençal

1. [A] – [3] [B] – [5] [C] – [9] [D] – [7] [E] – [10] [F] – [8] [G] – [12] [H] – [4] [I] – [11] [J] – [1] [k] – [6] [L] – [13] [M] – [2]

[3] teve origem na Provença.

[D] O trovador, de origem nobre,

[4] abordam o tema do amor.

[E] O jogral [F] As cantigas características da lírica trovadoresca

[5] espalhou-se pelas cortes e grandes casas senhoriais europeias. [6] é francês (da Provença).

[G] A cantiga de amigo

[7] compunha a letra e a música das cantigas que também executava.

[H] Os cantares de amor e de amigo

[8] encontram-se reunidas em três cancioneiros profanos.

[I] A sátira e a crítica a costumes e personagens

2. a. peninsular/indígena b. amoroso c. amor d. provençal e. escárnio f. satírico g. peninsular/indígena

[9] chegou, finalmente, ao noroeste peninsular no século XII.

[J] A jogralesa [10]tocava, acompanhando o trovador. [K] O primeiro trovador de que há registo [L] O público a quem se destinavam estas composições poéticas [M] Para além das cortes e das casas senhoriais, os trovadores e os jograis

[11] estão presentes nas cantigas de escárnio e de maldizer. [12] é de origem peninsular. [13] é a nobreza.

2. Complete as seguintes frases.

A cantiga de amigo é de origem a. à semelhança da cantiga de c. Já as cantigas de e. g.

e o seu conteúdo é de tema b.

,

, que, no entanto, é de origem d.

.

e de maldizer são de conteúdo f.

e de origem

.

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Po es i a Trova d o resca

EXPRESSÃO ORAL Observe a imagem apresentada e leia, de seguida, o trecho de Arte de Trovar.

PROFESSOR

E porque algunas cantigas i ha em que falam eles […] é bem de entenderdes se som d’amor […]

Oralidade 1.1; 1.4; 4.1; 4.2; 4.3; 5.3; 5.4 1. Os alunos podem focar vários aspetos: – presença de uma jogralesa, de um jogral: ambiente cortês, palaciano, a execução musical de uma cantiga; um nobre que assiste ao “concerto”; – cantiga de amor.

CBN, Arte de Trovar, IV, in Aida Fernanda Dias, História crítica da literatura portuguesa. A Idade Média, vol. I, Lisboa, Editorial Verbo, 1998, p. 147. Iluminura do cancioneiro da ajuda (nobre, bailadeira com castanholas, jogral com saltério trapezoidal).

1. Exponha, agora, oralmente, num discurso de 2-3 minutos:

• três aspetos presentes na imagem que se relacionem com as características da poesia trovadoresca (vide pp. 22-23);

• o tipo de cantiga que poderia estar a ser interpretada.

INFORMAR Leia atentamente o texto que se segue e responda ao questionário da página seguinte.

A figura feminina nas cantigas de amor

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virtude, honra senso, razão, juízo 3 elegância, graça 2

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No centro desta manifestação cultural poético-musical, e logo desde a primeira metade do século XIII […], o lugar de destaque é ocupado por uma mulher à qual são atribuídas as mais altas qualidades […]. Com efeito, a mulher cantada pelo trovador é apenas a “senhor fremosa”, a de “melhor falar e parecer”, a de “melhor semelhar”, a “senhor ben talhada”, ou, nos casos mais palavrosos, a de “bon prez1, bem falar, bon sen2 e parecer” e também a “mais mansa e de mui melhor doairo3 e melhor talhada”. Simples constatação de uma sobrevalorização onde a pobreza do vocabulário é notória […]. Perante a figura de uma mulher assim delineada, o trovador coloca-se numa postura submissa, semelhante à do vassalo perante o seu senhor […]. Definidas à partida as respetivas posições, o homem dá largas à sua voz cantando o seu estado de infelicidade amorosa, iniciado no momento em que a viu pela primeira vez e prolongado pelos sinais da não correspondência por parte da dama, temendo que ela o repudie e obrigue a afastar-se assim que se inteirar da sua inclinação amorosa, e desejando por fim apenas ficar junto dela para a ver, para lhe falar, ou tão-somente ouvir a sua voz. António Resende de Oliveira, O trovador galego-português e o seu mundo, Lisboa, Editorial Notícias, 2001, pp. 23-24.

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Cantigas de amor

1. Complete as frases, estabelecendo as relações corretas entre os elementos da co-

PROFESSOR

luna A e os da coluna B. Coluna A

Coluna B

[A] Com a expressão “manifestação cultural poético-musical” (l. 1), o enunciador refere-se

[1] que os trovadores são formalmente pouco originais na construção do retrato feminino.

[B] A mulher elogiada nas cantigas de amor

[2] de não ser correspondido pela amada, contentando-se apenas em estar na sua presença.

[C] Com a expressão “melhor falar e parecer” (l. 4), [D] Ao descrever a dama com a expressão “bon sen” (l. 6), [E] Ao mencionar “a pobreza do vocabulário”, (ll. 7-8), o enunciador pretende realçar [F] A partir do segundo parágrafo, o autor pretende salientar o facto de, na cantiga de amor, o sujeito poético ter receio

[3] o trovador caracteriza a mulher como sendo culta e bela. [4] à cantiga de amor. [5] é a “senhor” e pertence à nobreza. [6] o trovador valoriza as qualidades morais da figura feminina.

2. Complete o quadro abaixo, tendo em conta a informação veiculada pelo texto lido

e a atividade anterior.

Leitura/Educação Literária 7.1; 7.4; 8.1; 8.2; 15.1; 16.1 1. [A] – [4] [B] – [5] [C] –[3] [D] – [6] [E] – [1] [F] – [2] 2. a. amoroso b. mulher c. indiferença d. submisso e. vassalo f. angustiado/atormentado g. correspondência h. senhor i. dama j. idealizada k. qualidades l. psicológicas

Cantigas de Amor

Principais linhas temáticas

Caracterização do sujeito poético

Caracterização da figura feminina

• Sofrimento a. causado pela visão da b. , pela sua c. ou pela possibilidade de rejeição.

É d. , com um comportamento semelhante ao de um e. face ao seu senhor, totalmente dependente da amada e que, por isso, vive f. , temendo a não g. amorosa ou a indiferença da sua ”. “h.

É uma i. altiva, va, nte distante, extremamente j. , a quem são ão atribuídas as mais ais físicas, as, altas k. l. e sociais. ais.

• Elogio superlativado da amada.

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P ao de sr ei a ATnrtoóvnai do o Vr ei es icraa

E S C R I TA TEXTO EXPOSITIVO (EXPOSIÇÃO SOBRE UM TEMA) Leia o seguinte texto e atente nas passagens destacadas e nas ideias-chave. Título

A sociedade portuguesa no século XIII

Delimita o tema com objetividade.

A sociedade portuguesa do século XIII é formada por três grupos, com direitos e deveres diferentes: a nobreza, o clero (grupos privilegiados) e o povo, o grupo mais desfavorecido, que executava todo o tipo de trabalho e pagava impostos.

1.O Parágrafo Introdução Identificação e caracterização do objeto. 2.O Parágrafo Desenvolvimento Nobreza (tópico 1): Atividade dominante.

3.O Parágrafo – Nobreza Direitos e privilégios; atividades lúdicas (desportivas e culturais). 4.O Parágrafo Clero (tópico 2) Função principal, direitos e privilégios.

5.O Parágrafo Clero A vida nas ordens religiosas e outras funções (didáticas, culturais, médicas e bélicas). 6.O Parágrafo Povo (tópico 3) Atividade principal, deveres, formas e condições de vida precárias.

7.O Parágrafo Povo Atividades religiosas e lúdicas em que participava ativamente ou como assistente.

8.O Parágrafo Conclusão Hierarquização da sociedade medieval e a influência da guerra nesta organização social.

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35

A nobreza tinha sobretudo funções guerreiras. Participava com os seus exércitos na Reconquista, ao lado do rei, recebendo em troca rendas e terras. O senhorio era pois a propriedade de um nobre na qual viviam camponeses livres e servos. […] O senhor tinha grandes poderes sobre quem vivia no senhorio: cobrar impostos, fazer justiça, ter um exército privado... Quando não estava em guerra, o senhor nobre dedicava-se a dirigir o senhorio e a praticar exercícios físicos e militares. Organizava festas e convívios onde, para além do banquete, se tocava, cantava e dançava. Estas festas eram animadas por trovadores e jograis. Jogava-se xadrez, cartas e dados. Tal como a nobreza, o clero era um grupo social privilegiado. Tinha a função de prestar assistência religiosa às populações. Tinha grandes propriedades que lhe haviam sido doadas pelo rei ou por particulares e não pagava impostos. Tal como a nobreza, exercia a justiça e cobrava impostos a quem vivia nas suas terras. […] No mosteiro, para além de cumprirem as regras impostas pela ordem a que pertenciam, os monges dedicavam-se ao ensino, à cópia e feitura de livros, à assistência a doentes e peregrinos. Em algumas ordens religiosas, os monges dedicavam-se também ao trabalho agrícola nas terras do mosteiro. Noutras, eram militares, tendo combatido contra os Mouros. A maioria dos camponeses vivia nos senhorios, trabalhava muitas horas, de sol a sol, e de forma muito dura. Do que estes produziam, uma grande parte era entregue ao senhor, como renda. Deviam ainda prestar-lhe outros serviços, como a reparação das muralhas do castelo, próximo do qual viviam, em aldeias. Moravam em casas pequenas, de madeira ou pedra, com chão de terra batida e telhados de colmo. Estas casas tinham apenas uma divisão. […] Enquanto trabalhavam, também cantavam. Celebravam-se em todo o país as grandes festas religiosas que incluíam o repicar dos sinos, as procissões, as feiras, as refeições coletivas e os bailes. Depois da missa, ou da procissão, dançava-se e cantava-se nos terreiros das igrejas onde também se realizavam vendas. Por vezes, a plebe podia assistir a alguns espetáculos que os nobres organizavam. Os mais frequentes eram as competições militares. Concluímos assim que, durante o século XIII, a sociedade portuguesa se encontrava dividida em classes, que possuíam mais ou menos privilégios. Esta hierarquização condicionou as ocupações e os divertimentos dos diferentes grupos, tendo tido a guerra e as expedições militares uma forte influência nesta estruturação. in http://hgp5.blogs.sapo.pt/998.html (texto adaptado, consultado em dezembro de 2016).

Cantigas de amor

O texto expositivo assume um caráter demonstrativo, configurando uma elucidação/ explicação sobre um(a) tema/ideia, apresentando objetividade e concisão. Para escrever um texto deste género, deverá atentar em algumas orientações nas três fases essenciais: (1) fase preparatória, (2) fase da redação e (3) fase da revisão. COMO ESCREVER UM TEXTO EXPOSITIVO 1. Fase preparatória

PROFESSOR Sugestões de filmes, cuja intriga se passa na época medieval: O reino dos céus, Ridley Scott; Robin Hood, Ridley Scott; O Físico, Philipp Stölzl; O Nome da Rosa, Jean-Jacques-Annaud.

• escolher um tema sobre o qual exista informação pertinente, de modo a selecionar um aspeto específico;

• pesquisar informação e selecionar adequadamente fontes, considerando o seu grau de confiabilidade, como por exemplo livros e textos críticos de autores com provas dadas, jornais e revistas com credibilidade;

Guiões de visionamento de filmes Escrita 10.1; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4

• colocar notas nas fontes usadas bem como registar as datas e as estatísticas para comprovar os dados e anotar os dados bibliográficos;

• selecionar os aspetos a contemplar no texto; • planificar o texto, organizando os tópicos selecionados. 2. Fase da redação

• identificar o assunto/a ideia que vai ser explorada, no primeiro parágrafo; • organizar sequencialmente os dados recolhidos e selecionados; • exemplificar/justificar os aspetos registados; • empregar corretamente os conectores do discurso; • indicar corretamente as citações e/ou as fontes utilizadas. 3. Fase da revisão

• ler o texto elaborado para perceção da sua coerência interna e coesão textual; • corrigir gralhas ao nível da ortografia, da acentuação e da pontuação; • verificar a contemplação das orientações fornecidas (se as houver), nomeadamente ao nível do número de palavras requerido.

Tópicos de resposta: Introdução: - Localização temporal da Idade Média (séculos V a XV). - Estratificação social – divisão da sociedade em classes, que apresentavam bastantes diferenças ao nível das atividades lúdicas. Desenvolvimento: - Nobreza: torneios, caça, festas nos castelos com a presença de músicos e dançarinos, serões na corte. - Clero: participava em muitas das atividades lúdicas da nobreza. - Povo: a dança, a música, romarias e festas populares. Conclusão: A importância dos divertimentos na organização da sociedade medieval: acentuação da estratificação social, contribuição para o conhecimento da cultura e da forma de viver medievais.

ESCREVER UM TEXTO EXPOSITIVO Desde sempre, o ser humano procurou formas de se divertir. Proceda a uma pesquisa e redija um texto expositivo, de 120 a 150 palavras, no qual exponha os diferentes tipos de divertimentos característicos da Idade Média. Siga o plano orientador que se apresenta.

• Introdução – contextualização temporal da Idade Média e breve caracterização deste período.

• Desenvolvimento – demonstração dos diferentes tipos de divertimentos associados às diferentes classes sociais e a sua importância na organização da sociedade medieval.

• Conclusão – síntese das principais ideias. BLOCO INFORMATIVO – p. 283

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Po es i a Trova d o resca Cantigas de amor – A coita de amor e o elogio cortês

EDUCAÇÃO LITERÁRIA FIXAÇÃO DE TEXTO

As composições poéticas têm como fixação de texto: Elsa Gonçalves (apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária) e Maria Ana Ramos (critérios de transcrição, nota linguística e glossário), A lírica galego-portuguesa, Lisboa, Editorial Comunicação, 1983. Excetuam-se as composições das páginas 30 (cantiga B), 37 e 40, que têm como fixação de texto: Mercedes Brea (coord.); Lírica profana galego-portuguesa, vols. I e II, Santiago de Compostela, Xunta de Galicia, 1996.

Leia a cantiga de amor de autoria do rei D. Dinis.

Quer'eu em maneira de proençal Quer’eu em maneira de proençal1 fazer agora um cantar2 d’amor, e querrei3 muit’i4 loar5 mia senhor6 a que7 prez8 nem fremosura nom fal9, nem bondade; e mais vos direi ém10; tanto a fez Deus comprida de bem11 que mais que todas las do mundo val.

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1261-1325 Para além de ter reinado durante 46 anos, foi o poeta medieval mais fecundo. Temos hoje conhecimento de 137 cantigas da sua autoria: 73 de amor, 54 de amigo e 10 de maldizer.

Ca12 mia senhor quizo13 Deus fazer tal, quando a fez, que a fez sabedor14 de todo bem e de mui gram valor, e com tod’est[o]15 é mui comunal16 ali u deve17; er18 deu-lhi bom sém19, e desi20 nom lhi fez pouco de bem quando nom quis que lh’outra foss’igual.

10

Ca em mia senhor nunca Deus pôs mal, mais21 pôs i prez e beldad’e loor22 e falar mui bem, e riir melhor que outra molher; desi é leal muit’, e por esto nom sei oj’eu quem possa compridamente23 no seu bem falar, ca nom á, tra-lo24 seu bem, al25.

15

PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.7; 14.8; 15.1; 16.1

DOM DINIS

20

Dom Dinis, B 520/V 123. 1. O elogio da dama à maneira provençal "e querrei muit'i loar mia senhor" (v. 3). 2. Características físicas: a. bela − “mais pôs i prez e beldad’e loor” (v. 16). Características psicológicas: b. honrada − “a que prez […] nom fal” (v. 4). c. bondosa − “a que prez nem fremosura nom fal, / nem bondade” (vv. 4-5). d. virtuosa − “tanto a fez Deus comprida de bem” (v. 6). e. valorosa − “e de mui gram valor” (v. 10). f. sociável − “e com tod’est[o] é mui comunal / ali u deve” (vv. 11-12). g. sensata − “er deu-lhi bom sém" (v. 12). 3. O trovador evidencia as qualidades morais da mulher, como forma de a destacar de todas as outras e de a apresentar como muito superior a ele próprio.

1

em maneira de proençal: à maneira dos provençais; 2 cantiga; 3 quererei; 4 aí, nela, isto é, na cantiga; louvar; 6 mia senhor: forma comum com que o trovador se dirige à mulher amada. No galaico-português, era uma palavra uniforme; 7 a que: à qual, a quem; 8 virtude, honra, mérito; 9 falta; 10 dela, isto é, da “mia senhor”; 11 tanto a fez Deus comprida de bem: Deus fê-la perfeita; 12 porque; 13 quis; 14 sabedora; 15 e com tod'est[o]: e apesar de tudo isto; 16 sociável, afável; 17 ali u deve: quando deve [sê-lo]; 18 também, ainda; 19 juízo, senso; 20 desi: além disso; 21 mas; 22 louvor; 23 perfeitamente, cabalmente; 24 além de; 25 outra coisa. 5

1. Identifique o tema desta cantiga, apresentando o verso que o indica explicitamente. 2. Apresente os atributos da mulher celebrada nesta cantiga, completando a tabela

seguinte. Características físicas

Características psicológicas

Formosa — "a que […] nem fremosura nom fal"

b.

e.

a.

c.

f.

d.

g.

3. Indique o tipo de características destacadas pelo trovador, justificando a sua intenção.

28

Cantigas de amor

4. Complete o texto abaixo com os vocábulos propostos, de modo a dar conta de uma

PROFESSOR

breve análise da presente cantiga. • divinização • morais

• Deus

• psicológico • perfeita

• ideal

4. a. morais b. comparação c. enumeração d. ideal e. psicológico f. perfeita g. superioridade h. Deus i. divinização

• superioridade

• comparação

• enumeração

O trovador evidencia as qualidades a. da mulher, utilizando para isso vários recursos expressivos, tais como a b. , a hipérbole, “tanto a fez Deus comprida de bem / que mais que todas las do mundo val.” (vv. 6-7), e a c. ,“… prez e beldad’e loor” (v. 16). Assim, é clara a sobrevalorização da amada não só por ser descrita como a mulher d. quer a nível físico quer a nível e. , mas também como a dama mais f. entre todas as existentes no mundo, característica explicitada no final de cada cobla: “que mais que todas las do mundo val”; “quando nom quis que lh’outra foss’igual”; “ca nom a, tra-lo seu bem, al”.

Escrita 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4

A referência a Deus é outra forma de destacar a g. da mulher, cuja perfei. Por essa razão, todos os seus atributos são ção depende da vontade de h. apresentados como uma dádiva divina, o que contribui para a sua i. .

E S C R I TA 1. Leia atentamente as seguintes estrofes do poema “Namoro”, de Viriato Cruz, que

dão conta de um amor não correspondido na época atual.

5

[…] Mandei-lhe um cartão que o Maninjo tipografou: "Por ti sofre o meu coração" Num canto – sim, noutro canto – não E ela o canto do não dobrou.

10

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete pedindo rogando de joelhos no chão pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia, me desse a ventura do seu namoro... E ela disse que não.

15

Levei à avó Chica, quimbanda1 de fama a areia da marca que o seu pé deixou para que fizesse um feitiço forte e seguro que nela nascesse um amor como o meu... E o feitiço falhou.

1.1

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica, ofertei-lhe um colar e um anel e um broche, paguei-lhe doces na calçada da Missão, ficamos num banco do largo da Estátua, 20 afaguei-lhe as mãos... falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Proposta de resolução: O sujeito poético enviou à sua amada um cartão tipografado, com duas respostas possíveis (não e sim). Como não resultou, insistiu, enviando recado por intermediário (a Zefa do Sete), em que suplicava o amor da amada. Também procurou a avó Chica, uma conceituada feiticeira, para que fizesse um feitiço “bem forte e seguro”; no entanto, o feitiço falhou. Enfim, a amada negou sempre o seu pedido, chegando mesmo a troçar do sujeito poético, em conversa com as amigas, no baile. (80 palavras)

[…] E para me distrair levaram-me ao baile do sô Januário mas ela lá estava num canto a rir 25 contando o meu caso às moças mais lindas do bairro operário. […] Viriato Cruz, No reino de Caliban II, Antologia panorâmica de poesia africana de expressão portuguesa, vol. 2, Lisboa, Seara Nova, 1976.

Escreva um pequeno texto expositivo de 70 a 100 palavras. Observa os tópicos e a estrutura apresentados.

• introdução – indicação do tema; • desenvolvimento – enumeração de três estratégias implementadas pelo sujeito

1

o que tem todo conhecimento do mundo astral, inclusive da magia negra, e que pode ajudar a fazer o bem.

poético para conquistar a sua amada; a reação da jovem ao seu pedido e a atitude da jovem no baile;

• conclusão – referência ao modo como terminou a relação amorosa. 29

Po es i a Trova d o resca Cantigas de amor – A coita de amor e o elogio cortês

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Leia as duas cantigas apresentadas. CANTIGA A

Se eu pudesse desamar

5

10

15

20

25

Se eu pudesse desamar a quem me sempre desamou, e pudess’algum mal buscar a quem me sempre mal buscou! Assi me vingaria eu, se eu podesse coita1 dar, a quem me sempre coita deu. Mais sol nom2 posso eu enganar meu coraçom que m’enganou, por quanto me fez desejar a quem me nunca desejou. E per esto3 nom dormio4 eu, porque nom poss’eu coita dar, a quem me sempre coita deu.

CANTIGA B

Que soidade de mha senhor ei

5

Mais rog’a Deus que desampar a quem m’assi desamparou, vel6 que podess’eu destorvar7 a quem me sempre destorvou. E logo dormiria eu, se eu podesse coita dar, a quem me sempre coita deu. Vel8 que ousass’eu preguntar a quem me nunca preguntou por que me fez em si cuidar9, pois ela nunca em mim cuidou. E por esto lazeiro10 eu, porque nom poss'eu coita dar, a quem me sempre coita deu. Pero da Ponte, A 289/B 980/V 567.

sofrimento causado pelo amor; 2 sol nom: nem mesmo; E por esto: e por isto, e por causa disto; 4 durmo; 5 desampare, abandone; 6 ou, ao menos; 7 estorvar, perturbar; 8 pelo menos; 9 pensar; 10 lastimo-me, lamento-me

5

10

15

1

3

20

PROFESSOR

30

Cedo; ca8 pero9 mi nunca fez bem10, se a nom vir, nom me posso guardar11 d’ensandecer12 ou morrer com pesar13; e porque ela tod’em poder tem, rogu’eu a Deus que end’a o poder que mh a leixe, se lhi prouguer, veer Cedo; ca tal fez nostro senhor, de quantas outras no mundo som nom lhi fez par14, a la minha fe15, nom; e poi-la fez das melhores melhor, rogu’eu a Deus que end’a o poder que mh a leixe, se lhi prouguer, veer Cedo; ca tal a quizo16 Deus fazer, que se a nom vir, nom posso viver. Dom Dinis, B 526/V 119.

1

Áudio – “Se eu pudesse desamar” Áudio – “Que soidade de mha senhor ei”

Que soidade1 de mha senhor ei2 quando me nembra3 d’ela qual a vi, e que me nembra que bem a oi4 falar; e por quanto bem d’ela sei, rogu’eu a Deus que end’a o poder5, que mh a leixe6, se lhi prouguer7, veer

saudade; 2 tenho; 3 lembra; 4 ouvi; 5 que end'a o poder: que tem poder para isso; 6 deixe; 7 prouver, agradar; 8 porque; 9 mas; 10 nunca fez bem: nunca correspondeu ao meu amor; 11 deixar; 12 enlouquecer; 13 desgosto; 14 igual; 15 a la minha fe: por minha fé; 16 quis.

Cantigas de amor

1. Proceda à análise temática e estilística das duas cantigas de amor, orientando-se

PROFESSOR

pelos tópicos do quadro seguinte. "Se eu pudesse desamar"

"Que soidade de mha senhor ei"

Assunto

a.

a.

Caracterização da amada

b.

b.

Estado de espírito do sujeito lírico

c.

c.

Atitude do sujeito lírico face à amada

d.

d.

Recursos expressivos mais significativos

e.

e.

GRAMÁTICA 1. Na cantiga A, considere as palavras “desamar” (v. 1) e “desampar” (v. 15). 1.1

Identifique o prefixo de ambas as palavras e explicite o seu valor.

2. Classifique as seguintes palavras quanto ao processo de formação e identifique

a(s) respetiva(s) forma(s) de base, seguindo o modelo abaixo. Modelo: desamar – palavra derivada por prefixação; forma de base: "amar". a. desamparado b. enlouquecer c. pesaroso d. pinga-amor e. invulgar 3. Indique o valor dos conectores sublinhados nos seguintes versos.

“Se eu pudesse desamar / a quem sempre desamou”; “E per esto nom dormio eu, / porque não poss’eu coita dar, / a quem me sempre coita deu.”; “Que soidade de mha senhor ei / quando me nembra d ‘ela qual a vi,”

Ed. Literária/Gramática 14.1; 14.2; 14.3; 14.4; 14.9; 16.1; 18,4 1. Cantiga A a. Desejo de vingança por parte do sujeito lírico em relação à sua “senhor” pelo facto de ela lhe causar um enorme sofrimento amoroso (coita de amor). b. A amada mostra-se fria e indiferente em relação ao sujeito lírico. c. O sujeito lírico revela angústia, dor, desilusão e, ao mesmo tempo, um sentimento de revolta pela forma como a sua “senhor” interage com ele. d. O sujeito poético manifesta vontade de se vingar do sofrimento que lhe foi infligido pela amada, retribuindo-lhe a mesma dor que ele sente. e. Personificação: “meu coraçom que m’enganou”; repetição com variação na palavra de rima: “desamar/ desamou”. Cantiga B a. Anseio do sujeito lírico em ver a amada (saudade), sem a qual não consegue viver. b. A amada é caracterizada como sendo eloquente e poderosa; a melhor de todas as existentes. c. O sujeito lírico revela estar completamente apaixonado, dependente da amada e desesperado, por causa das saudades que sente dela. d. Apesar de ter consciência da não correspondência amorosa por parte da sua “senhor”, o sujeito poético manifesta vontade de a ver, já que, sem ela, acredita que irá enlouquecer ou morrer por amor. e. Repetição (vv. 2-3); hipérbole e comparação (vv. 14-15); anáfora: “Cedo; ca” nas estrofes 2 e 3. Gramática 18.4; 19.6; 19.7 1.1 Prefixo “des”. valor de negação. 2. a. palavra derivada por prefixação; forma de base “amparado” (há mais hipóteses, dependentes da forma de base); b. palavra derivada por parassíntese; forma de base “louco”; c. palavra derivada por sufixação; forma de base “pesar”; d. palavra composta (palavra + palavra); formas de base “pinga” e “amor”; e. palavra derivada por prefixação; forma de base “vulgar”.

31

Po es i a Trova d o resca

PROFESSOR

4. Transforme as frases simples que se seguem em complexas, utilizando o conector

indicado entre parênteses e fazendo as alterações necessárias. 3. Se: valor condicional; porque: valor causal; quando: valor temporal. 4. a. Se o trovador pedir ajuda a Deus, Este mostrar-lhe-á sua amada. b. Quando o trovador se lembra da beleza da sua amada, sente saudades dela. c. O trovador revela a sua coita amorosa porque a sua “senhor” não corresponde aos seus sentimentos. d. Embora a “senhor” das cantigas de amor seja uma mulher inacessível, o trovador exprime o seu amor por ela. 5. a. Caso o sujeito poético não veja a sua amada – subordinada adverbial condicional. b. Como o trovador se considerava um vassalo da sua “senhor” – subordinada adverbial causal. c. Apesar de as cantigas de amor galaico-portuguesas se aproximarem das provençais – subordinada adverbial concessiva. 6. a. Complemento direto; b. Complemento direto; c. Sujeiro; d. Sujeito. Oralidade/Educação Literária 1.5; 5.3; 6.1; 15.4; 16.2 1. a. Quando amanheces, logo no ar, / Se agita a luz sem querer"; "o dia vem devagar, / Para te ver"; "joia de luz / entre as mulheres"; b. "E já rendido, ver-te chegar"; "Onde eu queria entrar um dia, / P’ra me perder"; "Ardo em ciúme desse jardim"; "Por minha cruz"; c. “jardins proibidos”; "Desse outro mundo só teu". 1.1. Os alunos devem referir: semelhanças temáticas entre a canção “Jardins Proibidos” e as cantigas de amor da lírica trovadoresca, se atendermos às expressões acima transcritas, que remetem para o elogio superlativado da mulher amada, para a sua inacessibilidade e para a coita amorosa, isto é, o sofrimento amoroso do sujeito poético. No fundo, a cantiga de amor da época medieval, ao nível do conteúdo, continua atual.

Link “Jardins proibidos”

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a. O trovador pede ajuda a Deus. Deus mostrar-lhe-á a sua amada. (se) b. O trovador lembra-se da beleza da sua amada. O trovador sente muitas saudades

da sua amada. (quando) c. O trovador revela a sua coita amorosa. A sua “senhor” não corresponde aos seus

sentimentos. (porque) d. A “senhor” das cantigas de amor é uma mulher inacessível. O trovador exprime o seu

amor por ela. (embora) 5. Classifique as orações subordinadas nas frases seguintes. a. Caso o sujeito poético não veja a sua amada, enlouquecerá. b. Como o trovador se considerava um vassalo da sua “senhor”, era visível nas cantigas

de amor a superioridade da mulher. c. Apesar de as cantigas de amor galaico-portuguesas se aproximarem das proven-

çais, há entre elas aspetos distintos. 6. Identifique as funções sintáticas desempenhadas pelos constituintes sublinhados: a. “a quem me sempre desamou” (v. 2) b. “e pudesse algum mal buscar” (v. 3) c. “meu coraçom que m’enganou” (v. 9) d. “E logo dormiria eu” (v. 19) BLOCO INFORMATIVO – pp. 280-281,

264, 277, 271-273

ORALIDADE / EDUCAÇÃO LITERÁRIA 1. Ouça atentamente a canção interpretada por

Paulo Gonzo e Olavo Bilac, dois “trovadores” do nosso tempo, e selecione: a. duas expressões que revelem o elogio super-

lativado da mulher amada; b. duas expressões que evidenciem o estado

de espírito do sujeito poético; c. uma expressão que sugira a inacessibilidade

“Jardins Proibidos”

da mulher amada. 1.1 Com base na informação presente nas alíneas anteriores e no estudo feito sobre

a cantiga de amor, faça uma apresentação oral (5 a 7 minutos) sobre os seguintes aspetos:

• a relevância da cantiga de amor medieval no mundo contemporâneo; • as semelhanças existentes entre o tema musical apresentado e este tipo de cantiga.

Cantigas de amor

LEITURA Leia o seguinte texto referente a um concerto de um outro cantor português, Pedro Abrunhosa, e responda às seguintes questões.

O poder, talvez Por Valdemar Cruz

5

10

15

20

25

[…] Fui ao Coliseu na noite do passado sábado. Sala a abarrotar de gente, tal como na véspera e na quinta-feira e tal como se prevê que aconteça no próximo sábado no MEO Arena em Lisboa. Durante quase três horas e meia, Abrunhosa, por vezes na companhia de mais dezassete pessoas, entre músicos e cantores, fez uma arrasadora demonstração de como o profissionalismo sem concessões, associado a uma poderosa e rara qualidade artística e estética, pode transformar um palco no mais sedutor e improvável dos locais de culto, onde o olhar se derrama e o espanto se materializa. Quem se deteve apenas no espaço cénico terá perdido parte relevante do que de essencial se passava na sala durante aquela celebração acompanhada por muita gente a viver dias sofridos, gente marcada pelos perigosos desafios do quotidiano, gente condicionada por ferretes inomináveis. Ainda assim houve festa. Percebeu-se o brilho em tantos olhares. Foi contagiante a adrenalina descarregada. Houve gritos imensos feitos metáforas de instantâneas libertações interiores. Pedro conhece os anseios e angústias do público. Antes de mais por serem cidadãos do seu próprio país em sofrimento. Como já há muito demonstrou não lhe interessar o estéril debate pela forma, ou da estética pela estética, o músico não se exime de, nos seus concertos, num espaço que é, antes de mais, de celebração musical, mostrar como não há

30

35

40

mundos estanques e não é possível viver numa redoma, alheio aos dilemas e dramas contemporâneos. Num desses breves instantes resolveu pegar de frente no modo como pode ser construído o futuro a partir de tão duro presente. Por isso optou por falar do silêncio. O silêncio enquanto forma de desistência. O silêncio enquanto processo de desencanto. O silêncio como metáfora do medo. […] Abrunhosa quis esconjurar o silêncio reinante na sociedade. As vozes caladas têm de fazer-se ouvir, até porque o silêncio gera o caos, disse. A frase tem impacto, é provocatória, mas nem será o mais importante no contexto de uma canção na qual se fala de bombas em Belfast e Beirute, de mortos na Palestina e feridos em Israel, ou fascistas em Berlim e Moscovo. Para quem ouvir para lá da superfície, não será difícil perceber que o que está em causa […] é, […] talvez, poder. E quem o exerce. E o modo como o exerce. […] http://leitor.expresso.pt/library/expressodiario/05-02-2015 (consultado em fevereiro de 2015).

1. Tratando-se de uma apreciação crítica, o seu autor parte da apresentação do ob-

PROFESSOR

jeto apreciado (um concerto), fazendo, depois, um comentário crítico do mesmo. Ordene as seguintes afirmações, de acordo com a ordem sequencial do texto. [A] O autor considera o espetáculo de Pedro Abrunhosa no Coliseu uma demons-

tração de profissionalismo e um momento de qualidade fora de comum.

Leitura 7.1; 7.4; 8.1 1. [D]; [A]; [C]; [E]; [B]

[B] O autor evidencia a forma como o artista amaldiçoa o silêncio, valorizando a

palavra e a mensagem oculta que deve ser entendida na letra de uma canção. [C] O autor descreve a reação emotiva do público e o envolvimento dos espetácu-

los do cantor na realidade social. [D] O autor apresenta o objeto que vai ser alvo da sua apreciação crítica. [E] O autor destaca o momento em que o cantor se refere ao silêncio como uma

forma de evidenciar a desilusão e o medo. 33

Po es i a Trova d o resca

INFORMAR Leia os tópicos abaixo, a tabela e os textos e resolva a atividade proposta. TEXTO A

Cantigas de amigo • A cantiga de amigo é tematicamente semelhante à cantiga de amor – em ambas o argumento essencial é, de facto, o amor não correspondido, causa de sofrimento, de desconforto e, consequentemente, de lamento. • A cantiga de amigo distingue-se da cantiga de amor a vários níveis, como se pode verificar no quadro abaixo. Aspetos distintivos

Cantiga de amigo

Cantiga de amor

Sujeito de enunciação

Feminino: quando o poeta trovador finge que é a mulher a expor as suas próprias penas (de acordo com a Arte de Trovar).

Masculino: quando o poeta fala de si mesmo (de acordo com a Arte de Trovar).

Condição social da mulher e respetiva caracterização

É uma jovem do povo, a donzela, “uma dona virgo” (virgem), aparentemente simples e ingénua, sinceramente apaixonada, vulnerável (frágil) a qualquer desilusão, mas sempre pronta a defender e a lutar pelo seu amor.

É nobre, a requintada “senhor”, aristocraticamente esquiva, distante, indiferente ao sofrimento do sujeito poético.

Ambiente em que se move o sujeito poético

Ambiente natural marítimo ou rural: o mar, as árvores, a fonte, o cervo (veado), o papagaio.

Ambiente cortês

Destinatário da confissão do sofrimento amoroso (confidentes)

A própria natureza é testemunha do sofrimento amoroso, interagindo, por vezes, com a própria donzela.

A dona é o destinatário preferencial do cantar sofrido do sujeito poético.

O amigo é muitas vezes o recetor da donzela, podendo dialogar com ela. A mãe e as amigas confidentes são também interlocutores da jovem.

TEXTO B

Paralelismo • É um princípio estruturante dos textos poéticos, típico da poesia ao gosto popular, em que se repetem segmentos textuais ou elementos temáticos. • A grande maioria das cantigas de amigo (também muitas cantigas de amor, de escárnio e de maldizer) apresenta estruturas paralelísticas, ocorrendo repetição literal (repetem os mesmos versos) ou sinonímica (apresentam expressões ou termos de significado equivalente) de um ou mais versos de cada estrofe. Elaborado com base em Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani (org. e coord.), Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa, trad. José Colaço Barreiros e Artur Guerra, Lisboa, Editorial Caminho, 1993, pp. 135, 509 e 570-571.

34

Cantigas de amigo

TEXTO C

Refrão

5

10

15

20

As marcas gráficas que distinguem o início do refrão nos manuscritos da lírica galego-portuguesa parecem revelar a importância que era atribuída ao refrão como elemento estruturante, quando a lírica galego-portuguesa foi arquivada por escrito. Sendo uma parte da cantiga que se repete, o refrão aparece, nos testemunhos referidos, abreviado a partir da segunda estrofe. […] Do ponto de vista da versificação, o refrão é vulgarmente definido como um conjunto de versos com autonomia rimática que se repete integralmente no fim de cada estrofe, com um número de versos inferior ao do corpo da estrofe e cuja medida silábica é igual à dos restantes versos da cobla. […] Relativamente aos géneros, o refrão é mais frequente entre as cantigas de amigo (443-87,8%) do que entre as cantigas de amor (380-52,4%) ou entre as satíricas (134-31%).

"Em gram coita, senhor", Dom Dinis, B 506/V 89, Manuscrito do Cancioneiro da Biblioteca Nacional.

Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani (org. e coord.), Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa, trad. José Colaço Barreiros e Artur Guerra, Lisboa, Editorial Caminho, 1993, pp. 135, 509 e 570-571.

Atente no texto A 1. Assinale as seguintes afirmações como verdadeiras ou falsas, corrigindo as falsas.

a. A cantiga de amigo e a cantiga de amor partilham o mesmo sujeito de enunciação. b. Tanto a cantiga de amigo como a de amor desenvolvem o tema do sofrimento amoroso. c. A donzela presente nas cantigas de amigo pertence a uma classe social elevada. d. O sujeito poético presente na cantiga de amigo pode ser caracterizado pela sua ingenuidade e pela paixão que sente pelo amigo. e. Nas cantigas de amigo, a paisagem natural, para além de cenário onde a donzela se move, é também sua confidente. f. As cantigas de amigo não apresentam paralelismo literal. g. O refrão é uma estrutura paralelística frequente nas cantigas de amigo. h. O refrão é um conjunto de versos que se repete parcialmente a meio de cada estrofe.

PROFESSOR Leitura / Educação Literária 7.1; 7.4; 8.1; 14.8; 16.1 1. a. F – Na cantiga de amigo, o sujeito é do sexo feminino; na de amor é do sexo masculino. b. V c. F – É uma jovem do povo. d. V e. V f. F – A maior parte das cantigas de amigo apresenta paralelismo literal. g. V h. F – O refrão repete-se integralmente no fim de cada estrofe.

35

Po es i a Trova d o resca Variedade do sentimento amoroso – Relação com a Natureza

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Leia expressivamente, após preparação prévia, a cantiga que se segue.

Ai flores, ai flores do verde pino − Ai flores, ai flores do verde pino1, se sabedes2 novas3 do meu amigo! Ai Deus, e u é4?

5

PROFESSOR Educação Literária 14.1; 14.2; 14.3; 14.4; 14.6; 14.7; 14.8; 14.9; 15.1; 16.1 1. O sujeito da enunciação dirige-se angustiadamente às “flores de verde pino” para saber novas do seu amigo que tarda em chegar. Estas respondem-lhe que ele está bem e que em breve estará junto dela. 2. A primeira parte é constituída pelas quatro primeiras estrofes, nas quais a donzela interroga “as flores do verde pino”, no sentido de saber se elas têm notícias do seu amigo; a segunda parte corresponde às restantes estrofes, onde consta a resposta dada pela Natureza, que a sossega, pois o seu amigo está vivo e em breve estará junto dela. 3. Além da desilusão, é evidente a angústia e o desespero da donzela perante a possibilidade de o amigo faltar ao encontro combinado. 4. A Natureza funciona como interlocutora confidente do sujeito lírico. 5. A nível estrutural surge, por exemplo, a repetição de “ Ai flores, ai flores do verde pino”/ “Ai flores, ai flores do verde ramo” (em que se substitui “pino” por “ramo”); Também temos repetição dos versos 2 e 5, com a substituição de “amigo” por “amado”. Há ainda a repetição integral do 2º verso da primeira estrofe que é o 1º verso da terceira. O refrão também é um exemplo de paralelismo.

36

10

15

[− Vós me preguntades polo voss’amigo, e eu bem vos digo que é san’6 vivo: Ai Deus, e u é?]

Ai flores, ai flores do verde ramo, se sabedes novas do meu amado! Ai Deus, e u é?

Vós me preguntades polo voss’amado, e eu bem vos digo que é viv’e sano. Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo, aquel que mentiu do que pôs5 comigo! Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é san’e vivo e seera vosc’ant’o prazo saído7. Ai Deus, e u é?

20

E eu bem vos digo que é viv’e sano e seera vosc’ant’o prazo passado. Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado, aquel que mentiu do que mi á jurado! Ai Deus, e u é?

Dom Dinis, B 568/V 171. 1

pinheiro; 2 sabeis (subentende-se dizei-me antes de sabedes); 3 notícias; 4 e u é: e onde está?; 5 combinou; 6 são, saudável; 7 terminado.

1. Exponha o assunto da cantiga, identificando as vozes nela presentes. 2. Proceda à divisão da cantiga em duas partes, justificando. 3. Descreva o estado de espírito do sujeito poético. 4. Refira o papel desempenhado pela Natureza. 5. Retire da cantiga um exemplo de paralelismo.

Cantigas de amigo Confidência amorosa

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Leia a cantiga de amigo apresentada.

Nom chegou, madr’, o meu amigo Nom chegou, madr’1, o meu amigo, e oj’est o prazo saido2. Ai madre, moiro3 d’amor!

5

Nom chegou, madr’, o meu amado, e oj’est o prazo passado. Ai madre, moiro d’ amor! E oj’est o prazo saido, por que mentio o desmentido4. Ai madre, moiro d’amor!

10

E oj’est o prazo passado, por que mentio o perjurado5. Ai madre, moiro d’amor! 1

15

Por que mentio o desmentido, pesa-mi6, pois per si é falido7. Ai madre, moiro d’amor! Por que mentio o perjurado, pesa-mi, pois mentio a seu grado8. Ai madre, moiro d’amor! Dom Dinis, B 566/V 169.

mãe e oj'est o prazo saido: e hoje termina o prazo 3 morro 4 falso, mentiroso 5 falso 6 causa-me pena, desgosto 7 pois per si é falido: pois faltou por sua livre vontade 8 a seu grado: por sua vontade, por gosto 2

PROFESSOR

Áudio “Nom chegou, madr’, o meu amigo”

1. Assinale os versos da cantiga que contêm as informações presentes nas afirma-

ções seguintes. a. Presença de um vocativo que remete para o interlocutor e confidente do sujeito

poético. b. Expressão repetida de um sentimento amoroso intenso vivido pelo sujeito lírico. c. Constatação, por parte do sujeito da enunciação, do incumprimento da promessa

do amigo. d. Apresentação do amigo como falso e mentiroso. e. Desilusão da donzela face à possibilidade de o seu sentimento não ser correspon-

dido. 2. Exponha o assunto da cantiga. 3. Transcreva o refrão desta composição poética.

Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.7; 14.9; 15.1; 16.1 1. a. Versos 1, 4 ou refrão b. Refrão (v.3) c. vv. 1 e 2 d. vv. 8 e 11 e. v. 14 2. O sujeito poético confidencia à sua mãe o amor que sente pelo seu amigo e a sua desilusão pelo facto de aquele ter faltado ao encontro combinado, sentindo a donzela que ele o fez de forma deliberada, o que poderá revelar que não é correspondida. 3. “Ai madre, moiro d’amor!” 4. O recetor é a mãe.

4. Identifique o recetor do sujeito poético.

37

Po es i a Trova d o resca Variedade do sentimento amoroso

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Leia a cantiga de amigo abaixo apresentada da autoria de Airas Nunes.

Bailemos nós já todas tres, ai amigas

5

10

PROFESSOR 15

Áudio “Bailemos nós já todas tres, ai amigas”

Bailemos nós já todas tres, ai amigas, so1 aquestas2 avelaneiras frolidas3, e quem for velida4 como nós, velidas, se amigo amar, so aquestas avelaneiras frolidas verra5 bailar. Bailemos nós já todas tres, ai irmanas, so aqueste ramo destas avelanas6, e quem for louçana7 como nós, louçanas, se amigo amar, so aqueste8 ramo destas avelanas verra bailar. Por Deus, ai amigas, mentr’al nom fazemos9, so aqueste ramo frolido bailemos, e quem bem parecer como nós parecemos, se amigo amar, so aqueste ramo so’l10 que nós bailemos verra bailar. Airas Nunes, clérigo, B 879/V 462.

Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.7; 14.9; 15.1; 16.1 1. A cantiga remete para um cenário primaveril, de festa e dança, que é visível nas “avelaneiras frolidas” (v. 2), e em expressões como “Bailemos” (v. 1) e “verra bailar” (v. 6). 2. O sujeito poético, a donzela, dirige-se às amigas. 3. A donzela está extremamente feliz, porque está apaixonada (“Bailemos nós já todas três, ai amigas (…) se amigo amar”, vv. 1-4), daí o convite à celebração do amor, através da dança (“se amigo amar, / so aquestas avelaneiras frolidas / verra bailar.”, vv. 4-6). 4. a. Bailemos (v. 1) b. “se amigo amar” (v. 4) c. “quem for velida como nós” (v. 3) d. “quem bem parecer como nós parecemos” (v. 15)

38

1 9

sob, debaixo de; 2 estas; 3 floridas; 4 bela, formosa; 5 virá; 6 avelãs; 7 louçã, bela; 8 este mentre (= enquanto) nom fazemos al (= não fazemos outra coisa); 10 so’l que: sob o qual.

1. A cantiga remete para um ambiente festivo, de dança, na primavera. Justifi-

que esta afirmação, recorrendo a elementos textuais. 2. Identifique o destinatário do sujeito lírico. 3. Apresente dois traços caracterizadores do sujeito poético, fundamentando a

sua resposta com expressões textuais pertinentes. 4. Preencha os espaços com os termos ou expressões adequadas ao sentido do

texto. O convite à dança está expresso na forma verbal a. “

” , conjuntivo

usado com valor exortativo (incitador). Mas essa participação no baile implica uma condição – estar apaixonada – como se comprova no verso b. “

” . As

donzelas são apresentadas como sendo belas e atraentes, como se pode verificar nas expressões c. “

” e d. “

”.

Cantigas de amigo Confidência amorosa – relação com a Natureza

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Leia a cantiga de amigo da autoria de Martim Codax.

Ondas do mar de Vigo Ondas do mar1 de Vigo, se vistes meu amigo? E ai Deus, se verra2 cedo!

5

MARTIM CODAX

Séc. XIII Trata-se provavelmente de um jogral galego, ativo em meados ou no terceiro quartel do século XIII. Embora seja um dos dois únicos autores presentes nos cancioneiros medievais cujas composições se conservaram igualmente num manuscrito individual, o designado Pergaminho Vindel, onde vêm acompanhadas da respetiva notação musical (o outro dos autores sendo D. Dinis), nada se sabe de concreto sobre a sua biografia. O seu apelido parece excluir a hipótese de um estatuto social elevado. Seria pois um jogral ou segrel, muito possivelmente ligado a Vigo, localidade repetidamente cantada nas suas composições.

Ondas do mar levado3, se vistes meu amado? E ai Deus, se verra cedo! Se vistes meu amigo, o4 por que5 eu sospiro? E ai Deus, se verra cedo!

10

Se vistes meu amado, por que ei6 gram coidado7? E ai Deus, se verra cedo!

1

ria, baía;2 virá, voltará; mar levado: mar bravo, mar encapelado; 4 aquele; 5 quem; 6 tenho; 7 preocupação. 3

Martim Codax, B 1278/V 884/PV 1.

1. Complete o texto, de modo a obter uma breve análise da cantiga “Ondas do mar de

Vigo”, selecionando, entre as palavras propostas, as que são adequadas. • mãe • Deus

• refrão

• donzela

• exclamativas

• angústia

• paralelística

• interrogativas

• amigo

Esta cantiga de amigo é, quanto à sua estrutura, a.

• Natureza

, pois, para além da

existência de refrão, o segundo verso da primeira cobla é igual ao primeiro da terceira. O sujeito lírico, a b. extrema d. As frases f. presentes no g.

, faz da c. perante a ausência do e.

PROFESSOR

sua confidente e confessa-lhe a sua .

acentuam o desespero da jovem, assim como as exclamativas . É nesse momento que ela também evoca h.

,

Áudio “Ondas do mar de Vigo” Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.8

pois está desesperada.

1. a. paralelística b. donzela c. Natureza d. angústia e. amigo f. interrogativas g. refrão h. Deus Pergaminho de Vindel, n.o 1.

39

Po es i a Trova d o resca Confidência amorosa – relação com a Natureza

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Leia as cantigas de amigo abaixo apresentadas e responda ao questionário da página seguinte. CANTIGA A

Poys nossas madres van a San Simon

5

Poys nossas madres1 van a San Simon de Val de Prados candeas queymar2, nos, as meninhas3, punhemus4 d’andar con nossas madres, e elas enton queymen candeas por nós e por ssy e nos meninhas, baylaremos hy5.

CANTIGA B

Sedia-m’eu na ermida de San Simión Sedia-m’eu1 na ermida de San Simión e cercaron-mi-as ondas que grandes son. Eu atendend’2o meu amigu'! E verrá?

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10

15

Nossus amigus todus lá hiran por nos veer, e andaremos nos bayland’ant’eles, fremosas, en cos7, e nossas madres, poys que alá8 van, queymen candeas por nos e por ssy, e nos meninhas [baylaremos hy]. Nossus amigus hiran por cousir9 como baylamus, e poderan veer baylar moças de .... bon parecer; e nossas madres, poys lá queren hir, queymen candeas por nós e por ssy e nos meninhas [baylaremos hy]. Pero Viviaez, B 735/V 336.

1 4

5

Estando na ermida, ant’3o altar, cercaron-mi-as ondas grandes do mar. Eu atenden[d’o meu amigu'! E verrá?] E cercaron-mi-as ondas que grandes son: non ei4 [i]5 barqueiro nen remador. Eu [atendend’o meu amigu'! E verrá?]

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15

mães; 2 acender velas em cumprimento de promessa feita; 3 meninas; tratemos; 5 aí; 6 irão; 7 sem manto, em corpo bem feito; 8 lá; 9 ver.

E cercaron-mi-as ondas do alto mar: non ei [i] barqueiro nen sei remar. Eu aten[dend’o meu amigu'! E verrá?] Non ei i barqueiro nen remador: morrerei [eu], fremosa, no mar maior.6 Eu aten[dend’o meu amigu'! E verrá?] Non ei [i] barqueiro nen sei remar: morrerei eu, fremosa, no alto mar. Eu [atendend’o meu amigu'! E verrá?] Mendinho, B 852/V 438.

1

PROFESSOR

Áudio “Poys nossas madres van a San Simon”

Áudio “Sedia-m’eu na ermida de San Simión”

40

Sedia-m’eu: Estava eu; 2 esperando; 3 diante; 4 tenho; 5 aqui; 6 alto.

Cantigas de amigo Confidência amorosa – relação com a Natureza 1. Proceda à análise das duas cantigas e preencha o quadro seguinte. "Poys nossas madres van a San Simon"

"Sedia-m’eu na ermida de San Simión"

Assunto

a.

a.

Estado de espírito do sujeito lírico

b.

b.

Relação com o amigo

c.

c.

GRAMÁTICA Atente na cantiga A. 1. Identifique a função sintática desempenhada por “de bon parecer” em “moças de

bon parecer”(v. 15). Atente na cantiga B. 2. Identifique a função sintática desempenhada pelos constituintes sublinhados. a. “e cercaron-mi-as ondas que grandes son.” (v. 2) b. “Eu atendend'o meu amigu'”. (v. 3) c. “morrerei [eu], fremosa, no mar maior.” (v. 14) 3. Refira duas palavras do português moderno que integram o mesmo elemento eti-

mológico que “Sedia” (v. 1). BLOCO INFORMATIVO – pp. 271-273, 280-281

ORALIDADE / EDUCAÇÃO LITERÁRIA Elabore, oralmente, em dois minutos, uma breve apresentação oral (5 a 7 minutos) sobre os aspetos comuns entre a cantiga A e a imagem, no que se refere ao caráter profano e religioso das romarias na Idade Média e na atualidade.

BLOCO INFORMATIVO – p. 283

PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 15.1; 16.1; 16.2 1. “Poys nossas madres van a San Simon” a. A donzela incentiva as amigas a acompanharem as mães a San Simon de Val de Prados, como pretexto para verem os amigos e poderem dançar, mostrando--se perante eles. b. A donzela está entusiasmada porque aquele será um meio para estar com o seu amado. c. O entusiasmo demonstrado pela donzela evidencia uma possível correspondência amorosa ou, pelo menos, uma relação que ela sente como possível, na medida em que acredita que a dança possa funcionar como um instrumento de sedução. “Sedia-m’eu na ermida de San Simión” a. A donzela espera ansiosamente pelo amado na igreja de San Simión, até que as ondas a cercam e a deixam num estado de desespero por temer morrer afogada, já que não tem ninguém que a socorra, o que evidencia também o seu receio de que o amigo não chegue a comparecer ao encontro marcado. b. Inicialmente, a donzela manifesta estar apaixonada e ansiosa por ver o amigo; depois expressa aflição e desespero quando se apercebe dos perigos que enfrenta e, simultaneamente, desilusão pelo atraso do amado, o que pode ser indicativo da sua não comparência. c. Apesar de a donzela se mostrar apaixonada, é evidente alguma insegurança em relação ao seu amado, já que o seu tardar a faz duvidar do seu amor, ao mesmo tempo em que a coloca numa situação de perigo. Gramática 17.4; 18.1 1. Modificador do nome restritivo. 2. a. Sujeito. b. Complemento direto. c. Modificador do grupo verbal. 3. Sede, sediado, sedentário. Oralidade/Educação Literária 1.4; 5.3; 6.2; 15.4

41

Po es i a Trova d o resca

LEITURA O amor é o tema central das cantigas estudadas até ao momento. Leia, a propósito desse sentimento, o seguinte artigo de divulgação científica.

Amor: cria dependência como uma droga, mas sabe bem como o chocolate Por Nicolau Ferreira

5

10

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20

25

30

35

A maravilhosa máquina cerebral destrói a mitologia do amor? Ainda não, talvez nunca. Mas já se sabe muito: as regiões ativadas quando vemos a pessoa de quem gostamos ou os químicos libertados. E é tudo verdade: o estômago apertado, o coração acelerado, o vício, a intensidade do primeiro ano de relação. O amor é a droga. […] A base neurológica do amor romântico é o título insosso de um artigo científico publicado em 2000, que se propunha pela primeira vez olhar para o cérebro de 17 pessoas e ver quais as áreas que ficavam luminosas perante fotografias dos seus amados. […] Os observados eram analisados enquanto viam fotografias dos seus mais-que-tudo que iam passando entre fotografias de amigos do mesmo sexo que o/a companheiro/a. No cérebro, a afluência especial de oxigénio a determinadas regiões era registada pela máquina e denunciava pela primeira vez as redes complexas associadas ao amor e que permitem alguém dizer palavras como "verdadeiramente", "profundamente" ou "loucamente" num contexto piroso, mas completamente justificável com um "deixa lá, ele/ela está apaixonado/a". Sabe-se hoje que existem 12 regiões do cérebro que são recrutadas quando pensamos na pessoa que amamos. Stephanie Ortigue, uma investigadora da Universidade de Siracusa, nos Estados Unidos, analisou com colegas a escassa bibliografia sobre a deteção destas regiões e verificou que existem diferenças quando se sente o amor de paixão, e quando se sente o amor incondicional (o sentimento que se tem relativo a pessoas doentes, por exemplo) e o amor maternal. […] As imagens por ressonância magnética mostram que o amor é complexo. "Apesar de muitas teorias da emoção terem incluído o amor como uma emoção básica, é mais do que isso", disse Ortigue, citada pelo jornal britânico The Independent. "O amor inclui emoções básicas e emoções complexas, motivações direcionadas para objetivos, imagens do corpo, cognição e apreciação."

42

As setas de Cupido, c. 1882, Perrault Leon Jean Basile (1832-1908).

Não à dor, sim ao vício

40

45

Uma equipa de investigadores da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, percebeu que os circuitos ativados no cérebro quando estamos apaixonados têm semelhanças com os ativados quando sentimos dor e tentou perceber se existe uma ligação entre eles. A equipa dos Estados Unidos pegou em voluntários que estavam a namorar há menos de um ano e procurou perceber o que é que a observação de fotografias dos parceiros fazia quando sentiam uma dor causada por uma madeira aquecida que os cientistas lhes colocavam na mão.

Cantigas de amigo

50

55

O que os investigadores descobriram é que a perceção da dor era reduzida quando observavam a fotografia dos namorados em relação a fotografias de conhecidos. "Um dos locais-chave [medidos através de ressonância magnética] é o nucleus accumbens, um centro para a recompensa de vícios associados aos opiáceos, cocaína e outras drogas", explicou Jarred Younger, primeiro autor do artigo publicado sobre esta descoberta na revista Public Library of Science One, que saiu em 2010.

60

65

reportagem da Esquire, Fisher responde a esta pergunta com uma imagem: "Eu posso conhecer cada ingrediente de um pedaço de bolo de chocolate, mas quando me sento para comê-lo, continuo a sentir alegria." Há outra coisa que compreender a base neurológica do amor romântico não nos retira − o mistério. Não sabemos por quem nos vamos apaixonar, nem porquê, nem quando.

Como um bolo de chocolate

Público, edição online de 14 de fevereiro de 2011 (adaptado, consultado em dezembro de 2017).

[…] Dito isto, a questão que podemos colocar é, se ao compreendermos o que é o amor e a forma como amamos, deixamos de viver a experiência de forma romântica. Numa

1. Selecione a opção que completa corretamente as afirmações. 1.1

Neste texto, o seu autor [A] apresenta a sua opinião em relação ao poder do amor sobre as pessoas. [B] divulga os resultados de uma investigação neurológica do amor. [C] expõe os resultados de uma investigação sobre doenças neurológicas.

1.2 A investigadora Stephanie Ortigue chegou à conclusão de que o nosso cérebro [A] reage da mesma forma a todos os tipos de amor. [B] deteta doze tipos diferentes de reações amorosas. [C] reage de forma diferente ao amor paixão e ao amor maternal. 1.3 Uma equipa de investigadores americanos concluiu que [A] o amor provoca uma dor semelhante à produzida por uma queimadura. [B] os circuitos ativados no cérebro pela dor e pelo amor são idênticos. [C] os voluntários observados não sentiram dor ao ver as fotos dos seus par-

ceiros. 1.4 Na última parte do texto afirma-se que [A] o amor continua a surpreender, apesar das investigações científicas de-

senvolvidas. [B] amar é como apreciar um bolo de chocolate, pois os ingredientes são

idênticos. [C] compreender a base neurológica do amor acaba com a infelicidade amorosa. 2. Selecione, das marcas a seguir apresentadas, aquelas que estão presentes no texto.

A. Hierarquiazação das ideias.

D. Dimensão narrativa.

B. Predomínio da primeira

PROFESSOR Oralidade (p. 41) Sugestão de tópicos de resposta: As romarias da atualidade não são assim tão diferentes das da Idade Média. Na cantiga, as jovens iam dançar, ver os amigos (caráter profano), as mães iam pagar promessas, queimar velas e orar (caráter religioso). A organização das festas do concelho de Gondomar apresenta a romaria à N.a S.a do Rosário (caráter religioso) e a Feira das Nozes (caráter profano), onde todos podem fazer compras e conviver. A acompanhar as atividades religiosas estão sempre as de caráter mais lúdico. Leitura 7.2; 7.3; 7.6; 8.1 1.1 [B] 1.2 [C] 1.3 [B] 1.4 [A] 2. A, E e F

C. Comentário crítico.

pessoa.

E. Explicitação de fontes.

F. Caráter expositivo.

43

Po es i a Trova d o resca

Evolução do português APRENDER

E

S

DAR TU

R

ICA G RA M Á T A PR ATIC

LEITURA

A ROMANIZAÇÃO AUTO DE MORALIDADE composto per Gil Vicente por contemplação da sereníssima e muito católica rainha dona Lianor, nossa senhora, e representado per O latim era a língua dos habitantes do Lácio, onde se localizava Roma. No entanto, seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei dom Manuel, primeiro de Porenquanto língua viva, não era usado da mesma forma por todos os romanos. Assim, era tugal deste nome. possível identificar variedades: a. o latim vulgar – um latim falado e diversificado, integrando características mais poComença a declaração e argumento da obra. Primeiramente, no presente auto, pulares; se fegura que, no ponto que acabamos de espirar, chegamos sùpitamente a um latim clássico – utilizadode porpassar escritores Virgílio e ensinado rio,b.o oqual per força havemos em latinos um decomo dousCícero batéisou que naquele porto escolas.um deles passa pera o paraíso e o outro pera o Inferno: os quais estão,nas scilicet1, No século III a.um C., os romanos iniciaram ocupação Península e a romanibatéis tem cada seu arraiz na proa: oa do Paraísodaum Anjo, eIbérica o do Inferno um zação dos povose que encontraram, acabando por impor o latim vulgar como língua de arraiz infernal um aíCompanheiro. comunicação a ser usada pelos povos vencidos. No entanto, o latim clássico continuava a primeiro entrelocutor um Fidalgo que chega da com um Paje, lhe levaonde um ser O utilizado como a língua daé igreja, da administração, ciência e nosque mosteiros, rabo mui comprido e ũa cadeira de espaldas. E começa o Arraiz do Inferno ante que continuou a ser ensinado. o Fidalgo venha. DO LATIM AO GALEGO-PORTUGUÊS Substratos da Península Ibérica São os idiomas falados pelos povos que habitaram a península antes da invasão romana (Celtas, Iberos, Fenícios, Gregos) e que foram absorvidos pelo latim, deixando neste vestígios, ou seja, certos termos linguísticos. O quadro abaixo apresenta dois dos substratos mais importantes da língua portuguesa: Substratos

Termos linguísticos

Áreas

Celta

camisa, cerveja, carro, caminho, vassalo, lousa, bétula

Grego

evangelho, pedagogia, homogéneo, Cristo*

diversificadas * Alguns destes termos já tinham sido absorvidos pelo latim, antes de os romanos invadirem a Península Ibérica, como é o caso de “evangelho” e “Cristo”.

Superstratos da Península Ibérica

PROFESSOR Considerando que algumas definições de superstrato (cf., por exemplo, Dicionário Terminológico, dt.dgidc. min-edu.pt) referem ou sugerem uma situação de substituição linguística, há autores que falam de adstrato para se referirem ao árabe.

44

O latim vigorou como língua oficial da Península Ibérica até ao século V, altura em que se deram as invasões germânicas, em 409. A estas seguiram-se as invasões árabes, em 711, e ambos os acontecimentos acabaram por ter impacto na situação linguística da Península. Embora os germanos e os árabes não tenham conseguido impor a sua cultura nem a sua língua, legaram novas palavras ao idioma que então se falava. Substratos

Termos linguísticos

Áreas

Germânico

guerra, orgulho, dardo, elmo, luva, escanção

atividade guerreira

alambique, alecrim, açúcar, alfinete, arroz, azeitona, azulejo, xarope

a agricultura, a indústria, as ciências e as artes, o comércio ou a administração

Árabe

Os franceses também tiveram algum impacto na evolução da língua, devido à sua influência nas cortes dos primeiros reis da primeira dinastia e ao impacto da poesia provençal.

O PORTUGUÊS ANTIGO (SÉCULOS XII-XV) É possível, neste período, detetar duas fases na evolução da língua portuguesa: a. A fase mais remota do português corresponde à fase do galego-português (ou galaico-português), idioma progressivamente formado no noroeste peninsular e que a Reconquista do território expandiu para sul; aparece registada na poesia trovadoresca e em documentos oficiais e particulares da época, por exemplo, O Testamento de D. Afonso II, datado com segurança de 1214. b. A partir de meados do século XIV, com o movimento de Reconquista até sul do território português, assistiu-se a uma evolução gradativa da língua, que terminaria com a separação do galego-português em dois idiomas (galego e português). Para essa cisão, foram determinantes vários fatores, a saber: • a separação política entre Portugal e a Galiza; • o contacto com populações ao longo do repovoamento do centro e sul do território implicou transformações linguísticas que não se verificaram no norte; • a mudança da corte portuguesa para Lisboa; • a influência prestigiante da Universidade (ora em Lisboa ora em Coimbra) e dos mosteiros de Alcobaça e de Santa Cruz de Coimbra, que ditavam já, de certa forma, o bem falar e o bem escrever.

O PORTUGUÊS CLÁSSICO (SÉCULOS XVI-XVIII) Durante este período, assistiu-se a uma considerável latinização e inovação da língua portuguesa, particularmente no domínio lexical, por vários motivos: • com o Renascimento dá-se a recuperação do latim clássico e surgem novas palavras por via erudita; • Camões (entre outros autores), com a sua obra, contribui para o processo da enriquecimento da língua; • surgem publicações que pretendem fixar e regulamentar a língua portuguesa: em 1536, nasce a primeira gramática portuguesa, de Fernão de Oliveira; • os Descobrimentos trazem o conhecimento de outros povos, costumes, paisagens e produtos exóticos, o que implica a introdução de vocabulário para designar novas realidades; • Luís António Verney, no século XVIII, luta pelo ensino do português nas escolas, em oposição ao ensino do latim. Por outro lado, a expansão ultramarina permitiu que a língua se alastrasse por vários continentes e que se viesse a tornar a língua nacional e/ou oficial de países como o Brasil, Angola ou Moçambique.

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APRENDER

E

S

Evolução do português

DAR TU

ICA R

G RA M Á T

A PR ATIC

Para mais informações sobre a evolução do português, consultar, por exemplo: • Ivo Castro, Introdução à história do português. (2004), 2.a ed., revista e muito ampliada, Lisboa, Colibri, 2006.

O PORTUGUÊS CONTEMPORÂNEO (A PARTIR DO SÉCULO XIX) A partir do século XIX, o português continuou a evoluir, devido aos seguintes fatores: • a criação de gramáticas e dicionários intensifica-se; • a criação literária de alguns escritores, como Eça de Queirós ou Fernando Pessoa, contribui para o enriquecimento da língua; • os progressos industriais e agrícolas têm um grande impacto, com a criação de termos capazes de referir as novas realidades: neologismos e empréstimos – galicismos (do francês) e anglicismos (do inglês); • os meios de comunicação começam a exercer um papel de relevo na uniformização e divulgação da língua.

APLICAR

• Ivo Castro (dir.), História da língua portuguesa em linha, Centro Virtual Camões, 2002-2004. s. URL: http://cvc.instituto-camoes. pt/hlp/index1.html • Esperança Cardeira, O essencial sobre a história do português, Lisboa, Editorial Caminho, 2006.

1. Selecione a opção correta. 1.1

A romanização é um processo que consiste na [A] imposição do latim clássico nas regiões conquistadas pelos romanos. [B] reconquista do sul da Península Ibérica pelos romanos. [C] assimilação da cultura e da língua latina pelos povos vencidos pelos romanos.

1.2 O latim clássico [A] está na base da formação da língua portuguesa. [B] é a variedade linguística utilizada pela população culta. [C] não é usado por nenhuma classe social da Península Ibérica. 1.3 Os substratos da língua portuguesa são termos [A] linguísticos que os povos invasores do século VIII impuseram aos falantes

da língua latina. [B] linguísticos usados pelos povos nativos antes da chegada dos romanos e

que se infiltraram no latim. [C] gregos que se integraram no galaico-português aquando da reconquista

cristã. 1.4 O celta é um idioma que [A] é substrato da língua portuguesa. [B] é superstrato da língua portuguesa. [C] foi absorvido pelo árabe.

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APLICAR 1.5 As invasões germânicas e árabes contribuíram para a formação do português com [A] termos específicos de certas áreas de atividade. [B] vocabulário muito diversificado, pertencente a certas profissões. PROFESSOR

[C] vocabulário específico relacionado com a atividade guerreira. 1.6 Superstratos são as línguas faladas

Gramática 17.1; 17.2; 17.5

[A] pelas pessoas mais cultas, que as impunham às restantes. [B] pelos povos nativos, e que deixaram vestígios no latim vulgar. [C] pelos povos invasores que deixaram marcas na idioma dominante. 1.7 O português antigo [A] é o latim vulgar trazido pelos romanos. [B] é o português falado a sul de Portugal no século XII. [C] é, numa primeira fase, o galaico-português. 1.8 A universidade e alguns mosteiros [A] contribuíram para evolução do latim clássico.

1. 1.1 [A] 1.2 [B] 1.3 [B] 1.4 [A] 1.5 [A] 1.6 [C] 1.7 [C] 1.8 [B] 1.9 [A] 1.10 [A] 1.11 [C] 1.12 [B]

[B] contribuíram para a separação do português do galego. [C] não tiveram nenhum impacto na evolução do português. 1.9 A partir do século XVI, a descoberta de novas paisagens e o contacto com outras

culturas implicaram [A] o aparecimento de novos termos na língua portuguesa. [B] a introdução de novas línguas que se impuseram ao português. [C] um retrocesso no desenvolvimento da língua portuguesa. 1.10 Com a recuperação do latim clássico nas artes e nas ciências, [A] formaram-se novas palavras na língua portuguesa. [B] a língua portuguesa sofreu um enorme empobrecimento. [C] o povo português começou a falar latim. 1.11 No século XIX, “nasce” o português contemporâneo, como consequência de vários

fatores, entre os quais se destacam [A] a criação literária de Camões. [B] o aparecimento da primeira gramática portuguesa. [C] o desenvolvimento industrial do país. 1.12 Os empréstimos no século XIX são [A] neologismos criados a partir da língua portuguesa. [B] palavras estrangeiras introduzidas no português. [C] neologismos criados a partir do francês.

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Po es i a Trova d o resca

LEITURA Leia a letra de uma cantiga apresentada no programa da RTP 1 Estado de Graça.

Vídeos na Internet

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Estado de Graça, RTP 10

PROFESSOR

Vídeo

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“Estado de Graça, RTP” Leitura 7.1; 7.2; 7.4; 9.2 1.1 [A]; 1.2 [B]. 2. Para além de se censurarem hábitos violentos dos portugueses, é sobretudo criticada a tendência atual para se expor tudo o que se faz nas redes sociais, nomeadamente no Facebook, ainda que os vídeos partilhados possam transmitir uma imagem muito negativa dos seus protagonistas. De tal forma isto acontece que chega mesmo a colocar-se a hipótese de, no futuro, ser mais fácil condenar os criminosos, porque eles próprios acabarão por fazer prova da sua culpabilidade através destas redes sociais.

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35

É coisa linda esta moda afinal De publicar videozinhos de cariz anormal Duas miúdas em modo animal Aos chutos e pontapés, na peixeirada total Gravaram no telemóvel – só visto… Mais tarde é bom recordar A chapadinha, joelhadazinha Depois no Facebook há gente a “likar” Aquela brincadeira, “rasca” e rasteira A pancada agora vai aleijar [Refrão] O português é engraçado Anda à porrada em qualquer lado O português é distraído Facilmente é atingido O português é prémio Nobel A gravar com o telemóvel Pra mais tarde publicar Só pra ver o que é que a coisa vai dar. Anda pr’aí a maior comoção O país revoltou-se contra esta agressão Na Internet e em todas as televisões Aquelas duas pitinhas a puxar dos galões Gravaram no telemóvel – só visto… Mais tarde irão lamentar Serem parvinhas, serem tolinhas A malta do “iutubas” vai comentar. Há gente tão parvinha, tão mal-educadinha. Na prisão é que elas devem ficar. Vai ser mais fácil apanhar malandrões E atirá-los a todos para as nossas prisões Gravando os crimes com um simples telefone Publicar na Internet e “soprar no trombone” Pois estas duas araras – só visto… Quiseram logo mostrar Um crime gravado e escarrapachado Em pleno Facebook, é só comentar Há gente tão ceguinha, tão burra e tapadinha Faz o mal e logo o quer partilhar… Letra e música de Gimba

48

Cantigas de escárnio e maldizer

1.

Selecione a opção que completa corretamente cada afirmação. 1.1

O propósito da cantiga é

PROFESSOR Gramática 17.4

[A] criticar. [B] elogiar.

1.1 A palavra provém do verbo inglês like. 1.2 Trata-se de um empréstimo. 1.3 O termo significa “gostar de”. 2.1 “malandrões” 2.2 Justifica-se pelo facto de a forma verbal surgir no infinitivo, terminando em -r. Quando assim é, o pronome pessoal em adjacência verbal implica a apócope do -r, assumindo o pronome a forma “-los”.

[C] informar. [D] narrar. 1.2 Esse efeito é conseguido sobretudo através da [A] metáfora. [B] ironia. [C] antítese. [D] aliteração. 2. Explicite as críticas apresentadas ao longo da cantiga.

Escrita 10.2; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1

GRAMÁTICA 1. Preste atenção à palavra “likar” (v. 8). 1.1

Identifique a origem do termo.

1.2 Classifique a palavra, tendo em conta a sua origem. 1.3 Explicite o significado do termo. 2. Atente nos versos “Vai ser mais fácil apanhar malandrões / E atirá-los a todos para

as nossas prisões” (vv. 29-30). 2.1 Identifique o referente da forma pronominal “-los”. 2.2 Justifique a forma do pronome pessoal “os”, nesta situação. BLOCO INFORMATIVO – pp. 280-281, 269-270

E S C R I TA Redija um texto expositivo, de 120 a 150 palavras, sobre os riscos do uso da rede social Facebook, seguindo, para isso, o plano abaixo apresentado.

Proposta de escrita: Parágrafo 1: forma de comunicação tecnológica, fácil e atrativa, que possibilita comunicação à distância. Parágrafo 2: o caráter misterioso proporcionado por esta forma de comunicação seduz os mais jovens, que fazem “amizades” com pessoas que não correspondem ao perfil que apresentam; – a exposição de fotografias pode ser prejudicial, pois outros terão acesso a elas e poderão manipulá-las; – indicar dados da vida pessoal (morada, escola, emprego, aniversários) pode ser prejudicial, principalmente quando se trata de crianças que são um alvo fácil para pedófilos. Parágrafo 3: a nossa exposição a um público vasto e desconhecido é sempre perigosa, porque nem sempre se sabe quem está do outro lado.

• Parágrafo 1 – Apresentação sumária das características do Facebook. • Parágrafo 2 – Três riscos inerentes ao uso do Facebook e cuidados a ter. • Parágrafo 3 – Síntese dos principais aspetos referidos.

BLOCO INFORMATIVO – p. 283 MANUAL – pp. 26-27

49

Po es i a Trova d o resca

INFORMAR A par da poesia lírica trovadoresca, no Noroeste da Península, foi também cultivada a poesia satírica, de natureza autóctone. Leia os tópicos abaixo e os excertos da Arte de Trovar, que a este propósito se propõem, e resolva a atividade apresentada na página seguinte.

Cantigas de escárnio e maldizer

Trovadores perante o Rei e a sua Corte, século VIII, Escola Alemã. 25

30

35

• Na lírica galego-portuguesa, a sátira presente nas cantigas de escárnio e maldizer é dirigida a personagens representantes das diversas categorias socioprofissionais, atingindo todos os graus da hierarquia social: 5 – do papa ao simples freire (monge) ou freira; – do cavaleiro ao ricome (rico-homem); – do infançon ao escudeiro; – do jogral ao trobador. O rei é a única figura que não é alvo de qualquer sá10 tira ou crítica. • Nas cantigas da lírica galego-portuguesa, a sátira política e social é conduzida a nível pessoal com acusações de: – covardia; 15 – traição; – avareza; – incapacidade. • Para além das críticas de caráter pessoal, são vários os aspetos/assuntos satirizados nestas cantigas: 20 – os relativos a acontecimentos históricos; – os costumes sociais (em particular, os que se ligam com a decadência da nobreza); – a polémica literária (em que se aponta no trovador escarnecido a falta de respeito pelas regras de bem trovar); – a paródia da própria cantiga de amor, do amor cortês (“brinca-se” com o sofrimento amoroso – a coita de amor – e com o retrato da figura feminina). • Com estas cantigas, pretende-se criar efeitos cómicos, geradores do riso, recorrendo o trovador a vários recursos expressivos: – ironia; – termos obscenos (em textos mais ferozes); – diminutivos e aumentativos grosseiros; – equívoco (jogos de palavras que têm dois sentidos); – metáforas. • Muitas destas cantigas apresentam estrutura narrativa, relatando um pequeno episódio pitoresco e cómico, saído do quotidiano. • Estas cantigas têm um importantíssimo valor documental para o conhecimento da língua e da sociedade da época. Anna Ferrari, “Cantiga de escarnho e maldizer”, in José Augusto Cardoso Bernardes et al. (dir.), Biblos: Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa, Lisboa, Editorial Verbo, 1995, pp. 970-974 (adaptado).

50

Cantigas de escárnio e maldizer

Cantigas de escárnio Cantigas d’escarneo som aquelas que os trobadores fazem querendo dizer mal d’algu~ e~ elas, e diz~ e-lho per palavras cubertas que hajã dous entendimentos pera lhe-lo nõ entenderem… ligeiramente. CBN, Arte de Trovar, V, in Aida Fernanda Dias, História crítica da literatura portuguesa. A Idade Média, vol. I, Lisboa, Editorial Verbo, 1998, p. 147.

Cantigas de maldizer Cantigas de maldizer som aquelas que faz~ e os trobadores […] descubertamente, ~ e elas entrã palavras a que querem dizer mal e nõ haver outro entendimento senõ aquel que querem dizer chaamente e outrossi as todas fazem dizer […]. CBN, Arte de Trovar, VI, in Aida Fernanda Dias, História crítica da literatura portuguesa. A Idade Média, vol. I, Lisboa, Editorial Verbo, 1998, p. 147.

1. Assinale as seguintes afirmações como verdadeiras ou falsas, corrigindo as falsas.

a. Nas cantigas de escárnio e maldizer, o trovador critica todas as categorias sociais. b. São vários os aspetos satirizados nestas cantigas, sendo alguns de caráter mais pessoal e outros relacionados com costumes, feitos históricos e a própria arte de bem trovar. c. As cantigas de conteúdo satírico apresentam palavras ofensivas quando se pretende criticar ferozmente alguém ou um acontecimento. d. As cantigas de escárnio e maldizer também fazem uma paródia ao amor cortês. e. Os aumentativos e os diminutivos empregues nestas produções poéticas têm sempre um valor apreciativo. f. Um dos recursos expressivos frequentes nestas cantigas é a ironia. g. Algumas composições satíricas apresentam narratividade, pois verifica-se essencialmente a expressão de estados de espírito do “eu”, na primeira pessoa. h. As cantigas de maldizer distinguem-se das de escárnio pelo facto de, nas primeiras, se criticar direta e claramente o alvo visado. 2. Selecione, dos termos indicados entre parênteses, aquele que se adequa às infor-

mações fornecidas pelo texto. 2.1 A poesia satírica galego-portuguesa teve origem

(provençal/autóctone).

PROFESSOR Educação Literária 7.2; 7.4; 8.1; 15.1; 16.1 1. a. F – Exceto o Rei. b. V c. V d. V e. F – Têm sempre valor depreciativo. f. V g. F – Algumas composições satíricas apresentam narratividade, pois relatam um episódio, servindo-se das categorias da narrativa. h. V 2.1 autóctone 2.2 particular 2.3 velada 2.4 amor

2.2 Os trovadores galego-portugueses manifestam preferência pelo caráter (particular/geral) das cantigas de maldizer.

2.3 Nas cantigas de escárnio, a crítica era feita de forma

(velada/direta).

2.4 Entre os vários temas satirizados destaca-se a crítica à artificialidade dos senti-

mentos demonstrados na cantiga de

(amigo/amor).

51

Po es i a Trova d o resca A dimensão satírica: a paródia do amor cortês e a crítica dos costumes

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Leia a cantiga apresentada.

Roi Queimado morreu com amor

5

Roi Queimado1 morreu com amor em seus cantares, par Santa Maria, por ũa dona que gram bem queria2; e, por se meter por mais trobador, por que lh’ela non quis[o] bem fazer, feze-s'el em seus cantares morrer, mais3 resurgiu depois, ao tercer dia.

1

trovador com quem Pero Garcia Burgalês conviveu e que compôs algumas cantigas de amor, usando frequentemente o tópico aqui satirizado

2 4

10

15

20

Esto fez el por ũa sa senhor que quer gram bem5; e mais vos ém6 diria: por que cuida7 que faz i maestria8, enos cantares que faz, á sabor9 de morrer i10 e des i d'ar viver11; esto faz el, que x'12o pode fazer, mais outr'omem per rem nono faria. E nom á13 já de sa morte pavor, se nom, sa morte mais la temeria, mais sabe bem, per sa sabedoria, que viverá, des quando morto for14; e faz-[s'] em seu cantar morte prender15, des i ar vive16: vedes que poder que lhi Deus deu, − mais queno cuidaria!

3

que gram bem queria: por quem tinha grande amor mas

4 5

isto que quer gram bem: por quem tem grande amor

6 7

acerca disso pensa

8

9

que faz i maestria: que faz versos com engenho, como se fosse um mestre á sabor: tem desejo, vontade

10 11 12

13 14

PROFESSOR

E se mi Deus a min desse poder qual oj'el á, pois morrer, de viver, já mais morte nunca [eu] temeria.

15 16

nesse momento e des i d'ar viver: e em seguida de voltar a viver x’: mero reforço de expressão, intraduzível no português atual tem des quando morto for: desde o momento em que morrer aceitar des i ar vive: volta seguidamente a viver

Pero Garcia Burgalês, B 1380/V 988.

Áudio “Roi Queimado morreu com amor” Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.7; 15.1; 16.1 1. [A] – [2] [B] – [3] [C] – [1] [D] – [5] [E] – [4] 2. O sujeito poético critica o artificialismo do "morrer de amor", que "Roi Queimado" demonstra nas suas cantigas, bem como a má qualidade da sua poesia.

1. Associe os tópicos de análise (coluna A) às expressões transcritas do poema (coluna B). Coluna A [A] Identificação do alvo da sátira. [B] Verso revelador dos exageros do amor cortês. [C] Expressão irónica denunciadora do artificialismo do “morrer de amor”, pela alusão a uma situação inverosímil. [D] Sátira à presunção de Roi Queimado por se considerar bom trovador. [E] Ironia do sujeito poético ao afirmar não recear a morte, se ele fosse abençoado por Deus, como Rei Queimado.

Coluna B [1] “mais resurgiu depois, ao tercer dia”, [2] “Roi Queimado” [3] “feze-s'el em seus cantares morrer” [4] “já mais morte nunca [eu] temeria” [5] “por que cuida que faz mestria”

2. Refira, por palavras suas, os dois aspetos criticados no trovador "Roi Queimado".

52

Cantigas de escárnio e maldizer

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Leia expressivamente, após preparação prévia, a cantiga que se segue. 1

Ai, dona fea, fostes-vos queixar

3

5

Ai, dona fea, fostes-vos queixar que vos nunca louv[o] em meu cantar; mais1 ora2 quero fazer um cantar em que vos loarei3 toda via4; e vedes como vos quero loar5: dona fea, velha e sandia6!

mas

2

agora louvarei

4 5

de qualquer modo louvar

6 7

louca, maluca tendes

8 9

tão desejo, vontade

10

10

15

Dona fea, se Deus mi perdom, pois avedes7 [a] tam8 gram coraçom9 que vos eu loe10, em esta razom11 vos quero já loar toda via; e vedes qual sera a loaçom12: dona fea, velha e sandia! Dona fea, nunca vos eu loei13 em meu trobar, pero14 muito trobei; mais ora já um bom cantar farei, em que vos loarei toda via; e direi-vos como vos loarei: dona fea, velha e sandia! Joam Garcia de Guilhade, B 1485/V 1097.

1. Assinale as seguintes afirmações como verdadeiras ou falsas. De seguida, corrija

as afirmações falsas. a. O destinatário da sátira nesta cantiga é uma mulher do povo. b. A senhora queixa-se de o trovador lhe ter chamado “velha, feia e sandia”. c. A composição poética elogia o amor cortês. d. A ironia é um dos recursos expressivos utilizados nesta cantiga. e. O trovador é pouco experiente na arte de trovar. f. O trovador traça o retrato físico e psicológico da senhora. 2. Estabeleça uma comparação entre a cantiga analisada e a anterior, no que se refe-

11 12 13 14

louve em esta razom: por este motivo louvor, elogio louvei ainda que

PROFESSOR

Áudio “Ai, dona fea, fostes-vos queixar” Educação Literária 14.1; 14.2; 14.3; 14.4; 15.1; 16.1 1. a. F – É uma dama da nobreza, como se confirma pela forma de tratamento empregue na apóstrofe “Dona fea”. b. F – A senhora queixa-se de o trovador nunca lhe ter feito um cantar de amor. c. F – A composição poética satiriza o amor cortês. d. V e. F – O trovador é experiente na arte de trovar, como está evidenciado em “pero muito trobei” (v. 14). f. V 2. Ambas as cantigas satirizam os códigos convencionais do amor cortês. Em “Roi Queimado” critica-se o artificialismo do “morrer por amor” expresso pelos trovadores e em “Dona fea, foste-vos queixar”, criticam-se os elogios estereotipados que eram dirigidos às mulheres nas cantigas de amor.

re ao objeto de crítica. 53

Po es i a Trova d o resca Cantigas de escárnio e maldizer – A dimensão satírica: a paródia do amor cortês e a crítica dos costumes PROFESSOR

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Leia a cantiga a seguir apresentada.

Áudio “Foi um dia Lopo jograr” Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.7; 14.8; 15.1; 16.1 1. a. “um dia” (v. 1) b. “cas d’um infançom” (v. 2) c. “Lopo jograr” (v. 1) e “infançom” (v. 2) d. “Foi […] a cas d’um infançom cantar / e mandou-lh’ele por dom dar / tres couces na garganta” (vv. 1-4) e. “Foi-lh’escasso’a meu cuidar” (v. 5) 2. Um dia, o jogral Lopo foi cantar a casa de um fidalgo, mas este não gostou da forma como ele cantou e mandou dar-lhe três couces na garganta como forma de pagamento. Na opinião do sujeito poético, foram poucos os couces, já que merecia muitos mais, tão mau era o seu cantar. 3. a. V b. F –O rei não era alvo da sátira dos trovadores. c. F – São de origem autóctone mas sofreram influências da sátira provençal. d. V e. V f. F – Era um dos temas das cantigas de escárnio e maldizer. g. F – Apresentam críticas a determinadas categorias socioprofissionais, especificamente hábitos ou vícios de certas personagens.

Foi um dia Lopo jograr

5

10

Foi um dia Lopo jograr1 a cas2 d’um infançom3 cantar e mandou-lh' ele por dom4 dar tres couces na garganta; e foi-lh’escass’ 5a meu cuidar6, segundo com’el canta. Escasso foi o infançom em seus couces partir entom, ca7 nom deu a Lop[o] entom mais de tres na garganta; e mais merece o jograrom8, segundo com’ el canta. Martim Soares, B 1366/V 974.

1

jogral; 2 casa; 3 fidalgo de categoria inferior; 4 como

pagamento; 5 e foi-lh'escass': e foi forreta; 6 a meu cuidar: na minha opinião; 7 pois; 8 mau jogral.

1. A sátira, nesta cantiga, constrói-se a partir de uma estrutura narrativa.

Complete a tabela com expressões do texto que exemplificam as categorias da narrativa apresentadas. Tempo

Espaço b.

a.

Personagens c.

Ação d.

Narrador e.

2. Apresente sinteticamente o episódio narrado nesta cantiga. Comece o seu texto

por “ Um dia…”. 3. Relembre o estudo das cantigas de escárnio e maldizer e assinale as afirmações

como verdadeiras ou falsas. Corrija as afirmações falsas. a. As cantigas de escárnio e maldizer satirizam, direta ou indiretamente, algo ou alguém. b. Entre os vários comportamentos satirizados pelos trovadores, encontrava-se a crítica à governação do rei. c. As cantigas de escárnio e maldizer são de origem autóctone, não tendo sofrido influências da sátira provençal.

54

Cantigas de escárnio e maldizer

d. A dimensão satírica das cantigas de escárnio e maldizer confere-lhes grande valor documental. e. Um dos recursos utilizados nas cantigas de escárnio é o “equívoco” ou “jogo duplo”. f. A sátira ao amor cortês era o principal tema das cantigas de escárnio e maldizer. g. As cantigas de escárnio e de maldizer apresentam elogios a determinadas categorias profissionais.

GRAMÁTICA 1. Preencha o quadro seguinte, retirando da cantiga os exemplos solicitados.

Determinante artigo indefinido

a.

Nome próprio

b.

Nome comum

c.

Preposição

d.

Pronome pessoal

Quantificador numeral

e.

f.

PROFESSOR Gramática 18.1; 18.4 1. a. “um” b. “Lopo” c. “cas”, “infançom”, “dom”, “couces”, “garganta”, “jograrom” d. "en”, “por” e. “lhe”, “ele” f. “três” 2. Caseiro, casario, casebre. 3.1 a. Complemento agente da passiva. c. Predicativo do sujeito. d. Complemento direto. e. Complemento direto. 3.2 As cantigas de escárnio e maldizer abarcam-no. 3.3 Valor de oposição. 3.4 “o amor cortês”. 3.5 “Quando se fala dos trovadores galaico-portugueses” – oração subordinada adverbial temporal; “destaca-se o seu gosto pela sátira pessoal.” – oração subordinante.

2. Sabendo que o vocábulo “cas” é a forma arcaica de “casa”, apresente três outras pa-

lavras do português moderno que integrem o mesmo elemento etimológico. 3. Atente nas seguintes frases. a. O amor cortês era frequentemente satirizado pelos trovadores nas cantigas de mal-

dizer. b. As cantigas de escárnio e maldizer abarcam um vastíssimo leque de personagens. c. Os comportamentos quotidianos eram alvo da sátira dos trovadores. d. A poesia satírica parodia o amor cortês, enquanto a cantiga de amor o enaltece. e. Quando se fala dos trovadores galaico-portugueses, destaca-se o seu gosto pela

sátira pessoal. 3.1

Indique a função sintática dos constituintes sublinhados.

3.2 Reescreva a frase b., pronominalizando o complemento direto. 3.3 Indique o valor lógico do conector “enquanto” (frase d.). 3.4 Indique o referente do pronome pessoal “o” na frase d. 3.5 Divida e classifique as orações na frase e. BLOCO INFORMATIVO – pp. 260-264, 278-279,

271-273, 269-270, 277

55

APRENDER

E

S

Fonética e fonologia / etimologia

DAR TU

ICA FONÉTICA E FONOLOGIA

R

G RA M Á T

A PR ATIC

1

A assimilação pode ser regressiva, quando uma unidade fónica se aproxima articulatoriamente de uma que se lhe segue; progressiva, quando a relação das duas unidades se inverte; completa, sempre que as duas unidades fónicas se tornam exatamente iguais; incompleta, quando a assimilação não é total e as duas unidades fónicas apenas se tornam mais semelhantes. 2

São palatais as consoantes /‫ݕ‬/ (cf. chuva), /‫ݤ‬/ (cf. janela), /‫ݠ‬/ (cf. filho) e /݄/ (cf. ninho). Nota: A passagem de u para o no final de palavra representa uma alteração apenas gráfica, pois o som representado mantém-se.

Ao longo dos séculos de evolução da língua portuguesa foram ocorrendo alterações em termos fonéticos e fonológicos, ou seja, no que aos sons e fonemas diz respeito. Estas alterações resultam de fatores diversos, como a tendência para a diminuição do esforço articulatório (a que por vezes se chama “lei do menor esforço”) ou a influência de uns vocábulos sobre os outros (analogia). Quanto à sua forma, é possível distinguir três tipos de processos fonológicos: os de inserção, os de supressão e os de alteração de unidades.

a. Processos fonológicos de inserção Prótese

Adição de uma unidade fónica no início da palavra.

INDA- > ainda

Epêntese

Adição de uma unidade fónica no interior da palavra.

HUMILE- > humilde

Paragoge

Adição de uma unidade fónica no fim da palavra.

ANTE > antes

b. Processos fonológicos de supressão Aférese

Queda de uma unidade fónica no início da palavra.

alá (port. antigo)> lá

Síncope

Queda de uma unidade fónica no meio da palavra.

MALU- > mau

Apócope

Queda de uma unidade fónica no fim da palavra.

AMARE > amar

c. Processos fonológicos de alteração

Assimilação

Alteração de uma unidade fónica por influência de outra, ou seja, duas unidades fónicas diferentes tornam-se mais semelhantes ou iguais porque uma se aproxima articulatoriamente da outra1.

IPSE > esse

Dissimilação

Processo exatamente inverso à assimilação, ou seja, duas unidades iguais ou com características semelhantes distanciam-se articulatoriamente.

LILIU- > lírio

Sonorização

Transformação de uma consoante surda (por exemplo, /p/, /t/, /k/) na sua correspondente sonora (nestes casos, /b/, /d/, /g/).

PIETATE- > piedade

Palatalização

Tipo de assimilação que acontece quando uma unidade ou sequência ganha uma articulação palatal (assim se formam as consoantes palatais do português)2.

FLAMMA- > chama

Metátese

Troca de posição de unidades mínimas ou sílabas no interior de uma palavra.

SEMPER > sempre

Vocalização

Transformação de uma consoante em vogal (depois de outra vogal, esta unidade realiza-se como semivogal).

OCTO > oito

Crase

Contração de duas vogais numa só.

TIBI > tii > ti

Sinérese

Transformação em ditongo de uma sequência de duas vogais em hiato, pela semivocalização (transformação em semivogal) de uma delas.

LEGE- > lee > lei

Contração

Redução vocálica

56

Enfraquecimento de uma vogal em posição átona. Na atualidade, no português europeu, esse fenómeno é observável quando comparamos formas como casa/casebre, em que uma mesma vogal surge com diferentes timbres, consoante se encontra em sílaba tónica (casa) ou em sílaba átona (casebre).

ETIMOLOGIA Étimos – palavras (ou radicais) que estão na base das palavras portuguesas. A etimologia é a ciência que estuda a origem e a evolução das palavras. Palavras divergentes

Palavras convergentes

Palavras que, apesar de provenientes do mesmo étimo, apresentam formas diferentes em português.

Palavras que, apesar de derivarem de étimos diferentes, apresentam a mesma forma em português.

Ex.: PATRE-

Ex.: SANU-

padre pai

SANCTU-

são (‘saudável’) são (‘santo’) PROFESSOR

APLICAR 1. Identifique os processos fonológicos operados na evolução das palavras apresen-

tadas. a. FENESTRA- > feestra > festra > fresta

h. OCULU- > oclo > olho

b. SECRETU- > segredo

i.

MULTU- > muito

c. PERSONA- > persoa > pessoa

j.

PLENU- > cheo > cheio

d. CENA- > cea > ceia

k. MATERIA- > madeira

e. CRUDELE- > crudel > cruel

l.

f. PEDE- > pee > pé

m. SOLES > soes > sóis

NOCTE- > noite

g. SPECULU- > speclu > espelho 2. Identifique o processo fonológico que a comparação das palavras “mala”/“maleta” e

“porta”/“portão” nos mostra. 3. Atente nas seguintes frases. a. O rio era um dos elementos da Natureza presentes nas cantigas de amigo. b. Rio-me com algumas cantigas de escárnio e maldizer. 3.1 Tendo em conta o significado dos vocábulos sublinhados, classifique-os quanto ao

étimo de que provêm. Confirme a sua resposta através da consulta de um dicionário. 4. Tendo em conta o seu sentido, selecione, da lista de palavras apresentada, aquelas

que apresentam um constituinte que provém do étimo latino MATER (‘mãe’). [A] Matriarcal.

[C] Maternidade.

[E] Matricida.

[B] Matrimónio.

[D] Matrícula.

[F] Matreira.

4.1 Explicite o significado de cada uma das palavras selecionadas, tendo em conta o

étimo de que provêm. 5. Apresente duas palavras que contenham constituintes que integram cada um dos

étimos listados abaixo. a. FRATER (‘irmão’).

c. URBS (‘cidade’).

b. AGROS (‘campo’).

d. CIVIS (‘cidadão’).

Gramática 17.3; 17.4; 17.5; 17.6; 17.7 1. a. síncope, crase, metátese. b. sonorização. c. síncope, assimilação. d. síncope, epêntese. e. apócope, síncope. f. síncope, crase. g. síncope, prótese, palatalização. h. síncope, palatalização. i. vocalização. j. síncope, palatalização, epêntese. k. sonorização, metátese. l. vocalização. m. síncope, sinérese. 2. Redução vocálica. Existe um enfraquecimento da mesma vogal (representada por e , respetivamente), em posição átona. 3.1 Trata-se de palavras convergentes já que, apesar de apresentarem a mesma forma, provêm de étimos diferentes: a. RIVU- (> rio); b. RIDERE (> rir). 4. e 4.1 [A] matriarcal – sistema em que a mulher, mãe, aparece como figura central. [C] maternidade – estado de quem é mãe (também local onde as mulheres dão à luz). [E] matricida – homicídio da mãe. 5. a. fraterno, fratricida, fraternidade, frade. b. agricultura, agrário, agrícola, agricultor. c. urbano, urbanização, urbanismo. d. civil, cívico, civilização, civismo.

57

PA R A S A B E R

Poesia Trovadoresca POESIA LÍRICA Cantigas de amor

Cantigas de amigo

Origem

• provençal

• autóctone

Sujeito de enunciação

• trovador

• a “amiga” (a donzela)

Objeto

• a dona (a “senhor”)

• o amigo

Características da figura feminina

• ser divinizado, quase inatingível, da aristocracia

• ser terrestre, de cariz essencialmente popular

• vassalo

• apaixonado

• submisso

• ausente

• sofredor

• mentiroso

Características da figura masculina

• doméstico Ambiente

• palaciano

• familiar

• cortês

• rural • marítimo

Essência

• artificial

• simples

• convencional

• espontânea

• aristocrática

• popular • a paixão pelo amigo • a saudade

Tema

• elogio da mulher amada • a coita amorosa

• a incerteza e a insegurança na relação • os arrufos de amor • o ciúme

POESIA SATÍRICA

58

Subgéneros

Características

Intenção crítica

Cantigas de escárnio

• sátira dissimulada, dúbia e encoberta

• sátira política

Cantigas de maldizer

• sátira direta, mordaz e explícita

• paródia do amor cortês

• crítica de costumes

PA R A V E R I F I C A R

Verifique os seus conhecimentos após a leitura e a análise de várias cantigas da poesia trovadoresca galaico-portuguesa. PROFESSOR

1. Identifique as afirmações verdadeiras e as falsas. De seguida, transforme as afir-

mações falsas em afirmações verdadeiras. a. Nas cantigas de amor, o sujeito de enunciação é a donzela apaixonada. b

Um dos temas mais frequentes nas cantigas de amor é a coita amorosa.

c. Na primeira cantiga de amor trovadoresca apresentada nesta unidade, a mulher surge sobrevalorizada. d. Nas cantigas de amor é recorrente a referência à Natureza. e. Em geral, a mulher celebrada nas cantigas de amor é de um estatuto social elevado. f. A correspondência amorosa entre o sujeito lírico e a mulher enamorada é recorrente nas cantigas de amor. g. Por serem de natureza mais popular, as cantigas de amor apresentam recorrentemente uma estrutura paralelística. h. Nas cantigas de amor, o sentimento expresso pelo trovador é convencional e pouco natural. i. A donzela, nas cantigas de amigo, tem como única confidente a mãe. j. É frequente assistirmos, nas cantigas de amigo, à angústia da donzela motivada pela ausência do amigo. k. Nas cantigas de amigo, é comum a donzela apresentar traços de simplicidade e ingenuidade. l. As cantigas de amigo refletem um ambiente mais familiar do que as cantigas de amor. m. A mulher representada nas cantigas de amigo é mais artificial do que a mulher celebrada nas cantigas de amor. n. Ao contrário das cantigas de amor, nas cantigas de amigo há sempre correspondência amorosa. o. O sentimento amoroso é o tema central das cantigas de amigo e de amor. p. Um dos temas mais recorrentes nas cantigas de escárnio e maldizer é a celebração da mulher amada. q. As cantigas de maldizer distinguem-se das de escárnio pelo facto de nas primeiras se fazer referência direta e ostensiva ao alvo visado. r. Um dos recursos expressivos mais recorrentes nas cantigas de escárnio e maldizer é a ironia. s. Num grande número de cantigas de escárnio e maldizer, assiste-se a uma paródia ao amor cortês.

Educação Literária 14.3; 14.8; 15.1; 16.1 1. a. F –O sujeito de enunciação é o trovador enamorado. b. V; c. V d. F – A presença da Natureza surge de forma recorrente nas cantigas de amigo e não nas de amor. e. V f. F – É recorrente assistirmos à dor do sujeito lírico quer por não ser correspondido em termos amorosos quer pela mulher amada se mostrar indiferente em relação a si. g. F – São as cantigas de amigo que apresentam uma natureza mais popular e frequentemente uma estrutura paralelística. h. V i. F – Além da mãe, existem outras confidentes como as amigas ou a Natureza. j. V k. V l. V m. F – A mulher representada nas cantigas de amigo é mais espontânea e menos artificial do que a mulher celebrada nas cantigas de amor. n. F – Apesar de em algumas cantigas de amigo ser evidente a correspondência amorosa, em muitas outras assistimos à desilusão da donzela em relação ao objeto do seu amor. o. V p. F – As cantigas de escárnio e maldizer têm como objetivo a sátira, pelo que não se encontram nelas temas como o da celebração da mulher amada. Aliás, existem cantigas em que se satiriza o excesso de convencionalismo presente nas cantigas de amor, no que toca à descrição da mulher amada. q. V r. V s. V

59

PA R A R E C U P E R A R Relembre o estudo da poesia trovadoresca e realize as atividades seguintes. PROFESSOR

1. Associe os elementos da coluna A aos elementos da coluna B que completam ade-

quadamente o seu sentido. Apresentação Galeria de imagens

Apresentação Síntese da Unidade

Teste interativo

Coluna A [A] A cantiga de amigo e a cantiga de amor

1. [A] – [3] [B] – [1] [C] – [2] [D] – [5] [E] – [4] 2. a. trovador b. senhor c. morais d. coita e. indiferente f. poder g. morrer h. hipérbole 3. a. “porque está angustiada com a ausência do amigo.” – oração subordinada adverbial causal; b. “Quando não recebe notícias do seu amigo” – oração subordinada adverbial temporal; c. “Embora a ‘senhor’ seja descrita como uma mulher perfeita”– oração subordinada adverbial concessiva; “que ela é cruel” – oração subordinada substantiva completiva. 3.1. a. Predicativo do sujeito; b. Modificador e sujeito simples, respetivamente; c. Modificador e complemento direto, respetivamente.

[1] são marcas formais associadas às cantigas de amigo.

[B] Paralelismo e refrão

[2] critica todos as categorias socioprofissionais, exceto o rei.

[C] Na poesia satírica, o trovador

[3] desenvolvem ambas a temática do sofrimento amoroso, embora difiram no que se refere ao emissor.

[D] O amor cortês também

[4] satiriza algo ou alguém, recorrendo a “palabras cubertas”, ou seja, à ironia e a jogos de palavras.

[E] Na cantiga de escárnio, o enunciador

[5] é objeto de crítica, quer ao nível da linguagem, quer relativamente à forma como o trovador compõe ou canta.

Poesia trovadoresca Educação Literária 14.3; 14.4; 14.7; 16.1

Coluna B

2. Complete os espaços com as palavras adequadas, selecionando-as entre as pro-

postas abaixo. indiferente, sensível, morrer, senhor, morais, coita, hipérbole, poder, trovador

Na cantiga de amor, o emissor é o a. b.“

, que expressa o seu amor pela sua

”, caracterizada como “fremosa”, “de “bom prez”, “mui comunal”, reunindo

as qualidades físicas, c.

e sociais.

Na relação que se estabelece entre o trovador e a sua dama, aquele revela a sua d.

amorosa porque a mulher é muitas vezes e.

sentimentos. O homem submete-se ao seu f. g.

a viver sem o seu amor. Por isso, a h.

aos seus

, de tal forma que prefere é um dos recursos

expressivos de que o trovador se serve para exprimir o seu sofrimento pela indiferença da dama. 3. Identifique e classifique as orações subordinadas nas frases que se seguem. a. A donzela desabafa com a mãe porque está angustiada com a ausência do amigo. b. Quando não recebe notícias do seu amigo, a donzela fica desesperada e impaciente. c. Embora a “senhor” seja descrita como uma mulher perfeita, o trovador sabe que ela

é cruel. 3.1

60

Identifique as funções sintáticas dos constituintes sublinhados nas frases anteriores.

Almeida Garrett

PA R A AVA L I A R

Poesia Trovadoresca GRUPO I

Leia a cantiga que se segue. PROFESSOR

Vi eu, mia madr’, andar Vi eu, mia madr’1, andar as barcas eno mar: e moiro-me2 d’amor.

5

Foi eu, madre, veer as barcas eno ler3: e moiro-me d’amor.

1

minha mãe 2 morro-me 3 praia 4 esperar 5 esperar 6 aí

As barcas [e]no mar e foi-las aguardar4: e moiro-me d’amor. 10

15

As barcas eno ler e foi-las atender5: e moiro-me d’amor. E foi-las aguardar e non o pud’ achar: e moiro-me d’amor. E foi-las atender e non o pudi veer: e moiro-me d’amor.

20

E non o achei i6, [o] que por meu mal vi: e moiro-me d’amor. Nuno Fernandez Torneol, B 645/V 246.

1. Comprove que a composição poética é uma cantiga de amigo, apresentando

duas características ao nível do conteúdo que fundamentem a sua resposta. 2. Proceda à divisão do texto em duas partes lógicas, explicitando o assunto

de cada uma delas. 3. Caracterize, fundamentando, o estado de espírito do sujeito poético. 4. Identifique os recursos expressivos presentes nos versos abaixo indicados,

comentando a sua expressividade. a. “Vi eu, mia madr’, andar”. (v. 1)

b. “e moiro-me d’amor.” (v. 3)

5. Proceda à análise formal da cantiga, atendendo ao número e tipo de estrofes,

ao seu esquema rimático e à classificação das rimas.

Apresentação Soluções Ficha de Avaliação GRUPO I Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.7; 14.8; 14.9 1. Trata-se de uma cantiga de amigo, visto que o sujeito de enunciação é uma donzela que lamenta à sua mãe (confidente) a ausência do seu amigo. 2. Esta cantiga pode dividir-se em duas partes. A primeira diz respeito às quatro primeiras coblas e corresponde à descrição da situação inicial, ou seja, ao facto de a donzela acorrer à praia na esperança de ver o seu amigo chegar numa das barcas que estão a aportar; a segunda corresponde às últimas quatro coblas e aqui assiste-se à desilusão da donzela por, afinal, não ter reencontrado o seu amor. 3. Apesar de começar por descrever o seu estado de ansiedade e de esperança em ver o amigo, a donzela, desde o início, através do refrão, manifesta a sua angústia, o seu sofrimento amoroso e a sua desilusão pelo facto de não ter encontrado o seu amigo. Revela ainda remorsos por se ter apaixonado, quando afirma: “[o] que por meu mal vi:”. (v. 20). 4. a. No verso “Vi eu, mia madr’, andar” está presente a apóstrofe “madre”, como forma de realçar o interlocutor e confidente da donzela – a mãe. b. Em “e moiro-me d’amor.” é evidente a hipérbole que serve para realçar o sofrimento amoroso de que a donzela padece. 5. A cantiga é composta por sete dísticos e um refrão monóstico, segundo o esquema rimático: aa’R / bb’R / a’a’’R / b’b’’R / a’’aR / b’’bR / cc’R / dd’R. As rimas são todas emparelhadas.

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Almeida Garrett

PA R A AVA L I A R

Poesia Trovadoresca GRUPO II Leia atentamente o texto

A Língua Portuguesa 1

artifícios; 2 prostração, doçura;

3

descuido; 4 frescura, pujança;

5

decai, corrompe(-se). 5

10

15

20

25

30

Por Hélia Correia

Ela não esqueceu nunca o tempo em que era uma camponesinha descarada que dançava debaixo de aveleiras em flor. Ri facilmente e, ao menor pretexto, tira os sapatos, prende as saias com a mão, parte outra vez ao encontro da sua natureza que aceita mal a convenção e os arrebiques1. Tem o latim por pai, é certo, mas um pai com barba vagabunda, alheio à higiene e às declinações. Herdou das mouras uma certa languidez2, essa demora no olhar que indica a predisposição para o descuido nos pormenores mais práticos da vida. Atravessou-a o espírito dos Celtas. Está visto que haveria de nascer versejante e com algum defeito de maneiras. Creio eu que, como em todas as moçoilas, lhe resulta o desleixo3 em sedução. […] Mesmo no grande épico lusíada, vemos Camões a rir daquele marinheiro, Veloso de seu nome, que desceu em muito menos tempo do que o tinha subido um outeiro que escondia nativos assanhados. Por efeitos de história e crescimento, civilizou-se um pouco, entrou na corte, fez vénia às muitas modas chegadas do estrangeiro. […] Grandes amores teve ela com Mestre Gil Vicente e foi esse um enlace sem igual na duração e na intensidade, e, mais, em nunca um do outro se enjoarem, antes encherem de apalpões e viço4 as deprimidas salas palacianas. […] Saiu para além do mar com os marinheiros, mas não entendeu nada do Império. O que quis foi dançar e misturar-se. Enquanto eles degolavam e ofendiam, ela deitou-se na frescura das palhotas e gerou promissoras combinações da espécie. Enquanto a missa e a lei teimavam no latim, ela, a menina do descaramento, espalhava as filhas pelo mundo fora, numa alegre e opulenta sementeira. Abriu os braços a fonemas e a deuses que eram até então estrangeiros e hostis mas nela se deixaram docemente fundir. Enquanto a nobreza degenera5, por secagem do sangue e doçarias, a nossa mocetona continua trocando afeto em terras de África e Brasil, tomando e oferecendo, e outro não é o segredo da sua juventude. Menininha que eu vi nas mãos do Mia Couto, a rir da brincadeira que era uma flor rodando pelos ares abaixo. Menininha que disse estar bem e estar feliz. in https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/outros/antologia/menina-e-moca-/616 (consultado em janeiro de 2017).

1. Para responder a cada um dos itens de 1.1 a 1.9, selecione a opção que lhe permite

obter uma afirmação correta. 1.1

No primeiro período textual, a autora evoca [A] as origens camponesas do Português. [B] o lirismo trovadoresco, nomeadamente as cantigas de amigo. [C] a origem latina da língua portuguesa.

62

1.2 Com a frase “Atravessou-a o espírito dos Celtas” (ll. 7-8), Hélia Correia faz referência a [A] um substrato da língua portuguesa. [B] um superstrato do Português. PROFESSOR

[C] uma língua posterior ao galaico-português. GRUPO II

1.3 No primeiro parágrafo, a autora pretende, através da personificação, evidenciar [A] a naturalidade e a espontaneidade da língua portuguesa. [B] o caráter rude e sujo da camponesinha, herdado de seu pai. [C] a sedução alegre que herdou das mouras. 1.4 No segundo parágrafo, assiste-se a uma evolução da língua portuguesa decorrente [A] da influência da poesia lírica de Camões. [B] do episódio de Fernão Veloso. [C] do seu contacto com a cultura palaciana.

Leitura 7.1; 7.2; 7.6; 8.1 1.1 [B] 1.2 [A] 1.3 [A] 1.4 [C] 1.5 [C] 1.6 [B] 1.7 [A] 1.8 [C] 1.9 [B] Gramática 18.1

1.5 No penúltimo parágrafo, assistimos [A] ao nascimento das variantes regionais africanas. [B] à importância do ensino do latim, regulado por lei.

2.1 Sujeito subentendido “ela”. 2.2 Comparação. 2.3 Complemento direto.

[C] à disseminação do português pelos continentes africano e sul-americano. 1.6 No último parágrafo, a autora prossegue com o recurso à [A] enumeração das qualidades da nobreza. [B] personificação da língua portuguesa. [C] enumeração das trocas comerciais entre África e o Brasil. 1.7 Na frase “Enquanto eles degolavam e ofendiam” (ll. 20-21), existe um pronome [A] pessoal que é sujeito simples. [B] indefinido que é sujeito indeterminado. [C] pessoal que é sujeito composto. 1.8 O conector “Enquanto” (l. 20) é uma conjunção subordinativa [A] causal. [B] final. [C] temporal. 1.9 Em “ela deitou-se na frescura das palhotas” (l. 21), as expressões sublinhadas cor-

respondem respetivamente [A] ao complemento direto e ao complemento indireto. [B] ao complemento direto e ao complemento oblíquo. [D] ao complemento indireto e ao complemento oblíquo.

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Almeida Garrett

PA R A AVA L I A R

PROFESSOR GRUPO III Escrita 10.1; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1

Poesia Trovadoresca 2. Responda aos itens apresentados. 2.1 Indique e classifique o sujeito sintático da frase “Tem o latim por pai” (l. 4). 2.2 Identifique o recurso expressivo presente em “como em todas as moçoilas” (l. 9). 2.3 Refira a função sintática desempenhada por “Grandes amores”, presente no início

do terceiro parágrafo. Proposta de resolução: Introdução: origem da cantiga de amigo associada aos primórdios da nossa nacionalidade, num contexto cultural e social muito diferente do da atualidade. Desenvolvimento: Parágrafo 1 – Motivos da infelicidade amorosa da donzela – ausência do amigo devido à guerra; não correspondência amorosa. – Dificuldades de comunicação com o amado, o que leva à confidência amorosa com a Natureza, a mãe e as amigas. Parágrafo 2 – Facilidade de comunicação na atualidade – telemóvel, redes sociais, que encurtam as distâncias. – Locais de encontros amorosos diferenciados: as fontes, as romarias, os bailes da Idade Média por oposição aos espaços partilhados pelos jovens de hoje em dia (escola, festas, discotecas…) e aos locais de encontro virtuais. Conclusão: as relações amorosas estão sujeitas às condicionantes específicas da época histórica.

64

GRUPO III Redija um texto expositivo, de 150 a 250 palavras, numa linguagem clara, objetiva e precisa, onde apresente as principais diferenças entre as relações amorosas retratadas na poesia trovadoresca e as vividas pelos jovens na atualidade. Para isso, comece por completar o seguinte plano de texto, elaborando os tópicos relativos a cada uma das partes.

· Introdução: as relações amorosas na Idade Média e no século XXI. · Desenvolvimento: parágrafo 1 - … parágrafo 2 - … –…

· Conclusão: fecho do texto, sintetizando os principais aspetos referidos.

MÓDULO

1

2. Fernão Lopes PARA CONTEXTUALIZAR | PARA INICIAR PARA DESENVOLVER

Educação Literária Crónica de D. João I • Excertos dos capítulos 11, 115 e 148 da 1.a Parte Leitura Exposição sobre um tema Escrita Síntese Exposição sobre um tema Oralidade [Comprensão/Expressão Oral] Documentário [Comprensão do Oral] Síntese [Expressão Oral] Gramática Sintaxe [Aprender/Aplicar] • Processos fonológicos PARA SABER | PARA VERIFICAR | PARA RECUPERAR | PARA AVALIAR

PARA CONTEXTUALIZAR

1380-90

1383-85

Nascimento do cronista Fernão Lopes

Crise política portuguesa 1385 — Aclamação de D. João I como rei de Portugal / Batalha de Aljubarrota

1443

1453

Redação da Crónica de El-Rei D. João I por Fernão Lopes

Queda do Império Romano no Oriente – fim da Idade Média

1460 Morte de Fernão Lopes

A Idade Média, o seu “historiador” Fernão Lopes e a evolução da língua portuguesa. Atente nos seguintes aspetos, para melhor compreender as transformações que ocorrem nesta época, bem como o autor que irá ser objeto de estudo.

• Uma nova nobreza, constituída por burgueses nobilita-

A nação portuguesa e a evolução da língua

5

10

• A separação definitiva entre o galego e o português ocorreu a partir do século XV, período em que se deram grandes alterações sociais e políticas. • O processo de evolução da língua foi influenciado: – pela peste negra que dizimou provavelmente grande parte da população adulta, originando um salto de gerações; – pelas guerras entre D. Fernando e de D. João I de Castela, que perturbaram o equilíbrio político; – pela mudança da corte para Lisboa que se torna a capital do país.

A crise dinástica e uma nova dinastia apoiada por uma nobreza renovada

15

dos ou por filhos segundos das casas nobres, que recebem terras e poder económico, e que se instala no centro e no sul do país, sucede à anterior.

• A nobreza da primeira dinastia, que tinha ajudado D. Afonso Henriques e os seus descentes a fundar o reino e a governá-lo durante séculos, toma o partido de D. Beatriz, filha de D. Fernando, rainha de Castela e herdeira legítima do trono, o que resultou na perda da guerra e do poder.

66

Elaborado a partir de Ivo Castro, Introdução à história do português [2004], 2.a ed., revista e muito ampliada, Lisboa, Colibri, 2006, pp. 76-77.

Fernão Lopes, um intérprete fiel da mudança política • Ao chegar a crise de 1385, o povo português estava já na

5

posse de uma consciência da sua própria identidade, reagindo, por isso, violentamente contra a ameaça de absorção por parte de outro Estado (Castela). • Fernão Lopes compreendeu perfeitamente o significado dos acontecimentos que envolveram essa tomada de consciência e elegeu o povo como protagonista da Crónica de D. João I. Elaborado a partir de Maria Leonor Carvalhão Buescu, Apontamentos de Literatura Portuguesa, Porto, Porto Editora, 1993, p. 38.

PARA INICIAR EXPRESSÃO ORAL Observe as imagens apresentadas. LEGENDA DAS IMAGENS

A. D. João I de Portugal, c. 1435, Museu Nacional de Arte Antiga. B. Dom Nuno Álvares Pereira, c. 1841, Charles Legrand (primeira metade do século XIX), Biblioteca Nacional de Portugal. C. Fernão Lopes (pormenor), Painéis de São Vicente de Fora, c. 1470, Nuno Gonçalves, Museu Nacional de Arte Antiga. D. A Batalha de Aljubarrota, Jean de Wavrim (séc. XV), Crónicas de Inglaterra, c. 1470-1480.

A D. João I, Mestre de Avis.

E. Cerco de Lisboa (1384), Crónicas de Jean Froissart, séc. XV.

D Batalha de Aljubarrota. NOTA AO ALUNO

Quando se faz uma pesquisa, convém que a informação a que se tem acesso prime pela qualidade, pelo que é premente que haja espírito crítico na seleção das fontes. Assim, não só é importante recorrer a obras ou sítios de Internet fidedignos como também é necessário confrontar a informação obtida com outras fontes, de modo a assegurar a sua autenticidade. A título de exemplo, para o trabalho que se propõe, sugerem-se as seguintes fontes:

B Nuno Álvares Pereira.

C Fernão Lopes.

E Cerco de Lisboa.

Realize, em grupo, uma pesquisa, numa enciclopédia, num manual de História, na Internet ou noutro suporte, sobre a individualidade ou o acontecimento retratado em cada uma das imagens (cada grupo debruçar-se-á sobre uma imagem). 1. Apresente à turma, em 2-3 minutos, uma síntese das informações recolhidas

e mais pertinentes. 2. Discuta, em trabalho de pares, a relação que se pode estabelecer entre as várias

imagens.

• Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani (coor.), Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa, Lisboa, Editorial Caminho, 1993, pp. 180-182 [Crónica de D. João II] e pp. 271-274 [Fernão Lopes]. • Teresa Amado, Fernão Lopes, contador de História, Lisboa, Editorial Estampa, 1991. • Fundação Batalha de Aljubarrota, disponível em http://www. fundacao-aljubarrota.pt/

67

Fernão Lopes

PARA DESENVOLVER COMPREENSÃO DO ORAL Proceda à audição atenta de um registo áudio sobre Fernão Lopes. 1. Com base no conteúdo das colunas A e B, forme nove afirmações verdadeiras sobre

PROFESSOR Oralidade 1.6; 2.1; 2.2; 3.1; 3.2; 4.1; 4.2; 5.2; 5.3; 6.2; 6.3 Expressão Oral (p. 67) 1. e 2. A imagem C representa Fernão Lopes, autor da Crónica de D. João I, sobre o respetivo monarca (imagem A), que foi aclamado rei de Portugal depois da morte de D. Fernando e durante a crise de 1383-1385. Nessa mesma crónica, são episódios como o do cerco de Lisboa (imagem E), levado a cabo pelos castelhanos, bem como o da Batalha de Aljubarrota (imagem D), no qual se destaca a figura de D. Nuno Álvares Pereira (imagem B), mentor da estratégia que conduziu os portugueses à vitória e que, durante toda a crise, esteve ao lado de D. João, Mestre de Avis.

Vídeo

a vida e obra do autor. Coluna A [A] Esteve ao serviço do reino português durante dois reinados e uma regência, respetivamente,

[1] foi escrivão dos livros de D. João I.

[B] É autor

[3] das Crónica de D. Pedro, Crónica de D. Fernando e Crónica de D. João I.

[C] A sua vida pública está documentada a partir de 1418, [D] Em 1419 [E] A partir de 1422, dedicou-se também

[2] a assessorar o infante D. Fernando, como “escrivão da puridade”.

[4] surge pela primeira vez como tabelião-geral do reino. [5] o de D. João I, o de D. Duarte e a do infante D. Pedro.

[F] Em 1437

[6] é uma das fontes fundamentais da biografia de Fernão Lopes.

[G] Em 1454, foi substituído nas suas funções

[7] quando foi primeiramente nomeado guarda das escrituras do Tombo, como escrivão dos livros do infante D. Duarte.

[H] A carta datada de 1434, da responsabilidade de D. Duarte,

[8] por Gomes Eanes de Zurara, talvez por doença ou velhice.

[I] Nessa mesma carta, o rei D. Duarte concede ao cronista 14 mil reais

[9] para que escreva as crónicas dos reis da primeira dinastia portuguesa até ao reinado venturoso de D. João I.

Fernão Lopes – vida e obra 1. [A] – [5] [B] – [3] [C] – [7] [D] – [1] [E] – [2] [F] – [4] [G] – [8] [H] – [6] [I] – [9]

Coluna B

EXPRESSÃO ORAL Sintetize, oralmente, em 2-3 minutos, os aspetos mais significativos da vida e da obra de Fernão Lopes, baseando-se nas informações recolhidas no documento áudio e no exercício realizado anteriormente.

Planifique o seu texto numa perspetiva cronológica.

Crónica d'El-Rei D. João I com iluminura da vista de Lisboa do século XV, Torre do Tombo.

68

Crónica de D. João I

LEITURA D. João I é figura central da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes. Leia o texto seguinte, que apresenta alguns aspetos biográficos deste monarca português. Responda, depois, aos itens propostos.

PROFESSOR Leitura 7.1; 7.4; 7.6; 8.1 Educação Literária 16.1

D. João I

5

10

15

20

No ano de 1357 nasce D. João, mais um filho ilegítimo do infante D. Pedro. Ascende, ainda criança, a Mestre de Avis e, liderando a ordem e frequentando a corte, atravessará os governos de seu pai e de seu irmão D. Fernando. Após a morte deste monarca (1383), os acontecimentos precipitam-se e diversas forças sociais guindam-no1 a um protagonismo político que fará dele regedor e defensor do reino e, finalmente, rei de Portugal, nas Cortes de Coimbra de 1385. Desde logo, com os apoios certos e tendo como braço armado Nuno Álvares Pereira, vai submetendo opositores e combatendo os Castelhanos, dentro e fora do reino, numa sequência de guerras que só cessarão com a assinatura de paz em 1411. Então, nascida que já era uma vasta prole2 do seu casamento com D. Filipa de Lencastre em 1387, e consolidada uma corte, D. João governará apoiando-se na sua linhagem e em fiéis vassalos. Conquista Ceuta em 1415, uma vitória sobre os infiéis que lhe garante fama em toda a cristandade. […] D. João morre a 14 de agosto de 1413, ao fim de um longo reinado de 48 anos, e foi sepultado no Mosteiro da Batalha, marco real e simbólico da sua vitória real. Consagra-se em mito de rei guerreiro fundador de uma nova dinastia, que na visibilidade da Capela do Fundador, panteão fúnebre de Avis, se projeta em memória aristocrática de uma prestigiada linhagem e de uma realeza sacralizada. As metamorfoses3 iniciais da ascensão política do Mestre suscitaram diferentes e contraditórias leituras de historiadores, mais luminosas umas, mais sombrias outras. Já como monarca, D. João veio a acolher e a recolher, para além da morte, uma “boa memória” de rei justo, vitorioso, devoto e culto, que pela voz dos povos foi proclamado pai dos Portugueses.

a. 1357 e 1413 (14 de agosto). b. Filho ilegítimo do infante D. Pedro. c. Mestre de Avis, regedor e defensor do reino e rei de Portugal. d. 1385. e. Em 1387, com D. Filipa de Lencastre. f. Guerra com Castela, assinatura da paz em 1411, conquista de Ceuta. g. Justo, vitorioso, devoto e culto.

1

conduzem-no, dão-lhe descendência 3 mudanças, etapas 2

Maria Helena da Cruz Coelho, D. João I, "Reis de Portugal", Círculo de Leitores, 2005, texto da contracapa.

1. Construa o retrato de D. João I, preenchendo a tabela seguinte com informações

retiradas do texto.

Nascimento e morte

a.

Ascendência

b.

Títulos

c.

Início do reinado

d.

Casamento

Feitos guerreiros e políticos

e.

f.

Qualidades

g.

69

Fernão Lopes

E S C R I TA SÍNTESE Leia atentamente o texto que se segue.

Fernão Lopes – o historiador 1.O Parágrafo O pai da historiografia portuguesa é o conde D. Pedro de Barcelos (Livro de Linhagens e Crónica de 1344), apesar de muitos crerem ser Fernão Lopes. Este segue a tradição (Crónica de 1419), mas provocará uma evolução na nossa historiografia, que se tornará mais complexa, de narrativa ordenada cronologicamente, mais rigorosa e baseada em fontes diversificadas. 2.O Parágrafo A situação profissional do cronista – conservador durante 36 anos da Torre do Tombo – permitiu-lhe o acesso a muitos e diversificados documentos. 3.O Parágrafo Recorreu a fontes diversas: as narrativas, as de natureza diplomática e arquivística e a um conjunto de outros testemunhos (memórias dispersas, informações orais, entre outros).

5

10

15

20

25

6.O Parágrafo É a pedido de D. Duarte e do Infante D. Pedro que o cronista transforma em legítimo o ilegítimo.

70

Creio […] que ao estilo de trabalho e à própria conceção de história de Fernão Lopes não será manifestamente estranha a sua condição profissional. [...] A sua contribuição mais importante para o desenvolvimento da historiografia na Europa deve em grande parte atribuir-se ao estreito contacto que manteve com a Torre do Tombo, do qual foi conservador durante 36 anos […] [e daí] a reconhecida utilização, pelo cronista, de uma vasta gama de documentos [...]. Em primeiro lugar, e inevitavelmente, as fontes narrativas, [...] o grande alimento das Crónicas. [...] A par das fontes narrativas, Fernão Lopes utilizou também [...] fontes de natureza diplomática e arquivística. [...] Por fim, parece-me ser pertinente agrupar num terceiro bloco um conjunto de outros testemunhos [...] nomeadamente, memórias dispersas [...], informações orais, elementos lendários e tradicionais, representações artísticas e até epitáfios. [...] Fernão Lopes é um escritor ao serviço do poder e dele inteiramente dependente, do ponto de vista económico e profissional. [...] Quer isto dizer que a própria existência do escritor só se justificava em função da utilidade de que este se pudesse revestir para o meio que o acolhia e remunerava. [...]

4.O Parágrafo É um escritor ao serviço do poder e, por isso, tem de ser útil para os que o remuneravam. 5.O Parágrafo A sua principal missão consistia em justificar os acontecimentos ocorridos entre 1383-1385 e legitimar o poder vigente na primeira metade do séc. XV.

Fernão Lopes é, ainda hoje, muitas vezes imaginado como o “pai” da historiografia portuguesa. Já Lindley Cintra demonstrou, porém, que esta nasceu no reinado de D. Dinis (isto é, na 1.a metade do século XIV), em resultado de um notável esforço de imitação da historiografia castelhana, e tem no conde D. Pedro de Barcelos o autor dos seus primeiros textos fundamentais: o Livro de Linhagens e a Crónica de 1344. Cerca de três quartos de século mais tarde, Lopes inscreve-se nesta tradição, sendo aliás a Crónica de 1419 um excelente testemunho dessa realidade. Com ele, consolidar-se-á uma nova fase na evolução da nossa historiografia: aquela que garante a transição do estilo do “memorial” ou do “cronicão” para o estado de “crónica”. A simples anotação do acontecimento, por vezes apenas conhecido pela tradição oral e registado sem demasiada preocupação de rigor, cede definitivamente o lugar a uma narrativa ordenada (diacronicamente), de estrutura e apresentação internas muito mais complexas e apurada no manuseamento de materiais informativos muito diversificados.

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Lopes pretendeu, sobretudo, justificar os acontecimentos verificados em Portugal em 1383-1385, tanto no plano das suas ocorrências específicas como (e fundamentalmente) no das grandes decisões dali decorrentes. Com isso, visava, bem entendido, legitimar o comando político vigente na primeira metade do século XV! [...] Competiu a Fernão Lopes, cerca de meio século depois (e, recorde-se, por encomenda expressa de D. Duarte, mais tarde confirmada pelo infante D. Pedro), transformar em legítimo o ilegítimo. João Gouveia Monteiro, Fernão Lopes, texto e contexto, Coimbra, Minerva, 1988, pp. 85-88 e 114-116 (adaptado).

Crónica de D. João I

Recorde os passos para elaborar uma síntese, tendo em conta as três fases essenciais: fase preparatória, fase da redação e fase da revisão. COMO ESCREVER UMA SÍNTESE 1. Fase preparatória

• ler para apreender a estrutura e o sentido global do texto; • sublinhar as ideias/os factos essenciais e subjacentes à progressão textual (eliminando repetições, pormenores, exemplificações, …);

• selecionar vocabulário ou expressões-chave; • assinalar conectores ou articuladores que ligam frases entre si, estabelecendo relações de semelhança, de contraste/oposição, de anterioridade ou de posterioridade, causa, etc.;

• registar, à margem do texto, a ideia central de cada parágrafo. 2. Fase da redação

• utilizar uma linguagem própria; • respeitar as ideias do texto, não obrigatoriamente pela ordem de apresentação; • evitar a colagem ao texto de partida; • eliminar pormenores desnecessários; • substituir sequências textuais por outras mais económicas; • inserir juízos de valor, comentários. Exemplificação

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Fern não Lopes, Lop o es, nã ão se send ndo nd o o pa p isto is t ri to r og ogra rafi ra f a Po fi Port r ug rt ugue ueesa sa,, mu muit ito it o co cont ntri nt ribu ri buiu bu iu p araa eel ar la. a Fernão não sendo paii da h historiografia Portuguesa, muito contribuiu para ela. Efetivamente, Efetiv i am men ente t , é co ccom m o Conde Cond Co ndee de nd d Barcelos Bar a ce c lo loss (Livro (Li L vr vroo de Linhagens) Linha innha hage gens ge ns)) que ns que esta esta nasce. nas asce ce. Contuce ce. Cont Co ntu nt udo, Lopes, d , Lope do p s, s embora emb bor o a siga s gaa a tradição, si tra radi diçã ção, çã o, provocará pro ovo voca cará ca rá uma uma evolução evo v lu luçã ção çã o na n nossa nos ossa sa historiografia, his isto tori to riog ri ogra og raafi f a, a que que se se tornaráá ma mais m iss ccomplexa o pl om p exxa na cconstrução on o nsttru ução çãão na narr narrativa rrat rr ativ at iva va (o (obe (obedecendo bede be dece de cend ce ndo nd o à cr cron cronologia), onol on olog ol ogia og ia), ia ), m mais aiss ri ai rigorosa, igo goro ro osa s , porque diversificadas: narrativas, dee na natureza diplomática po orq quee baseada bas asea e daa eem m fo ffontes ntes nt es d ivver e si s fi f ca cada das: da s ass na n rrat rr ativ at ivas iv as,, as d as natu ture tu reza re za d iplo ip lomá lo máti má tica ti ca e aarquirqui rq uivística outros Terr ex exercido naa To Torre Tombo vííst s icaa e outr ou utrros ttestemunhos. esteemunhoss. Te es T xerci c do d ffunções unçõ un ções çõ ess n orr r e do T ombo om bo ffacilitou-lhe acilililit ac itou it ou-l ou -lhe -l h o aacesso he cess ce ssso ssaas fo font ntes ess. Po P réém, não é cronista cro onist s a isento issen e to o pois poi o s está está ao ao serviço seerv rviç içço de D. D. Duarte Duar Du arte ar te e d o in infa fant fa ntee nt a es essas fontes. Porém, do infante incumbiram poder D Fernando, D. Fer e na n nd ndo, o que que o incumbi b ra r m dee legitimar legitim imar im ar o p od der vigente, vig i en ig ente te, consequente te c ns co n eq eque uent ue ntee dos nt do os acontecimenacon ac on nte teci c me ci men ntos ocorridos ocor oc o ridos entre 1383-1385). 1383-138 3 5) 5. (111 (1 11 palavras) palavr pal avras) avr as))

3. Fase da revisão

• verificar a articulação lógica das ideias (coerência) e a gramaticalidade da escrita (coesão);

• corrigir falhas ao nível da ortografia, da acentuação, da pontuação, da sintaxe e da seleção do vocabulário;

• respeitar a extensão textual indicada, normalmente correspondente a um quarto do texto de partida, ou seja, um texto de 400 palavras poderá originar uma síntese de 100.

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Fernão Lopes

LEITURA Leia o texto de natureza expositiva a seguir apresentado, no qual se retoma a questão da crise dinástica em Portugal descrita por Fernão Lopes, e responda às questões da página seguinte.

A maior das vitórias Por Luís Almeida Martins

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Batalha de Aljubarrota, Jean de Wavrin (séc. XV), in Crónicas de Inglaterra, c. 1470-1480.

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O casamento, em 1383, da filha única de D. Fernando, “O Formoso”, com o rei Juan I de Castela pôs em perigo a independência de Portugal. Com efeito, quando nesse mesmo ano o soberano português morreu, o castelhano achou-se com direitos à coroa do nosso país − e legalmente tinha razão. Foi então que, enquanto a maior parte da nobreza lusa apoiava o pretendente estrangeiro, a burguesia e o povo se revoltaram, pois não queriam ser governados por um castelhano. Existia já então um claro sentimento nacional. Houve, assim, um levantamento popular em Lisboa e gerou-se uma grande confusão de norte a sul. Sob a orientação da burguesia mercantil, D. João, o Mestre da ordem de Avis, foi eleito nas ruas Regedor e Defensor do Reino, e uma das primeiras coisas que fez foi assassinar o Conde de Andeiro, amante da rainha viúva Leonor Teles e partidário dos castelhanos. E foi no meio disto tudo que Juan de Castela decidiu invadir Portugal para se apoderar do trono a que se achava com direito. Um exército entrou pela fronteira do Alentejo, mas, a 6 de abril de 1384, foi derrotado em Atoleiros (Portalegre) pelos portugueses comandados

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por Nuno Álvares Pereira, um elemento da pequena nobreza, amigo do Mestre de Avis, e na altura nomeado Condestável, ou seja, comandante supremo das tropas. Entretanto, outro exército castelhano cercava Lisboa, que se defendeu como pôde. Uma terceira invasão entrou pela Beira Alta, mas foi travada em julho de 1385 perto de Trancoso. As coisas estavam a correr bem para as cores nacionais. E pode mesmo falar-se de cores nacionais, porque nessa altura já o Mestre de Avis fora aclamado rei de Portugal nas Cortes de Coimbra, com o nome de D. João I. […] Mas se a revolução de 1383, um verdadeiro movimento social da burguesia e do povo, unidos contra a nobreza, fora bem sucedida, a guerra contra Castela estava longe de se encontrar ganha. No verão de 1385, Juan I de Castela entrou pessoalmente em Portugal à cabeça de um grande exército de 32 mil homens. Toda a nobreza do seu país fazia parte dele e muitos cavaleiros franceses (aliados de Castela) também. [...] Os invasores traziam consigo 16 canhões, coisa que por cá nunca se vira. Ao encontro dessa imponente máquina de guerra partiu uma pequena hoste portuguesa de 6 mil homens, comandada por Nuno Álvares Pereira. [...] Ao terem conhecimento de que os invasores se encontravam perto de Leiria, os nossos resolveram entrincheirar-se num terreno que lhes pareceu adequado para travar batalha. Era um planaltozinho próximo de Aljubarrota, e ali cavaram uns buracos-armadilha (as covas de lobo). Os castelhanos acharam preferível contornar o planalto e lançar o ataque num ponto onde o declive era menos acentuado. Mas era exatamente o que os portugueses esperavam: alteraram o seu posicionamento e, aproveitando as defesas construídas durante a noite, aguardaram a pé firme o impetuoso ataque da cavalaria inimiga, lançado quando o sol já declinava.

Crónica de D. João I

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A batalha resolveu-se numa hora e saldou-se pela derrota dos castelhanos e dos franceses, que debandaram em desordem. Muitos fugitivos foram chacinados pela população da zona. […] Portugal garantiu assim a independência, com D. João I no trono. Foi graças a esta vitória que Portugal deixou de ser

importunado pela ambição expansionista de Castela e se pôde dedicar em paz à sua própria ambição expansionista − esta para outros continentes. Haveria pois todos os motivos e mais um para que 14 de agosto fosse feriado nacional. Visão, edição online, 26 de dezembro de 2011 (adaptado, consultado em dezembro de 2017).

1. Selecione a alternativa que completa corretamente o sentido de cada afirmação. 1.1

O assunto que domina o texto relaciona-se com [A] a crise política vivida em Portugal no século XIV. [B] o casamento da filha de D. Fernando, D. Beatriz. [C] o sentimento popular após a morte de D. Fernando. [D] a crónica de Fernão Lopes sobre Leonor Teles.

1.2 A invasão de Portugal pelo rei de Castela estava fundamentada [A] na legitimidade do sucessor português. [B] no sentimento nacional de independência. [C] na legitimidade conferida pelo casamento. [D] na vontade dos portugueses e dos castelhanos. 1.3 O pretendente castelhano ao trono português era apoiado [A] pela nobreza e pela burguesia. [B] por parte da nobreza lusitana. [C] pelo povo e pela burguesia. [D] por todos os burgueses castelhanos. 1.4 A ideia defendida pelo autor no final do texto é a de que [A] o dia 14 de agosto deveria ser feriado nacional. [B] devemos a D. João I a nossa independência. [C] teria sido preferível a vitória dos castelhanos. [D] sem a vitória lusa não haveria Descobrimentos.

E S C R I TA Sintetize o texto anterior em cerca de 150 palavras.

PROFESSOR Leitura 7.1; 7.4; 7.6; 8.1 1.1 [A] 1.2 [C] 1.3 [B] 1.4 [A] Escrita 11.1; 12.1; 12.3; 12.4 Luís Martins refere que o casamento de D. Beatriz com o rei de Castela, que se considerava herdeiro da coroa portuguesa, ameaçou a independência de Portugal. Porém, enquanto parte da nobreza lusitana o apoiava, o povo e a burguesia revoltaram-se contra a governação castelhana, com várias subversões em todo o país. O Mestre de Avis, sob orientação da burguesia, empreendeu o assassinato do conde Andeiro. Neste clima, D. Juan invadiu Portugal para se apoderar do trono, mas foi derrotado em Atoleiros pelos portugueses liderados por Nuno Álvares. Entretanto, outro exército castelhano invadia Lisboa e uma terceira invasão iniciou-se pela Beira Alta. A guerra estava longe do fim. Então, D. Juan invadiu Portugal com um forte exército. Para o travar, um grupo de portugueses, comandando por Nuno Álvares, dirigiu-se para Leiria, fixando-se num planalto próximo de Aljubarrota, e reprimiu o ataque inimigo. Deste modo, os portugueses garantiram a independência. (148 palavras)

BLOCO INFORMATIVO – p. 283 MANUAL – pp. 70-71

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Fernão Lopes

PROFESSOR

Link "Conta-me História" Oralidade 1.1; 1.4 1. a. V b. F – D. Fernando já tinha morrido na altura da batalha de Aljubarrota, cujos principais protagonistas foram D. João, Mestre de Avis, e Nuno Álvares Pereira. c. V d. F – Foi durante toda a primeira dinastia que isso aconteceu. e. F –Entre D. Fernando e D. João de Castela. f. F – A sua avó. g. F – Por ser amante do Conde Andeiro. h. F – Havia também a possibilidade de ascender ao trono o infante D. João de Portugal, o outro meio-irmão de D. Fernando e que se revelava como o herdeiro mais legítimo por ser filho de D. Inês de Castro, ao passo que D. João, Mestre de Avis, era fruto de uma relação de D. Pedro com a aia, Teresa Lourenço. i. V j. V k. F – Parte da nobreza apoiava D. Leonor Teles, apesar de a sua regência colocar em causa a independência nacional. l. F – Havia também uma parte da nobreza portuguesa que apoiava D. João. m. V n. F –Inicialmente o Mestre de Avis hesitou, perante o plano traçado por Álvaro Pais, mas, depois, acabou por aceitá-lo.

COMPREENSÃO DO ORAL Visione e escute atentamente um excerto do programa Conta-Me História, da RTP, sobre a fase da História retratada por Fernão Lopes na Crónica de D. João I. 1. Assinale como verdadeiras ou falsas as

afirmações seguintes. Corrija as falsas. a. A batalha de Aljubarrota surge na sequência da crise política de 1383-1385. b. Um dos protagonistas da batalha de Aljubarrota foi o rei D. Fernando.

Conta-me História, RTP

c. A crise política portuguesa é também fruto da crise social e económica que deflagrava na Europa. d. É sobretudo no reinado de D. Fernando que Portugal atinge crescimento em termos geográficos, económicos e demográficos. e. Na sequência das guerras fernandinas, foi assinado o Tratado de Salvaterra de Magos entre D. Fernando e Henrique II de Castela. f. Em caso de morte de D. Fernando, e se o príncipe herdeiro não tivesse ainda idade suficiente para assumir o trono, ficaria como regente de Portugal a sua mãe. g. O povo odiava D. Leonor Teles sobretudo pelos maus conselhos dados a D. Fernando nas questões políticas que envolviam Portugal e Castela. h. D. João, Mestre de Avis, revela-se como a única alternativa legítima ao Tratado de Salvaterra de Magos. i. O infante D. João de Portugal fugiu para Espanha, depois de ter assassinado a mulher, na expectativa de aceder ao trono. j. O povo acreditava que D. Leonor Teles estava envolvida no assassinato da irmã. k. Parte na nobreza apoioava D. Leonor Teles por considerar que esta asseguraria a independência nacional. l. Os únicos apoiantes do Mestre de Avis eram oriundos do povo. m. D. Nuno Álvares Pereira assume-se como o paradigma das virtudes da arte militar. n. Álvaro Pais apresentou o seu plano ao Mestre de Avis e este aprovou-o de imediato.

Escrita 10.2; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1 Tópicos: Introdução: Crise de 1383-85, identificada como uma crise dinástica, dado que Portugal estava sem sucessor ao trono e na iminência de vir a ser governado por um rei castelhano.

E S C R I TA Redija um texto expositivo, de 120 a 150 palavras, baseando-se nas informações recolhidas a partir do visionamento do documentário. Siga as seguintes orientações.

• Introdução: identificação do assunto. • Desenvolvimento: − duas causas da crise dinástica; − movimentações em prol do rei castelhano e do Mestre de Avis.

BLOCO INFORMATIVO – p. 283 MANUAL – pp. 26-27

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• Conclusão: solução encontrada pela fação apoiante do Mestre.

Crónica de D. João I

INFORMAR PROFESSOR

Leia os tópicos apresentados abaixo e resolva a atividade proposta.

Fernão Lopes e a Crónica de D. João I • Fernão Lopes é o autor da primeira e segunda partes da Crónica de D. João I. • Nestas duas partes, assiste-se ao protagonismo da “comunal gente”, a arraia

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miúda, ou seja, toda a população que, nas ruas e praças das cidades, se agita, se manifesta ruidosamente, sempre com extrema liberdade de linguagem e de atitudes, a favor da causa nacional, sendo, no entanto, por vezes, manipulada.

• Os sacrifícios desse povo unido são engrandecidos pelo cronista, sobretudo nos capítulo 148, em que se relata o cerco de Lisboa, confundindo-se a população com a própria cidade. No entanto, Fernão Lopes não se inibe de relatar também a crueldade de uma multidão enfurecida noutros capítulos. 10

• Para além das ruas e adros da cidade, os espaços interiores (câmaras do paço real e dos castelos) também são cenário dos acontecimentos relatados, de jogos de conveniências pessoais e da ânsia de poder de D. Leonor Teles.

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• Fernão Lopes, não se limitando apenas ao relato de feitos guerreiros, apresenta-nos, nesta crónica, uma larga visão de conjunto da época, em páginas empolgantes, que exibem o realismo visualista de uma reportagem, pois o narrador situa-se no próprio momento em que ocorrem os factos que narra. O recurso a diversas sensações (visual e auditiva, principalmente) também contribui para esse realismo descritivo. • O cronista dá vida a essas personagens, com a reconstituição de diálogos que

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as caracterizam indiretamente, e revela também a sua subjetividade ao longo da narração dos factos, tecendo comentários, fazendo juízos de valor, recorrendo a frases exclamativas e interrogações retóricas. Maria Ema Tarracha Ferreira, Crónicas de Fernão Lopes, 2.a ed.,Lisboa, Ulisseia, 1988, p. 13 e pp. 30-36 (adaptado).

1. Selecione das seguintes afirmações as que são falsas e proceda à sua correção.

a. Na Crónica de D. João I, Fernão Lopes relata apenas as batalhas travadas pela conquista da independência nacional.

Desenvolvimento: Duas causas da crise: morte de D. Fernando sem deixar sucessor, estando a sua filha casada com D. João de Castela; regência entregue a D. Leonor Teles, viúva de D. Fernando e amante do conde Andeiro, que apoiava a causa castelhana. Movimentações em prol do rei castelhano e do Mestre de Avis: uma parte da nobreza apoiava a rainha D. Leonor Teles; o povo e alguns nobres colocaram-se do lado do Mestre de Avis, que tinha como apoiantes Álvaro Pais, chanceler-mor do falecido rei D. Fernando e Nuno Álvares Pereira. Conclusão: Solução encontrada: matar o conde Andeiro, movimentado o povo para a defesa do Mestre, anunciando o contrário – era o conde que matava o Mestre. Leitura 7.2; 7.4 1 a. F – Relata outros factos, tais como o fervor do povo (agitação) nas ruas, os seus sacrifícios e as intrigas no paço. c. F – É empolgante, vivo, sendo realista, com recurso a sensações diversificadas no relato dos factos. d. F – Existem diálogos, em discurso direto, que caracterizam também as personagens. e. F – O cronista tece comentários pessoais, expressa sentimentos, emoções e juízos de valor através de frases exclamativas.

b. A força popular assume, nesta crónica, um lugar de destaque no desenrolar dos acontecimentos. c. O modo de narrar deste cronista é monótono e fantasista. d. A caracterização das personagens envolvidas na ação é feita apenas pelo narrador. e. O cronista, enquanto narrador, adota sempre uma perspetiva objetiva sobre o que relata. f. Fernão Lopes também destaca no povo a sua agressividade.

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Fernão Lopes Afirmação da consciência coletiva | Atores (individuais e coletivos)

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Leia o excerto do capítulo 11 da Crónica de D. João I* e responda às questões que se seguem.

Do alvoroço que foi na cidade cuidando que matavom o Meestre, e como aló foi Alvoro Paaez1 e muitas gentes com ele.

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* FIXAÇÃO DE TEXTO

Fernão Lopes, in Teresa Amado (apresentação crítica), Crónica de D. João I de Fernão Lopes (textos escolhidos), ed. revista, Lisboa, Editorial Comunicação, 1992 [1980].

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burguês bastante rico, padrasto de João das Regras, que fora chanceler-mor dos reis D. Pedro e D. Fernando; abandonou este cargo com o pretexto de doença; mas, segundo Fernão Lopes, ter-se-ia afastado da corte, envergonhado com a desonra de D. Fernando, ocasionada pelo licencioso comportamento da rainha; tornou-se o chefe da insurreição de 1383; 2 quando; 3 combinado; 4 alvoraçavom-se nas voontades: revoltavam-se; 5 depressa; 6 parte da armadura que defendia a cabeça; 7 porque; 8 em lugar de; 9 onde; 10 não parava; 11 lá ; 12 não faltava; 13 Conde João Fernandes Andeiro, nobre galego, amante da rainha e por ela nomeado conde de Ourém; 14 todos feitos duũ coraçom: todos animados pela mesma coragem; 15 desejo; 16 como forom: logo que chegaram; 17 arrombassem; 18 alguns deles; 19 traidor; 20 adúltera; alusão a D. Leonor Teles; 21 insistiam; 22 insultos

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O Page do Meestre que estava aa porta, como2 lhe disserom que fosse pela vila segundo já era percebido3, começou d’ir rijamente a galope em cima do cavalo em que estava, dizendo altas vozes, braadando pela rua: – Matom o Meestre! matom o Meestre nos Paaços da Rainha! Acorree ao Meestre que matam! E assi chegou a casa d’Alvoro Paaez que era dali grande espaço. As gentes que esto ouviam, saiam aa rua veer que cousa era; e começando de falar u~ us com os outros, alvoraçavom-se nas voontades4, e começavom de tomar armas cada uũ como melhor e mais asinha5 podia. Alvoro Paaez que estava prestes e armado com ũa coifa6 na cabeça segundo usança daquel tempo, cavalgou logo a pressa em cima du~ u cavalo que anos havia que nom cavalgara; e todos seus aliados com ele, braadando a quaes quer que achava dizendo: – Acorramos ao Meestre, amigos, acorramos ao Meestre, ca7 filho é del-Rei dom Pedro. E assi braadavom el e o Page indo pela rua. Soarom as vozes do arroido pela cidade ouvindo todos braadar que matavom o Meestre; e assi como viuva que rei nom tiinha, e como se lhe este ficara em logo8 de marido, se moverom todos com mão armada, correndo a pressa pera u9 deziam que se esto fazia, por lhe darem vida e escusar morte. Alvoro Paaez nom quedava10 d’ir pera alá11, braadando a todos: – Acorramos ao Meestre, amigos, acorramos ao Meestre que matam sem por quê! A gente começou de se juntar a ele, e era tanta que era estranha cousa de veer. Nom cabiam pelas ruas principaes, e atravessavom logares escusos, desejando cada uũ de seer o primeiro; e preguntando uũs aos outros quem matava o Meestre, nom minguava12 quem responder que o matava o Conde Joam Fernandez13, per mandado da Rainha. E per voontade de Deos todos feitos duũ coraçom14 com talente15 de o vingar, como forom16 aas portas do Paaço que eram já çarradas, ante que chegassem, com espantosas palavras começarom de dizer: – U matom o Meestre? que é do Meestre? quem çarrou estas portas? Ali eram ouvidos braados de desvairadas maneiras. Taes i havia que certeficavom que o Meestre era morto, pois as portas estavom çarradas, dizendo que as britassem17 pera entrar dentro, e veeriam que era do Meestre, ou que cousa era aquela. Deles18 braadavom por lenha, e que veesse lume pera poerem fogo aos Paaços, e queimar o treedor19 e a aleivos20. Outros se aficavom21 pedindo escaadas pera sobir acima, pera veerem que era do Meestre; e em todo isto era o arroido atam grande que se nom entendiam uũs com os outros, nem determinavom neũa cousa. E nom soomente era isto aa porta dos Paaços, mas ainda arredor deles per u homeũs e molheres podiam estar. Ũas viinham com feixes de lenha, outras tragiam carqueija pera acender o fogo cuidando queimar o muro dos Paaços com ela, dizendo muitos doestos22 contra a Rainha. De cima nom minguava quem braadar que o Meestre era vivo, e o Conde Joam Fernandez morto; mas isto nom queria neuũ creer, dizendo:

Crónica de D. João I

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– Pois se vivo é, mostrae-no-lo e vee-lo-emos. Entom os do Meestre veendo tam grande alvoroço como este, e que cada vez se acendia mais, disserom que fosse sua mercee23 de se mostrar aaquelas gentes, doutra guisa poderiam quebrar as portas, ou lhe poer o fogo, e entrando assi dentro per força, nom lhe poderiam depois tolher24 de fazer o que quisessem. Ali se mostrou o Meestre a ũa grande janela que viinha sobre a rua onde estava Alvoro Paaez e a mais força de gente, e disse: – Amigos, apacificae vos, ca eu vivo e são som a Deos graças! E tanta era a torvaçam25 deles, e assi tiinham já em creença que o Meestre era morto, que taes havia i que aperfiavom26 que nom era aquele; porem conhecendo-o todos claramente, houverom gram prazer quando o virom, e deziam uũs contra os outros: – Ó que mal fez! pois que matou o treedor do Conde, que nom matou logo a aleivosa com ele! Creedes em Deos27, ainda lhe há de viinr alguũ mal per ela!. Oolhae e veede que maldade tam grande, mandarom-no chamar onde ia já de seu caminho, pera o matarem aqui per traiçom. Ó aleivosa! já nos matou uũ senhor, e agora nos queria matar outro; leixae-a, ca ainda há mal d’acabar por estas cousas que faz. E sem duvida se eles entrarom dentro28, nom se escusara a Rainha de morte, e fora maravilha quantos eram da sua parte e do Conde poderem escapar. O Meestre estava aa janela, e todos oolhavom contra ele dizendo: – Ó Senhor! como vos quiserom matar per treiçom, beento seja Deos que vos guardou desse treedor! Viinde-vos, dae ao demo esses Paaços, nom sejaes lá mais. E em dizendo esto, muitos choravom com prazer de o veer vivo. Veendo el estonce29 que neũa duvida tiinha em sua segurança, deceo afundo30 e cavalgou com os seus acompanhado de todolos outros que era maravilha de veer.

1. Explique a importância do “Page do Meestre” no desenrolar da ação. 2. Refira os argumentos apresentados por Álvaro Pais para legitimar a defesa do Mestre. 3. Aponte o responsável pela morte do Mestre, na opinião do povo. 4. Caracterize a Rainha aos olhos do povo, justificando a opinião deste último. 5. Descreva a reação do povo ao aparecimento do Mestre à janela. 6. Complete o texto com expressões textuais que comprovem o afunilamento do espaço.

É evidente o afunilamento do espaço neste excerto, porquanto a ação se inicia nas a.____________ e nos b.____________ por onde o pajem lança o pregão, se localiza, depois, nos c.____________ e, por fim, termina num espaço limitado, inacessível ao povo, uma d.____________, onde o Mestre faz a sua aparição, como se de um santo se tratasse. Fernão Lopes parece assumir aqui o papel de um repórter que vai acompanhando o tumulto e o percurso da multidão até chegar ao local alvo das suas atenções. BLOCO INFORMATIVO – pp. 278-279

GRAMÁTICA 1. Identifique os processos fonológicos ocorridos na evolução das seguintes palavras: a. "Meestre" (l. 1) > mestre

c. "preguntando" (l. 24) > perguntando

b. "Acorree" (l. 4) > acorrei

d. "ne~ua" (l. 37) > nenhuma

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que fosse sua mercee: que se dignasse sua mercê ( = o Mestre) 24 impedir 25 perturbação 26 juravam 27 tão certo como Deus existir 28 se eles entrarom dentro: se eles tivessem entrado 29 então 30 abaixo PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.7; 15.1; 15.2; 16.1 1. O facto de o pajem entrar em cena, exclamando que matavam o Mestre, fez desenrolar todos os acontecimentos. Na verdade, a mensagem por si proferida mobilizou todo o povo de Lisboa e impeliu-o a sair à rua. As suas palavras fizeram também despertar na população um sentimento de revolta e de grande animosidade em relação àqueles que se assumiam como os protagonistas da tentativa de assassinato do Mestre de Avis. Por isso, o povo muniu-se de armas e, apressadamente e em magote, dirigiu-se aos paços da rainha.

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Funções sintáticas I

N DE R RE AP

APRENDER

ICA G RA M Á T APL ICA

R

PROFESSOR 2. Álvaro Pais relembrou que o Mestre era filho de um rei – o rei D. Pedro – e declarou não haver qualquer razão que justificasse a sua morte. 3. O povo atribuía a responsabilidade ao conde João Fernandes, que estaria a cumprir a vontade da rainha. 4. O povo não tinha uma opinião muito favorável em relação à rainha, pois considerava-a responsável pelo que estava a acontecer: “dizendo muitos doestos contra a rainha”, Era ainda opinião generalizada que esta era uma mulher adúltera e traidora: “Ó, que mal fez! Pois que matou o treedor do Conde, que nom matou logo a aleivosa com ele!” (ll. 56-57), pelo que se desejava a sua morte: “E sem duvida, se eles entrarom dentro, nom se escusara a Rainha de morte…” (l. 61). 5. Quando o Mestre surgiu à janela, no início, houve quem duvidasse dessa realidade. No entanto, e depois de o reconhecerem, todos se regozijaram pelo facto de ele estar vivo e lamentaram aquilo que acreditavam ser uma traição da rainha. 6. a. “ruas principaes” b. “logares escusos” c. “Paaços” (da Rainha) d. “grande janela” Gramática 17.3 1. a. crase b. sinérese c. metátese d. epêntese

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LEITURA

FUNÇÕES AUTO DESINTÁTICAS MORALIDADE composto per Gil Vicente por contemplação da sereníssima e muito católica rainha dona Lianor, nossa senhora, e representado per seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei dom Manuel, primeiro de PorFunções sintáticas Exemplos tugal deste nome. SUJEITO Comença a declaração e argumento da obra. Primeiramente, no presente auto, Função sintática desempenhada por um se fegura que, no ponto que acabamos de espirar, chegamos sùpitamente a um constituinte que comanda a concordância rio, o qual per força havemos de passar em um de dous batéis que naquele porto verbal. estão, scilicet1, um deles passa pera o paraíso e o outro pera o Inferno: os quais Pode ser desempenhada por batéis tem cada um seu arraiz na proa: o do Paraíso um Anjo, e o do Inferno um a. Fernão Lopes foi um grande escritor. – um grupo nominal (a.); arraiz infernal e um Companheiro. b. É evidente que Fernão Lopes é um grande – uma oração subordinada substantiva escritor. completiva (b.); O primeiro entrelocutor é um Fidalgo que chega com um Paje, que lhe leva um c. Quem já leu Fernão Lopes conhece o seu – uma oração subordinada substantiva relativa rabo mui comprido e ũa cadeira de espaldas. estilo. E começa o Arraiz do Inferno ante que (c.). o Esses Fidalgo venha. constituintes podem ser substituídos – pelos pronomes pessoais eu, tu, ele, ela, você, nós, vós, eles, elas, vocês (a’. e c’.); a’. Ele foi um grande escritor. – pelo pronome demonstrativo invariável isso, c’. Ele conhece o seu estilo. quando se trata de uma oração subordinada b’. Isso é evidente. substantiva completiva (b’.). O sujeito pode ser – simples, quando é constituído apenas por d. Os historiadores procuram sempre a um grupo nominal ou oracional (d.); verdade. / Quem lê Fernão Lopes fica – composto, quando é constituído por mais do encantando com a vivacidade do discurso. que um grupo nominal ou oracional (e.); e. O Mestre de Avis e D. Nuno Álvares Pereira – nulo, quando não existe realização foram figuras relevantes na crise dinástica. lexical (f.). f. [-] Conheço a Crónica de D. João I. PREDICADO Função sintática desempenhada por um grupo verbal, que inclui obrigatoriamente, além de um verbo ou complexo verbal, os respetivos complementos (a. e b.) ou predicativos (c.). Pode também incluir o modificador (do grupo verbal) (b.).

VOCATIVO É uma função sintática que ocorre em contextos de chamamento (frases imperativas, exclamativas, interrogativas). Identifica o interlocutor e aparece isolado por vírgula (a.).

a. O povo acorreu ao Paço. b. Os populares queriam a salvação do mestre a todo o custo. c. A crise de 1383-85 é um período muito importante.

a. Acorramos ao Mestre, amigos, que o matam sem razão!

Funções sintáticas COMPLEMENTO DIRETO É uma função sintática interna ao predicado, cujo constituinte é selecionado por um verbo transitivo direto. Pode ser desempenhada por – um grupo nominal (a.); – uma oração subordinada substantiva completiva (b.); – uma oração subordinada substantiva relativa (c.). Quando o complemento direto se apresenta sob a forma de um grupo nominal, pode ser substituído pelos pronomes pessoais me, te, se, o, a, nos, vos, se, os, as (a’.) Quando é um grupo oracional, pode ser substituído pelo pronome demonstrativo invariável isso, em posição pós-verbal, (b’.) ou por o (b’’.). COMPLEMENTO INDIRETO É uma função sintática interna ao predicado, cujo constituinte é selecionado por um verbo transitivo indireto. Pode ser desempenhada por um grupo preposicional, geralmente introduzido pela preposição a, simples ou contraída (a.). Pode ser substituído pelos pronomes pessoais me, te, lhe, nos, vos, lhes (a’.) COMPLEMENTO OBLÍQUO É uma função sintática interna ao predicado, cujo constituinte é selecionado por um verbo transitivo indireto. Pode ser desempenhada por – um grupo preposicional (a.); – um grupo adverbial (b.).

COMPLEMENTO AGENTE DA PASSIVA É uma função sintática de uma frase passiva, cujo constituinte se inicia pela preposição por, simples ou contraída, e que corresponde ao sujeito da frase ativa (a.).

Exemplos

a. O povo aclamou o Mestre de Avis. b. O povo pensava que o Mestre tinha sido alvo de traição. c. O povo viu à janela do Paço quem tanto desejava.

a’. O povo aclamou-o.

b’. O povo pensava isso. b’’. O povo pensava-o.

a. Após a revolta, D. Leonor Teles escreveu a D. João de Castela. a’. Após a revolta, D. Leonor Teles escreveu-lhe.

a. O povo confiava no Mestre de Avis. b. Saído de Castela, D. João chegou rapidamente aqui.

a. A morte do Conde Andeiro foi engendrada por Álvaro Pais.

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APRENDER

E

S

Funções sintáticas

DAR TU

R

ICA G RA M Á T A PR ATIC

1

São exemplos de verbos copulativos: ser, estar, ficar, parecer, permanecer, tornar-se, revelar-se, ...

LEITURA

AUTO DE MORALIDADE composto per Gil Vicente por contemplação da sereFunções sintáticas Exemplos níssima e muito católica rainha dona Lianor, nossa senhora, e representado per seu mandado ao poderoso PREDICATIVO DO príncipe SUJEITO e mui alto rei dom Manuel, primeiro de Pora. Fernão Lopes foi guarda-mor É uma função sintática interna ao predicado, cujo tugal deste nome. da Torre do Tombo. constituinte é selecionado por um verbo copulativo1. Comença a declaração e argumento da obra. Primeiramente, presente auto, b. As suas crónicas no ficaram célebres. Pode ser desempenhada por se– fegura no (a.); ponto que acabamos de espirar, c. A chegamos leitura da suasùpitamente obra é do maior a um um grupoque, nominal – um grupoper adjetival (b.); rio, o qual força havemos de passar em um de interesse. dous batéis que naquele porto trabalho do João sobre o autor – um grupo preposicional (c.);passa pera o paraíso e d. estão, scilicet1, um deles oO outro pera o Inferno: os quais ficou bem. – um grupo adverbial batéis tem cada um(d.). seu arraiz na proa: o do Paraíso um Anjo, e o do Inferno um

arraiz infernal e um Companheiro. MODIFICADOR Em termos gráficos, o modificador de nome apositivo distingue-se do restritivo por surgir separado por vírgulas.

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a. Os portugueses derrotaram É uma função sintática não selecionada por nenhum O primeiro entrelocutor é um Fidalgo que chega com um Paje, que lhe leva um os castelhanos na batalha de núcleo, seja verbal seja oracional (frásico). rabo comprido e ũa o Arraiz do Inferno ante que Aljubarrota. Podemui ser desempenhada porcadeira de espaldas. E começa o –Fidalgo venha. b. Eles lutaram corajosamente. um grupo preposicional (a.); c. Sempre que o Mestre de Avis o – um grupo adverbial (b.); pediu, o povo português combateu. – uma oração subordinada adverbial (c.). d. O mestre de Avis, nos Paços da Em início de frase ou entre constituintes Rainha, foi apoiado pelo povo. obrigatórios, isola-se geralmente por vírgula (c. e d.). MODIFICADOR DO NOME RESTRITIVO É uma função sintática não selecionada pelo nome que o antecede ou precede, restringindo a referência desse nome. Pode ser desempenhada por – um grupo preposicional (a.); – um grupo adjetival que estabelece concordância com o nome (b.); – uma oração subordinada adjetiva relativa restritiva (c.).

a. A cidade de Lisboa foi cercada pelos castelhanos. b. Os textos mais antigos dão-nos uma visão elogiosa dos reis portugueses. c. As crónicas que Fernão Lopes escreveu retratam o povo como um verdadeiro herói.

MODIFICADOR DO NOME APOSITIVO É uma função sintática não selecionada pelo nome que o antecede ou precede, acrescentando-lhe informação acessória. Surge isolado por vírgula(s), parênteses ou travessões. Pode ser desempenhada por – um grupo preposicional (a.); – um grupo adjetival que estabelece concordância com o nome (b.); – um grupo nominal (c.); – uma oração subordinada adjetiva relativa explicativa (d.)

a. O povo, em alvoroço, revelou-se partidário da causa do mestre. b. O povo – emocionado e grato – deu vivas ao rei. c. Fernão Lopes, cronista do reino, viveu entre os séculos XIV e XV. d. A população de Lisboa, que durante o cerco da cidade passou muita fome, nunca deixou de apoiar o Mestre.

APLICAR 1. Associe a coluna A à coluna B de modo a indicar a função sintática dos constituintes

sublinhados em cada frase. Coluna A [A] D. Leonor Teles e todos os presentes ficaram estupefactos com a morte do Conde Andeiro.

Coluna B

[1] Complemento direto

[B] Toda a cidade se manifestou contra D. Leonor. [C] Por causa do cerco, houve muita fome em Lisboa.

[2] Complemento indireto

[D] D. João de Castela enviou tropas para Portugal. [E] Depois da morte do Conde Andeiro, começou a insurreição.

[3] Complemento oblíquo

[F] O povo pedia ao Mestre que não o abandonasse. [G] Durante o cerco de Lisboa, homens e mulheres defenderam a cidade de várias maneiras.

[4

Modificador

[H] Muitas das pessoas cercadas pelas muralhas estavam esfomeadas. [I] Durante a Batalha de Aljubarrota, D. Nuno Álvares Pereira dirigiu preces a Deus.

[5] Predicativo do sujeito

2. Identifique os modificadores existentes nas frases que se seguem. a. Com a fome, viveram-se tempos difíceis em Lisboa. b. Álvaro Pais, cabecilha da revolução, pedia ao povo que acorresse ao Mestre. c. O acordo que os reis de Portugal e de Castela assinaram não agradava ao povo. 3. Identifique as funções sintáticas exercidas pelos constituintes das seguintes frases. a. O povo dirigiu-se aos paços da rainha. b. D. Leonor Teles, mãe de D. Beatriz, governou Portugal. c. O povo de Lisboa permaneceu cercado durante meses. d. Efetivamente, D. João ordenou às tropas que combatessem. e. Infeliz, o povo procurava em Deus algum conforto. 3.1 Reescreva as frases que incluam complementos diretos ou indiretos e substi-

tua-os pelo respetivo pronome.

PROFESSOR Gramática 18.1 1. [A]–[5]; [B]–[3]; [C]–[4]; [D]–[3]; [E]–[4]; [F]–[2]; [G]–[1]; [H]–[5]; [I]–[2] 2. a. “Com a fome” – modificador do grupo verbal; “difíceis” – modificador do nome restritivo, "em Lisboa" – modificador do grupo verbal; b. “cabecilha da revolução” – modificador do nome apositivo; c. “que os reis de Portugal e de Castela assinaram” – modificador do nome restritivo, "não" – modificador do grupo verbal. 3. a. “O povo” – sujeito; “dirigiu-se aos paços da rainha” – predicado; “aos paços da rainha” – compl. oblíquo; “da rainha” – modificador do nome restritivo. b. “D. Leonor Teles, mãe de Beatriz” – sujeito; “mãe de D. Beatriz” – modificador do nome apositivo; “governou Portugal” – predicado; “Portugal” – compl. direto. c. “O povo de Lisboa” – sujeito; “de Lisboa” – modificador do nome restritivo; “permaneceu cercado durante meses” – predicado; “cercado” – predicativo do sujeito; “durante meses” – modificador do grupo verbal. d. “Efetivamente” – modificador; “D. João” – sujeito; “ordenou às tropas que combatessem” – predicado; às tropas – compl. indireto; que combatessem – compl. direto. e. “Infeliz” – modificador do nome apositivo; “o povo” – sujeito; “procurava em Deus algum conforto” – predicado; “em Deus – compl. oblíquo; “algum conforto” – compl. direto. 3.1 b. D. Leonor Teles, mãe de D. Beatriz, governou-o. d. Efetivamente, D. João ordenou-lho. e. Infeliz, o povo procurava-o em Deus.

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Fernão Lopes Afirmação da consciência coletiva

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Leia o seguinte excerto do capítulo 115 da Crónica de D. João I e responda à questão apresentada na página seguinte.

Per que guisa estava a cidade corregida pera se defender, quando el-Rei de Castela pôs cerco sobr’ela.

5

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1

palavras, ditos; 2 alusão ao capítulo anterior, onde se descreve o soberbo acampamento do rei de Castela, que se estendia de Santos até Campolide e outros lugares em volta; 3 inimigos; 4 coragem; 5 logo que; 6 lezírias (terras que ficam na margem do rio); 7 abastecimento; 8 refugiaram-se; 9 aprouve, agradou; 10 e alguns; 11 em direção a; 12 aí; 13 que poseram todo o seu: que puseram em segurança os seus haveres; 14 necessidade; 15 reparação, fortificação; 16 armas que disparavam setas a grandes distâncias; 17 abundância; 18 setas grandes; 19 de boa categoria social, burgueses; 20 quadrelas, lanços de muralha onde se colocavam os vigias; 21 quando; 22 apressadamente; 23 designados; 24 avivavom-se os corações deles: sentiam-se mais corajosos; 25 operários; 26 folga; 27 onde

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Nem uũ falamento1 deve mais vizinho seer deste capitulo que havees ouvido2, que poermos logo aqui brevemente de que guisa estava a cidade, jazendo el-Rei de Castela sobr’ela; e per que modo poinha em si guarda o Meestre, e as gentes que ~ 3 dentro eram, por nom receber dano de seus emigos ; e o esforço e fouteza4 que contra eles mostravom, em quanto assi esteve cercada. Onde sabee que como5 o Meestre e os da cidade souberom a viinda del-Rei de Castela, e esperarom seu grande e poderoso cerco, logo foi ordenado de recolherem pera a cidade os mais mantiimentos que haver podessem, assi de pam e carnes, come quaes quer outras cousas. E iam-se muitos aas liziras6 em barcas e batees, depois que Santarem esteve por Castela, e dali tragiam muitos gaados mortos que salgavom em tinas, e outras cousas de que fezerom grande açalmamento7; e colherom-se8 dentro aa cidade muitos lavradores com as molheres e filhos, e cousas que tiinham; e doutras pessoas da comarca d’arredor, aqueles a que prougue9 de o fazer; e deles10 passarom o Tejo com seus gaados e bestas e o que levar poderom, e se forom contra11 Setuval, e pera Palmela; outros ficarom na cidade e nom quiserom dali partir; e taes i12 houve que poserom todo o seu13, e ficarom nas vilas que por Castela tomarom voz. Os muros todos da cidade nom haviam mingua14 de boom repairamento15; e em seteenta e sete torres que ela teem a redor de si, forom feitos fortes caramanchões de madeira, os quaes eram bem fornecidos d’escudos e lanças e dardos e beestas de torno16, e doutras maneiras com grande avondança17 de muitos viratões18. […] E ordenou o Meestre com as gentes da cidade que fosse repartida a guarda dos muros pelos fidalgos e cidadãos honrados19; aos quaes derom certas quadrilhas20 ~ d´armas pera ajuda de cada uũ guardar bem a sua. Em cada e beesteiros e homees quadrilha havia uũ sino pera repicar quando tal cousa vissem, e como21 cada uũ ouvia o sino da sua quadrilha, logo todos rijamente22 corriam pera ela. […] E nom soomente os que eram assiinados23 em cada logar pera defensom, mas ainda as outras gentes da cidade, ouvindo repicar na See, e nas outras torres, avivavom-se os corações deles24; e os mesteiraes25 dando folgança26 a seus oficios, logo todos com armas corriam rijamente pera u27 diziam que os Castelãos mostravom de viinr. Ali viriees os muros cheos de gentes, com muitas trombetas e braados e apupos esgremindo espadas e lanças e semelhantes armas, mostrando ~ fouteza contra seus emigos.

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Nom curavom28 entom do texto que diz: “Que mais ajuda a egreja o reino com suas orações, que os cavaleiros com as armas”; nom se guardava ali a degratal29: “Clerici arma portantes”30, aos quaes segundo dereito nom convem de tomar armas, posto que seja pera defensom da terra; mas clerigos e frades, especialmente da Trindade, logo eram nos muros, com as melhores que haver podiam. […] E nom embargando31 todo isto, o Meestre que sobre todos tiinha especial cuidado da guarda e governança da cidade, dando seu corpo a mui breve sono, requeria32 per muitas vezes de noite os muros e torres com tochas acesas ante si, bem acompanhado de muitos que sempre consigo levava. Nom havia i neuũs revees33 dos que haviam de velar, nem tal a que esqueceesse cousa do que lhe fosse encomendado; mas todos muito prestes a fazer o que lhe mandavom, de guisa que, a todo boom regimento que o Meestre ordenava, nom minguava avondança de trigosos34 executores. […] Ó que fremosa cousa era de veer! Uũ tam alto e poderoso senhor como el-Rei de Castela, com tanta multidom de gentes assi per mar come per terra, postas em tam grande e boa ordenança, teer cercada tam nobre cidade! E ela assi guarnecida contra ele de gentes e d’armas com taes avisamentos35 por sua guarda e defensom! Em tanto que diziam os que o virom, que tam fremoso cerco de cidade nom era em memoria d’home~ es que fosse visto de mui longos anos atá aquel tempo.

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não se importavam; disposição da Igreja; 30 “clérigos empunhando armas”; 31 não obstante 32 visitava; 33 soldados que faltavam à chamada, rebeldes 34 diligentes, rápidos 35 preparativos 29

1. Ordene as seguintes afirmações, de acordo com a ordem sequencial do texto, indi-

PROFESSOR

cando as linhas que justificam essa seriação. [A] O esforço e o envolvimento do Mestre são realçados pelo facto de este dormir

pouco e de vigiar constantemente as defesas da cidade.

Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.7; 15.1; 15.2; 16.1

[B] Entre os portugueses, uns associaram-se à defesa da cidade, outros coloca-

ram-se ao lado do inimigo. [C] O Mestre tinha a função de assegurar que todas as medidas tomadas para a

proteção da cidade estavam a ser executadas. [D] Fernão Lopes refere que se vai debruçar sobre a situação vivida na cidade de

Lisboa aquando do cerco castelhano. [E] O cronista enuncia os procedimentos adotados pela população para se pre-

caver do cerco, nomeadamente a recolha de mantimentos para o interior das muralhas.

1. [D] (ll. 1-5) [E] (ll. 6-17) [B] (ll. 18-22) [C] (ll.23-27) [H] (ll. 28-34) [G] (ll. 35-39) [A] (ll. 40-47) [F] (ll. 48-53)

[F] Apesar de ser inerente a um historiador a procura pela verdade dos factos

e tanto quanto possível ser objetivo, Fernão Lopes não se coíbe de expressar a sua opinião quando traça o paralelo entre a força castelhana e a força portuguesa. [G] Os próprios membros do clero davam mostras de uma consciência coletiva,

dirigindo-se às muralhas e pegando em armas, o que ia contra a lei da Igreja. [H] A consciência coletiva é explorada no texto sobretudo pela forma como se des-

taca o envolvimento de cada uma das classes sociais no desempenho das suas funções.

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Fernão Lopes Afirmação da consciência coletiva

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Leia o excerto seguinte do capítulo 148 da Crónica de D. João I.

Das tribulações que Lixboa padecia per mingua1 de mantiimentos.

1

falta 2 porque 3 antiga medida para líquidos 4 bolbos 5 melaço cristalizado 6 onde 7 viviam deles (dos porcos) 8 negociantes de gado 9 passando fome 10 fome

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Na cidade nom havia triigo pera vender, e se o havia, era mui pouco e tam caro que as pobres gentes nom podiam chegar a ele; ca2 valia o alqueire quatro livras; e o alqueire do milho quareenta soldos; e a canada3 do vinho tres e quatro livras; e padeciam mui apertadamente, ca dia havia i que, ainda que dessem por uũ pam ũa dobra, que o nom achariam a vender; e começarom de comer pam de bagaço d’azeitona, e dos queijos4 das malvas e raizes d’ervas, e doutras desacostumadas cousas, pouco amigas da natureza; e taes i havia que se mantiinham em alféloa5. ~ e moços esgaravatanNo logar u6 costumavom vender o triigo, andavom homees do a terra; e se achavom alguũs grãos de triigo, metiam-nos na boca sem teendo outro mantiimento; outros se fartavom d’ervas, e beviam tanta agua, que achavom ~ e cachopos jazer inchados nas praças e em outros logares. mortos homees Das carnes, isso meesmo, havia em ela grande mingua; e se alguũs criavom porcos, mantiinham-se em eles7; e pequena posta de porco, valia cinco e seis livras que era ũa dobra castelãa; e a galinha, quareenta soldos; e a duzia dos ovos, doze soldos; e se almogávares8 tragiam alguũs bois, valia cada uũ sateenta livras, que eram catorze dobras cruzadas, valendo entom a dobra cinco e seis livras; e a cabeça e as tripas, ũa dobra; assi que os pobres per mingua de dinheiro, nom comiam carne e padeciam mal; e começarom de comer as carnes das bestas, e nom soomente os pobres e minguados, mas grandes pessoas da cidade, lazerando9, nom sabiam que fazer; e os geestos mudados com fame10, bem mostravom seus encubertos padecimentos. Andavom os moços de tres e de quatro anos pedindo pam pela cidade por amor de Deos, como lhes ensinavam suas madres, e muitos nom tiinham outra cousa que lhe dar senom lagrimas que com eles choravom que era triste cousa de veer; e se lhes davom tamanho pam come ũa noz, haviam-no por grande bem. Desfalecia o leite aaquelas que tiinham crianças a seus peitos per

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mingua de mantiimento; e veendo lazerar seus filhos a que acorrer nom podiam, choravom ameúde sobr’ eles a morte ante que os a morte privasse da vida. Muitos esguardavom as prezes11 alheas com chorosos olhos, por comprir o que a piedade manda, e nom teendo de que lhes acorrer, caíam em dobrada tristeza. Toda a cidade era dada a nojo12, chea de mezquinhas querelas, sem neuũ prazer que i houvesse: uũs com gram mingua do que padeciam; outros havendo doo dos atribulados; e isto nom sem razom, ca se é triste e mezquinho o coraçom cuidoso13 nas cousas contrairas que lhe aviinr podem, veede que fariam aqueles que as continuadamente tam presentes tiinham? Pero14 com todo esto, quando repicavom, neuũ nom mostrava que era faminto, mas forte e rijo contra seus ~ emigos15. Esforçavom-se uũs por consolar os outros, por dar remedio a seu grande nojo, mas nom prestava conforto de palavras, nem podia tal door seer amansada com neũas doces razões; e assi como ~ falando com é natural cousa a mão ir ameúde onde see16 a door, assi uũs homees outros, nom podiam em al departir17 senom em na mingua que cada uũ padecia. Ó quantas vezes encomendavom nas missas e preegações que rogassem a Deos devotamente por o estado da cidade! E ficados os geolhos18, beijando a terra, braadavom a Deos que lhes acorresse, e suas prezes nom eram compridas! Uũs choravom antre si, mal-dizendo seus dias, queixando-se por que tanto viviam, como se dissessem com o Profeta: “Ora veesse a morte ante do tempo, e a terra cobrisse nossas faces, pera nom veermos tantos males!” Assi que rogavom a morte que os levasse, dizendo que melhor lhe fora morrer, que lhe seerem cada dia renovados desvairados padecimentos. Outros se querelavom19 a seus amigos, dizendo que forom desaventuirada gente, que se ante nom derom a el-Rei de Castela que cada dia padecer novas mizquiindades20, firmando-se de todo nas peores cousas que fortuna em esto podia obrar21. Sabia porem isto o Meestre e os de seu Conselho, e eram-lhe doorosas d’ouvir taes novas; e veendo estes males a que acorrer nom podiam, çarravom suas orelhas do rumor do poboo. Como nom querees que maldissessem sa vida e desejassem morrer alguũs ~ e molheres, que tanta deferença há d’ouvir estas cousas aaqueles que as homees entom passarom, como há da vida aa morte?

11

preces tristeza, aborrecimento 13 preocupado 14 contudo 15 inimigos 16 está 17 em al departir: falar sobre outra coisa 18 ficados os geolhos: ajoelhados 19 queixavam 20 misérias 21 firmando-se de todo nas peores cousas que fortuna em esto podia obrar: só pensando nos maiores males que naquelas circunstâncias lhe podiam acontecer 12

PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.5; 14.7; 15.1; 15.2; 16.1

1. Preencha a seguinte tabela com base na leitura do excerto. Situação dos mantimentos na cidade a. Caracterização geral da população durante o cerco b. c. d. e. f. g. Reação do Mestre h. Ponto de vista do cronista

1. a. escassez de bens como trigo, milho, vinho, carne; os alimentos que existiam eram muito caros e difíceis de obter. b. sofredora. c. forte perante o inimigo (esquecendo a fome). d. solidária no sofrimento. e. crente em Deus. f. desejosa da morte. g. arrependida da adesão à causa de D. João I (alguns elementos do povo). h. ciente da gravidade da situação, mas consciente de nada poder fazer, tentava ignorar os rumores. i. compreende o desespero do povo decorrente das necessidades por que passava; refere a humanidade do Mestre ao apontar a sua dor perante os lamentos do povo.

i.

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PA R A S A B E R

Crónica de D. João I CRÓNICA DE D. JOÃO I 1.a parte – Pré-Aljubarrota Narração dos acontecimentos desde a morte do rei D. Fernando até à aclamação de D. João como rei.

2.a parte – Pós-Aljubarrota Narração dos acontecimentos ocorridos durante o reinado de D. João I.

ATORES INDIVIDUAIS E COLETIVOS D. Leonor Teles

De cariz dramático, revela ser determinada, persistente, dominadora, indomável, astuciosa e adúltera.

Conde Andeiro

Assume a ameaça castelhana sobre a integridade nacional, acabando por funcionar como “bode-expiatório” para se desencadear a revolução.

Rei de Castela

Representa a força de Castela, mostrando-se orgulhoso, ambicioso e calculista.

Álvaro Pais

Apresenta-se como chefe da insurreição de 1383 e mentor do assassinato do Conde Andeiro. Revela-se astuto, determinado e destemido.

D. João, Mestre de Avis

Manifesta-se como um homem vulgar, que tem dúvidas e hesitações e que chega a cometer erros. No entanto, é também o líder das multidões, o homem que assume a sua missão e que se mostra ambicioso, revelando, por isso, um cariz realista.

Nuno Álvares Pereira

Revela-se como um herói com um forte pendor místico. A par da sua faceta espiritual e do virtuosismo que o rege, distingue-se pela sua determinação, coragem, perspicácia e lealdade.

Povo

Apresenta-se como a força gregária, animada de uma vontade definida e coletiva, representada, por isso, em expressões como “todos postos sob um mesmo cuidado”, “todos animados de uma só vontade”, “enquanto a cidade soube”. Apesar de ignorante, supersticioso e, por vezes, até cruel, revela-se como a força motora da revolução e, por isso, aquela que mais padece, resiste e se afirma.

PROFESSOR

Apresentação Galeria de imagens

Apresentação Síntese da Unidade

Teste interativo Fernão Lopes

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AFIRMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA COLETIVA A insurreição que se opera em Portugal em 1383, ainda que tenha sido encabeçada por Álvaro Pais, um dos burgueses mais influentes do reino, só vinga porque foi apoiada pelo povo. É, efetivamente, a plebe que, colocando em causa a validade da sucessão dinástica por não reconhecer legitimidade ao rei de Castela para assumir a regência de Portugal, empurra o Mestre de Avis para a revolução. É, pois, esta consciência da identidade nacional, este sentimento patriótico generoso e esta ligação à terra, em detrimento da eleição régia, que faz do povo o protagonista da insurreição que culminou com o triunfo da vontade popular.

PA R A V E R I F I C A R

Verifique os seus conhecimentos após a leitura e a análise dos excertos da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes.

1. Identifique as afirmações verdadeiras e as afirmações falsas. Corrija as falsas.

a. A Crónica de D. João I, escrita por Fernão Lopes, debruça-se sobre a ascensão e o reinado do infante D. João de Portugal, filho de D. Pedro e de D. Inês de Castro. b. A Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, surge como uma forma de legitimar a coroação do Mestre de Avis como rei. c. A crise de 1383-1385, que se viveu em Portugal, assume sobretudo contornos políticos. d. D. Leonor Teles é uma das figuras principais relacionadas com a crise de 1383-1385. e. A insurreição inicia-se com a morte de D. Fernando, perpetrada por D. João, Mestre de Avis, e idealizada por Álvaro Pais. f. O homicídio do amante de D. Leonor Teles surge como resposta à ameaça castelhana que pairava sobre a coroa portuguesa. g. Os protagonistas do assassinato ocorrido nos paços da rainha manipularam o povo, de modo a garantir o seu apoio. h. O povo regozijou-se com o facto de o Mestre de Avis estar vivo, mas condenou a morte do Conde Andeiro. i. A questão da sucessão ao trono português colocou em confronto os sentimentos do povo e as ambições de uma parte da nobreza. j. O povo apoiava D. Leonor Teles por reconhecer nela a garantia da independência nacional e por considerar que o Mestre de Avis não era um sucessor legítimo ao trono. k. A chegada do rei de Castela a Portugal deve-se a D. Leonor Teles. l. Como forma de retaliar a invasão castelhana, D. João, Mestre de Avis, pôs cerco à cidade de Lisboa. m. Durante o cerco de Lisboa, as necessidades foram residuais porque aqueles que se mantiveram dentro das muralhas da cidade se prepararam convenientemente.

PROFESSOR Educação Literária 1. a. F – A Crónica de D. João I debruça-se sobre a ascensão e reinado do Mestre de Avis, filho de D. Pedro e de uma aia, Teresa Lourenço. b. V c. V d. V e. F – A insurreição inicia-se com a morte do Conde Andeiro. f. V g. V h. F –O povo regozijou-se com o facto de o Mestre de Avis estar vivo e apoiou o assassinato do Conde Andeiro. i. V j. F –Apesar de o Mestre de Avis não ser um sucessor legítimo ao trono, o povo apoiava-o por reconhecer nele a única garantia da independência nacional. k. V l. F – Foram os castelhanos que puseram cerco à cidade de Lisboa, como forma de dissuadir o Mestre de Avis dos seus propósitos. m. F – Apesar de se terem preparado antes do cerco, a determinada altura, e dada a sua duração, as necessidades do povo, sobretudo em termos alimentares, passaram a ser muitas. n. F – O Mestre soube de antemão que os castelhanos tencionavam cercar Lisboa e, por isso, deu ordens para as pessoas se abastecerem e protegerem. o. V

n. O cerco de Lisboa ocorreu de forma inesperada, sem que ninguém estivesse a contar com isso. o. O povo apresenta-se como a força motora e impulsionadora da revolta ocorrida por questões dinásticas.

87

PA R A R E C U P E R A R

Crónica de D. João I

1. Complete o texto com as palavras propostas. • legitimando • verdade

• nação

• independência

• exclamações • atribulações

• povo • escritor

• historiador • história

• D. João I

• acesso

repórter

Na Crónica de D. João I, Fernão Lopes retratou, como nenhum outro cronista, a crise de 1383-85, procurando a a.

dos factos. A função de guarda-mor da

Torre do Tombo permitiu-lhe o b. c.

a documentos importantes da nossa

. O cronista destaca o mestre de Avis, futuro d.

, e.

ção após a morte de D. Fernando. Mas é o f. a consciência de uma g. Tal como um i.

PROFESSOR

Gramática 2. a. apócope do “m” / palatalização b. síncope do “d”/ sinérese; c. apócope do “m”/ sonorização d. vocalização 3. [A] – [2] [B] – [3] [C] – [1] [D] – [1] [E] – [6] [F] – [4] [G] – [5]

quem sai enaltecido, ao revelar

prestes a perder a h.

do cerco de Lisboa. Apesar da impar-

cialidade pretendida, o narrador emociona-se com as descrições que faz, servindo-se das k.

e das interrogações retóricas. Concluindo, Fernão Lopes não foi só um l.

da nossa história, mas sobretudo um notável m.

que fixou um momento fulcral , atento ao pormenor e ao

visualismo descritivo ao longo da narração. 2. Indique todos os processos fonológicos que ocorreram na evolução das seguintes

palavras. a. Filiam > filha b. Sabedes > sabeis c. Amicum > amigo d. nocte > noite 3. Associe cada elemento da coluna A ao único elemento da coluna B que lhe corres-

ponde, de modo a identificar a função sintática destacada em cada frase.z Coluna A

Coluna B

[A] Quando o povo soube que matavam o Mestre, acorreu logo ao paço.

[1] Complemento direto

[B] Álvaro Pais foi astucioso na sua estratégia.

[2] Modificador

[C] Embora o Mestre de Avis hesitasse, acabou por aceitar a ideia do amigo.

[3] Predicativo do sujeito

[D] Todos queriam saber se o Mestre estava vivo. [E] Quem cercou Lisboa foi D. João de Castela. [F] Os habitantes de Lisboa pediram ao Mestre que os protegesse. [G] Mal os sinos repicavam, todos se dirigiam logo para a muralha.

88

.

, Fernão Lopes convida-nos a “esguardar como se estivés-

semos presentes”, e leva-nos até às j. 1. a. verdade b. acesso c. história d. D. João I e. legitimando f. povo g. nação h. independência i. repórter j. atribulações k. exclamações l. historiador m. escritor

a sua elei-

[4] Complemento indireto [5] Complemento oblíquo [6] Sujeito

Almeida Garrett

PA R A AVA L I A R

Crónica de D. João I PROFESSOR

GRUPO I Leia o excerto do capítulo 148 da Crónica de D. João I e responda às questões.

Apresentação Soluções Ficha de Avaliação

Das tribulações que Lixboa padecia per mingua de mantiimentos.

5

10

15

20

25

30

35

Estando a cidade assi cercada na maneira que já ouvistes, gastavom-se os mantiimentos cada vez mais, por as muitas gentes que em ela havia, assi dos que se colherom dentro, do termo1, de home~ es aldeãos com molheres e filhos, come dos que veerom na frota do Porto; e alguũs se tremetiam2 aas vezes em batees e passavom de noite escusamente contra as partes de Ribatejo, e metendo-se em alguũs esteiros, ali carregavom de triigo que já achavom prestes, per recados que ante mandavom. E partiam de noite remando mui rijamente, e algũas galees quando os sentiam viinr remando, isso meesmo remavom a pressa sobre eles; e os batees por lhe fugir, e elas por os tomar, eram postos em grande trabalho. Os que esperavom por tal triigo andavom per a ribeira3 da parte de Exobregas, aguardando quando veesse, e os que velavom, se viiam as galees remar contra lá, repicavom logo por lhe acorrerem. Os da cidade como ouviam o repico, leixavam o sono, e tomavom as armas e saía muita gente, e defendiam-nos aas beestas4 se compria, ferindo-se aas vezes dũa parte e doutra; porem nunca foi vez que5 tomassem alguũ, salvo ũa que6 certos batees estavom em Ribatejo com triigo, e forom descubertos per uũ homem natural d’Almadãa, e tomados per os Castelãos; e el foi depois tomado e preso e arrastado, e decepado e enforcado. E posto que tal triigo algũa ajuda fezesse, era tam pouco e tam raramente, que houvera mester de o multiplicar como fez Jesu Cristo aos pães, com que fartou os cinco mil home~ es. Em esto gastou-se a cidade assi apertadamente, que as pubricas esmolas começarom desfalecer7, e neũa geeraçom de pobres achava quem lhe dar pam; de guisa que a perda comum vencendo de todo a piedade, e veendo a gram mingua dos mantiimentos, estabelecerom deitar fora as gentes minguadas8 e nom perteencentes pera defensom; e esto foi feito duas ou tres vezes, ataa lançarem fora as mancebas mundairas9 e Judeus e outras semelhantes, dizendo que pois taes pessoas nom eram pera pelejar, que nom gastassem os mantiimentos aos defensores; mas isto nom aproveitava cousa que muito prestasse. Os Castelãos aa primeira10 prazia-lhe com eles, e davom-lhe de comer e acolhimento; depois veendo que esto era com fame, por gastar mais a cidade, fez el-Rei tal ordenança que n~ euũ de dentro fosse recebido em seu arreal, mas que todos fossem lançados fora; e os que se ir nom quisessem, que os açoutassem e fezessem tornar pera a cidade; e esto lhes era grave de fazer, tornarem per força pera tal logar, onde chorando não esperavom de seer recebidos; e taes i havia que de seu grado se saíam da cidade, e se iam pera o arreal, querendo ante de todo seer cativos, que assi perecerem morrendo de fame.

GRUPO I Educação Literária 14.3; 14.4; 14.7; 15.1; 15.2; 16.1; 17.3; 18.1; 19.7 1. Dentro das muralhas recolheu-se muita gente vinda de todos os locais da capital e ainda do Porto, o que causou uma grande escassez de alimentos (“gastavom-se os mantiimentos cada vez mais, por as muitas gentes em que ela havia”, ll. 1-2). 2. A principal dificuldade era o ataque dos castelhanos aos barcos que transportavam o trigo. 3. A comparação salienta a falta de alimentos vivida na cidade, de tal forma que só um milagre, como o da multiplicação dos pães, poderia pôr fim à fome. 4. Para fazer face à escassez de alimentos, o povo de Lisboa começou a expulsar de dentro das muralhas aqueles que não acrescentavam nada à defesa da cidade, como as prostitutas e os judeus. 5. Os castelhanos, inicialmente, acolhiam as pessoas que eram expulsas, pensando que saíam por iniciativa própria, querendo aliar-se a Castela.

1

zona de Lisboa; 2 arriscavam; pela margem; 4 com tiros de besta; 5 porem nunca foi vez que: nunca aconteceu que; 6 salvo ũa que: exceto, quando…; 7 escassear; 8 miseráveis, 9 prostitutas; 10 ao princípio 3

1. Releia o primeiro parágrafo do excerto.

Refira uma consequência que o cerco castelhano trouxe à cidade de Lisboa, fundamentado a sua resposta com uma expressão textual.

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Almeida Garrett

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Crónica de D. João I 2. Indique a principal dificuldade sentida pela população durante o transporte do tri-

go para dentro das muralhas. 3. Comente o sentido da comparação “como fez Jesu Cristo aos pães, com que fartou

~ (l. 19). os cinco mil homees.” 4. Releia o terceiro parágrafo do texto e enuncie a medida tomada para fazer face à

escassez de alimentos. 5. Indique por que razão, inicialmente, os castelhanos ficavam contentes com a ex-

pulsão de algumas pessoas de dentro das muralhas.

GRUPO II Leia o texto e responda ao que lhe é solicitado.

A grandeza de Fernão Lopes

5

90

Mas não basta saber criticar as fontes para ser um historiador. O melhor historiador, conforme hoje o conhecemos, será aquele que compreender os mais complexos fatores de uma dada sociedade em transformação, determinar a cada passo a importância relativa de cada um deles, de maneira a poder dar-nos dessa sociedade, não uma faceta, mas uma visão de conjunto. Também sob este aspeto a literatura medieval não nos oferece verdadeiros historiadores. Normalmente, os cronistas medievos estão ligados a uma corte real ou senhorial, a um convento, a um grupo social aristocrático ou governante, e apenas relatam os acontecimentos que interessam 10 a esse restrito meio em que parece resumir-se para eles uma nação inteira ou até todo o universo. Trabalhando geralmente para cortes de cavaleiros, a história aparece através deles como uma série de feitos de cavalaria, torneios, aventuras de reis ou 15 grandes senhores, intrigas palacianas. A grande massa da nação, os interesses e os ideais que impelem os conjuntos de homens são por estes cronistas ou desconhecidos ou incompreendidos. […] Em contraste com esta visão unilateral e frag20 mentária de outros cronistas medievais, Fernão Lopes dá-nos da sociedade portuguesa dos séculos XIV e XV um amplo panorama em que entram múltiplos e contraditórios fatores, e em que, combinada com as ações individuais, desempenha um papel 25 preponderante a movimentação de grandes forças coletivas e anónimas. Lendo Fernão Lopes, não perdemos de vista a corte e a sua vida íntima, bodas e amores, intrigas e conjuras palacianas. Mas vemos também, e com um 30 relevo proporcionado, a cidade de Lisboa e os seus

35

40

mesteirais, que largam o trabalho para organizar “uniões” na rua, participar em comícios populares, pegar em armas quando é a ocasião; vemos alfaiates, tanoeiros, camponeses salientar-se porque falam em nome de grandes agrupamentos que adquirem vontade própria; vemos gente de trabalho arrebanhada à força nas aldeias, para as galés que o rei D. Fernando envia contra a esquadra castelhana; vemos “povos do reino” assediando os castelos, derrubando-lhes as muralhas, que uma longa opressão tinha calado. […] A grandeza de Fernão Lopes como historiador consiste, principalmente, nesta visão multifacetada que abrange os aspetos sociais da vida nacional e que lhe permitiu transmitir-nos o fresco global de uma época, em vez de simples narrativas de aventuras individuais vistas segundo a ideologia cavaleiresca, como as que nos apresentam outros cronistas medievos. Graças a esta superioridade de visão, possuímos hoje um precioso relato de conjunto da grande crise social que marcou em Portugal a passagem da Idade Média para os tempos modernos.

PROFESSOR GRUPO II Leitura 8.1 1. 1.1 [A] 1.2 [C] 1.3 [C]

António José Saraiva e Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa, 17.a ed., Porto, Porto Editora, 2010, pp. 124-127.

1. Selecione a alternativa que completa corretamente cada afirmação, considerando

a globalidade do texto. 1.1

Um bom historiador, nos tempos modernos, será aquele capaz de [A] apresentar uma visão global da sociedade. [B] apresentar uma imagem detalhada dos indivíduos que a compõem. [C] centrar-se nas figuras mais representativas dessa sociedade. [D] interpretar corretamente as fontes de que dispõe sobre essa sociedade.

1.2 Os historiadores medievais [A] centravam-se nas grandes preocupações e nos ideais de uma sociedade. [B] realizavam o seu trabalho de forma autónoma e independente. [C] apresentavam uma imagem sectária da história. [D] apresentavam uma visão global da história. 1.3 No panorama medieval, Fernão Lopes [A] assume um papel preponderante, à imagem de outros cronistas do seu

tempo. [B] sobressai por conferir especial relevo aos heróis individuais. [C] contrasta por introduzir a força do elemento coletivo. [D] contrasta por apresentar uma visão fragmentária da sociedade portu-

guesa.

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Almeida Garrett

PA R A AVA L I A R

PROFESSOR

Crónica de D. João I 2. Assinale as afirmações que se seguem como verdadeiras ou falsas, transformando

as afirmações falsas em afirmações verdadeiras. Gramática 17.3; 18.1 2. a. F – Complemento agente da passiva. b. V c. F – “O melhor historiador” é o sujeito. d. F – “palaciana” é derivada por sufixação. e. F – É complemento oblíquo. f. V 3. 3.1. Sujeito simples. 3.2. Adjetivo qualificativo. 3.3. “visão multifacetada”. GRUPO III Escrita 11.1; 12.1; 12.3; 12.4; 13.1 Síntese O texto salienta a grandeza de Fernão Lopes enquanto cronista, distinguindo-o dos outros autores medievais, que relataram apenas acontecimentos íntimos da corte, pois estavam ao serviço de um rei ou de um nobre. Não são, por isso, verdadeiros historiadores, desconhecendo o que era a nação fora do ambiente palaciano. Fernão Lopes, pelo contrário, sem deixar de retratar a vida da corte, descreveu as ações empreendidas pelo povo de Lisboa, que se une para a defesa da Pátria, revelando a consciência coletiva que começava a desenhar-se na época representada. A sua obra dá-nos, assim, uma visão de conjunto de um período fulcral da nossa história, que marcou a passagem da Idade Média para a modernidade. (114 palavras)

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a. A expressão sublinhada na frase “A grande massa da nação, os interesses e os ideais que impelem a quase totalidade dos homens são por estes cronistas desconhecidos ou incompreendidos.” (ll. 15-18), é complemento oblíquo. b. Na passagem de “vita” para “vida” ocorreu a sonorização. c. Em “O melhor historiador […] será aquele que compreender os mais complexos fatores…” (ll. 1-3), o sujeito da frase é “aquele”. d. A palavra “palacianas” (l. 15) é derivada por prefixação. e. Na frase “A grandeza de Fernão Lopes como historiador consiste, principalmente, nesta visão multifacetada” (ll. 38-39), o constituinte sublinhado é complemento indireto. f. O último parágrafo textual inicia-se com um conector de valor causal. 3. Responda aos itens apresentados. 3.1 Identifique a função sintática desempenhada pelo constituinte sublinhado em

“desempenha um papel preponderante a movimentação das grandes forças coletivas e anónimas”. (ll. 24-26). 3.2 Indique a classe de palavras a que pertence o vocábulo sublinhado em “A grandeza

de Fernão Lopes como historiador consiste, principalmente, nesta visão multifacetada”. (ll. 38-39). 3.3 Indique o referente do elemento sublinhado em “que lhe permitiu transmitir-nos o

fresco global de uma época” (ll. 39-40).

GRUPO III Faça a síntese do texto presente no grupo II em cerca de 100 palavras. (Não se esqueça de empregar, sempre que possível, vocabulário próprio.)

MÓDULO

2

1. Gil Vicente PARA CONTEXTUALIZAR | PARA INICIAR PARA DESENVOLVER

Educação Literária Farsa de Inês Pereira Leitura Exposição sobre um tema Apreciação crítica Escrita Síntese Apreciação crítica Oralidade [Compreensão/Expressão Oral] Documentário [Compreensão/Expressão Oral] Síntese [Expressão Oral] Apreciação crítica Gramática Lexicologia: campo semântico e campo lexical [Aprender/Aplicar] Lexologia: arcaísmos e neologismos [Aprender/Aplicar] Processos irregulares de formação de palavras [Aprender/Aplicar]

• Conectores • Processos fonológicos • Funções sintáticas • Classe de palavras • Subordinação PARA SABER | PARA VERIFICAR | PARA RECUPERAR | PARA AVALIAR

PARA CONTEXTUALIZAR

1465

1495

1498

Data provável do nascimento de Gil Vicente

Aclamação de D. Manuel I como rei de Portugal

Chegada de Vasco da Gama à India

1500 Descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral

1521

1536

1539

Aclamação de D. João III como rei de Portugal

Estabelecimento da Inquisição em Portugal

Início da atividade do Santo Ofício, em Portugal

Data provável da morte de Gil Vicente

Atente nos seguintes aspetos, para melhor compreender esta época, bem como Gil Vicente, autor que nela se insere e que irá ser objeto de estudo.

O Fim da Idade Média e o Humanismo

5

Séculos XV e XVI

Gil Vicente

• Verifica-se neste período, a nível europeu, a desintegração do sistema feudal, acompanhada de um grande surto de desenvolvimento económico (crescimento da produção artesanal e agrícola; desenvolvimento do comércio; criação das primeiras manufaturas; indícios de industrialização).

• Nasceu no reinado de Afonso V, testemunhou as lutas políticas do reinado de D. João II, a descoberta da costa africana, a chegada de Vasco da Gama à Índia, o fausto do reinado de D. Manuel, as perseguições sangrentas aos cristãos-novos e o estabelecimento da Inquisição em Portugal.

5

• Este desenvolvimento é favorecido pelos descobrimen-

• Inspirou-o o espírito crítico e realista característico da

tos ibéricos, o que também contribui para o desfazer das conceções medievais sobre o universo.

burguesia, que se traduziu na crítica atrevida aos vícios sociais.

• Surgem novos métodos de investigação, baseados na 10

15

observação e na experiência, o que implica uma rutura com o pensamento pedagógico e filosófico de base escolástica.

• A invenção da imprensa, em meados do século XV, por Guttenberg, veio permitir uma mais fácil circulação e divulgação das ideias e das notícias e o acesso à cultura por parte de um número cada vez maior de intelectuais de origem burguesa. Elaborado a partir de Amélia Pinto Pais, História da Literatura em Portugal, uma perspetiva didática. Época medieval e época clássica, vol. I, Porto, Areal Editores, 2004, p. 109.

94

10

15

• Foi, durante 35 anos, nas cortes de D. Manuel I e D. João III, uma espécie de organizador dos espetáculos palacianos, tendo alguma liberdade de expressão. • Alcançou na corte uma situação de prestígio, que lhe permitiu certas liberdades e audácias, de acordo com o ambiente intelectual renovador e agitado que se vivia. • Soube aproveitar essa situação para uma crítica atrevidíssima a diversos vícios da nobreza e do clero, tendo aparentemente o acordo do rei. Elaborado a partir de António José Saraiva (apresentação e leitura), Teatro de Gil Vicente, Lisboa, Dinalivro, ed. revista, 1988, pp. 9-12.

PARA INICIAR PROFESSOR

EXPRESSÃO ORAL Observe atentamente a sequência de imagens que se apresenta.

A

B

Legenda das imagens A. Barco de Vasco da Gama (pormenor), 1880, Ernesto Casanova. B. Iluminura medieval, séc. XV, Bibliothèque Boulogne-sur-mer. C. O Juízo Final (pormenor), 1535-1541, Miguel Ângelo, Capela Sistina, Vaticano. D. Tributo a Gil Vicente, Jardim dos Poetas, Oeiras. E. Diabo, Frade e Florença, Auto da Barca do Inferno, representação no Museu dos Jerónimos. F. Amantes, c. 1740, Pieter Jan van Reysschoot (1702-1776), Yale Center of British Art, Paul Mellon Collection, EUA. Oralidade 5.1; 5.2; 5.3; 6.1; 6.2; 6.3

C

E

D

F

1. No 9.o ano, contactou com uma obra de Gil Vicente. Selecione as imagens que se

poderão associar à obra estudada, justificando a sua escolha. 2. Considere as imagens C e F. Escolha uma delas e proponha uma justificação para

a sua adequação à obra estudada, atendendo à intenção do dramaturgo. Estruture o seu discurso, tendo em atenção:

· a organização pertinente das ideias; · a extensão temporal (2-3 minutos); · o vocabulário diversificado e cuidado; · a adequação de recursos verbais e não verbais: postura, tom de voz, articulação e expressividade.

1. As imagens B, C, D e E associam-se à obra Auto da Barca do Inferno, uma vez que representam, respetivamente, (B) os Cavaleiros, únicas personagens que embarcam na barca do Paraíso; (C) a punição “no outro mundo” (em virtude dos maus comportamentos na vida terrena); (D) as barcas e os barqueiros − o Anjo e o Diabo; (E) a personagem Frade que se faz acompanhar da sua moça Florença. As imagens A e F relacionam-se com o Auto da Índia: (A) a nau simbolizará a viagem do marido da Ama; (F) imagem que poderá aludir à temática central da obra − o adultério cometido pelas mulheres cujos maridos integravam as expedições marítimas. 2. Resposta de caráter pessoal. No entanto, o aluno deve referir a pertinência da imagem em função da intenção do autor: · em C, referente ao Auto da Barca do Inferno, criticar e modificar o comportamento humano, fazendo apelo à ideia da punição; · em F, Auto da Índia, chamar a atenção para algumas das consequências das expedições: o abandono das mulheres e a sua repercussão nos valores morais, visível, por exemplo, no tema do adultério.

95

Gil Vicente

PARA DESENVOLVER

PROFESSOR

COMPREENSÃO / EXPRESSÃO ORAL 1. Visualize e escute atentamente um

Apresentação

primeiro excerto fílmico relativo a Gil Vicente e à sua obra, retirado da série televisiva Grandes Livros.

“O teatro vicentino”

Vídeo Excerto fílmico relativo a Gil Vicente

Identifique como verdadeiras ou falsas as afirmações que se seguem. Corrija as falsas.

Áudio “A Pretexto”

a. No topo do Teatro Nacional D. Maria II existe uma estátua de Gil Vicente devido ao facto de este ter nascido na capital de Portugal.

Oralidade 1.1; 1.4; 2.1; 2.2; 3.1; 3.2; 5.1; 5.2; 5.3; 6.1; 6.2; 6.3 1. a. F – A estátua é justificada com o facto de Gil Vicente ser, popularmente, conhecido como o “pai” do teatro português. b. V c. F – O dramaturgo vai ao quarto da princesa para a distrair e representar o Monólogo do Vaqueiro. d. V e. F – Não segue o rumo das manifestações teatrais anteriores; pelo contrário, rompe com a tradição. f. V g. V 2. a. As datas relativas às obras vicentinas situam-se entre 1502 e 1536. b. Em 35 anos, Gil Vicente terá produzido cerca de cinquenta peças. c. Os responsáveis pela compilação da obra vicentina foram os seus filhos, que editaram um livro com as suas peças. d. Gil Vicente não só escrevia as peças como também as encenava, ajudava a representar e, posteriormente, as reescrevia para compilar em livro. e. Nas obras vicentinas, surgem temas como a morte, a vida, a astúcia, a honestidade e o tratamento de diferentes ideais humanos. f. O teatro vicentino é uma caricatura do século XVI e as suas figuras funcionam como caricaturas que não se devem generalizar, mas que visam tipos de homens existentes, como é o caso do fidalgo, no Auto da Barca do Inferno.

b. A obra vicentina bem como o seu autor foram recuperados na era romântica, nomeadamente por Almeida Garrett, em virtude do seu relevo e interesse literário. c. A intimidade de Gil Vicente com os membros da coroa permitiu-lhe entrar no quarto da jovem mãe de D. João III para apadrinhar o recém-nascido príncipe. d. O dramaturgo quinhentista viveu na corte cerca de 35 anos, onde escreveu, encenou e/ou dramatizou as suas obras, protegido pela rainha D. Leonor. e. A obra de Gil Vicente estende-se de 1502 a 1536 e engloba comédias, farsas e moralidades, seguindo, assim, o rumo das manifestações teatrais precedentes. f. O autor português desempenhava as funções de Mestre da Retórica da Representação, pelo que não só escrevia e representava as suas obras como também tinha a função de organizar as festas reais que servissem para celebrar efemérides. g. A obra do dramaturgo foi editada em 1562 e, posteriormente, em 1586. Contudo, o autor deixara de ser referenciado desde 1536 até 1834. 2. Na primeira emissão de A Pretexto (9 de outubro de 2012), programa de entrevistas

da RUC – Rádio Universidade de Coimbra −, o tema foi Gil Vicente. Como convidado, o professor José Augusto Cardoso Bernardes, especialista em estudos vicentinos, falou sobre aquele autor e a sua obra, comentando igualmente uma entrevista a Ricardo Araújo Pereira no Programa Nós e os Clássicos (SIC Notícias, maio de 2011) sobre o teatro de Gil Vicente. Escute a entrevista e recolha informação relativa aos tópicos que se apresentam, completando a tabela.

BLOCO INFORMATIVO –

p. 283

96

Gil Vicente, Grandes Livros, RTP

Datas balizadoras da produção vicentina

a.

Número de peças teatrais produzidas por Gil Vicente

b.

Responsáveis pela compilação da obra vicentina

c.

Atividades desempenhadas por Gil Vicente relacionadas com as peças teatrais da sua autoria

d.

Dois temas tratados na obra vicentina

e.

Relações entre o teatro de Gil Vicente e a sociedade da época

f.

2.1

Com base nas informações recolhidas no exercício anterior, elabore, oralmente, entre 2 a 3 minutos, uma síntese dos principais aspetos focados na entrevista.

Farsa de Inês Pereira

PROFESSOR

INFORMAR Leia a informação seguinte e os tópicos abaixo sobre a sátira vicentina e responda ao solicitado. Tendo como datas possíveis de nascimento e morte, respetivamente, 1465 e 1536, Gil Vicente situa-se num período de transição entre as eras medieval e renascentista. Assim, é provável que a sua obra reflita especificidades de uma e de outra época. Se, por um lado, apresenta aspetos medievais, nomeadamente no que se refere à forma e a certos temas, sobretudo ligados à preponderância da religião na vida do ser humano, por outro lado, apresenta uma visão crítica da sociedade e uma consciência dos problemas sociais característicos da época.

TEXTO A

A sátira e o ideal de ordem

Leitura 7.2; 7.5; 8.1 Ed. Literária 14.3; 14.4; 16.1 1. São personagens que apresentam comportamentos e elementos característicos representativos de determinada classe social ou profissional. Podem representar também vícios ou defeitos humanos muito generalizados. Os exemplos referidos no textos são o Escudeiro, os frades, os clérigos em geral e os Ermitões.

• A sátira, para Gil Vicente, é uma forma de compreender a desordem e a confusão que imperam na sociedade quinhentista, não sendo poupado nenhum grupo social. • Além de personagens individuais, o autor também ridiculariza defeitos humanos generalizados. • São várias as personagens-tipo ridicularizadas, representando os vários estratos/grupos sociais: o povo miúdo, os pretensiosos, os famintos, os Escudeiros versejadores de trovas, tocadores de viola, frades, clérigos e os ermitões foliões e debochados. Elaborado a partir de José Augusto Cardoso Bernardes, História crítica da literatura portuguesa. Humanismo e Realismo, vol. II, Lisboa, Editorial Verbo, 1999, pp. 139-141.

TEXTO B

Farsa e auto – natureza e estrutura da obra Características

• Na forma simples, reduz-se a um episódio cómico colhido no quotidiano, na vida de uma personagem típica.

• Numa forma mais complexa, como é o caso da Farsa de Inês Farsa

Pereira, é uma história mais completa (com princípio, meio e fim).

• Pode partir de um dito popular que funciona como argumento para a ação. No caso da Farsa de Inês Pereira, o argumento é “antes quero burro que me leve que cavalo que me derrube”.

• Os diálogos e as ações sucedem-se sem transição, não havendo preocupação com a unidade de tempo. Auto de moralidade

• Tem um ensinamento religioso e um objetivo moral. • As personagens são personificações alegóricas (o anjo, o diabo, a vaidade…) ou tipos reais caricaturados.

Elaborado a partir de António José Saraiva e Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa, 17.a ed., Porto, Porto Editora, 2010, pp. 194-197 (adaptado).

1. Defina, por palavras suas, personagem-tipo, apresentando exemplos.

97

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EDUCAÇÃO LITERÁRIA Gil Vicente é considerado uma das mais importantes figuras do teatro português. Criou cerca de 50 peças, desde 1502 até 1536, data da representação da última que se conhece.

Apresentação Texto dramático

Leia a obra Farsa de Inês Pereira, representada em 1523, na corte de D. João III. *FIXAÇÃO DE TEXTO

António José Saraiva (apresentação e leitura), Teatro de Gil Vicente, Lisboa, Dinalivro, ed. revista, 1988, pp. 163-204. *NOTAS

António José Saraiva, op. cit., e outros.

A Farsa de Inês Pereira* [1523] [Auto] Feito por Gil Vicente, representado ao muito alto e mui poderoso Rei D. João o terceiro no seu convento de Tomar, era do Senhor de MDXXIII. O seu argumento é um exemplo comum que dizem: mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube. As figuras são as seguintes: Inês Pereira; sua Mãe; Lianor Vaz; Pero Marques; dous Judeus (um chamado Latão, outro Vidal); um Escudeiro com um seu Moço; um Ermitão.

Entra logo Inês Pereira, e finge que está lavrando só em casa, e canta esta cantiga: Canta Inês: Quien con veros pena y muere que hará cuando no os viere?1 (Falado): Inês

5

10

Renego deste lavrar e do primeiro que o usou! Ò diabo que o eu dou, que tão mao é d'aturar! Ó Jesu! que enfadamento, e que raiva, e que tormento, que cegueira, e que canseira! Eu hei-de buscar maneira d'algum outro aviamento.2 25

15

20

Coitada, assi hei-de estar encerrada nesta casa como panela sem asa que sempre está num lugar? E assi hão-de ser logrados dous dias amargurados, que eu possa durar viva? E assi hei-de estar cativa em poder de desfiados?

30

35

1

“quem, vendo-vos pena e morre, o que fará quando vos não vir?”; 2 arranjo de vida; 3 de estar sempre no mesmo sítio; 4 alegram-se; divertem-se; 5 sou; 6 macaca; 7 alusão à alegria de Maria Madalena quando soube da ressurreição de Cristo.

98

Antes o darei ao diabo que lavrar mais nem pontada. Já tenho a vida cansada de jazer sempre dum cabo.3 Todas folgam4 e eu não, todas vêm e todas vão onde querem, senão eu. Hui! e que pecado é o meu, ou que dôr de coração? Esta vida é mais que morta. São5 eu coruja ou corujo, ou são5 algum caramujo que não sai senão à porta? E quando me dão algum dia licença, como a bugia6, que possa estar à janela, é já mais que a Madanela quando achou a aleluía.7

Farsa de Inês Pereira

Vem a Mãe, e, não na achando lavrando, diz:

Mãe Lia.

40

45

Inês

Mãe

50

Inês

Mãe

55

Inês

Mãe Inês Mãe 60

65

Inês

70

Mãe Inês

Logo eu adevinhei lá na missa onde eu estava, como a minha Inês lavrava a tarefa que lhe eu dei... Acaba esse travesseiro! Hui! naceo-te algum unheiro? Ou cuidas que é dia santo? Praza a Deos que algum quebranto me tire de cativeiro.

85

90

Mãe

Toda tu estás aquela…8 Choram-te os filhos por pão? Prouvesse a Deos! Que já é rezão de eu não estar tão singela9. Olhade lá o mao pesar…10 Como queres tu casar com fama de preguiçosa? Mas eu, mãe, são aguçosa11 e vós dais-vos de vagar.

Lia.

95

100

Ora espera, assi vejamos. Quem já visse esse prazer! Cal'te, que poderá ser, que «ante a Páscoa vem os Ramos.» Não te apresses tu, Inês. «Maior é o ano que o mês»: quando te não precatares, virão maridos a pares, e filhos de três em três.

vinha agora pereli14 ò redor da minha vinha, e um clérigo, mana minha, pardeos15, lançou mão de mi16. Não me podia valer. Diz que havia de saber se era eu fêmea se macho. Hui! Seria algum muchacho que brincava por prazer? Si, muchacho sobejava… Era um zote tamanhouço!...17 E eu andava no retouço, tão rouca que não falava. Quando o vi pegar comigo que me achei naquele perigo: – Assolverei! − Não assolverás! – Tomarei! − Não tomarás! – Jesu! Homem! que hás contigo? −

110

– Irmã, eu t’assolverei c’o breviairo de Braga.18 – Que breviairo, ou que praga! Que não quero! Aque d'el-Rei! – Quando vio revolta a voda,19 foi e esfarrapou-me toda o cabeção da camisa. Assi me fez dessa guisa20 outro, no tempo da poda.

115

Eu cuidei que era jogo e ele... dai-o vós ò fogo! Tomou-me tamanho riso, riso em todo meu siso, e ele leixou-me logo.

105

Mãe

Quero-m'ora alevantar. Folgo mais de falar nisso − assim Deos me dê o paraíso, − mil vezes que não lavrar. Isto não sei que o faz... Aqui vem Lianor Vaz. E ela vem-se benzendo...

E como? Tamanho é o mal? Tamanho? Eu to direi:

[entra Lianor Vaz] Lia.

75

Mãe Lia. Mãe Lia.

80

Jesu! que me eu encomendo! Quanta cousa que se faz!12 Lianor Vaz, que é isso? Venho eu, mana, amarela13? Mais ruiva que uma panela! Não sei como tenho siso! Jesu, Jesu, que farei? Não sei se me vá a el-Rei, se me vá ao Cardeal.

8

Hoje dir-se-ia “lá estás tu…”; 9 sozinha, solteira; 10 “vejam que

desgraça…”(ironia); 11 diligente; 12 como podem acontecer certas coisas ; 13 pálida; 14 por ali; 15 interjeição “por Deus”; 16 agarrou-me; 17 era um bruto de tal tamanho; 18 em Braga foi impresso o Breviário; Bracarense em 1494; 19 quando viu estragados os seus planos; 20 maneira.

99

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PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.9 120

1. As didascálias apresentam Inês e as ações que ela desempenha. 2.1 Inês não aceita nem gosta das tarefas domésticas, concretamente de bordar; não lhe agrada também ter de permanecer em casa (como era usual no século XVI), uma vez que isso constituía, para a personagem, uma espécie de cativeiro e tornava a vida enfadonha. Lamenta, ainda, o facto de outras raparigas da sua idade se divertirem, enquanto ela tem de permanecer “cativa” em casa. 2.2 O monólogo funciona como um desabafo e um lamento caracterizadores da personagem. 2.3 Inês é uma jovem, em idade de casar, revoltada com a sua condição social e com todas as tarefas e comportamentos exigidos pela sua situação. A avaliar pelo seu comportamento, não é muito diligente. Assim, sentindo-se cansada da vida que é obrigada a levar, anseia libertar-se por meio do casamento. (vv. 7-11): “Ó Jesu! que enfadamento, /[…] / d'algum outro aviamento.”) 3. A Mãe, de forma irónica, condena o facto de Inês ter abandonado o bordado, uma das incumbências que lhe deixara: “logo […] lhe eu dei…”; “naceo-te algum unheiro?"(vv. 39-44). Por esta razão, afirma que a filha é preguiçosa e que, devido a essa fama, terá dificuldades em encontrar marido. A Mãe procura ainda convencer a filha de que os pretendentes não tardarão em aparecer e de que a vida de casada não é o que esta pensa, pois rapidamente aparecerão os filhos. Por tudo isto, aconselha-a a não ter pressa “que («ante a Páscoa vem os Ramos»” e “Maior é o ano do que o mês”(vv. 60 e 62). 4. Inês só tem um desejo – casar o mais rapidamente possível: “Praza a Deos […] cativeiro” e “Prouvesse a Deos! […] tão singela” (vv. 46-47 e 50-51).

100

Se estivera de maneira sem ser rouca, bradara eu. Mas logo o demo me deu cadarrão e peitogueira,22 cócegas e cor de rir,23 e coxa pera fugir, e fraca pera vencer. Porém pude-me valer sem me ninguém acudir...

125

130

Mãe Lia. Mãe 135

Lia.

Mãe 140

Lia.

145

Si, agora, ieramá!21 Também eu me ria cá das cousas que me dizia: chamava-me «luz do dia». – «Nunca teu olho verá!» –

O demo, e não pode al ser, se chantou24 no corpo dele. Mana, conhecia-t’ele? Mas queria-me conhecer! Vistes vós tamanho mal? Eu me irei ao Cardeal, e far-lhe-ei assi mesura e contar-lhe-ei a aventura que achei no meu olival. Não estás tu arranhada, de te carpir, nas queixadas.25 Eu tenho as unhas cortadas e mais estou tosquiada.26 E mais pera que era isso? E mais pera que é o siso? E mais no meo da requesta27 veo um homem de ~ ua besta,28 que em vê-lo vi o paraiso.

Mãe

165

Lia.

Não lhe dera um empuxão, porque são tão maviosa,31 que é cousa maravilhosa. E esta é a concrusão. Leixemos isto! Eu venho com grande amor que vos tenho, porque diz o exemplo antigo que amiga e bom amigo mais aquenta que o bom lenho.

170

175

150

155

160

E soltou-me porque vinha, bem contra sua vontade. Porém, a falar verdade, já eu andava cansadinha. Não me valia rogar, nem me valia chamar: – «Àque de Vasco de Fois29 acudi-me, como sois»! E ele... senão pegar: – Mais mansa, Lianor Vaz, assi Deos te faça santa. – Trama te dê na garganta! Como! Isto assi se faz? – Isto não revela nada... – Tu nam vês que são casada?

Mãe

Lia. 180

Inês

21

Deras-lhe, má hora, boa,30 e mordera-lo na coroa. Assi! Fora excomungada!

Inês está concertada pera casar com alguém? Até 'gora com ninguém não é ela embaraçada.32 Em nome do anjo bento eu vos trago um casamento. Filha, não sei se vos praz.33 E quando, Lianor Vaz?

interjeição “em má hora”; 22 catarro e tosse; vontade de rir; 24 pôs-se; meteu-se; 25 alusão a um costume medieval, segundo o qual a mulher forçada devia carpir-se arranhando a face; 26 cabelo cortado; 27 contenda; 28 um homem que conduzia um animal de carga; 29 Vasco de Fois era alferes-mor da Ordem de Cristo; 30 subentende-se o termo “sova”; 31 bondosa; 32 comprometida; 33 agrada. 23

Farsa de Inês Pereira

Lia.

Já vos trago aviamento.34

Lia. 195

Inês 185

Lia. 190

Inês

Porém, não hei-de casar senão com homem avisado.35 Ainda que pobre e pelado, seja discreto em falar, que assi o tenho assentado. Eu vos trago um bom marido, rico, honrado, conhecido. Diz que em camisa vos quer.36 Primeiro eu hei-de saber se é parvo, se sabido.

Inês Lia. 200

Mãe

Nesta carta que aqui vem pera vós, filha, d'amores, veredes vós, minhas flores, a descrição que ele tem. Mostrai-ma cá, quero ver. Tomai. E sabedes vós ler? Hui! ela sabe latim, e gramáteca, e alfaqui37 e tudo quanto ela quer!

34

arranjo de vida; 35 discreto; 36 “diz que vos aceita sem dote”; 37 a Mãe pretende mostrar que a filha é culta.

1. Identifique a funcionalidade das didascálias iniciais. 2. A farsa tem início com um monólogo de Inês Pereira. 2.1 Enuncie os aspetos do quotidiano da personagem que lhe desagradam. 2.2 Explicite a funcionalidade deste monólogo. 2.3 Apresente três traços caracterizadores desta personagem a partir das suas pala-

vras. 3. Apresente as críticas e os conselhos expressos pela Mãe de Inês a partir do verso 39. 4. Identifique o desejo expresso por Inês ao longo do diálogo com a sua Mãe. 5. Uma nova personagem junta-se às anteriores. 5.1 Refira o objetivo da vinda desta personagem a casa de Inês. 5.2 Compare o grau de entusiasmo de Inês ao de Lianor Vaz, relativamente à proposta

desta última. 6. Transcreva os versos que melhor definem o modelo de homem de Inês Pereira. 7. Identifique os recursos presentes nos seguintes versos, analisando a sua expressi-

vidade no texto. a. “assi hei-de estar / encerrada nesta casa / como panela sem asa”. (vv. 12-14) b. “Olhade lá o mao pesar...” (v. 52)

PROFESSOR 5.1 Lianor Vaz veio a casa de Inês, com o objetivo de lhe apresentar uma proposta de casamento: traz uma carta de um pretendente à mão de Inês (vv. 194-197). 5.2 Inês mostra-se pouco recetiva e desconfiada, ao contrário de sua Mãe e de Lianor, que estão muito entusiasmadas com o pretendente. A atitude de Inês justifica-se pelo facto de já ter em mente um modelo de homem bem definido, que poderá não corresponder à proposta de Lianor. Por esta razão, ainda que a alcoviteira o caracterize como “um bom marido, / rico, honrado, conhecido / […] que em camisa vos quer” (vv. 189-191), Inês quer primeiro saber como ele é, mostrando interesse em ler a carta que ele lhe enviou (v. 198). 6. vv. 184-188 7. a. Comparação. A jovem compara-se a uma panela sem asa, aludindo, desta forma, ao facto de não ter ainda casado. b. Ironia. A mãe de Inês zomba da pressa da filha em casar, afirmando, de modo irónico, que o facto de se encontrar ainda solteira é uma desgraça. Gramática 17.3 1.1 Valor de oposição (conector adversativo) 1.2 Estabelece um contraste entre o modelo de homem que Inês tem em mente e o que lhe apresentam. 2. a. apócope de “s” b. metátese c. assimilação d. epêntese de “i”

GRAMÁTICA 1. Releia os versos “Porém, não hei-de casar / senão com homem avisado”( vv. 184-185). 1.1

Indique o valor lógico do articulador inicial.

1.2 Apresente uma explicação para a sua utilização. 2. Identifique o(s) processo(s) fonológico(s) ocorrido(s) em cada um dos casos

apresentados de seguida. a. Jesus > Jesu (v. 73)

c. pera > para (v. 143)

b. BREVIARIU- > breviairo (v. 103)

d. meo > meio (v. 145) BLOCO INFORMATIVO – pp. 261, 278-279

101

Lexicologia: campo semântico e campo lexical

N DE R RE AP

APRENDER

G RA M Á T

ICA

APL ICA

R

De acordo com o Dicionário Terminológico (DT), “O léxico de uma língua inclui não apenas o conjunto de palavras efetivamente atestadas num determinado contexto mas também as que já não são usadas, as neológicas e todas as que os processos de construção de palavras da língua permitem criar”.

CAMPO LEXICAL É o conjunto de palavras associadas, pelo seu significado, a um determinado domínio conceptual.

animais

palco personagem em

ator

ribeiro

TEATRO ponto

flor

NATUREZA encenador en

planície

cena

montanhas arbusto

CAMPO SEMÂNTICO É o conjunto de significados, ou aceções, que uma palavra assume, em função do contexto em que ocorre, quer surja isolada ou integrada numa expressão, como se pode verificar nos exemplos: 1. Campo semântico de “pé”. a. O João rematou com o pé direito. b. Quando chega tarde a casa, o João entra com pés de lã. c. Seria difícil medir um campo de futebol em pés. 2. Campo semântico de “cabeça”. a. A Teresa acordou com dores de cabeça. b. A prima da Maria tem boa cabeça para os estudos. c. O António é o cabeça da lista A, candidata à Associação de Estudantes. d. Vi um rebanho com trezentas cabeças de gado. e. É necessário enfrentar as situações de cabeça erguida!

102

APLICAR 1. Considere as seguintes frases. a.

Aos domingos, gosto de passear junto ao mar e observar os peixinhos, as algas, os barcos, as ondas e a suavidade da areia.

b.

O Manuel, como tem dificuldades em andar, apoia-se num pau.

c.

Comprei uma mesa nova em pau de carvalho.

d.

Coloquei na mochila, para levar para a escola, gramáticas, livros, canetas e até um dicionário.

e.

No fim da frase, deves colocar um ponto.

f.

Gosto de macarrão, mas deve estar no ponto.

g.

A tia do Pedro nunca dá ponto sem nó.

h.

Acabei de separar o meu vestuário para a próxima estação, mas preciso de comprar uma saia, duas camisas, meias, um gorro e, talvez, um sobretudo.

1.1

Distinga aquelas em que ocorrem palavras pertencentes ao mesmo campo lexical.

Gramática 19.3; 19.4

1.2 Transcreva as palavras e os respetivos campos lexicais. 1.3 Preencha a tabela, agrupando as frases em que a mesma palavra aparece com

sentidos diferentes, seguindo as instruções.

1.

2.

A.

B.

C.

D.

E.

Palavra

Frases em que ocorre

Significado que adquire

Significado "denotativo" ou "conotativo"

Campo "lexical" ou "semântico"

_____________

_____________

b. ___________

b. ___________

_____________

c. ___________

c. ___________

_____________

e. ___________

e. ___________

_____________

f. ___________

conotativo

_____________

g. ___________

g. ___________

_____________

b. e c.

e., f. e g.

2. Construa os campos lexicais dos seguintes vocábulos. a. Habitação. b. Primavera. c. Cinema. 3. Redija um par de frases para cada palavra dada, utilizando-a em contexto e com

significados diferentes. a. Mão. b. Ilha. c. Braço.

PROFESSOR

1.1 a., d. e h. 1.2 a. mar – peixinhos, algas, barcos, ondas, areia d. escola − mochila, gramáticas, livros, canetas, dicionário h. vestuário – saia, camisas, meias, gorro, sobretudo 1.3. A.1. Pau A.2. Ponto C.1. b. cajado, bordão, bengala c. madeira C.2. e. sinal de pontuação f. no momento certo da cozedura g. ser interesseiro; ter segundas intenções D.1. b. denotativo c. denotativo D.2. e. denotativo g. conotativo E.1. e E.2. campo semântico 2. a. casa, apartamento, cabana, tenda, … b. flores, ninhos, sol, verde, verdejante, … c. ator, cenário, duplo, personagem, guião, … 3. a. O noivo colocou o anel na mão esquerda. / O ladrão praticou um assalto à mão armada. b. Nunca visitei a Ilha do Pico. / O António, da turma B, é uma ilha, não convive com ninguém. c. Os jogadores de futebol não podem jogar à bola com o braço. / Um braço de rio entrando pela floresta embeleza a paisagem.

103

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EDUCAÇÃO LITERÁRIA Continue a ler a Farsa de Inês Pereira.

Lê Inês Pereira a carta: «Senhora amiga Inês Pereira, Pero Marques, vosso amigo, que ora estou na nossa aldea mesmo na vossa mercea m'encomendo1. E mais digo, digo que benza-vos Deos, que vos fez de tão bom jeito. Bom prazer e bom proveito veja vossa mãe de vós. E de mi também assi,

205

210

215

Inês

220

240

Lia.

Lia.

Queres casar a prazer no tempo d'agora, Inês? Antes casa em que te pês,6 que não é tempo d'escolher. Sempre eu ouvi dizer: «ou seja sapo ou sapinho, ou marido ou maridinho, tenha o que houver mister.»7 Este é o certo caminho.

245

250

ainda que eu vos vi est'outro dia folgar e não quisestes bailar nem cantar presente mi...» Na voda de seu avô, ou onde me viu ora ele? Lianor Vaz, este é ele? Lede a carta sem dó,2 que inda eu são contente dele.

Mãe

255

Lia.

260

Inês

Prossegue Inês Pereira a carta: «Nem cantar presente mi. Pois Deos sabe a rebentinha3 que me fizestes então. Ora, Inês, que hajais benção de vosso pai e a minha, que venha isto a concrusão.

225

265

Mãe

Inês

230

235

Inês

104

E rogo-vos como amiga, que samicas vós sereis4, que de parte me faleis antes que outrem vo-lo diga. E, se não fiais de mi, esteja vossa mãe aí e Lianor Vaz de presente. Veremos se sois contente que casemos na boa hora.» Des que nasci até agora não vi tal vilão com'este, nem tanto fora de mão5!

270

275

1

Não queirais ser tão senhora. Casa, filha, que te preste, não percas a ocasião.

Pardeus, amiga, essa é ela!8 Mata o cavalo de sela e bom é o asno que me leva. Filha, «no chão de Couce quem não poder andar, choute.»9 E: «mais quero eu quem m'adore de quem faça com que chore.» Chamá-lo-ei, Inês? Si. Venha e veja-me a mi. Quero ver, quando me vir, se perderá o presumir logo em chegando aqui, pera me fartar de rir. Touca-te10 bem, se vier, pois que pera casar anda. Essa é boa demanda! Cerimónias há mister homem que tal carta manda? Eu o estou cá pintando: sabeis, mãe, que eu adivinho? Deve ser um vilãozinho… Ei-lo, se vem penteando: será com algum ancinho?

recomendo-me a vossa mercê; 2 sem vos agastardes; 3 fúria; talvez; 5 nem tão disparatado; 6 casa mesmo contrariada; 7 tenha o que necessário for; 8 essa é que é a verdade; 9 “quem não puder ter o que deseja, contente-se com o que tem”; 10 arranja-te.

4

Farsa de Inês Pereira

Aqui vem Pero Marques, vestido como filho de lavrador rico, com um gabão azul deitado ao ombro, com o capelo por diante, e vem dizendo: Pero

280

Homem que vai onde eu vou não se deve de correr.11 Ria embora quem quiser, que eu em meu siso estou. Não sei onde mora aqui... olhai que m’esquece a mi! Eu creo que nesta rua... Esta parreira é sua. Já conheço que é aqui.

320

Inês Pero

Inês

325

Pero

Chega Pero Marques aonde elas estão, e diz: 285

290

Pero

Mãe Pero Inês

Digo que esteis muito embora. Folguei ora de vir cá... Eu vos escrevi de lá ũa cartinha, senhora... Assi que… e de maneira... Tomai aquela cadeira. E que val aqui ũa destas?12 (Ó Jesu! que João das bestas! Olhai aquela canseira!)

330

Inês

Pero 335

Assentou-se com as costas pera elas, e diz:

295

Mãe Pero

300

Mãe

Pero 305

310

315

Eu cuido que não estou bem... Como vos chamam, amigo? Eu Pero Marques me digo, como meu pai que Deos tem. Faleceo, perdoe-lhe Deos, que fora bem escusado, e ficamos dous eréos.13 Perém meu é o mor gado.14 De morgado é vosso estado? Isso veria dos céos! Mais gado tenho já quanto, e o mor de todo o gado, digo maior algum tanto. E desejo ser casado, prouguesse15 ao Espírito Santo, com Inês, que eu me espanto quem me fez seu namorado. Parece moça de bem, e eu de bem, er16 também. Ora vós ide lá vendo se lhe vem milhor ninguém,17 a segundo o que eu entendo.

340

Inês

Pero

345

Inês

Cuido que lhe trago aqui peras da minha pereira... Hão-de estar na derradeira.18 Tende ora, Inês, per i.19 E isso hei-de ter na mão? Deitai as peas20 no chão. As perlas21 pera enfiar… Três chocalhos e um novelo... E as peas no capelo...22 E as peras? Onde estão? Nunca tal me aconteceu! Algum rapaz m'as comeu... que as meti no capelo, e ficou aqui o novelo, e o pentem não se perdeu. Pois trazia-as de boa mente... Fresco vinha aí o presente com folhinhas borrifadas!23 Não que elas vinham chentadas cá em fundo no mais quente.24 Vossa mãe foi-se? Ora bem... Sós nos leixou25 ela assi?... Cant’eu quero-me ir daqui, não diga algum demo alguém...26 Vós que me havíeis de dizer? Nem ninguém que há-de dizer? (O galante despejado!27) Se eu fora já casado, d’outra arte havia de ser, como homem de bom recato. (Quão desviado este está! Todos andam por caçar suas damas sem casar, e este... tomade-o lá!)

11

não se deve envergonhar; 12 “para que serve uma coisa destas?”; herdeiros; 14 herdei a maior parte do gado (a mãe julga que ele disse “morgado”); 15 prouvesse (agradasse); 16 partícula de reforço; 17 “se alguém está melhor para ela do que eu”; 18 no fundo; 19 “segurai aí, Inês”; 20 cordas para prender os animais; 21 contas de vidro de enfiar; 22 capuz do gabão; 23 réplica irónica de Inês Pereira, afirmando que, assim, naquela confusão, o presente vinha fresco; 24 Pero Marques não percebe a ironia e afirma que, pelo contrário, as peras vinham “quentes”; 25 deixou; 26 não vá alguém fazer comentários; 27 “vejam o atrevimento deste galante” (ironia). 13

105

GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a Caracterização das personagens | Representação do quotidiano | Dimensão satírica 350

Pero Inês

Pero

355

Inês

Vossa mãe é lá no muro? Minha mãe eu vos seguro que ela venha cá dormir. Pois, senhora, eu quero-me ir antes que venha o escuro. E não cureis mais de vir.

Se fora outro homem agora, e me topara a tal hora, estando assi às escuras, falara-me mil doçuras, ainda que mais não fora...

390

[torna a Mãe e diz] Pero

Inês

360

Pero

Virá cá Lianor Vaz, veremos que lhe dizeis... Homem, não aporfieis,28 que não quero nem me praz. Ide casar a Cascais. Não vos anojarei mais, ainda que saiba estalar;29 e prometo não casar até que vós não queirais.

Mãe Inês Mãe 395

400

[Pero vai-se, dizendo] (Estas vos são elas a vós: anda homem a gastar calçado, e quando cuida que é aviado, escarnefucham30 de vós! Não sei se fica lá a pea... Pardeus! Bom ia eu à aldeia!)

365

370

Inês

Que seja homem mal feito, feo, pobre, sem feição, como tiver descrição, não lhe quero mais proveito. E saiba tanger viola, e coma eu pão e cebola. Siquer ũa canteguinha! Discreto, feito em farinha, porque isto me degola.37

405

[voltando atrás]

Inês Pero

375

380

Senhora, cá fica o fato?31 Olhai se o levou o gato... Inda não tendes candea?32 Ponho per cajo33 que alguém vem como eu vim agora, e vos acha só a tal hora: parece-vos que será bem? Ficai-vos ora com Deos: çarrai a porta sobre vós com vossa candeazinha. E sicais34 sereis vós minha: entonces veremos nós...

410

Mãe

Inês 415

Mãe

[Vai-se Pero Marques e diz] Inês Pereira Inês

385

Não teimeis; 29 saiba que vou sofrer; 30 escarnecem; “fato” é uma palavra do vocabulário dos pastores que designa os objetos de uso pessoal; 32 candeia (Pero espanta-se por ser escuro e Inês não ter acendido “uma luz”;

106

420

Pessoa conheço eu que levara outro caminho... Casai lá com um vilãozinho, mais covarde que um judeu!

28

33

31

36

Pero Marques foi-se já? Pera que era ele aqui? E não t'agrada ele a ti? Vá-se muitieramá!35 Que sempre disse e direi: mãe, eu me não casarei senão com homem discreto,36 e assi vo-lo prometo ou antes o leixarei.

Inês

Sempre tu hás-de bailar, e sempre ele há-de tanger? Se não tiveres que comer, o tanger te há-de fartar? Cada louco com sua teima. Com ũa borda de boleima38 e ũa vez d'água fria, não quero mais cada dia. Como às vezes isso queima! E que é desses escudeiros? Eu falei ontem ali que passarão por aqui os judeus casamenteiros e hão-de vir logo aqui.

suponhamos; 34 se por ventura; 35 em má hora; qualidade do que possui as virtudes palacianas (saber, educação, finura, etc.); 37 é disso que eu gosto; sou doida por isso; 38 um bocado de bolo.

Farsa de Inês Pereira

1. Assinale as afirmações verdadeiras e as falsas, considerando a carta de Pero

Marques. De seguida, corrija as afirmações falsas. a. Pela leitura da carta, o pretendente aparenta ser um homem delicado e distinto. PROFESSOR

b. Inês era uma desconhecida para o abastado lavrador. c. Pero Marques mostra preocupações com a reputação de Inês. d. À medida que a jovem vai lendo a carta, vai crescendo o interesse por Pero Marques.

Áudio

e. Após a leitura da carta, Inês acede, finalmente, a que sua Mãe chame o candidato a marido.

“Inês Pereira lê a carta”

f. Lianor Vaz e a Mãe utilizam uma linguagem proverbial para apresentarem uma opinião favorável ao casamento de Inês com Pero Marques. g. Com a expressão “Cerimónias há mister / homem que tal carta manda?” (vv. 268-269), Inês está a ser irónica, pois não vê necessidade de se vestir convenientemente para receber um pretendente tão pouco cortês. h. A chegada de Pero Marques provoca o cómico na peça. i. Pero Marques oferece a Inês as peras que trazia no capelo. j. O marido ideal, para Inês, deve ser rico, discreto e ter a educação de quem frequenta os ambientes palacianos. k. A Mãe revela-se uma mulher sensata e experiente, aconselhando Inês a esperar pelos judeus casamenteiros.

GRAMÁTICA 1. Releia os seguintes versos. a. “Senhora, cá fica o fato?” (v. 371) b. “parece-vos que será bem?” (v. 377) c. "entonces veremos nós...” (v. 382) d. “E não t’agrada ele a ti?” (v. 394) e. “e assi vo-lo prometo” (v. 399)

Educação Literária 14.3; 1 4.4; 14.7; 15.1 1. a. F – Aparenta ser um camponês rude e mesmo algo tonto. b. F – O pretendente assegura que vira Inês num baile. c. V d. F – A Inês não agrada o tom da carta nem os comentários que Pero faz sobre um possível encontro e futuro casamento. e. F – Quem chama o candidato é Lianor Vaz. f. V g. V h. V i. F – Pero Marques não encontra as peras, que trazia, aconchegadas e quentinhas, no fundo do saco. j. F – O marido ideal para Inês pode não ser rico, desde que seja discreto e tenha a educação de quem frequenta os ambientes palacianos. K. F – A Mãe aconselha Inês a ser prudente, não se deixando levar por frivolidades (vv. 410-413).

f. “Eu falei ontem ali” (v. 420) g. “que passarão por aqui” / os judeus casamenteiros”

Gramática 18.1

(vv. 421-422)

1.1

Indique a função sintática dos elementos sublinhados.

1.2

Identifique, nas frases, as seguintes classes de palavras: a. verbos no presente do indicativo; b. nomes; c. pronomes; d. conjunções; e. determinantes. f. advérbios.

1.1 a. Vocativo b. Complemento indireto; predicativo do sujeito c. Sujeito simples d. Complemento indireto e. Complemento direto f. Modificador g. Complemento oblíquo; sujeito simples 1.2 a. fica, parece, agrada, prometo b. senhora, fato, judeus c. vos, nós, te, ele, ti, lo, eu d. que, e e. o, os f. cá, bem, entonces (então), assi (assim), ontem, ali, aqui

BLOCO INFORMATIVO

pp. 271-273 e 260-264

107

Lexicologia: arcaísmos e neologismos

N DE R RE AP

APRENDER

G RA M Á T

ICA

APL ICA

R

A língua está em constante evolução: umas palavras modificam-se, ocorrendo evolução fonética; outras caem em desuso (arcaísmos); e outras surgem de novo (neologismos). Observe o seguinte quadro, em que se encontram sistematizados estes dois conceitos. Definição

Exemplos

Arcaísmos São termos de uso corrente num determinado período na história da língua, que acabam por cair em desuso posteriormente. O texto literário é uma fonte documental privilegiada da existência desses vocábulos, como se pode comprovar com a Farsa de Inês Pereira.

a. “O demo, e não pode al ser…” (‘outra coisa’) b. “E rogo-vos como amiga, que samicas vós sereis.” (‘talvez’, ‘porventura’) c. “e ficamos dous éreos” (‘herdeiros’)

Neologismos São novos termos que surgem na língua

• devido à evolução nas áreas científica, tecnológica ou política (a.);

a. “Eurocéticos não perturbarão o Parlamento Europeu” […] José María Gil-Robles falou ao DN sobre as suas expectativas em relação às eleições europeias. Desvaloriza o impacto que um elevado número de eurodeputados eurocéticos, populistas e extremistas possa vir a ter no funcionamento da eurocâmara. DN, edição online (acedido em fevereiro de 2017).

• no domínio literário, criados por escritores, com intenções expressivas ou estilísticas (b.).

b. “Mas, para espantação e reza, meu pai golfinhou-se entre as ondas…”; “[…] um esticão na linha me indicava a presença de um peixe namordiscando o anzol…” Mia Couto, Mar me quer, 13.a ed., Lisboa, Editorial Caminho, 2013.

Podem formar-se através de formas diferentes a partir da exploração de recursos já existentes na língua e/ou através dos diferentes processos de formação de palavras (regulares e irregulares) como é o caso da extensão semântica (c.).

c. “Microsoft quer ‘ativar’ Portugal e no Porto já há 18 vagas por preencher Ativar Portugal é o nome e o objetivo da iniciativa da Microsoft que se propõe criar dois mil postos de trabalho até ao final do ano. O portal online arranca esta quarta-feira. […] A entrada no mercado pode estar mais perto e o processo pode passar apenas pela colocação do currículo na plataforma online.” Jornalismo Porto Net (jpn), edição online (acedido em fevereiro de 2017).

108

APLICAR 1. Considere os seguintes versos de uma cantiga de amigo da autoria de Dom Dinis.

Levantou-s’a velida Levantou-s’alva, E vai lavar camisas 1.1

Evidencie os termos que atualmente constituem arcaísmos.

1.2 Reescreva os versos, substituindo os termos arcaicos identificados em 1.1 por ter-

mos atuais que lhes correspondam. 2. Releia agora estes versos da Farsa de Inês Pereira (vv. 194-199). Lia.

Nesta carta que aqui vem pera vós, filha, d'amores, veredes vós, minhas flores, a descrição que ele tem.

Inês Lia.

Mostrai-ma cá, quero ver. Tomai. E sabedes vós ler?

2.1 Reescreva-os, substituindo as formas verbais arcaicas aí presentes pelas corres-

pondentes atuais. 3. Leia atentamente os seguintes trechos. A.

O pr primeiro-ministro rim mei eiro o-m min nisstr tro o assegurou asse as segu se guro gu rou ro u hoje hoje que que u o programa pro rogr gram gr amaa de assistência am ass s isstêêncciaa está esttá encerrado, ence en cerr cerr rrad ad do, o estando es sta t nd do a ser see negociada nego ne gociiad da com com a "troika" "tro "t roik ro ika" ik a" a forma for orma ma de de ultrapassar ultr ul trap tr apas ap assa as sarr a al sa aalteração teeraçã tera ração od di ditada ita tada da p pelo ello acór ó dãão do do Tribunal Tri r bu una n l Constitucional, Cons Co nsti ns t tu ti tuci cion ci onal on al,, pa al para ra q ue sseja ejja en ntrreg egue ue a ú lttim ma "t traanc nche he"" daa aajuda he ju udaa acórdão que entregue última "tranche" fi fin an nceira. a financeira. DN, DN N, edição ediç ediç dição ã onl ão online ine (a (aced (acedido ced edido ido o em m fevereiro fever fe v eir ve ver e o de de 2017). 2017 1 ). )

B.

Os astrónomos ast stró st róno ró nomo no moss descobriram mo deesccob obri rira ri ram ra m um planeta pla lane neta ne taa rochoso roc ocho ho oso que que pesa pes esaa 17 vezes vez e es e mais mai a s do o que que a Terra Terrraa e tem t m o dobro te dobr do bro do br d tamanho taman am man a ho e estão est stão ão agora ago gora ra a braços braaço çoss com com o desafio desa de saafio fio de de explicar exxp pllicar iccar como com mo se s terá ter eráá formado. formad do. o […] […]] Esta Estta "mega-Terra" "meg egaeg a Te aTerr rra" rr a" já já era era conhecida, conh co nhec nh ecid ec id da, mas mas ainda ain i da não não tinha tin nha h sido sid do possível poss po ssív ss ívvel avaliarava valililiar arar -lhe o tamanho. tam manho ho. ho Visão, Vi Vis ã , edição ão ediç ediç dição ão onl online n ine − 3 de de junho junh junh unho o de de 2014 2014 (acedido (aced (a ce ido ced do o em e fe ffevereiro ever vereir ver eiro eir o de de 2017 22017). 017 1 ). )

C.

As meninas men e in inas as p passavam assa as sava sa vaam [… […]. ]. N Nós ós ficávamos ficá cáva vamo va mo os no om muro, uro, ur o, o olhos lh hos ttrincando r nc ri n an ando do o aass so sombras omb bra r s fe feme femeameeameninas. Nosso me enina nas. na sN osso os o futebol futtebol eb boll era era ali, alili,, na mesa mes esaa de matraquilhos mat atra raqu ra quilililho qu hoss do Bar ho Bar Viriato. Vir iriaato t . […] […] Era Era ali alli que qu ue vibraviibr braanossas multidões quando pequena bola madeira no buraco daa ba baliza. vam ass n o sa os s s mu ult l idõe õ s qu õe quan ando an do a p eque eq uena ue na b olla de m adei ad eira ei ra eescorrecaía sco sc orreeca or caíaa n caía o bu bura raco aco od bali liiza za.. Mia Couto, Couto Co u , ““O uto Od dia i em ia em que fu fuzilaram uzil zilara aram ara m o gu g guarda-redes ard rda-r a-rrede ed dess da da m minha inh nh ha e equipa”, q pa” qui p , in Cro Cronicando, Lisboa, Cronic nicand nic ando and o, L isb sboa, Caminho, sboa, C min Ca minho, ho h o 20 2006. 0 06 06.

3.1 Faça o levantamento dos neologismos em cada texto, indicando a área em que

aqui são usados. 3.2 Indique uma palavra ou expressão com significado equivalente ao dos vocábulos

que destacou nos textos A. e B.. 3.3 Decomponha os neologismos do texto C., indicando as palavras que os originaram.

PROFESSOR Gramática 19.1; 19.2; 19.6 1.1 e 1.2 “velida”: bela, formosa; “alva”: alvorada, madrugada. 2.1 “veredes”: vereis; “sabedes”: sabeis. 3.1 A. “troika” e “tranche”: economia/política B. “mega-Terra”: ciência/ astronomia C. “femeameninas" e "escorrecaía": literatura 3.2 A. "troika": entidade externa; "tranche": prestação B. "mega-Terra": Terra gigante 3.3 “femeameninas”: fêmea e menina(s); “escorrecaía”: escorregava e caía.

109

GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a Caracterização das personagens | Dimensão satírica

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Leia atentamente o seguinte trecho da obra em análise, no qual os Judeus casamenteiros dão novas a Inês da sua busca por um pretendente discreto. Aqui entram os Judeus casamenteiros, chamados, um Latão, e outro Vidal e diz Latão: Lat. 425

Inês Vid. Lat. Vid.

430

Lat. Vid.

435

440

Lat.

445

Vid. Lat. Vid.

450

Lat.

Vid. 455

Lat. Vid.

1

logo nos apressámos diz o ditado 3 Há um músico João de Badajoz na corte de D. João III 4 escapou-se-nos da mão 5 músico espanhol ao serviço da corte portuguesa 6 que anda sempre ocupado 7 e se preza de ser um cavalheiro

Lat.

2

460

Vid.

Lat. 465

110

Ou de cá! Quem está lá? Nome del Deu, aqui somos! Não sabeis quão longe fomos! Corremos a iramá. Este e eu. Eu, e este... Pola lama e polo pó, que era pera haver dó, com chuiva, sol e Nordeste. Foi a coisa de maneira, tal friura e tal canseira, que trago as tripas maçadas. Assi me fadem boas fadas que me saltou caganeira! Pera vossa mercê ver o que nos encomendou O que nos encomendou será se hoiver de ser. Todo este mundo é fadiga… Vós dixestes, filha amiga, que vos buscássemos logo... E logo pujemos fogo1... Cala-te! Não queres que diga? Não sou eu também do jogo? Não fui eu também contigo? Tu e eu não somos eu? Tu judeu e eu judeu, não somos massa dum trigo? Si somos. Juro al Deu! Leixa-me falar. Já calo. Senhora, há já três dias… Falas-lhe tu ou eu falo? Ora dize o que dizias: que foste, que fomos, que ias buscá-lo, esgaravatá-lo… Vós, amor, quereis marido mui discreto, e de viola? Esta moça não é tola, que quer casar per sentido…

Vid. Lat. Vid. Lat. 470

475

Inês

Mãe 480

Inês

Mãe 485

Inês Vid.

490

495

Inês Vid. 500

505

Judeu, queres-me leixar? Leixo, não quero falar. Buscamo-lo... Demo foi logo! Crede que o vosso rogo vencerá o Tejo e o mar. Eu cuido que falo e calo... Calo eu agora ou não? Ou falo se vem à mão? Não digas que não te falo. Jesu! Guarde-me ora Deos! Não falará um de vós? Já queria saber isso... Que siso, Inês, que siso tens debaixo desses véos... Diz o exemplo da velha:2 «o que não haveis de comer leixai-o a outrem mexer.» Eu não sei quem t'aconselha... Enfim, que novas trazeis? O marido que quereis, de viola e dessa sorte, não no há senão na corte que cá não no achareis. Falámos a Badajoz3, músico, discreto, solteiro. Este fora o verdadeiro, mas soltou-se-nos da noz.4 Fomos a Vilhacastim5 e falou-nos em latim: – «Vinde cá daqui a ũa hora, E trazei-me essa senhora.» Tudo é nada, enfim? Esperai, aguardai ora! Soubemos dum escudeiro de feição d'atafoneiro6 que virá logo essora, que fala... e com’ora fala! Estrugirá esta sala. E tange... e com’ora tange! Alcança quanto abrange, e se preza bem da gala.7

Farsa de Inês Pereira

Vem o Escudeiro, com seu Moço, que lhe traz ũa viola, e diz, falando só: Se esta senhora é tal como os judeus ma gabaram, certo os anjos a pintaram, e não pode ser i al. Diz que os olhos com que via eram de Santa Luzia, cabelos, da Madanela... Se ela fosse donzela, tudo essoutro passaria…8

510

515

520

525

Moça de vila será ela com sinalzinho postiço, e sarnosa no toutiço, como burra de Castela. Eu, assi como chegar, cumpre-me bem atentar se é garrida, se honesta, porque o milhor da festa é achar siso e calar.

Escudeiro [falando para o Criado] 535

Moço 540

Esc.

Moço Esc. 545

550 Moço

Esc.

Mãe [falando para Inês]

530

Se este escudeiro há-de vir e é homem de discrição, hás-te de pôr em feição, e falar pouco e não rir. E mais, Inês, não muito olhar, e muito chão o menear,9 por que te julguem por muda, porque a moça sesuda é ũa perla pera amar.

555 Moço

Esc.

Moço 560

Olha cá, Fernando, eu vou ver a com que hei-de casar. Avisa-te que hás-de estar sem barrete onde eu estou. (Como a Rei! Corpo de mi!10 Mui bem vai isso assi...) E se cuspir, pola ventura, põe-lhe o pé e faz mesura. (Ainda eu isso não vi!) E se me vires mentir, gabando-me de privado,11 está tu dissimulado, ou sai-te lá fora a rir. Isto te aviso daqui, faze-o por amor de mi. Porém, senhor, digo eu que mau calçado é o meu pera estas vistas assi. Que farei, que o sapateiro não tem solas, nem tem pele? Çapatos me daria ele, se me vós désseis dinheiro... Eu o haverei agora. E mais, calças te prometo. (Homem que não tem nem preto12, casa muito na má hora.)

8 o sentido destes versos parece ser “fosse ela donzela (virgem) e o resto não teria importância”; 9 mostrar-se modesta e humilde nos gestos; 10 interjeição que significa espanto e irritação; 11 de ser íntimo do rei; 12 moeda de cobre.

1. Apresente três traços caracterizadores dos judeus que contribuam para a carica-

tura destas personagens. 2. Destaque os versos em que se hiperbolizam as dificuldades da busca efetuada pe-

los dois casamenteiros. 3. Trace o retrato do Escudeiro, nos dois momentos, atendendo ao seu monólogo e ao

diálogo com o Moço. 4. Refira a intencionalidade do autor com os versos parentéticos presentes nas répli-

cas do Moço. 5. Indique, explicitando o seu sentido, o recurso expressivo presente na expressão

“Homem que não tem nem preto” (v. 559).

PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.5; 14.9 1. Os judeus desempenham a função de casamenteiros e aparentam ser desonestos e astutos, pois pretendem convencer Inês e a Mãe da dificuldade da busca realizada para encontrar um marido para a jovem. 2. Os judeus exageram na descrição que fazem da busca, fazendo crer que o caminho percorrido foi longo (v. 427), que sofreram as agruras das variações meteorológicas (vv. 431-433) e que essa busca foi minuciosa (vv. 460-461). Por outro lado, exageram também as qualidades do pretendente, para influenciar Inês para que esta o aceite (vv. 499-507). 3. Antes de conhecer Inês, o Escudeiro parece cético, pois duvida das qualidades de noiva, mas mostra-se cauteloso com a forma de agir no encontro. Durante o diálogo, revela o seu caráter dissimulado quando adverte o Moço para não o corrigir nem mostrar admiração se o vir mentir ou fazer-se passar por aquilo que não é. 4. Os versos parentéticos refletem o pensamento do Moço e pretendem criticar/ denunciar o comportamento do Escudeiro, quer quanto aos seus modos quer no que se refere ao facto de este tentar aparentar ser rico. 5. Metonímia. Significando “preto” apenas moeda de cobre, o Moço usa a expressão para se referir à falta de dinheiro e de bens materiais por parte do Escudeiro.

BLOCO INFORMATIVO – p. 284

111

GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a Caracterização das personagens | Relações entre personagens | Representação do quotidiano | Dimensão satírica

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Leia, de forma dialogada e expressiva, o excerto textual em que o Escudeiro se apresenta a Inês e esta o recebe como marido. Chega o Escudeiro onde está Inês Pereira, e alevantam-se todos, e fazem suas mesuras, e diz o Escudeiro:

Moço 600

Antes que mais diga agora, Deus vos salve, fresca rosa, e vos dê por minha esposa, por mulher e por senhora. Que bem vejo nesse ar, nesse despejo, mui graciosa donzela, que vós sois, minha alma, aquela que eu busco e que desejo.

565

Esc. Moço Esc. Moço

605

Esc.

610

Obrou bem a Natureza em vos dar tal condição que amais a discrição muito mais que a riqueza. Bem parece que a discrição merece gozar vossa fermosura, que é tal que, de ventura, outra tal não s’acontece.1

570

575

580

Lat. 585

Vid.

PROFESSOR

Senhora, eu me contento receber-vos como estais: se vós vos não contentais, o vosso contentamento pode falecer, nô mais.2 (Como fala! Mas ela como se cala! Tem atento o ouvido... Este há-de ser seu marido, segundo a coisa s'abala).

Moço Esc. Moço 615

620

Esc.

Moço

625

Esc. Moço

Esc.

Educação Literária 14.1; 14.2; 14.3; 14.5

Esc. 590

1

não há beleza como a vossa o vosso contentamento é a única qualidade que pode faltar-vos 3 estouvado 4 rude; bronco; vadio 5 isso arranja-se 2

112

595

Eu não tenho mais de meu, somente ser comprador do Marichal, meu senhor, e são escudeiro seu. Sei bem ler, e muito bem escrever, e bom jogador de bola, e quanto a tanger viola, logo me vereis tanger.

630 Moço

Esc. Moço 635

Esc.

Moço, que estás lá olhando? Que manda Vossa Mercê? Que venhas cá. Pera quê? Pera fazeres o que mando! Logo vou. (O diabo me tomou: tirar-me de João Montês por servir um tavanês3, mor doudo que Deos criou!) Fui despedir um rapaz por tomar este ladrão, que valia Perpinhão. Moço! Que vos praz? A viola. (Oh como ficará tola, se não fosse casar ante c’o mais çáfio4 bargante que coma pão e cebola!) Ei-la aqui bem temperada, não tendes que temperar. Faria bem de ta quebrar na cabeça, bem migada! E se ela é emprestada, quem na havia de pagar? Meu amo, eu quero-m'ir. E quando queres partir? Ante que venha o inverno porque vós não dais governo pera vos ninguém servir. Não dormes tu que te farte? No chão, e o telhado por manta... E çarra-se-m’a garganta com fome. Isso tem arte...5 Vós sempre zombais assi. Oh que boas vozes tem esta viola aqui! Leixa-me casar a mi, depois eu te farei bem.

Farsa de Inês Pereira

Mãe 640

Inês

Mãe Inês 645

650

Mãe

Lat.

655

Agora vos digo eu que Inês está no paraíso! Que tendes de ver c’o isso? Todo o mal há-de ser meu. Quanta doudice! Como é seca a velhice! Leixai-me ouvir e folgar, que não me hei-de contentar de casar com parvoíce.

680

685

Pode ser maior riqueza que um homem avisado? Muitas vezes, mal pecado,6 é milhor boa simpreza. Ora oivi, e oivireis. Escudeiro, cantareis algũa boa cantadela. Namorai esta donzela e esta cantiga direis:

700

670

675

Lat.

Senhora, perdei cuidado: o que há-de ser, há-de ser; e ninguém pode tolher o que está determinado. Assi diz Rabi Zarão. Inês, guar’-te de rascão!12 Escudeiro queres tu?! Jesu, nome de Jesu! Quão fora sois de feição!13

Vid.

Inês

Latão, já o sono é comigo. Como oivo cantar guaiado,7 que não vai esfandagado... Esse é o demo qu’eu digo! Viste cantar dona Sol: Pelo mar vai a vela vela vai pelo mar? Filha Inês, assi vivais que tomeis esse senhor escudeiro cantador e caçador de pardais, sabedor, revolvedor, falador, gracejador afoitado pola mão, e sabe de gavião... Tomai-o por meu amor.

Lat.

Mãe

Canta o Escudeiro o romance de «Mal me quieren en Castilla», e diz Vidal:

665

Quero rir com toda a mágua destes teus casamenteiros! Nunca vi judeus ferreiros aturar tão bem a frágoa.10 Não te é milhor, mal por mal, Inês, um bom oficial,11 que te ganhe nessa praça, que é um escravo de graça, e casarás com teu igual?

695

Canas do amor, canas canas do amor. Polo longo de um rio canaval vi florido, canas do amor.

Vid.

Mãe

690

Canta o Judeu

660

Podeis topar um rabugento, desmazelado, baboso, descancarrado,8 brigoso, medroso, carapatento. Este escudeiro, aosadas,9 onde se derem pancadas, ele as há-de levar boas, senão apanhar. Nele tendes boas fadas.

705

Mãe 710

Esc. Inês Esc.

715

Já minha mãe adevinha...14 Houvestes por vaidade casar à vossa vontade? Eu quero casar à minha. Casa, filha, muit’embora. Dai-me essa mão senhora. Senhor, de mui boa mente. Per palavras de presente vos recebo desd’agora. Nome de Deos, assi seja! Eu Brás da Mata, escudeiro, recebo a vós Inês Pereira por mulher e por parceira como manda a Santa Igreja.

6

infelizmente; 7 cantar nostálgico ou lamentoso; descarado; 9 interjeição que significa admiração; 10 desempenharem bem as suas funções; 11 artífice; 12 vadio; 13 sois tão pouco razoável; 14 já minha mãe se põe a adivinhar; a fazer agouros. 8

113

GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a Caracterização das personagens | Relações entre personagens | Representação do quotidiano | Dimensão satírica Inês 720

Lat.

15

os judeus felicitam Inês pelo seu casamento 16 Sê bem-vinda, Luzia 17 outra ocasião 18 fórmula de despedida 19 depressa; cedo PROFESSOR Escrita 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1 Proposta de síntese: 1. a. Na réplica inicial, o Escudeiro mostra-se muito galante, tecendo vários elogios a Inês: compara-a a uma rosa e chama-lhe “graciosa donzela”, afirmando que casará com ela de imediato. Enuncia, de seguida, as suas próprias características e os seus dons (saber ler, tanger viola…). b. Perante o Moço, mostra-se arrogante e, durante este diálogo, confirma-se, de novo, a sua pobreza e a sua fanfarronice. c. É também neste ponto que a Mãe se mostra pouco convencida das qualidades do noivo de Inês e questiona o trabalho dos judeus. Estes, por sua vez, são também críticos relativamente ao caráter e atributos de Brás da Mata. Apesar de tudo, mesmo contra a vontade da Mãe, Inês e o Escudeiro decidem casar-se. d. O Escudeiro revela mudanças de comportamento, pois mostra desagrado quando a Mãe prepara uma festa para comemorar a união e no modo ríspido como responde a Inês “Ó esposa não faleis, / que casar é cativeiro” (vv. 741-742). Faz-se uma pequena festa na qual participam alguns amigos. Findo o casamento, os noivos ficam sozinhos, depois de terem sido abençoados pela Mãe, que vai viver para outra casa. (176 palavras)

Eu, aqui diante Deos, Inês Pereira, recebo a vós, Brás da Mata, sem demanda como a Santa Igreja manda Juro al Deu! Aí somos nós!

Os Judeus ambos Alça manim, dona, ò dono, ha. 725 Arrea espeçulá.15 Bento o Deu de Jacob, bento o Deu que a Faraó espantou e espantará. Bento o Deu de Abraão 730 benta a terra de Canão. Para bem sejais casados! Dai-nos cá senhos ducados. Mãe Amenhã vol-os darão.

735

Esc. 740

Inês Esc.

Pois assi é, bem será que não passe isto assi. Eu quero chegar ali chamar meus amigos cá, e cantarão de terreiro. Oh! quem me fora solteiro! Já vós vos arrependeis? Ó esposa não faleis, que casar é cativeiro.

Aqui vem a Mãe com certas moças e mancebos pera fazerem a festa, e diz ũa delas, per nome Luzia:

745

Inês

Mãe

Fer. 750

Inês por teu bem te seja! Oh! que esposo e que alegria! Venhas embora, Luzia,16 e cedo t’eu assi veja. Ora vai tu ali, Inês, e bailareis três por três. Tu connosco, Luzia, aqui, e a desposada ali, ora vede qual direis.

Cantam todos a cantiga que se segue: Mal ferida va la garça enamorada, sola va y gritos dava. A las orillas de un rio la garça tenia el nido; ballestero la ha herido en el alma; sola va y gritos dava.

755

E, acabando de cantar e bailar, diz Fernando: Ora, senhores honrados, ficai com vossa mercê, e nosso Senhor vos dê com que vivais descansados Isto foi assi agora, mas melhor será outr’hora.17 Perdoai pelo presente: foi pouco e de boa mente. Com vossa mercê, Senhora...18

760

765

Luz. 770

Mãe

775

780

785

Ficai com Deos, desposados, com prazer e com saúde, e sempre Ele vos ajude com que sejais bem logrados. Ficai com Deos, filha minha, não virei cá tão asinha.19 A minha benção hajais. Esta casa em que ficais vos dou, e vou-me à casinha. Senhor filho e senhor meu, pois que já Inês é vossa, vossa mulher e esposa, encomendo-vo-la eu. E, pois que des que nasceo a outrem não conheceo, senão a vós, por senhor, que lhe tenhais muito amor, que amado sejais no céo. BLOCO INFORMATIVO – p. 283

E S C R I TA 1. Sintetize o conteúdo deste excerto, num texto correto e coerente, contendo entre

150 e 200 palavras, contemplando os seguintes aspetos: a. réplica inicial do Escudeiro;

c. comentários dos judeus e da Mãe;

b. diálogo entre o Escudeiro e o Moço; d. mudanças no comportamento do Escudeiro.

114

Farsa de Inês Pereira Caracterização das personagens | Relações entre personagens

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Leia agora o excerto relativo à vida de casada de Inês Pereira. Ida a Mãe, fica Inês Pereira e o Escudeiro. E senta-se Inês Pereira a lavrar, e canta esta cantiga: Si no os huviera mirado no penara, pero tampoco os mirara

Pode ser maior aviso, maior descrição e siso que guardar eu meu tisouro? Não sois vós, mulher, meu ouro? Que mal faço em guardar isso?

825

Vós não haveis de mandar em casa somente um pelo. Se eu disser: – isto é novelo – havei-lo de confirmar. E mais quando eu vier de fora, haveis de tremer; e cousa que vós digais não vos há-de valer mais que aquilo que eu quiser.

O Escudeiro, vendo cantar a Inês Pereira, mui agastado lhe diz: 790

795

Inês

Esc. 800

Inês Esc.

805

Vós cantais, Inês Pereira? Em vodas m'andáveis vós? Juro ao Corpo de Deos que esta seja a derradeira! Se vos eu vejo cantar, eu vos farei assoviar… Bofé1, senhor meu marido, se vós disso sois servido, bem o posso eu escusar. Mas é bem que o escuseis, e outras cousas que não digo! Porque bradais vós comigo? Será bem que vos caleis. E mais, sereis avisada que não me respondais nada, em que2 ponha fogo a tudo, porque o homem sesudo traz a mulher sopeada.

830

[para o criado] 835

Moço

Esc. 840

[para Inês]

Moço

Vós não haveis de falar com homem, nem mulher que seja nem somente ir à igreja não vos quero eu leixar. já vos preguei as janelas, por que vos não ponhais nelas. Estareis aqui encerrada nesta casa, tão fechada como freira d'Oudivelas.

810

815

Inês

Esc. 820

1 3

Que pecado foi o meu? Porque me dais tal prisão? Vós buscastes descrição, que culpa vos tenho eu?

Moço, às Partes d'Além3 me vou fazer cavaleiro. (Se vós tivésseis dinheiro. não seria senão bem...) Tu hás-de ficar aqui. Olha, por amor de mi, o que faz tua senhora: fechá-la-ás sempre de fora.

845

Esc.

Moço

850

Esc. Moço

Vós, lavrai, ficai per i. Com o que me vós leixais não comerei eu galinhas... Vai-te tu per essas vinhas, que diabo queres mais? Olhai, olhai! Como rima!4 E depois de ida a vendima? Apanha desse rabisco.5 Pesar hora de São Pisco! Convidarei minha prima... E o rabisco acabado, ir-me-ei espojar às eiras?

exclamação que pode significar ‘na verdade’; 2 mesmo que; Marrocos; 4 (por antífrase ) que disparate!; 5 restos da vindima.

115

GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a Caracterização das personagens | Relações entre personagens 855

Esc.

Moço Esc.

860

Moço

Vai-te per essas figueiras, e farta-te, desmazelado! Assi? Pois que cuidavas? E depois virão as favas. Conheces túbaras de terra? I-vos vós, embora, à guerra, que eu vos guardarei oitavas6...

Juro em todo meu sentido que se solteira me vejo, assi como eu desejo, que eu saiba escolher marido, a boa fé, sem mal engano, pacífico todo ano, e que ande a meu mandar. Havia m'eu de vingar deste mal e deste dano!

895

900

Ido o Escudeiro, diz o Moço: Entra o Moço com ũa carta de Arzila, e diz:

865

Inês

Moço

870

Senhora, o que ele mandou não posso menos fazer. Pois que te dá de comer, faze o que t’encomendou. Vós fartai-vos de lavrar, eu me vou desenfadar com essas moças lá fora. Vós perdoai-me, senhora, porque vos hei-de fechar.

Inês

Lê o sobrescrito. «À mui prezada senhora Inês Pereira da Grã, a senhora minha irmã». De meu irmão... Venha embora!

905

Aqui fica Inês Pereira só, fechada, lavrando e cantando esta cantiga: Quem bem tem e mal escolhe por mal que lhe venha não s'anoje.

875

880

885

890

6 8

Renego da discrição, comendo ò demo o aviso, que sempre cuidei que nisso estava a boa condição. Cuidei que fossem cavaleiros, fidalgos e escudeiros, não cheos de desvarios, e em suas casas macios, e na guerra lastimeiros7. Vede que cavalarias, vede que já mouros mata quem sua mulher mal trata sem lhe dar de paz um dia! E sempre ouvi dizer que homem que isto fizer nunca mata drago em vale, nem mouro que chamem Ale: e assi deve de ser.

os rendimentos (em sentido irónico); 7 cruel, desapiedado; sede forte; 9 devoção.

116

Esta carta vem d’Além, creo que é de meu senhor. Mostrai cá, meu guarda-mor, veremos o que i vem.

Moço 910

Inês Moço Inês 915

Moço Inês

Vosso irmão está em Arzila? Apostarei que i vem nova de meu senhor também. Já ele partio de Tavila? Há três meses que é passado. Aqui virá logo recado se lhe vai bem, ou que faz. Bem pequena é a carta assás! Carta de homem avisado… Lê Inês Pereira a carta, a qual diz:

920

925

930

Moço

«Muito honrada irmã, esforçai o coração8 e tomai por devação9 de querer o que Deus quer.» E isto que quer dizer? «E não vos maravilheis de cousa que o mundo faça, que sempre nos embaraça com cousas. Sabei que indo vosso marido fugindo da batalha pera a vila, a mea légua de Arzila, o matou um mouro pastor». Oh meu amo e meu senhor!

Farsa de Inês Pereira

Inês

Moço 935

940

Inês

Dai-me vós cá essa chave, e i buscar vossa vida. Oh que triste despedida! Mas que nova tão suave! Desatado é o nó. Se eu por ele ponho dó, o diabo me arrebente! Pera mim era valente, e matou-o um mouro só!

Guardar de cavaleirão, barbudo, repetenado10, que em figura de avisado é malino e sotrancão11. Agora quero tomar, pera boa vida gozar, um muito manso marido. Não no quero já sabido, pois tão caro há-de custar.

945

10

manhoso; 11 hipócrita.

1. Complete o esquema seguinte, considerando o excerto lido.

Comportamento do Escudeiro e de Inês durante o casamento:

A. O Escudeiro mostra-se

B. Inês não percebe a razão do “encarceramento”, mas

Após a partida do Escudeiro para o Norte de África,

PROFESSOR

C. Inês é vigiada pelo seu marido. Contudo,

. Inês cumpre

as indicações do .

D. A chegada de uma carta anuncia a morte do Escudeiro, quando .

E. A morte do Escudeiro origina

.

Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.7 1. A. arrogante e mesquinho, desprezando o papel de Inês enquanto mulher; tranca as janelas e impõe-lhe regras de comportamento. Manifesta a intenção de se fazer cavaleiro no Norte de África. B. aceita as regras impostas e não manifesta intenções de se livrar do casamento. C. Moço. […] escrupulosamente […] mostra-se agastada com a situação e tece considerações sobre o modelo de marido que agora deseja. D. fugia cobardemente do campo de batalha. E. a libertação de Inês.

117

GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a

LEITURA Se no passado o papel da mulher no casamento era sobretudo passivo, nos tempos mais recentes, a situação alterou-se, uma vez que o sexo feminino tem também outras prioridades, nomeadamente a carreira profissional. Leia atentamente o texto, no qual se problematiza a temática do casamento, e responda às questões apresentadas.

A verdade das relações Por Júlia Serrão

5

10

15

20

25

30

118

Nada ficou como antes depois de as mulheres terem conquistado o mercado de trabalho, da invenção do casamento por amor e de o universo feminino ter passado a reivindicar o desejo e o prazer sexual. A partir destes acontecimentos, a dinâmica das relações amorosas mudou e o tipo de relacionamento entre homem e mulher, no casamento, ficou mais equilibrado – extingue-se a fórmula que funcionou durante séculos, onde eles tinham o poder, mandavam, e elas obedeciam. […] Casal de velhos, estátua exposta em Vigeland Park A dinâmica de relacionamento está inand Museum, Oslo, Noruega. timamente ligada às motivações do amor e estas continuam a ser múltiplas e complexas, apesar de o casamento assentar no novo paradigma do respeito mútuo entre as duas pessoas. […]. “O amor é muita coisa diferente para pessoas diferentes”, observa Rita Duarte, psicoterapeuta e mediadora familiar. […] Para a psicoterapeuta, a grande diferença entre as uniões atuais e as de há 30 ou 40 anos “tem a ver essencialmente com a capacidade com que uma pessoa se desliga da outra. […]” Não existem os constrangimentos que existiam antigamente, pelo que o fim de uma relação passou por vezes a ser muito banal. “As pessoas não aceitam numa relação as suas divergências nem o facto de, em alguns momentos, a mesma pessoa que desencadeia nelas os sentimentos mais intensos e positivos as levar também a sentir emoções muito contrárias ao amor, como a repulsa. Ficam muito aflitas com isto que sentem e começam a criar avaliações negativas do outro, quando o problema é apenas de comunicação entre os dois”, diz. Antigamente também não havia negociação possível. Mas o fim das relações era menos precipitado, independentemente de ser desejável. Alguns terapeutas dizem que se passou mesmo de um extremo ao outro: de aguentar tudo, até que a morte nos separe, ao pôr fim à relação ao primeiro conflito. E explicam, como Augusto Cury, em Mulheres Inteligentes Relações Saudáveis (Pergaminho): “Não há casais perfeitos, a não ser que estejam separados ou a morar em continentes diferentes, portanto, se duas pessoas moram debaixo do mesmo teto, é impossível não terem áreas de atrito.”

Farsa de Inês Pereira PROFESSOR

35

40

45

Noutros tempos, casava-se por conveniência e para não se ficar sozinho. Hoje, regra geral, casa-se por amor, escolhe-se o parceiro. […] O lado biológico, a forma como nos damos com o outro neste aspeto, é muito importante. Mas, segundo a psicoterapeuta, o mais importante numa relação de hoje é as pessoas sentirem que o outro está lá para elas, ao nível da compreensão emocional. Os homens já não representam “a segurança, nomeadamente material. Já não são a coluna vertebral de apoio”. Elas já não os querem com estes atributos, nem precisam. Emanciparam-se! […] De qualquer forma, a gestão desta economia no passado nunca passava pela mulher, era o homem que a fazia, que ditava as regras também neste campo. E delas não se esperava que dessem opinião, nem que manifestassem qualquer necessidade. Nas últimas décadas, as mulheres portuguesas ganharam independência económica e o direito de se expressar. E, com estas conquistas, o casamento nunca mais foi o que era. E alguns homens têm medo disso, assegura Rita Duarte. “Sentem-se mesmo ameaçados com o poder que elas têm.” Máxima, edição online (consultado em fevereiro de 2017).

1. Indique as causas das mudanças comportamentais patentes nos relacionamentos

amorosos contemporâneos. 2. Caracterize, comparando, as uniões mais recentes e as que “funcionaram” durante

séculos. 3. Explique o sentido da afirmação “Antigamente também não havia negociação pos-

sível” (l. 27). 4. Associe as seguintes afirmações do texto a factos do casamento de Inês Pereira

com o Escudeiro. a. “Antigamente também não havia negociação possível.” (l. 27) b. “Noutros tempos, casava-se por conveniência e para não se ficar sozinho.” (l. 34) c. “De qualquer forma, a gestão desta economia no passado nunca passava pela mu-

lher, era o homem que a fazia, que ditava as regras também neste campo.” (ll. 40-42) d. “E delas não se esperava que dessem opinião, nem que manifestassem qualquer

necessidade.” (ll. 42-43)

GRAMÁTICA 1. Atente nos seguintes excertos.

a. “Nada ficou como antes depois de as mulheres terem conquistado o mercado de trabalho”. (ll. 1-3) b. “… extingue-se a fórmula que funcionou durante séculos”. (ll. 10-11) c. “se duas pessoas moram debaixo do mesmo teto, é impossível não terem áreas de atrito.” (ll. 32-33) 1.1

Leitura 7.2; 7.4; 8.1; 9.1 1. A mudança de atitude perante o casamento, nomeadamente no que se refere ao prazer; a independência económica e o casamento por amor. 2. As relações mais distantes temporalmente aconteciam por conveniência, duravam mais, uma vez que a relutância em pôr fim ao relacionamento era maior, em virtude da falta de independência económica da mulher e da submissão à vontade do homem, o que não acontece no presente. No entanto, atualmente, o fim das relações também é mais rápido do que o desejável (apesar do casamento por amor), em virtude da falta de paciência e de comunicação. 3. A afirmação evidencia a autoridade e a supremacia do homem na relação matrimonial, remetendo também para uma sociedade predominantemente patriarcal. 4. a. A arrogância do Escudeiro e o modo como “aniquila” a vontade de Inês. b. Inês casa com o Escudeiro, procurando obter assim a emancipação e a ascensão social. c. e d. Novamente a atitude do Escudeiro, nomeadamente na seguinte réplica “Vós não haveis de mandar / em casa somente um pelo. / Se eu disser: – isto é novelo – / havei-lo de confirmar.” (vv. 826-829) Gramática 18.1; 18.4 1.1 a. Oração subordinada (adverbial) temporal b. Oração subordinada (adjetiva) relativa (restritiva) c. Oração subordinada (adverbial) condicional 1.2 Caso duas pessoas morem debaixo do mesmo teto, … 1.3 Sujeito (simples)

Classifique a oração subordinada presente em cada uma das frases.

1.2 Substitua o conector “se” na frase c. por “caso” e reescreva a frase, procedendo

às alterações necessárias. 1.3 Identifique a função sintática desempenhada pelo constituinte “Nada” na frase a.

BLOCO INFORMATIVO –

pp. 277, 271-273

119

GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a

E S C R I TA APRECIAÇÃO CRÍTICA Um texto de apreciação crítica centra-se na apreciação de um filme, de um livro, de uma peça de teatro, de uma obra de arte, etc. Para tal, expõe informação significativa, encadeada logicamente, sobre o objeto visado e associa-lhe um comentário crítico, orientado numa perspetiva positiva ou negativa. Apresenta, ainda, uma descrição sucinta e um comentário crítico sobre o tema/objeto em causa. Leia atentamente o texto e atente na sua estrutura destacada na margem. TÍTULO

Um jantar envenenado

com recurso à adjetivação para captar a atenção.

Um romance que veio da Holanda e que enerva o leitor até ao desespero.

INTRODUÇÃO

sucinta e clara, mas que desafia o leitor.

5

DESENVOLVIMENTO

onde se faz a descrição resumida do objeto (a obra literária) e se apresenta o conteúdo como argumento para valorizar o romance em apreciação, recorrendo a um vocabulário valorativo, como se percebe pelo verbo “escalpelizar” ou pela expressão “Tudo sem grandes contemplações”, no qual é visível o juízo de valor do autor do artigo.

10

15

20

25

CONCLUSÃO

que confirma o sucesso do romance, como é comprovado pela sua tradução em várias línguas.

30

O Jantar é um dos livros mais bem sucedidos da literatura holandesa recente. Trezentas páginas sobre um encontro entre dois casais para mascararem as más ações dos filhos. Baseado num facto verídico, o assassinato de uma sem-abrigo em Barcelona, o autor decide escalpelizar1 as relações conjugais, familiares, sociais e fazer uma avaliação psiquiátrica do estado da civilização em que vivemos. Vai daí, Herman Koch expõe todos os podres dos casais, as verdadeiras personalidades do quarteto; a manipulação dos filhos, bem como dos empregados e clientes do restaurante. Tudo sem grandes contemplações. Conforme os casais vão sendo expostos, o leitor vai-se vendo ao espelho, reconhece-se, revê amigos e conhecidos, pensa no modo como educa os filhos e, lá para o final, já admite que gostaria de aplicar um bom golpe de judo e deixar atordoado quem o irrita. Este é um livro em que os sentimentos dos leitores são manipulados tal é o modo como Herman Koch utiliza as personagens e, sem o poder evitar, cria uma interação com os leitores. Tanto que a dado momento o leitor tem todo o direito a sentir-se ultrajado e irritado por causa daquilo que vai acontecendo no romance. Pode sentir vontade de rasgar as páginas, mas não o pode fazer porque ficaria sem saber o final. Herman Koch nem sempre foi escritor. Antes, representou vários papéis em séries de televisão e escreveu contos, até que o sucesso deste romance o tornou famoso e foi traduzido em mais de duas dezenas de línguas. 1

120

aprofundar.

João Céu e Silva, in DN (Artes), edição online de 21 de julho de 2015 (consultado em fevereiro de 2017).

Farsa de Inês Pereira

COMO ESCREVER UMA APRECIAÇÃO CRÍTICA

• Apresentar um conteúdo informativo, mas incluir apreciações pessoais. • Recorrer à argumentação e respetiva exemplificação para fundamentar a perspetiva e persuadir o público leitor.

• Utilizar uma linguagem valorativa (negativa ou positiva), mas clara. • Organizar o texto numa estrutura tripartida. Introdução: • apresentação sucinta e valorativa do objeto, com recurso a linguagem expressiva denunciadora da posição pessoal. Desenvolvimento: • informações sobre o objeto, seu conteúdo, características (físicas ou outras); • comentário crítico valorativo; • apresentação dos argumentos que sustentam a opinião crítica. Conclusão: • síntese da informação mais importante. PROFESSOR

ESCREVER UMA APRECIAÇÃO CRÍTICA 1. Observe atentamente o se-

guinte quadro de um pintor francês, representante do movimento impressionista.

Pierre-Auguste Renoir, O Almoço no Barco, óleo sobre tela, 1881, the Phillips collection, Washington, USA.

Elabore um texto de apreciação crítica, com 100 a 140 palavras, baseando-se na imagem e nos tópicos abaixo elencados: a. Estrutura tripartida do texto:

• Introdução: descrição sucinta do objeto (autor, obra, movimento estético). • Desenvolvimento: – ambiente retratado e sua relação com a época de produção da obra; – adequação do título ao conteúdo representado; – cores e elementos dominantes; – aspetos que suscitaram o seu interesse e respetiva justificação.

• Conclusão: retoma e reforço da posição pessoal, assumida na introdução. b. Redação clara e objetiva, respeitando os mecanismos de coesão e coerência textual.

Escrita 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1 1. O quadro O Almoço no Barco, de Pierre-Auguste Renoir, é um belo exemplo da pintura impressionista. Este quadro apresenta-nos, em pinceladas ricas em cores vivas, um almoço alegre, sugerido também pelas expressões das personagens. É um ambiente burguês, característico do século XIX, como se confirma pelo vestuário e pela presença de um mimoso cãozinho. Os alimentos dispersos, entre os quais se destacam, no centro da tela, quatro garrafas de um bom vinho, certamente francês, contribuem também para a criação desse ambiente descontraído. É, talvez, domingo, daí o passeio de barco e a presença de uma paisagem natural, em harmonia com o elemento humano. É de realçar a descontração dos dois jovens de braços nus, traduzida também na sua postura. Efetivamente, Renoir soube captar, com brancos e ocres consistentes, os joviais momentos de convívio da pequena burguesia de oitocentos. (138 palavras)

c. Utilização de vocabulário adequado e diversificado.

121

v

Processos irregulares de formação de palavras

N DE R RE AP

APRENDER

G RA M Á T

ICA

APL ICA

R

O léxico de uma língua refere-se ao conjunto de palavras, ou unidades de sentido, que dela fazem parte. Por vezes, torna-se necessário criar novas palavras, o que pode ser alcançado através de processos regulares (derivação e composição) ou através de processos irregulares, como os que a seguir se apresentam.

Designação

Definição

Acrónimo

Criação de um vocábulo através da junção de letras ou de sílabas de um grupo de palavras, relativas à mesma realidade. Pronuncia-se como uma só palavra.

Sigla

Empréstimo

Processo de transferência de uma palavra de uma língua para outra, com ou sem adaptações às características formais da língua recetora.

Extensão semântica

Criação de novos sentidos para uma palavra já existente na língua que, contudo, não perde o(s) significado(s) anterior(es).

Truncação

Criação de um termo que se caracteriza pela eliminação de parte da palavra de que deriva.

Amálgama

122

Criação de uma palavra a partir da redução de um grupo de palavras às suas iniciais. Cada letra pronuncia-se separadamente.

Criação de uma palavra a partir da junção de partes de duas ou mais palavras.

Exemplo

• A FENPROF é uma entidade sindical que representa os professores. • Sabes elucidar-me sobre o que são os PALOP?

• O meu irmão é mais novo do que eu; ainda estuda na EB1 da minha rua. • A GNR tomou conta da ocorrência.

• Se retirarmos os lobos do seu habitat, podem tornar-se violentos. • Ouvi dizer que o chocolate é um inibidor do stresse.

• Julgo que o meu computador tem uma avaria, uma vez que se abrem diversas janelas sempre que tento navegar. Será um problema do rato?

• A Joana colocou uma foto nova no Facebook. • Nunca tive nega a Português.

• Muitos internautas comunicam exclusivamente através das redes sociais. • A informática continua a ser uma área na qual abundam as possibilidades de emprego.

APLICAR 1. Leia os seguintes trechos. A. Samuel Silva, 26 de março de 2014

Na maioria dos Estados-membros na UE, há mais jovens a viverem com os pais agora do que em 2007, ano a que se reportava a anterior publicação da European Foundation for the Improvement of Living and Working Conditions [...]. Visão, edição online, 3 de junho de 2014 (consultado em junho de 2014).

B.

As línguas mais faladas na rede No início do século, metade dos utilizadores da Internet comunicavam em Inglês. Agora, a rede é cada vez mais poliglota […]. Visão, edição n.o 1126, 2 de outubro de 2014, p. 20.

C. PROFESSOR

Os problemas que, no último mês, têm afetado os tribunais, por via das falhas na plataforma informática Citius, vão agravar a falta de confiança na Justiça, prevê o presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Público, edição online, 3 de outubro de 2014 (consultado em outubro de 2014).

Gramática 19.6; 19.7 1.1 e 1.2

D.

A Organização do Tratado do Atlântico Norte, a OTAN (que, em inglês, é NATO: North Atlantic Treaty Organization), é uma instituição militar criada durante o contexto inicial da Guerra Fria […]. mundoeducacao.com/geografia/otan.htm (consultado em fevereiro de 2017, adaptado).

1.1

Retire, dos textos, os vocábulos que configuram processos irregulares de formação de palavras.

1.2 Associe cada um dos vocábulos ao respetivo processo de formação. 2. Atente nas seguintes frases a. O pai abriu o Portal do Cidadão e acedeu à informação que pretendia. b. A mãe comprou uma máscara hidratante para as extensões da minha irmã. c. A bateria do portátil acabou, mas ainda consegui salvar o documento. 2.1

Identifique o processo de formação das palavras sublinhadas.

2.2 Construa uma frase para cada palavra sublinhada, exemplificativa do seu signifi-

cado de base.

Palavra

Processo de formação

UE

Sigla

Internet

Empréstimo

Rede

Extensão semântica

Plataforma

Extensão semântica

Informática

Amálgama

OTAN/NATO

Acrónimo

2.1 Todas se formaram por extensão semântica. 2.2 a. O pai fechou o portal que dá para o quintal. b. Em minha casa há várias extensões telefónicas; A extensão deste campo de jogos é invulgar. c. O médico salvou a jovem de morte certa.

123

GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a Caracterização das personagens | Relações entre personagens | Dimensão satírica

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Morto o Escudeiro, Inês está livre para novos amores. Leia a passagem textual em que Lianor Vaz propõe novamente a Inês o casamento com Pero Marques e tome conhecimento do que sucede de seguida. Aqui vem Lianor Vaz, e finge Inês Pereira estar chorando, e diz Lianor Vaz: 950

Lia. Inês Lia. Inês Lia.

955

Inês

Lia.

960

Inês

965

Lia.

970

Inês

Lia. 975

Vem Lianor Vaz com Pero Marques e diz Lianor Vaz:

Como estais, Inês Pereira? Muito triste, Lianor Vaz. Que fareis ao que Deos faz? Casei por minha canseira. Se ficastes prenhe basta. Bem quisera eu dele casta, mas não quis minha ventura. Filha, não tomeis tristura, que a morte a todos gasta.

Pero 990

Inês

995

O que havedes de fazer?... Casade-vos, filha minha. Jesu, Jesu! Tão asinha? Isso me haveis de dizer? Quem perdeo um tal marido, tão discreto e tão sabido, e tão amigo de minha vida? Dai isso por esquecido, e buscai outra guarida.

Pero

Lia. 1000 Pero

Lia. Pero

Pero Marques tem, que herdou, fazenda de mil cruzados. Mas vós quereis avisados... Não! Já esse tempo passou. Sobre quantos mestres são experiência dá lição. Pois tendes esse saber, querei ora a quem vos quer, dai ò demo a opinião.

1005

Lia. Inês 1010

Pero

Inês

Vai Lianor Vaz por Pero Marques, e fica Inês Pereira só, dizendo:

980

985

124

Andar1! Pero Marques seja. Quero tomar por esposo quem se tenha por ditoso de cada vez que me veja. Por usar de siso mero2, asno que me leve quero, e não cavalo folão3. Antes lebre que leão, antes lavrador que Nero.

Lia.

Pero 1015

Inês Pero

1020

1

No mais cerimónias agora; abraçai Inês Pereira por mulher e por parceira. Há homem empacho, má ora,4 quant’a dizer abraçar… Depois que a eu usar entonces poderá ser. (Não lhe quero mais saber, já me quero contentar...) Ora dai-me essa mão cá. Sabeis as palavras, si? Ensinaram-mas a mi, perém esquecem-me já... Ora dizei como digo. E tendes vós aqui trigo pera nos jeitar por cima?5 Inda é cedo... Como rima!6 Soma, vós casais comigo, e eu com vosco, pardelhas!7 Não compre aqui mais falar. E quando vos eu negar que me cortem as orelhas. Vou-me, ficai-vos embora. Marido, sairei eu agora, que há muito que não saí? Si, mulher, saí-vos i, qu’eu me irei pera fora. Marido, não digo isso. Pois que dizeis vós mulher? Ir folgar onde eu quiser. I onde quiserdes ir, vinde quando quiserdes vir estai quando quiserdes estar. Com que podeis vós folgar qu’eu não deva consentir?

adiante; 2 para proceder com todo o juízo; 3 fogoso; 4 sente-se um homem atrapalhado, que diabo!; 5 alusão a um antigo costume de lançar grãos de trigo sobre os noivos; 6 que disparate; 7 (o mesmo que pardeos) interjeição “por Deus!”.

Farsa de Inês Pereira

Vem um Ermitão a pedir esmola, que em moço lhe quis bem, e diz:

1025

1030

1035

1040

Inês 1065

Señores, por caridad dad limosna8 al dolorido, ermitaño de Cupido para siempre en soledad. Pues su siervo soy nacido, por exemplo, me meti en su santo templo ermitaño en pobre ermita, fabricada de infinita tristeza en que contemplo,

Pero

[Inês fala a sós com o Ermitão] 1070

1050

1055

1060

Inês

Erm.

adonde rezo mis horas y mis dias, y mis años, mis servicios y mis daños, donde tu, mi alma, lloras, el fin de tantos engaños. Y acabando las horas, todas llorando, tomo las cuentas una y una, con que tomó a la Fortuna cuenta del mal en que ando, sin esperar paga alguna.

1075

1080

8

1045

Olhai cá, marido amigo, eu tenho por devação dar esmola a um ermitão. E não vades vós comigo. I-vos embora9, mulher, não tenho lá que fazer.

Tomai a esmola, padre, lá, pois que Deos vos trouxe aqui. Sea por amor de mi vuesa buena caridad. Deo gratias, mi señora! La limosna mata el pecado, pero vos tenéis cuidado de matarme cada hora. Deveis saber, para merced me hazer que por vos soy ermitaño. Y aun más os desengaño: que esperanças de os ver me hizieron vestir tal paño.

esmola; 9 em boa hora.

Y ansi sin esperanza de cobrar lo merecido, sirvo alli mis dias Cupido con tanto amor sin mudanza, que soy su santo escogido. Ó señores, los que bien os va d'amores, dad limosna al sin holgura, que habita en sierra escura, uno de los amadores que tuvo menos ventura. Y rogaré al Dios de mi, en quien mis sentidos traigo, que recibais mejor pago de lo que yo recebi en esta vida que hago. Y rezaré con gran devoción y fe, que Dios os libre d’engaño, que esso me hizo hermitaño, y pera siempre seré, pues para siempre es mi daño.

125

GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a Caracterização das personagens | Relações entre personagens | Dimensão satírica

Inês 1085

1090

Jesu, Jesu! Manas minhas! Sois vós aquele que um dia em casa de minha tia me mandastes camarinhas, e quando aprendia a lavrar mandáveis-me tanta cousinha? Eu era ainda Inesinha, não vos queria falar.

Pero Inês

1115

Pero Inês

Pero Inês

Erm.

1095

Inês

1100

Erm. Inês

1105

Erm.

Señora, tengoos servido, y vos a mi despreciado; hazed que el tiempo pasado no se cuente por perdido. Padre, mui bem vos entendo… Ò demo vos encomendo, que bem sabeis vós pedir! Eu determino lá d'ir à ermida, Deos querendo.

1120

Pero Inês

1125

Pero 1110

Inês

Em tudo é boa a concrusão. Marido, aquele ermitão é um anjinho de Deos... Corregê-vos esses véos,10 e ponde-vos em feição.11 Sabeis vós o que eu queria?

Inês

Inês

1130

Pero Inês

1135

Pero Inês

1140

10

126

Pero

Pero

[Inês torna para Pero Marques] Inês

Seja logo, sem deter. Este caminho é comprido... Contai ũa estória, marido. Bofá12 que me praz, mulher. Passemos primeiro o rio. Descalçai-vos. E pois como? E levar-me-eis no ombro, não me corte a madre13 o frio.

Põe-se Inês Pereira às costas do marido, e diz:

E quando? I-vos, meu santo, que eu irei um dia destes muito cedo, muito prestes. Señora yo me voy en tanto.

Que quereis, minha mulher? Que houvésseis por prazer de irmos lá em romaria.

Marido, assi me levade. Ides à vossa vontade? Como estar no paraíso! Muito folgo eu com isso. Esperade, ora esperade! Olhai que lousas aquelas, pera poer14 as talhas nelas! Quereis que as leve? Si. Ua aqui e outra aqui. Oh como folgo com elas! Cantemos, marido, quereis? Eu não saberei entoar… Pois eu hei só de cantar E vós me respondereis cada vez que eu acabar: «pois assi se fazem as cousas».

componde esses véus; 11 para parecer bonita; 12 interjeição (na verdade); 13 útero; 14 pôr.

Farsa de Inês Pereira PROFESSOR

Canta Inês Pereira:

Pero

Inês 1145

1150

Pero

Inês

Marido cuco me levades. E mais duas lousas. Pois assi se fazem as cousas.

1155

Bem sabedes vós, marido, quanto vos amo: sempre fostes percebido15 pera gamo.16 Carregado ides, noss'amo, com duas lousas. Pois assi se fazem as cousas.

Pero

Bem sabedes vós marido quanto vos quero. Sempre fostes percebido pera cervo. Agora vos tomou o demo com duas lousas. Pois assi se fazem as cousas.

E assi se vão, e se acaba o dito Auto.

15

sempre tivestes inclinação; 16 o cervo, ou gamo, é como o cuco: um símbolo do marido traído.

1. Complete o seguinte quadro procedendo à caracterização das personagens Inês

Pereira e Pero Marques. Momento presente no excerto

Personagem

Caracterização

Versos exemplificativos

No diálogo com Lianor Vaz

Inês

Dissimulada, falsamente pesarosa com a morte do escudeiro.

a.

No monólogo

Inês

b.

c.

No diálogo com o ermitão

Inês

d.

vv. 1070-1105

Durante a cerimónia de casamento

Pero Marques

e.

f.

Quando fica a sós com Inês

Pero Marques

Imbecil, disposto a satisfazer todos os desejos de Inês, sem perceber a astúcia dela.

vv. 1009-1121

Quando cumpre o desejo de Inês

Pero Marques

g.

vv. 1122-1157

Educação Literária 14.5; 14.7; 14.11; 15.1 1. a. vv. 950-976 b. Preparada para casar novamente, seja com quem for, pois aprendeu a lição. c. vv. 977-985 d. Astuta, reconhecendo no Ermitão um antigo namorado e vendo nele a possibilidade de gozar a liberdade de que havia estado privada durante o casamento com o Escudeiro. e. Lisonjeiro, mas mantendo o caráter rude que o caracteriza. f. vv. 986-1008 g. Imbecil, tonto, carrega a mulher às costas sem perceber que esta está a pensar traí-lo. 2. a. satírica (crítica) b. cerimónia c. questionar d. linguagem (caráter) e. Inês f. significado g. cómica 3. O argumento ilustra, metaforicamente, o percurso de Inês Pereira, que compreendeu que o marido que mais favorece os seus intentos será o boçal, que não impede a satisfação dos seus desejos (o asno), e não o cortês, que se tornou um obstáculo à sua forma de ser (o cavalo). Perversa, Inês acaba por tornar o argumento literalmente real, obrigando o marido a assumir o papel de asno, carregando-a.

2. Um dos artifícios a que Gil Vicente recorre para a caracterização das personagens,

nomeadamente, Pero Marques, é o cómico. Preencha o texto seguinte, selecionando, entre as palavras abaixo propostas, as adequadas, de modo a confirmar o recurso a este artifício e a(s) sua(s) intencionalidade(s). • cómica • afirmar

• cerimónia • Inês

• significado

• satírica

• questionar

• linguagem

• noivo

O cómico está ao serviço de uma intenção a. e moralizadora. Pero Marques comporta-se de modo cómico durante a b. do casamento, demonstrando a sua preocupação em seguir todos os rituais, ao c. se não há trigo para festejar aparece nas suas réplicas e nas de e. , o casamento; o cómico de d. uma vez que Pero não percebe o f. das palavras ditas pela esposa (vv. 1009-1013). Por outro lado, a visão do lavrador carregando Inês às costas, para atravessar o rio, é também uma situação g. . 3. Relacione o final da farsa com o argumento “mais quero asno que me leve que

cavalo que me derrube”, explorando os seus significados. 127

GP ai ld Vr ei c Ae n t óe n i o V i e i r a Caracterização das personagens | Relações entre personagens | Dimensão satírica

EXPRESSÃO ORAL PROFESSOR Oralidade 5.1; 5.3; 6.1; 6.2; 15.7

Observe atentamente a página de banda desenhada que se segue, retirada de uma edição da Farsa de Inês Pereira, ilustrada por Artur Correia.

1. A banda desenhada representa o momento do diálogo entre mãe e filha, após esta ter rejeitado Pero Marques. 2. O ilustrador consegue destacar a preguiça e o caráter sonhador de Inês associando-a sempre à cama. O olhar da jovem nas primeira e terceira vinhetas é também revelador desse lado fantasioso.

Gil Vicente, Farsa de Inês Pereira, ilustrada por Artur Correia, Lisboa, Bertrand Editora, 2006, p. 34.

1. Contextualize o conteúdo desta prancha de BD relativamente à progressão da nar-

rativa e à estrutura da obra. 2. Demonstre como, ao longo da prancha, o ilustrador realça o caráter indolente

e fantasioso de Inês.

128

Farsa de Inês Pereira

LEITURA PROFESSOR

Leia atentamente o seguinte texto de apreciação crítica.

Um homem, uma mulher e um tribunal Depois da sua apresentação na Mostra de Cinema e Cultura Judaica, Gett: O Processo de Viviane Amsalem chega às salas… Um espantoso retrato íntimo de um divórcio que acabou por se transformar no centro de um debate na sociedade israelita. 5

10

15

20

25

Há qualquer coisa de simultaneamente enigmático e deslumbrante quando um filme consegue colocar em cena uma particularíssima situação, enraizada num universo cultural específico, simbolicamente muito distante do nosso, gerando um efeito universal e universalista. Gett: O Processo de Viviane Amsalem é um desses filmes — o relato minucioso, minuciosamente obsessivo, de um caso de divórcio em Israel, capaz de desencadear ondas de choque em qualquer espetador de sensibilidade realmente disponível […]. A situação envolve um invulgar dramatismo. Tudo se passa em torno de Viviane Amsalem e do marido Elisha. De facto, eles já não vivem juntos há três anos — e durante esse período, a mulher tem insistido para que o marido lhe conceda o divórcio. E é disso mesmo que se trata: sem a concessão do homem, o divórcio não pode ser decretado, uma vez que a tradição (legislativa e religiosa) confere ao marido o poder único de aceitar ou não a consumação do divórcio. Há outra maneira de descrever esta dinâmica: tudo se concentra no espaço do Tribunal Rabínico, a ponto de Gett ser um filme que vive a partir de uma radical teatralidade. […] A realização dos irmãos Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz — sendo também Ronit Elkabetz a notável intérprete de Viviane — sabe estar atenta às mais delicadas manifestações das emoções humanas, ao mesmo tempo expondo o modo como um "banal" divórcio pode envolver o peso de toda uma imensa herança histórica. Por alguma razão, Gett: O Processo de Viviane Amsalem se transformou num verdadeiro fenómeno de debate no interior da sociedade israelita.

Leitura 7.1; 7.4; 7.6 1. O filme israelita Gett: O Processo de Viviane Amsalem que trata de um divórcio difícil para a mulher envolvida. 2. “Um espantoso retrato íntimo de um divórcio que acabou por se transformar no centro de um debate na sociedade israelita.” (ll. 2-4); “Há qualquer coisa de simultaneamente enigmático e deslumbrante quando um filme consegue colocar em cena uma particularíssima situação (…) gerando um efeito universal e universalista”. (ll. 5-11)

in http://www.rtp.pt/cinemax/?t=um-homem-uma-mulher-e-um-tribunal.rtp&article=12041&visual=2&layout=35&tm=52 (adaptado, consultado em maio de 2017).

1. Identifique o objeto comentado e apreciado. 2. Destaque duas expressões reveladoras da subjetividade (opinião) do autor do ar-

tigo sobre o filme que funcionem como argumentos.

129

PA R A S A B E R

Farsa de Inês Pereira

RELAÇÕES ENTRE AS PERSONAGENS E SUA IMPORTÂNCIA EM CADA FASE DA VIDA DE INÊS 1. Inês Solteira

2. Inês casada com o Escudeiro

3. Inês viúva e casada com Pero Marques

Apresentação “Farsa de Inês Pereira: Fases da vida de Inês”

Preguiçosa; voluntariosa; anseia pela libertação através do casamento.

As suas intenções são goradas; é oprimida pelo Escudeiro; sofredora.

Mãe

Amiga e conselheira; alerta a filha para os problemas que terá se casar com um homem “discreto”.

Desaprova o casamento com o Escudeiro, mas aceita-o; desaparece de cena no final da cerimónia do casamento.

Lianor Vaz

Apresenta a Inês um bom marido, que esta, contudo, rejeita.

Reapresenta Pero Marques a Inês, e esta aceita-o, em virtude do fracasso do seu casamento anterior.

Pero Marques

Honesto, mas rude. Embora puro de sentimentos, é tosco, rústico; é rejeitado por Inês.

Mantém a simplicidade; meio tonto, acede a cumprir todos os desejos da esposa, incluindo carregá-la até junto do Ermitão.

Judeus

Apresentam a Inês um homem, Brás da Mata, que corresponde ao perfil desejado.

Escudeiro

Homem de duplo caráter; antes de casar, mostra-se adulador e simpático.

Intolerante e repressor; vai combater no Norte de África, onde morre cobardemente.

Moço

É sinal exterior de aparente bem-estar financeiro do Escudeiro; desempenha uma função crítica e irónica relativamente ao seu amo.

Fiel mandatário do amo, mantém Inês presa, enquanto este combate no Norte de África.

Ermitão

130

Maliciosa e adúltera; desrespeita o marido ingénuo.

Representa os falsos religiosos; será o objeto do adultério de Inês.

REPRESENTAÇÃO DO QUOTIDIANO E DIMENSÃO SATÍRICA Quem é criticado e porquê? Tratando-se de um retrato da sociedade do século XVI, que aparece ilustrada através de personagens que representam tipos (estratos) sociais, surgem: • as moças que, cansadas da vida rotineira e vazia, ansiavam a libertação através do casamento;

PROFESSOR

Apresentação Galeria de imagens

• a mãe que aconselha a filha a casar com um homem de posses;

Apresentação

• os escudeiros fanfarrões e pobretanas, mas com atributos de homem da corte;

Síntese da Unidade

• os lavradores e pastores com a sua ingenuidade e a sua simplicidade; • as alcoviteiras no seu "ofício" de arranjar casamentos; • os judeus gananciosos e falsos; • o clero (através do padre que “atacou” Lianor Vaz e do Ermitão com quem Inês se vai encontrar no final).

Quem é Inês Pereira? Inês representa o tipo de moça solteira que pretende ascender socialmente através do casamento. Para além disso, recusa o perfil de mulher doméstica da época, representado pela sua mãe. Mas… • ao contrário das restantes personagens, cujo comportamento corresponde, de forma geral, ao das classes sociais ou tipos que representam, Inês apresenta alguma evolução; • persegue os seus ideais de libertação da monótona vida doméstica através do casamento, casando com o escudeiro Brás da Mata, o que veio a revelar-se desastroso para si e para a sua ambição; • morto o Escudeiro, Inês aprende a lição e, mudando a opinião e a postura iniciais, aceita o casamento com Pero Marques; • no fim da ação, é esta personagem feminina quem “toma as rédeas” da vida conjugal; • torna-se adúltera, sob o olhar ingénuo do marido, que não se apercebe da traição.

SÁTIRA ATRAVÉS DO CÓMICO Como “a rir se castigam os costumes”, Gil Vicente recorre a artifícios, tais como a ironia e o cómico, que contribuem para acentuar alguns traços das personagens a criticar. Tipos de cómico De caráter

Aparece sobretudo nas personagens Pero Marques e Escudeiro. Verifica-se, entre outros momentos, quando Pero Marques;

De situação

• se apresenta a Inês e não sabe para que serve uma cadeira; • tenta encontrar no barrete as peras que trazia de presente a Inês; • transporta às costas a mulher e duas lousas, na cena final.

De linguagem

Visível na linguagem dos judeus casamenteiros ou na linguagem de Pero Marques.

131

PA R A V E R I F I C A R

Farsa de Inês Pereira Após a leitura da Farsa de Inês Pereira, verifique o grau de conhecimento que possui sobre a obra. 1. Selecione a opção mais correta ou mais completa. 1.1

No primeiro quadro, surge Inês Pereira que, enquanto a Mãe está na missa, [A] se encontra secretamente com um aldeão, seu namorado. [B] se lamenta de forma agastada da sua sorte e da sua vida de solteira. [C] recebe Lianor Vaz, rogando-lhe que lhe arranje um marido. [D] sai de casa para bailar com as amigas numa romaria.

1.2 Quando a Mãe chega da missa, esta [A] lisonjeia Inês ao ver o bordado que ela terminou. [B] recrimina a filha, por ela ter saído com as amigas. [C] aconselha Inês a ser mais diligente, se quer arranjar marido. [D] zanga-se por a jovem ter recebido em casa um pretendente. 1.3 Lianor Vaz, a alcoviteira, entra em casa de Inês, [A] assegurando que um clérigo se tentou aproveitar dela. [B] bendizendo os frades por serem bons conselheiros e muito humanos. [C] lamentando-se do caminho percorrido para dar notícias de um pretendente

a Inês. [D] apresentando-se muito cansada, uma vez que acabara de lavrar a sua vinha. 1.4 O motivo da visita de Lianor Vaz é [A] trazer informações sobre um escudeiro que quer encontrar-se com Inês. [B] trazer uma carta de Pero Marques, que pretende casar-se com a jovem. [C] saber a opinião de Inês sobre o Escudeiro seu pretendente. [D] concertar com a mãe da jovem os pormenores sobre o casamento da filha. 1.5 Após a leitura da carta de Pero Marques, Inês [A] decide aceitar a proposta de casamento. [B] recusa a proposta de casamento do pretendente. [C] interroga Lianor Vaz sobre os bens e a fortuna do aldeão. [D] aceita encontrar-se com o aldeão, mesmo não gostando do teor da carta. 1.6 A visita e o comportamento do filho do lavrador provocam em Inês [A] agrado e simpatia, uma vez que se tratava de um jovem bem parecido. [B] troça e desconsideração, já que o lavrador era desajeitado e bastante saloio. [C] pena e amizade, pois, embora sem modos, o jovem era muito discreto. [D] alegria e afeição, dado tratar-se de um jovem rico e bonito, ideal para marido. 1.7 O marido ideal, para Inês, deve [A] ter educação e finura, saber tanger viola, ainda que seja pobre. [B] possuir as qualidades de um homem da corte e ser rico. [C] possuir bens e ser um bom cavaleiro. [D] ser pobre, mas honrado.

132

PROFESSOR

1.8 O homem que a jovem pretende e aceita para marido [A] é galego, chama-se Brás da Mata e foi-lhe apresentado por duas amigas. [B] foi-lhe apresentado por dois judeus casamenteiros e chama-se Vilhacastim.

Teste interativo “Gil Vicente”

[C] foi encontrado pelos judeus casamenteiros e é o escudeiro Brás da Mata. [D] é o fidalgo e músico de nome Badajoz. 2. Complete o texto, selecionando a opção que lhe permite recuperar o conteúdo

informativo da vida de Inês durante o casamento com Brás da Mata. Antes do casamento, o Escudeiro fanfarrão, que tinha a. (muitos/poucos) haveres, tece inúmeros b. (reparos/elogios) à donzela. A mãe de Inês, perspicaz, faz considerações c. (agradáveis/negativas) sobre o pretendente. A boda acaba por se realizar na presença de alguns amigos. Após o casamento, o d. (rude/simpático) marido encerra Inês em casa, fechando todas as e. (janelas/arcas), antes de partir para o Norte de f. (África/ Portugal), para onde vai combater. Certo dia, a jovem recebe uma carta de seu g. (irmão/pai), anunciando a morte do h. (esforçado/cobarde) escudeiro. A notícia deixa Inês muito i. (entristecida/aliviada) com o desfecho do seu casamento. 3. Após a morte do Escudeiro, segue-se uma nova fase na vida de Inês.

Assinale as afirmações como verdadeiras ou falsas e corrija as falsas. a. Inês Pereira recebe a visita da Mãe e finge-se pesarosa com a morte de Brás da Mata. b. Lianor Vaz propõe novamente a Inês o casamento com Pero Marques. c. O casamento realiza-se sem demoras perante a Mãe, Lianor Vaz, Fernando e Luzia. d. Ao longo de toda a cerimónia, são feitas várias sugestões sobre o caráter delicado e culto do abastado aldeão. e. Após a boda, a jovem confessa a Pero Marques que gostava de sair e folgar, o que não é bem aceite pelo novo marido. f. Entretanto, um ermitão, antigo pretendente de Inês, visita-a e pede-lhe uma esmola. g. Perante o desejo da mulher, de ir em romaria à ermida onde está o santo ermitão, Pero Marques, marido dedicado, prontifica-se a levá-la, para que possa cumprir a sua devoção. h. Ao longo do percurso entoam uma cantiga onde se refere a traição de que o lavrador está a ser alvo. 4. Avalie o comportamento de Inês em cada uma das três fases da sua vida. a. Antes de casar. b. Durante o casamento com o Escudeiro. c. Casada com Pero Marques.

Educação Literária 14.3; 14.4 ; 14.7 1.1 [B] 1.2 [C] 1.3 [A] 1.4 [B] 1.5 [D] 1.6 [B] 1.7 [A] 1.8 [C] 2. a. poucos b. elogios c. negativas d. rude e. janelas f. África g. irmão h. cobarde i. aliviada 3. a. F –Recebe a visita de Lianor Vaz. b. V c. F – Na presença de Lianor Vaz somente. d. F – Rude e pacóvio. e. F – Pero Marques incentiva Inês Pereira a sair e a divertir-se. f. F – Sugere um encontro amoroso entre ambos. g. V h. V 4. a. Antes de casar, Inês mostra-se muito exigente em relação aos pretendentes, não aceitando Pero Marques que, embora seja um lavrador abastado, não tem maneiras. b. Durante o casamento com o Escudeiro, em virtude do comportamento arrogante e castrador deste, vê-se obrigada a permanecer trancada em casa, sem poder ter contacto com o exterior. c. Casada com Pero Marques, Inês mostra-se altiva e traidora e, de certa forma, vinga-se do sofrimento que lhe fora causado pelo primeiro marido, traindo o atual.

133

Farsa de Inês Pereira PA C ORNAS OR LE ICDUAPRE R A RTítulo PROFESSOR

EXPRESSÃO ORAL 1.

Apresentação Galeria de imagens

Exponha, em dois minutos, a relação entre o provérbio “Mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube” e o assunto da Farsa de Inês Pereira.

Apresentação Síntese da Unidade

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Teste interativo Farsa de Inês Pereira Expressão oral 1. Itens a considerar na resposta: – primeiro casamento de Inês Pereira com o escudeiro (“cavalo” que a derruba); – vida de casada enclausurada; – segundo casamento, após morte do escudeiro, com Pero Marques (“o asno” que a leva), domínio de Inês Pereira; – perversidade da personagem que obriga o marido a carregá-la às costas, quando se dirige para o encontro adúltero com o ermitão. Educação literária 1. a. V b. F – Muitas liberdades de escrita. c. F – Todas as classes sociais. d. F – Num episódio profano/ do quotidiano. e. F – Pertencente ao povo. f. V g. F – Desleal, cobarde e egoísta. h. F – Inês é também personagem modelada, que apresenta evolução. i. V j. F – Que está dividido em quadros. 2. a. Escudeiro, Brás da Mata b. Pero Marques c. Inês Pereira d. Mãe e. Lianor Vaz f. Judeus casamenteiros g. Ermitão h. Moço

1. Tendo em consideração o estudo de Gil Vicente e da Farsa de Inês Pereira, indique

se as afirmações que se seguem são verdadeiras ou falsas. Corrija as falsas sem recorrer à negativa. a. Gil vicente situa-se num período de transição entre a Idade Média e o Renascimento. b. O dramaturgo adquiriu na corte uma situação de prestígio que lhe permitiu todas as liberdades de escrita. c. As peças de Gil Vicente criticam exclusivamente as classes sociais mais baixas. d. A Farsa de Inês Pereira baseia-se num episódio religioso. e. A jovem, pertencente à nobreza, idealiza um casamento que lhe permite emancipar-se. f. Pero Marques é subserviente, simplório e deselegante. g. O escudeiro é leal, valente e generoso. h. Todas as personagens da farsa são estáticas e, por isso, personagens-tipo. i. Os apartes proferidos pelos judeus casamenteiros e pelo Moço ajudam a caracterizar o Escudeiro. j. A Farsa de Inês Pereira é um texto dramático que está dividido em atos e cenas. 2. Associe cada uma das afirmações que se seguem a uma personagem da obra. a. Representante dos fidalgos pelintras que pretende obter vantagens económicas

através do casamento com Inês. b. Homem rude, simples, disposto a satisfazer todos os caprichos de Inês. c. Jovem que pretende, através do casamento, libertar-se da vida rotineira das mulhe-

res do seu tempo. d. Mulher do povo, sensata, que aconselha Inês, mas, abdicando da sua autoridade,

deixa-a fazer as suas próprias escolhas. e. Mulher do povo que desempenha uma função vulgar na época: a de arranjar marido

para as raparigas casadoiras. f. Personagens estereotipadas, interesseiras e astutas, que desempenham a função

de medianeiros entre o Escudeiro e Inês. g. Personagem que simboliza a liberdade conquistada por Inês com o seu casamento

com Pero Marques. h. Personagem secundária que ajuda a caracterizar o Escudeiro e provoca o cómico

na peça.

134

Almeida Garrett

PA R A AVA L I A R

Farsa de Inês Pereira PROFESSOR

GRUPO I Leia o seguinte excerto, transcrito da Farsa de Inês Pereira. Em caso de necessidade, consulte as notas apresentadas. Vem a Mãe, e, não na achando lavrando, diz:

Mãe 20

Inês Mãe

5

Inês

Logo eu adevinhei lá na missa onde eu estava, como a minha Inês lavrava a tarefa que lhe eu dei... Acaba esse travesseiro! Hui! naceo-te algum unheiro? Ou cuidas que é dia santo? Praza a Deos que algum quebranto me tire de cativeiro.

25

Inês

30 10

Mãe

Inês

Mãe 15

Inês

1

Toda tu estás aquela… Choram-te os filhos por pão? Prouvesse a Deos! Que já é rezão de eu não estar tão singela2. Olhade lá o mao pesar…3 Como queres tu casar com fama de preguiçosa? Mas eu, mãe, são aguçosa4 e vós dais-vos de vagar.

Mãe Inês

1

Ora espera, assi vejamos. Quem já visse esse prazer! Cal'te, que poderá ser, que «ante a Páscoa vem os Ramos.» Não te apresses tu, Inês. «Maior é o ano que o mês»: quando te não precatares, virão maridos a pares, e filhos de três em três. Quero-m'ora alevantar. Folgo mais de falar nisso − assim Deos me dê o paraíso, − mil vezes que não lavrar. Isto não sei que o faz... Aqui vem Lianor Vaz. E ela vem-se benzendo...

Hoje dir-se-ia “lá estás tu…”; 2 sozinha,

solteira; 3 “vejam que desgraça…”(ironia); 4

diligente;

Apresente, de forma estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem. 1. Justifique a primeira fala da Mãe, tendo em conta o monólogo de Inês que antece-

de este diálogo. 2. Apresente três traços caracterizadores da Mãe, fundamentando a resposta com

elementos textuais. 3. Transcreva do texto um exemplo da ironia empregue pela Mãe e explique-o. 4. Explicite o sentido da penúltima fala de Inês. 5. Apresente uma razão para o facto de Gil Vicente não ter atribuído à personagem da

Mãe um nome próprio, justificando a sua resposta com base na sua atuação neste excerto.

Apresentação Soluções Ficha de avaliação GRUPO I Educação Literária 14.2; 14.3; 14.7; 14.9; 15.1; 15.2 1. No monólogo que inicia a farsa, Inês lamenta-se pelo facto de estar fechada em casa a costurar e afirma que terá de arranjar solução para sair daquela vida de cativeiro. Abandona, então, o trabalho que a Mãe lhe ordenara para fazer. Por isso, quando esta volta da missa, vê que Inês não cumprira a tarefa que lhe dera e repreende-a de forma irónica. 2. A Mãe adota, neste excerto, uma atitude severa em relação à filha, devido à sua preguiça (“Acaba esse travesseiro!”, v. 5), demonstrando uma grande sensatez, que advém da sua experiência (“Não te apresses tu Inês, / ‘Maior é o ano que o mês’”, vv. 23-24), servindo-se também da ironia para aconselhar a filha (“Olhade ali o mau pesar…”, v. 14). 3. Logo no início do excerto, a Mãe revela-se irónica ao dizer “Logo eu adivinhei / lá na missa onde eu estava, / como a minha Inês lavrava / a tarefa que eu lhe dei…” (vv. 1-4). Nesta fala, a mãe quer mostrar à filha que a conhece muito bem e que sabe perfeitamente que ela não iria cumprir a tarefa. Diz, no entanto, o contrário, de forma irónica, para mostrar a sua experiência e a sua autoridade. (Há também ironia na estrofe seguinte). 4. A penúltima fala reforça a caracterização de Inês como insensata e leviana, acentuando o seu objetivo de casar para poder mudar de vida (“assi Deos me dê o paraíso”, v. 30), achando que essa situação seria bem melhor que ficar em casa a “lavrar”, tarefa que lhe desagrada. 5. Esta personagem não tem nome próprio, pois é uma personagem-tipo que representa todas as mães. É a voz da experiência, da razão, aconselhando a filha a seguir o caminho que lhe parece o mais correto. Neste excerto, a Mãe pretende chamar a atenção de Inês para a sua preguiça e refrear a sua ânsia em casar.

135

Almeida Garrett

PA R A AVA L I A R

Farsa de Inês Pereira

PROFESSOR GRUPO II Gramática 18.1; 18.4; 17.5

GRUPO II 1. Atente nas seguintes frases. a. A protagonista Inês Pereira surge, num monólogo inicial, a maldizer a sua vida. b. A jovem, pertencente ao povo, idealiza um casamento que lhe permita emancipar-se.

1. 1 a. Modificador b. Modificador do nome apositivo; complemento indireto c. Complemento oblíquo d. Complemento agente da passiva e. Complemento indireto f. Predicativo do sujeito; complemento oblíquo g. Modificador de nome restritivo h. Predicado 1.2 [A] – [2]; [B] – [4]; [C] – [3]; [D] – [1]; [E] – [5]; [F] – [3] 2. Campo lexical 3. proposta (casamento); inicialmente, embora GRUPO III Escrita 10.2; 11.2; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1

c. Inês revolta-se com a vida que leva e sonha que só o marido ideal a libertará. d. O primeiro pretendente de Inês é-lhe apresentado por Lianor Vaz. e. Pero Marques, o aldeão, propõe casamento a Inês, mas esta recusa. f. Lianor Vaz é uma alcoviteira, que fora vítima das investidas de um padre, quando se

dirigia para casa de Inês. g. Inês Pereira acaba por casar com o escudeiro Brás da Mata, que lhe vai proporcionar

uma vida muito infeliz. h. Embora recuse inicialmente a proposta de casamento com Pero Marques, Inês aca-

ba por casar com ele. 1.1

Identifique as funções sintáticas desempenhadas pelos constituintes sublinhados.

1.2

Classifique as orações presentes na coluna A, retiradas das frases acima, assinalando o número que lhes corresponde na coluna B. Coluna A

Coluna B

[A] “que lhe permita emancipar-se.” Proposta de escrita: A Farsa de Inês Pereira retrata o quotidiano de uma jovem do povo, mas remediada, que pretende ascender socialmente. De um forma divertida, mas com objetivo moral, Gil Vicente relatanos os dois casamentos de Inês, que vê no matrimónio a possibilidade de se libertar da vida rotineira de solteira, típica das mulheres do seu tempo. Presa em casa pelo primeiro marido, acaba por se vingar no segundo casamento, cometendo adultério, com um ermitão, o que também constitui crítica social aos membros do clero, que não levavam a vida regrada que a sua vocação exigia. Com Lianor Vaz e os dois judeus, Gil Vicente expõe uma situação social bastante frequente na época: muitos casamentos eram arranjados por terceiros, profissionais casamenteiros, daí a presença da alcoviteira e dos dois judeus que desempenham essa função. Verificamos, assim, como esta farsa é um excelente testemunho duma época, em certos aspetos, distante da nossa. (149 palavras)

136

[1] Oração subordinada adverbial temporal

[B] “que só o marido ideal a libertará.”

[2] Oração subordinada adjetiva relativa restritiva

[C] “que fora vítima das investidas de um padre.” [D] “quando se dirigia para casa de Inês.”

[3] Oração subordinada adjetiva relativa explicativa

[E] “Embora recuse inicialmente a proposta de casamento com Pero Marques”

[4] Oração subordinada substantiva completiva

[F] “que lhe vai proporcionar uma vida muito infeliz.”

[5] Oração subordinada adverbial concessiva

2. Indique a relação semântica que se estabelece entre as palavras “casamento”,

“noivo”, “noiva”, “cerimónia” e “alianças”. 3. Retire da frase h. um nome comum, um advérbio e uma conjunção.

GRUPO III A FARSA é um género do modo dramático com características satíricas que, retratando o quotidiano, pretende pôr em relevo problemas sociais. Num texto expositivo, entre 120 a 150 palavras, comprove a veracidade da afirmação anterior, relacionando-a:

• com episódios do quotidiano da vida de Inês; • com a função de Lianor Vaz e dos Judeus. Dê uma estrutura tripartida ao seu texto (introdução, desenvolvimento, conclusão).

MÓDULO

2

2. Luís de Camões, Rimas PARA CONTEXTUALIZAR | PARA INICIAR PARA DESENVOLVER

Educação Literária Rimas

· A representação da amada · A experiência amorosa e reflexão sobre o amor · A representação da Natureza · A reflexão sobre a vida pessoal · O tema da mudança e do desconcerto Leitura Apreciação crítica Exposição sobre um tema Escrita Exposição sobre um tema Oralidade [Compreensão/Expressão Oral] Documentário [Compreensão do Oral] Apreciação crítica [Compreensão/Expressão Oral] Anúncio publicitário [Compreensão do Oral] Gramática

· Subordinação · Classes de palavras · Funções sintáticas · Referente PARA SABER | PARA VERIFICAR | PARA RECUPERAR | PARA AVALIAR

PARA CONTEXTUALIZAR

Gil Vicente

1304

1374

1521

1524/25

1536

1547

1553

1580

1595

Nascimento de Francesco Petrarca (Arezzo, Itália)

Data da morte de Francesco Petrarca (Arquà, Itália)

Aclamação do D. João III como rei de Portugal

Data provável do nascimento de Luís Vaz de Camões

Publicação da Grammatica da Lingoagem Portuguesa, por Fernão de Oliveira

Partida de Luís de Camões para Ceuta

Embarque de Luís de Camões para Goa

Data provável da morte de Luís Vaz de Camões (10 de junho)

Publicação póstuma de Rimas, de Luís Vaz de Camões

Atente nos seguintes aspetos, para melhor compreender as transformações que ocorrem nesta época, bem como o autor que irá ser objeto de estudo.

Humanismo, Classicismo e Renascimento

5

10

15

Humanismo

Classicismo e Renascimento

• Dá-se o nome de Humanismo ao conjunto de conceções próprias dos humanistas, ou seja, daqueles intelectuais e artistas que – exaltavam o Homem como ser pensante, dotado de livre-arbítrio; – fomentavam a investigação livre nos vários domínios da ciência; – criticavam as tradições e as instituições, como a Igreja, combatendo a Escolástica, que consideravam atrofiadora do desenvolvimento do espírito; – preconizavam uma educação integral, do corpo, da mente, do espírito – Mens sana in corpore sano. • Os humanistas e os homens do Renascimento desenvolveram a medicina e a anatomia e aprenderam a conhecer melhor o Universo. • Os artistas criaram um corpo teórico relativo às conceções artísticas, designado de Classicismo.

• O Classicismo é o conjunto de princípios ou de regras desenvolvido pelos artistas renascentistas que procuram imitar os modelos da Antiguidade Clássica (greco-latinos) e os italianos quatrocentistas herdeiros das conceções estéticas de Petrarca. • Esses princípios são os seguintes: – mimese: a necessidade de imitação de modelos, neste caso greco-latinos e italianos; – intemporalidade do belo; – obediência às regras próprias de cada género literário ou de cada modalidade; – gosto pela perfeição; – gosto pela clareza e simplicidade; – ideia de equilíbrio; – finalidade moral da literatura, devendo a poesia simultaneamente provocar prazer espiritual no leitor e ser-lhe útil. • O Renascimento, porque decorrente do Humanismo, foi uma época “antropocêntrica”, afastando-se das conceções teocêntricas medievais, tornando-se o ser humano a “medida de todas as coisas”.

Elaborado a partir de Amélia Pinto Pais, História da Literatura em Portugal, uma perspetiva didática. Época Medieval e época clássica, vol. 1, Porto, Areal Editores, 2004, p. 111.

5

10

15

20

Elaborado a partir de Amélia Pinto Pais, História da Literatura em Portugal, uma perspetiva didática. Época Medieval e época clássica, vol. 1, Porto, Areal Editores, 2004, pp. 112-113.

138

PARA INICIAR COMPREENSÃO DO ORAL

PROFESSOR

Visualize e escute atentamente o excerto fílmico relativo à vida e obra de Luís Vaz de Camões.

Link "Quem és tu, Luís Vaz?"

1. Complete cada alínea da coluna A com a opção correta da coluna B.

Coluna A [A] As visitas de estado a Portugal começam todas no Mosteiro dos Jerónimos, [B] Há poucos dados sobre a vida do poeta nacional,

[C] Na época em que o poeta nasceu,

[D] É provável que Luís de Camões tenha nascido em Lisboa

[E] O pai do poeta, Simão Vaz de Camões, possível parente de Vasco da Gama, [F] Pela leitura parcial do soneto “O dia em que nasci moura e pereça”, pode concluir-se que a vida de Camões [G] Há a possibilidade de Camões ter tido ascendentes de origem galega em Chaves, [H] São muitos os lugares em Portugal em que se assume [I] A possibilidade de Camões ter vivido em Coimbra justifica-se pelo facto de o poeta [J] Não há dúvida de que o príncipe dos poetas portugueses era um homem

Coluna B [1] porque é do protocolo prestar homenagem a Camões. [2] porque o primeiro-ministro valoriza este monumento nacional. [1] porque muitos documentos desapareceram no mar. [2] logo, é necessário viajar no tempo até à sociedade quinhentista.

Oralidade 1.1; 1.4 1. [A] – [1] [B] – [2] [C] – [1] [D] – [1] [E] – [2] [F] – [2] [G] – [1] [H] – [1] [I] – [1] [J] – [2]

[1] a maior parte do planeta era português. [2] o Brasil ainda não tinha sido descoberto. [1] e tenha conhecido bem os bairros da cidade. [2] mas tenha abandonado imediatamente a capital. [1] casou com Ana de Sá, em Santarém. [2] morreu ao serviço do rei de Portugal. [1] terá sido repleta de oportunidades e alegrias. [2] terá sido extremamente conturbada. [1] cidade de origem romana. [2] cidade de origem galega. [1] que o poeta tenha estado alojado. [2] que o poeta tenha nascido. [1] ser um homem instruído e muito culto. [2] escrever sobre o rio Mondego, quando visitava o tio. [1] que tinha uma profunda erudição, sendo principalmente conhecido nas casas nobres da Europa. [2] que revelava um conhecimento profundo da literatura clássica e dos homens de letras italianos.

139

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a

PARA DESENVOLVER INFORMAR

PROFESSOR Leitura 7.1; 7.4; 8.1 Educação Literária 14.8; 14.10; 16.1

Leia os seguintes tópicos e resolva a atividade proposta abaixo.

Lírica tradicional e renascentista Medida velha

[A] – [2] [B] – [4] [C] – [1] [D] – [3] [E] – [6]

• Poesia lírica tradicional ou poesia em redondilha, existente nos cancioneiros peninsulares ao longo do século XV e grande parte do século XVI.

• Medida que se mantém, continuando a ser usada pelos poetas do século XVI, em alternância com o verso decassilábico. Construído a partir de José Augusto Cardoso Bernardes, "Medida velha", in Vítor Aguiar e Silva (coord.), Dicionário de Luís de Camões, Alfragide, Editorial Caminho, 2011, p. 579.

• As composições poéticas denominadas

1

estrofe curta introdutora do assunto do poema 2 estrofe que se segue ao mote e que desenvolve o tema neste apresentado

redondilhas apresentam versos de cinco sílabas métricas (redondilha menor ou pentassílabo) ou sete sílabas métricas (redondilha maior ou heptassílabo) e podem ter as seguintes denominações: – vilancete: com mote1 de dois ou três versos (geralmente heptassílabos) e uma glosa2 de uma ou duas estrofes (normalmente sétimas); – cantiga: com mote de quatro versos e uma glosa de uma ou mais estrofes (de 8, 9 ou 10 versos); – esparsa: composta por uma única estrofe (de 8 a 10 versos); – trovas ou endechas: sem mote, com uma ou mais estrofes (quadras ou oitavas).

Medida nova

• Sá de Miranda introduz em Portugal a medida nova, ou seja, o decassílabo, formas fixas, como o soneto, e uma série de subgéneros líricos, como a elegia ou a écloga.

• A introdução destas novidades “representava o abraçar dos ideais do humanismo, a redescoberta dos Antigos, a cultura do Renascimento, em suma”. Construído a partir de Maria Vitalina Leal de Matos, "Sá de Miranda", in Vítor Aguiar e Silva (coord.), Dicionário de Luís de Camões, Alfragide, Editorial Caminho, 2011, pp. 887-888.

• Soneto: forma fixa constituída por catorze versos decassilábicos, distribuídos em duas quadras e dois tercetos. As duas primeiras apresentam rimas emparelhadas e interpoladas, segundo o esquema abba/abba; os segundos apresentam maiores possibilidades combinatórias, destacando-se os esquemas do tipo cde/cde e cdc/dcd.

• No soneto privilegia-se a expressão lírica da experiência vivencial de um emissor.

• Na produção sonetista camoniana toma-se como tema principal o Amor, representado nas suas mais diversas formas e manifestações. Elaborado a partir de Micaela Ramon, "Sonetos", in vítor Aguiar e Silva (coord.), Dicionário de Luís de Camões, Alfragide, Caminho, 2011, p. 905.

1. Associe os elementos da coluna A aos elementos da coluna B, de forma a comple-

tar as afirmações de acordo com as informações fornecidas pelos textos. Coluna A [A] As formas poéticas da medida velha apresentam [B] Apesar da introdução do verso decassilábico, os poetas de Quinhentos continuaram [C] O soneto petrarquista foi introduzido em Portugal [D] O soneto é uma forma fixa constituída [E] No soneto, os tercetos apresentam

140

Coluna B [1] por Sá de Miranda. [2] versos em redondilha maior e menor. [3] por duas quadras e dois tercetos, compostos por versos decassilábicos. [4] a usar o verso tradicional. [5] por um mote e glosas. [6] esquemas rimáticos variáveis. [7] sempre o mesmo esquema rimático.

Rimas A representação da amada

INFORMAR

PROFESSOR

Leia os tópicos relativos à temática "a representação da amada" e resolva a atividade proposta.

Petrarquismo em Camões: influência e originalidade Influência de Petrarca

• Na lírica camoniana, a construção do retrato da mulher está associada à ausência desse mesmo objeto amado, ou seja, o sujeito poético descreve o que imagina e não o que vê (amadas metafísicas).

• Como o desejo não se realiza, porque o objeto está ausente, a figura da amada fica “pintada” no sofrimento do sujeito poético, sendo a causa desse mesmo sofrimento.

• O retrato feminino idealizado (física e psicologicamente) é feito com cores suaves: a pele muito clara, os olhos claros, o cabelo louro, o “honesto riso” num rosto suavemente iluminado, breve luz que dá cor ao amor.

Originalidade de Camões

• Contrariamente às amadas metafísicas, Camões pinta a jovem da lírica tradicional, inserida num ambiente concreto, referindo o vestuário (tipo e cores), o brilho e cores do cabelo, a fita do cabelo, formando um desenho gracioso, com cor, luz e movimento, como se confirma em “Descalça vai para a fonte” (ver página 144).

Leitura 7.1; 7.4; 8.1 Educação Literária 14.3; 14.4; 14.7; 15.1; 16.1 a. F – A construção do retrato feminino na lírica camoniana baseia-se também na tradição literária. b. V c. V d. F – Nos poemas de índole petrarquista, Camões evidencia o retrato físico e psicológico da mulher. e. V f. F – Camões viajou por vários continentes, onde conheceu diferentes tipos de beleza feminina, que retrata na sua poesia. g. V

• Quebrando os códigos do petrarquismo, Camões pinta também a beleza da mulher de tez (pele) negra, que terá conhecido nas suas viagens intercontinentais – “Aquela cativa” (ver página 146).

Elaborado a partir de Helena Langrouva, “Camões e as artes”, in Vítor Aguiar e Silva (coord.), Dicionário de Luís de Camões, Alfragide, Editorial Caminho, 2011, p. 113.

1. Indique se as afirmações são verdadeiras ou falsas, procedendo à correção das falsas.

a. A construção do retrato feminino na lírica camoniana baseia-se apenas em padrões de beleza de influência petrarquista. b. O retrato idealizado da mulher leva ao sofrimento do sujeito poético por não poder alcançar o objeto do seu amor. c. A mulher petrarquista é um ser belo e inatingível. d. Nos poemas de índole petrarquista, Camões evidencia apenas o retrato físico da mulher. e. Em “Descalça vai para a fonte”, Camões afasta-se do modelo petrarquista, pelo visualismo do retrato presente nas cores do vestuário da jovem. f. Camões viajou por vários continentes, mas essas viagens não influenciaram a representação da mulher na sua poesia. g. A originalidade da poesia de Camões revela-se na sua capacidade de cantar diferentes tipos de beleza feminina.

141

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a A representação da amada

EDUCAÇÃO LITERÁRIA PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.8; 14.9; 14.10; 15.1; 16.1

Propõe-se o estudo das Rimas, de Luís de Camões, de acordo com as linhas temáticas. O primeiro tema em análise é a representação da amada.

Ondados fios d’ ouro reluzente 1.1 a. “sobre as rosas estendidos” b. Olhos c. Brilho do olhar d. “perlas” e. Lábios f. Cor viva dos lábios 1.2 Metáfora. 2.1 O sujeito poético evidencia a serenidade, a honestidade, a delicadeza e a timidez da mulher amada. 3. A composição tem duas quadras e dois tercetos, com versos decassilábicos (“On/da/ dos/fi/os/d’ou/ro/re/lu/ zen/[te]”).

Ondados fios d’ouro reluzente, que agora da mão bela recolhidos, agora sobre as rosas estendidos, fazeis que sua beleza s’ acrecente; 5

10

olhos, que vos moveis tão docemente, em mil divinos raios encendidos, se de cá me levais alma e sentidos, que fôra, se de vós não fôra ausente? Honesto riso, que entre a mor fineza de perlas e corais nasce e parece, se n’ alma em doces ecos não o ouvisse! S’ imaginando só tanta beleza de si, em nova glória, a alma s’ esquece, que fará quando a vir? Ah! quem a visse! Luís de Camões, Rimas. Texto estabelecido e prefaciado por Álvaro J. da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 2005 [1994], p. 164.

1. Na descrição da mulher apresentada no poema, o sujeito poético associa a sua

beleza a elementos naturais. Preencha o quadro, de forma a completar o retrato.

1.1

Partes do corpo

Elementos naturais

Significado da associação entre as partes do corpo e os elementos naturais

Cabelos

Ouro (“fios d'ouro reluzente”)

O louro e o brilho dos cabelos

Faces

a.

Tom rosado das faces

b.

“mil divinos raios encendidos”

c.

Dentes

d.

Dentes brancos/perfeitos

e.

"corais"

f.

1.2 Identifique o recurso expressivo que permite estabelecer a relação entre a beleza

da mulher e os elementos naturais. 2. Além das características físicas realçadas no texto, o sujeito poético salienta tam-

bém traços psicológicos da mulher amada. 2.1 Refira dois desses traços, fundamentando a sua resposta com versos do poema. 3. Comprove que esta composição poética é formalmente um soneto.

142

Rimas

PROFESSOR

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Um mover d’olhos, brando e piadoso

Áudio “Um mover d’olhos, brando e piadoso”

Um mover d’olhos, brando e piadoso, sem ver de quê; um riso brando e honesto, quási forçado; um doce e humilde gesto1, de qualquer alegria duvidoso; 5

10

Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.6; 14.7; 14.9; 16.2

um despejo2 quieto e vergonhoso; um repouso3 gravíssimo e modesto; ũa pura bondade, manifesto indício da alma, limpo e gracioso; um encolhido ousar; ũa brandura; um medo sem ter culpa; um ar sereno; um longo e obediente sofrimento; esta foi a celeste fermosura da minha Circe4, e o mágico veneno que pôde transformar meu pensamento. Luís de Camões, Rimas. Texto estabelecido e prefaciado por Álvaro J. da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 2005 [1994], p. 161.

1

rosto; 2 desembaraço, ousadia; 3 tranquilidade; 4 na mitologia grega, Circe era uma feiticeira, especialista em venenos.

1. Apresente, por palavras suas, cinco características da mulher descrita no poema. 2. Preencha o texto seguinte, selecionando dos vocábulos propostos os adequados,

tendo em conta a informação presente no soneto. • física

• indefinido • celeste

• psicológica

• definido

1. Trata-se de uma mulher discreta, humilde, doce, pura e calma. 2. a. psicológica b. qualidades c. celeste d. indefinido e. retrato 3. Trata-se de uma antítese. 4. O soneto pode dividir-se em dois momentos: um primeiro, dos versos 1 ao 11, no qual se apresenta uma enumeração das características psicológicas da mulher; um segundo, dos versos 12 ao 14, que se centra nos efeitos da beleza feminina no sujeito lírico. 5. No soneto “Ondados fios d’ouro reluzente”, o sujeito lírico destaca sobretudo a beleza física da mulher, enquanto neste realça a sua perfeição moral. Não obstante, em ambas as composições poéticas, a mulher é uma figura indefinida, incorpórea, quase divina, que se encontra distante do sujeito lírico.

• retrato

• qualidades

O sujeito lírico realça uma beleza a. , destacando b. morais da mulher (“despejo quieto e vergonhoso”, v. 5; “encolhido ousar”, v. 9). Trata-se de uma mulher divina, quase inumana, o que justifica a utilização do adjetivo c. “ ” para a designar. O recurso ao determinante artigo d. favorece a imprecisão do e. e parece sugerir uma mulher imaginada, idealizada. 3. Identifique o recurso expressivo que se estabelece entre as expressões “celeste

fermosura” (v. 12) e “Circe” (v. 13). 4. Divida o soneto em dois momentos, apresentando o assunto de cada um deles. 5. Estabeleça uma relação entre esta composição poética e o soneto “Ondados fios

d’ouro reluzente” (p. 142), destacando uma diferença e uma semelhança existentes entre eles.

143

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a A representação da amada PROFESSOR

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.8; 14.9; 15.1; 16.1; 16.2 1. Trata-se de um vilancete, dado ser constituído por mote de três versos e duas glosas de sete. Os versos são redondilha maior. 2. Leanor é uma mulher do mundo rural, pertencente ao povo, como se comprova pela atividade descrita no mote – vai descalça buscar água à fonte – e pelo seu vestuário descrito na primeira volta. 3. a. verde b. rural/campestre/primaveril c. prata d. ouro e. beleza f. brancura g. petrarquista h. vermelho i. contrasta j. atrai k. sujeito poético 4. O sujeito lírico destaca, por meio de uma metáfora (“chove nela graça tanta”, v.  12), a perfeição e a beleza da mulher, concluindo que esta acrescenta beleza à própria formosura, ultrapassando o próprio modelo, a própria essência de beleza. 5. A jovem exibe a sua beleza, mas esta formosura traz-lhe insegurança, uma vez que ela está mais exposta aos olhos daqueles por quem passa, ou seja, ao amor. Oralidade 1.5; 2.2; 4.1; 4.2; 5.1; 5.3; 6.2

Vídeo "Garota de Ipanema" 1./2. a. Ambas as mulheres são dotadas de grande beleza, acentuando-se na descrição da segunda a sua sensualidade: “coisa mais linda / Mais cheia de graça / É ela, a menina […] Num doce balanço […] Moça do corpo dourado / Do sol de Ipanema / O seu balançado / É mais que um poema / É a coisa mais linda / que eu já vi passar!”.

Descalça vai para a fonte a este mote: Descalça vai para a fonte Leanor pela verdura; Vai fermosa e não segura. VOLTAS

5

10

Leva na cabeça o pote, o testo nas mãos de prata, cinta de fina escarlata1, saínho2 de chamalote3, traz a vasquinha de cote4, mais branca que a neve pura; vai fermosa, e não segura. Descobre a touca a garganta, cabelos d’ouro o trançado, fita de cor d’encarnado, tão linda que o mundo espanta; chove nela graça tanta que dá graça à fermosura; vai fermosa, e não segura.

1

cor vermelha viva, tecido que tem essa cor 2 veste sem mangas de formato redondo e sem abas 3 tecido de lã ou pelo, geralmente com seda 4 casaco curto e muito justo ao corpo, de uso diário

Luís de Camões, Rimas. Texto estabelecido e prefaciado por Álvaro J. da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 2005 [1994], pp. 55-56.

1. Classifique o poema, justificando com três características formais do mesmo. 2. Partindo do mote e da primeira volta, refira a condição social de Leanor. 3. Complete o texto que se segue, de acordo com a informação presente no poema.

No poema, estão presentes várias cores: o a. dos caminhos percorridos por Leanor, que remete para um espaço b. , fértil, e simultaneamente nos sugere a juventude de donzela; as cores da c. e do d. , ambas associadas ao caráter superior, invulgar, da e. da jovem; a f. da neve, associada, por um lado, à cor da pele, característica da mulher descrita ao modo g. , e, por ou(“escarlata”), cor forte, viva, tro, a um traço psicológico – a sua pureza; e o h. que i. com as outras cores e que permite uma leitura mais erótica do poema. Leanor é jovem, bela, pura, mas sensual, e j. o olhar daqueles por quem passa, nomeadamente o do k. . 4. Interprete o significado da expressão “chove nela graça tanta / que dá graça à fer-

mosura” (vv. 12-13). 5. Apresente uma proposta de interpretação para o verso “vai fermosa, e não segura” (vv. 7 e 14).

144

Rimas

PROFESSOR

CO M P R E E N S Ã O/ EX P R E SS Ã O O RA L 1. Ouça atentamente o tema musical “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinicius

de Moraes, e estabeleça uma comparação entre a canção e o vilancete “Descalça vai para a fonte” (p. 144), no que diz respeito a. à descrição da mulher que passa; b. aos efeitos que essa passagem provoca no sujeito poético; c. aos recursos expressivos usados na descrição da figura feminina. 2. Ouça uma segunda vez a canção e recolha expressões que comprovem essa com-

paração. 3. Apresente à turma, numa breve exposição (dois a três minutos), as suas conclusões.

GRAMÁTICA 1. Atente nos seguintes versos pertencentes à canção anterior.

“Ah, se ela soubesse Que, quando ela passa, O mundo, sorrindo, Se enche de graça E fica mais lindo Por causa do amor! Olha que coisa mais linda, Mais cheia de graça É ela, a menina Que vem e que passa Num doce balanço [A] caminho do mar!” 1.1

Retire do excerto uma oração a. subordinada temporal; b. subordinada condicional; c. subordinada adjetiva relativa restritiva; d. coordenada copulativa.

1.2 Classifique a oração sublinhada em“Olha que coisa mais linda, / Mais cheia de gra-

ça / É ela…”

b. A mulher que passa a caminho do mar provoca no sujeito poético o mesmo efeito que provoca Leanor a caminho da fonte: ambas captam a atenção do “eu” lírico, provocando o amor e a criação poética (no primeiro caso, a redondilha camoniana e, no segundo, a canção: “O seu balançado / É mais que um poema”; “Ah, se ela soubesse / Que quando ela passa / O mundo sorrindo / Se enche de graça / E fica mais lindo / Por causa do amor”). No caso da canção, “a moça de corpo dourado” provoca também um sentimento de nostalgia no “eu” lírico, que se apercebe da sua solidão e, implicitamente, manifesta o desejo de a ter por companhia: “Ah, porque estou tão sozinho! / Ah, porque tudo é tão triste! / Ah, a beleza que existe […] Que também passa sozinha!”. c. À semelhança do vilancete camoniano, também na canção encontramos a hipérbole, a personificação (“O Mundo, sorrindo, / se enche de graça”), a adjetivação no grau superlativo (“É a coisa mais linda / Que eu já vi passar!” e a comparação (“O seu balançado / É mais que um poema”). 3. Resposta de caráter pessoal. No entanto, os alunos podem referir os seguintes aspetos: – o tema da mulher que passa e que prende o olhar de quem a vê passar é uma constante na literatura e nas artes, em geral; – a hiperbolização da beleza feminina é uma realidade intemporal, assim como o amor que a mulher provoca no sujeito que a observa; – a forma de ver o mundo e a vida é muito mais positiva, quando somos presenteados com a beleza e o amor.

1.3 Preencha o seguinte quadro com palavras retiradas dos versos acima. Nomes (5)

Conjugações (4)

Pronomes (3)

Adjetivos (3)

BLOCO INFORMATIVO –

pp. 277, 260-266

145

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a A representação da amada PROFESSOR

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Gramática 18.2; 18.4 1.1 a. “quando ela passa”; b. “se ela soubesse”; c. “Que vem”; d. “E fica mais lindo / Por causa do amor”. 1.2 Oração subordinada substantiva completiva. 1.3 Nomes: mundo; graça; amor; coisa; menina; balanço; caminho; mar; Conjunções: Se (v. 1); que (v. 2); quando; e; Pronomes: ela; se (v. 4); que (v. 10); Adjetivos: lindo; linda; cheia; doce.

Endechas1 a~ ua cativa2 com quem andava d’amores na Índia, chamada Bárbora

5

Educação Literária 14.1; 14.2; 14.3; 14.4; 14.8; 15.1; 16.1 10

a. V b. F – O sujeito poético considera-se um cativo, pois está preso aos encantos da mulher amada. c. F – Os olhos da mulher narrada são pretos. d. V e. F – A mulher retratada foge aos padrões de beleza da época renascentista, por ser negra e ter os cabelos pretos. f. F – O sujeito poético traça o retrato físico da mulher, mas também são realçados traços psicológicos, como a serenidade. g. F – A neve contrasta com a cor negra da pele da mulher, e gostaria até de mudar a sua cor. h. V i. F – Na última oitava, a palavra "pena" refere-se ao instrumento de escrita, mas indica também sofrimento ou dor. j. F – O poema apresenta versos com redondilha menor.

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20

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35

40

146

Aquela cativa, que me tem cativo, porque nela vivo já não quer que viva. Eu nunca vi rosa em suaves molhos, que para meus olhos fosse mais fermosa. Nem no campo flores, nem no céu estrelas, me parecem belas como os meus amores. Rosto singular, olhos sossegados, pretos e cansados, mas não de matar. ~ graça viva, Ua que neles lhe mora, para ser senhora de quem é cativa. Pretos os cabelos, onde o povo vão perde opinião que os louros são belos. Pretidão de Amor, tão doce a figura, que a neve lhe jura que trocara a cor. Leda3 mansidão que o siso acompanha; bem parece estranha, mas bárbora não. Presença serena que a tormenta amansa; nela enfim descansa toda a minha pena. Esta é a cativa que me tem cativo, e, pois nela vivo, é força que viva.

Retrato de uma escrava africana, c. 1580, Annibale Carracci (1560-1609), Tomasso Brothers, Leeds, Inglaterra.

1 2 3

composição poética de tom melancólico e triste escrava alegre

Luís de Camões, Rimas. Texto estabelecido e prefaciado por Álvaro J. da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 2005 [1994], pp. 89-90.

Rimas

1. Após a leitura do poema, assinale as seguintes afirmações como verdadeiras ou fal-

PROFESSOR

sas. Corrija as falsas sem recorrer à negativa. a. Na primeira estrofe, o termo “cativa” remete para a condição social da mulher retratada. b. O sujeito poético considera-se um cativo, pois está preso na Índia.

Oralidade 1.1; 1.4; 1.5; 1.6; 4.2; 5.1; 5.3; 6.1; 6.2; 6.3

c. Os olhos da mulher retratada são verdes como os campos. d. Na segunda estrofe, o poeta serve-se da hipérbole para realçar as características excecionais da mulher amada. e. A mulher retratada corresponde aos padrões de beleza física da época renascentista. f. O sujeito poético traça apenas o retrato físico da mulher. g. A neve (quarta estrofe) surge associada por semelhança à cor da pele de Bárbara. h. Na utilização do adjetivo “bárbora” (quarta estrofe) há um jogo de palavras com o nome próprio da mulher amada. i.

Na última oitava, a palavra “pena” refere-se apenas ao instrumento de escrita.

j.

O poema apresenta versos em redondilha maior.

CO M P R E E N S Ã O/ EX P R E SS Ã O O RA L Acompanhe a leitura do poema com a audição da interpretação de Sérgio Godinho. Faça, em 2-3 minutos, uma apresentação crítica sobre os aspetos a seguir apresentados.

• Caracterização do ritmo e da melodia da música. • Relação entre ritmo/melodia e designação da composição poética/conteúdo.

• Expressão da opinião pessoal sobre a linguagem musical produzida por Sérgio Godinho.

ÁUDIO

Sérgio Godinho "Endechas a Bárbara escrava"

E S C R I TA

Áudio + Link “Endechas a Bárbara Escrava” Resposta de caráter pessoal. No entanto, o aluno poderá referir-se ao ritmo lento a sugerir sentimentos de saudade, dor, tristeza, que vão ao encontro da definição de “Endechas”. Escrita 10.1; 10.2; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1 Proposta de resolução: Na sua obra, Camões descreve a mulher segundo o modelo petrarquista – loira, de pele clara e olhar luminoso, características que se associam à serenidade e à doçura do retrato. Poemas como “Ondados fios de ouro reluzente” ou “Descalça vai para a fonte” traduzem este tipo de beleza. Contudo, Camões não é apenas um seguidor de modelos clássicos. Pela sua experiência, canta os diferentes tipos de beleza feminina. Em “Endechas a Bárbara escrava” descreve uma mulher de pele negra, cabelos e olhos escuros, uma “cativa que o tem cativo”. Concluindo, foi um poeta que soube conjugar os ideais renascentistas com as suas vivências, realizando uma obra ímpar que prima pela beleza e originalidade.

Redija um texto expositivo sobre a representação da mulher na lírica camoniana, tendo em conta os poemas estudados. O seu texto deverá ter entre 100 e 120 palavras e apresentar uma estrutura tripartida: introdução, desenvolvimento, conclusão. Organize a informação, de acordo com os seguintes tópicos:

• referência ao retrato da mulher segundo o modelo petrarquista; • representação de outros tipos de beleza feminina/afastamento do modelo petrarquista; • exemplos de textos significativos da representação da amada; • destaque para a originalidade e singularidade da obra lírica de Camões. BLOCO INFORMATIVO – p. 283 MANUAL – pp. 26-27

147

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a A experiência amorosa e a reflexão sobre o Amor PROFESSOR Educação Literária 14.3;14.4; 14.7; 15.1; 16.1 Leitura 7.1; 7.4; 8.1 [A] – [6] [B] – [5] [C] – [1] [D] – [3] [E] – [4] [F] – [2]

INFORMAR Leia os tópicos seguintes e resolva a atividade proposta.

A tensão amorosa em Camões • Presença constante na lírica e no teatro (também pontualmente em Os Lusíadas), o Amor é talvez o tema de maior alcance significativo na obra de Camões, sendo fonte de tensão, de conflito interior.

• Ao contrário do que sucede com Petrarca, Camões oculta frequentemente a identidade da amada, o que permite duas interpretações possíveis: - uma leitura biográfica, segundo a qual a vida do poeta estaria codificada na sua poesia lírica, cabendo a um leitor mais especializado interpretar as pistas que permitiriam descobrir a identidade de uma mulher real; - uma leitura não-biográfica, que se baseia num subtil jogo de códigos poético-literários, que Camões domina na perfeição, não sendo a mulher real o mais importante na escrita literária, mas sim o Amor e os fenómenos a ele ligados.

• Há que entender a função do Amor, em grande parte da lírica camoniana, como dinâmica-motriz do próprio ato de escrever. O Amor é, por assim dizer, o combustível que põe a máquina da escrita em ação. • Uma fonte de tensão que surge na poesia de Camões é a desproporcionalidade de sentimentos vividos pelo amador e pela amada, o que implica que a vivência do amor, longe de ser uma experiência alegre e feliz, é constantemente descrita como sendo algo de doloroso. Elaborado a partir de Frederico Lourenço, “Amor”, in Vítor Aguiar e Silva (coord.), Dicionário de Luís de Camões, Alfragide, Editorial Caminho, 2011, pp. 25-26.

1. Associe os elementos da coluna A aos da coluna B, de modo a obter afirmações

verdadeiras. Coluna A [A] O Amor assume na lírica camoniana [B] A mulher amada e idealizada na poesia de Camões [C] Há uma teoria que aponta para o facto de [D] A mulher amada e, por consequência, o Amor estão [E] O sofrimento amoroso é decorrente do facto de [F] Assim, o Amor na lírica camoniana é

148

Coluna B [1] muitos dos poemas de Camões terem cariz autobiográfico. [2] frequentemente descrito como sendo uma experiência dolorosa. [3] na origem da criação literária. [4] o sujeito poético não ser correspondido com a mesma intensidade pela amada. [5] raramente é identificada pelo poeta. [6] um papel preponderante.

Rimas

PROFESSOR

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Educação Literária 14.1; 14.2; 14.3; 14.4; 14.9

Leia expressivamento os textos.

Quem ora soubesse a este mote: Quem ora soubesse onde o Amor nace, que o semeasse! VOLTAS

5

10

D’Amor e seus danos me fiz lavrador; semeava amor e colhia enganos; não vi, em meus anos, homem que apanhasse o que semeasse. Vi terra florida de lindos abrolhos1, lindos pera os olhos, duros para a vida; mas a rês2 perdida que tal erva pace em forte hora nace.

Com quanto perdi, trabalhava em vão; se semeei grão, grande dor colhi. Amor nunca vi que muito durasse, que não magoasse.

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Luís de Camões, Rimas. Texto estabelecido e prefaciado por Álvaro J. da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 2005 [1994], pp. 88-89.

1 2

planta espinhosa qualquer quadrúpede

1. Ao longo do texto, o sujeito poético recorre a termos do campo lexical de agricultura. 1.1

Faça o levantamento desses termos e insira-os no quadro seguinte, de acordo com a classe a que pertencem. Nomes

1.1 Nomes: lavrador; terra; abrolhos; rês; erva; grão Verbos: nace; semeasse; colhia; apanhasse; pace; trabalhava 1.2 A recorrência a termos do campo lexical de agricultura permite comparar o ato de semear e colher, próprio do lavrador, ao conceito de amor e seus efeitos que o sujeito poético enuncia. Este afirma que, tal como um lavrador lança a semente à terra para colher depois o que semeia, também o homem semeia o Amor, mas colhe apenas desilusões e enganos. 2. O sujeito poético afirma que nunca viu “homem que apanhasse / o que semeasse” (vv. 6-7), o que remete para uma generalização dos efeitos negativos do Amor. Afirma também que nunca viu Amor “que muito durasse, / que não magoasse” (vv. 20-21), exemplificando os efeitos deste sentimento com o seu próprio testemunho. 3. A composição poética é um vilancete, constituído por um mote de três versos e pelas voltas (ou glosas), de sete versos cada. Os versos têm 5 sílabas métricas, designando-se de redondilha menor.

Verbos

1.2 Justifique a recorrência a este campo lexical. 2. Demonstre que o conceito de amor e seus efeitos, referidos ao longo do poema,

se aplicam ao sujeito poético e aos homens em geral. Fundamente a sua resposta com citações pertinentes. 3. Classifique a composição poética e analise a sua métrica.

BLOCO INFORMATIVO – p. 282

149

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a A experiência amorosa e a reflexão sobre o Amor PROFESSOR

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Tanto de meu estado me acho incerto

Áudio “Tanto de meu estado me acho incerto”

Tanto de meu estado me acho incerto, que em vivo ardor tremendo estou de frio; sem causa, juntamente choro e rio, o mundo todo abarco e nada aperto.

Educação Literária 14.1; 14.2; 14.3; 14.4; 14.6; 14.8; 14.10 1.1 a. “frio” b. “choro” c. “nada aperto” d. “espero” e. “acerto” f. “Estando em terra” g. “em mil anos não posso achar ũ’hora” 1.2 O sujeito poético afirma estar dominado por sentimentos/estados contraditórios, tanto eufóricos como disfóricos. Sente-se ora alegre ora triste, ora acompanhado ora solitário, ora confiante ora desconfiado, ora desvairado ora alinhado (atinado). 1.3 A causa do seu estado de espírito encontra-se no facto de ele ter visto uma “Senhora”, o que desencadeou o sentimento amoroso e os estados contraditórios. 2. A primeira parte corresponde às duas quadras e ao primeiro terceto, na qual o “eu” descreve os seus sentimentos contraditórios. A segunda parte integra o último terceto, momento em que se evidencia a causa do estado de espírito do sujeito poético. 3. Trata-se de um soneto, constituído por duas quadras e dois tercetos, com rima interpolada e emparelhada nas quadras e interpolada nos tercetos, e com versos decassilábicos (10 sílabas métricas).

5

10

É tudo quanto sinto, um desconcerto; da alma um fogo me sai, da vista um rio; agora espero, agora desconfio, agora desvario, agora acerto. Estando em terra, chego ao Céu voando, nũ’hora acho mil anos, e é de jeito que em mil anos não posso achar ũ’hora. Se me pergunta alguém porque assi ando, respondo que não sei; porém suspeito que só porque vos vi, minha Senhora. Luís de Camões, Rimas. Texto estabelecido e prefaciado por Álvaro J. da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 2005 [1994], p. 118.

Retrato de moça com véu, c. 1515, Rafael (1483-1520), Palácio de Pitti, Florença.

1. O sujeito poético descreve neste poema um estado de espírito contraditório. 1.1

Transcreva das três primeiras estrofes as palavras ou expressões que se opõem às seguintes. a. “ardor” (v. 2) b. “rio” (v. 3) c. “o mundo todo abarco”

(v. 4)

d. “desconfio” (v. 7) e. “desvario” (v. 8) f. “chego ao Céu” (v. 9)

~ 'ora acho mil anos” g. “nu

(v. 10)

1.2

De acordo com o registo que fez no exercício anterior, trace o retrato psicológico do sujeito poético.

1.3

Identifique a causa dos sentimentos experienciados pelo “eu” lírico, tendo em conta a última estrofe.

2. Proponha uma divisão do poema em duas partes, justificando a sua opção. 3. Faça a análise formal do poema, classificando o tipo de estrofes, a métrica e o tipo

de rima.

150

Rimas A representação da Natureza

INFORMAR

PROFESSOR Educação Literária 14.3; 14.7; 15.1; 16.1 Leitura 7.1; 7.3; 8.1; 8.2

Leia o seguinte texto.

Locus amoenus

5

10

15

20

Expressão latina que designa a paisagem ideal, sempre presente na poesia amorosa em geral e, com maior incidência, na poesia bucólica1. Desde a Antiguidade Clássica que o termo locus amoenus nos remete para a descrição da Natureza e para um conjunto de elementos específicos: o campo fresco e verdejante, com um vasto arvoredo e flores coloridas, cujo doce odor se espalha com a brisa. A vegetação é densa mas constantemente renovada, dada a grande fertilidade do terreno, e a passagem do tempo não conduz à destruição da paisagem, o que, de acordo com Lanciani e Tavani (1993) é metafórico da infância que nunca se perde. Ouve-se o suave som da água do riacho a saltar nas pedras ou a brotar de uma fonte, onde os animais vão beber. Há borboletas policromáticas2 esvoaçando, assim como aves diversas (normalmente rouxinóis ou pardais), que abrilhantam o céu azul. Esta natureza mágica é conducente3 ao amor, ao encantamento sensorial e espiritual do Homem, que se integra na perfeição em tal plenitude4, marcada pela harmonia e homogeneidade. Enfim, estamos perante um paraíso terrestre, onde se enquadra o ser humano que busca a satisfação pela simplicidade. […] Também Camões (1524-1580), que prima5 pela descrição pormenorizada da paisagem amena, deixa transparecer nas suas obras a preferência pelo tópico (v. soneto como “Alegres campos, verdes arvoredos”, in Rimas), o que se verifica na sua idealização de mulher, que aparece intrinsecamente relacionada com o locus amoenus (v. “Um mover d’olhos brando e piadoso”). Carlos Ceia, s.v. “Locus amoenus”, in Carlos Ceia (coord.), E-dicionário de termos literários. Disponível em http://www.edtl.com.pt (consultado em janeiro de 2015).

1 5

1. a. É a paisagem ideal, sempre presente na poesia amorosa. É uma Natureza harmoniosa, fresca, primaveril, de céu azul, fértil, que não se ressente da passagem do tempo. Os animais estão perfeitamente integrados e em comunhão com ela. b. É uma paisagem natural (campestre ou florestal), com vegetação densa e verdejante e abundante em água. c. Campo fresco e verdejante, vasto arvoredo, flores coloridas, brisa, vegetação densa e renovada, água do riacho, fonte, animais, borboletas policromáticas, aves diversas (rouxinóis, pardais), céu azul. d. Espaço propício ao amor – “natureza mágica [...] conducente ao amor, ao encantamento sensorial e espiritual do Homem” (ll. 11-12). e. Simboliza a infância que nunca se perde e o paraíso perdido onde o Homem se enquadra, procurando os prazeres simples – “satisfação pela simplicidade” (l. 15).

pastoril, campestre; 2 de várias cores; 3 que conduz, que leva a; 4 grandeza, felicidade; se evidencia.

1. Preencha o quadro com informação retirada do texto. Definição de “locus amoenus” a. Tipo de paisagem privilegiada b.

Elementos naturais destacados c.

Relação “locus amoenus”/amor d.

Simbologia do “locus amoenus” e.

151

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a A representação da Natureza PROFESSOR

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Educação Literária 14.2; 14.3; 14.8; 15.1 1. São referidos os campos, os arvoredos, as águas, os montes e os penedos. A descrição destes elementos cria um ambiente harmonioso e belo (locus amoenus). 2. Os adjetivos estão ao serviço da descrição da Natureza e, uma vez que se encontram antepostos ao nome, sugerem uma ideia de descrição subjetiva. 3. Os interlocutores do sujeito lírico são todos os elementos da Natureza referidos nos cinco versos iniciais. A apóstrofe aponta para a sua identificação. 4. Dirigindo-se aos elementos da Natureza, o sujeito afirma “me já não vedes como vistes” (v. 9). O contraste entre o pretérito perfeito do indicativo (vistes) e o presente do indicativo (vedes) marca a diferença entre um estado de felicidade passado e a tristeza do presente. Por essa razão, também afirma “já não podeis fazer meus olhos ledos” (v. 8), indiciando, através do uso do presente do indicativo, que é no momento atual que a felicidade lhe é impossível. 5.1 Descrição valorativa, eufórica (harmoniosa e alegre) da Natureza associada ao passado do “eu” b. Tristeza c. A tristeza vai-se instalando no sujeito poético, o que se denuncia já na adjetivação disfórica dos “montes” e “penedos”; a alegria da Natureza já não influencia o “eu” d. Tristeza e. Dominado pela tristeza, o sujeito lírico exercerá a sua negatividade sobre a Natureza, semeando nela os seus infortúnios e regando-a com lágrimas de saudade

152

Leia os textos que se seguem sobre a representação da Natureza na lírica camoniana.

Alegres campos, verdes arvoredos Alegres campos, verdes arvoredos, claras e frescas águas de cristal, que em vós debuxais ao natural, discorrendo da altura dos rochedos; 5

10

silvestres montes, ásperos penedos, compostos em concerto desigual, sabei que, sem licença de meu mal, já não podeis fazer meus olhos ledos. E, pois me já não vedes como vistes, não me alegrem verduras deleitosas, nem águas que correndo alegres vêm. Semearei em vós lembranças tristes, regando-vos com lágrimas saudosas, e nascerão saudades de meu bem. Luís de Camões, Rimas. Texto estabelecido e prefaciado por Álvaro da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 2005 [1994], p. 123.

1. Identifique os elementos da Natureza contemplados no poema, referindo o tipo de

ambiente que a sua descrição cria. 2. Mencione a classe de palavras que contribui para a descrição da Natureza, comen-

tando os efeitos produzidos pela sua localização na frase. 3. Assinale o(s) interlocutor(es) do sujeito lírico, referindo o recurso expressivo que

se associa à sua identificação. 4. Com base nas segunda e terceira estrofes, refira a importância da flexão verbal

para a caracterização dos sentimentos do sujeito lírico em dois tempos distintos. 5. Um ambiente negativo vai, gradualmente, substituindo a serenidade e a alegria

que se percecionam na primeira quadra. 5.1 Complete o esquema com os dados necessários para a explicitação dessa gradação.

Estrofes

Domínios de referência

Sentimentos

Descrição/ explicação

1.a quadra

Natureza

Alegria

2.a quadra e 1.o terceto

Natureza EU

b.

c.

2.o terceto

EU Natureza

d.

e.

a.

Rimas

PROFESSOR

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.6; 14.7; 14.8; 14.9; 15.1

Aquela triste e leda madrugada Aquela triste e leda madrugada, cheia toda de mágoa e de piedade, enquanto houver no mundo saüdade quero que seja sempre celebrada. 5

10

Áudio “Aquela triste e leda madrugada” 1. [A] – [2] [B] – [5] [C] – [1] [D] – [9] [E] – [3] [F] – [8] [G] – [6]

Ela só, quando amena e marchetada1 saía, dando ao mundo claridade, viu apartar-se2 d’ũa outra vontade, que nunca poderá ver-se apartada. Ela só viu as lágrimas em fio, que d’uns e d’outros olhos derivadas s’ acrescentaram em grande e largo rio. Ela viu as palavras magoadas que puderam tornar o fogo frio, e dar descanso às almas condenadas. Luís de Camões, Rimas. Texto estabelecido e prefaciado por Álvaro J. da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 2005 [1994], p. 157.

1

Paisagem com rebanho (pormenor), c. 1638, Rubens (1577-1640), The National Gallery, Londres.

matizada; 2 afastar-se, separar-se.

1. Faça corresponder as frases da coluna A às da coluna B, de modo a obter afirma-

ções verdadeiras sobre o soneto acima transcrito. Coluna A [A] Este soneto abre com uma antítese e pode dividir-se [B] O primeiro momento, correspondente à primeira quadra, [C] O segundo momento, referente às restantes estrofes,

Coluna B [1] funciona como justificação do desejo expresso anteriormente. [2] em dois momentos. [3] recorrendo, sobretudo, à sensação visual, presente no pretérito perfeito simples do indicativo do verbo ver (“viu”). [4] o sujeito poético e a mulher amada.

[D] O sujeito lírico centra-se no momento passado, em que a madrugada personificada

[5] refere-se ao presente do sujeito poético e expressa o seu desejo para o futuro.

[E] O “eu” poético personifica a Natureza,

[6] através de uma hipérbole – “as lágrimas em fio […] s’acrescentaram em grande e largo rio” – e de um paradoxo.

[F] A antítese presente em “triste e leda” permite estabelecer um contraste entre [G] O sofrimento vivido no momento da separação é expresso

[7] se despediu dos amantes. [8] a beleza e a alegria da Natureza e o sofrimento do par amoroso. [9] presenciou a separação dos amantes.

153

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a A reflexão sobre a vida pessoal

INFORMAR Leia o seguinte texto, no qual o autor faz uma análise do ambiente vivido no século XVI, para, dessa forma, justificar a natureza humana de Camões.

Camões: a época, o homem e o poeta *

Ovídio, poeta latino (Sulmona, 43 a. C. – Tomes, hoje Constanta, Roménia, 17 ou 18 d. C.). Autor favorito dos inícios do Império, graças aos seus poemas ligeiros, eróticos ou mitológicos (A Arte de Amar, As Heroídes, METAMORFOSES, Os Fastos), foi banido por uma razão misteriosa, morrendo exilado, apesar das súplicas das suas últimas elegias (Os Tristes, Os Pônticos).

5

10

Nova Enciclopédia Larousse, Círculo de Leitores, vol. 17, p. 5238.

15

PROFESSOR Educação Literária 14.3; 14.7; 15.1; 16.1 Leitura 7.1; 7.4; 8.1; 8.2 1. a. terrestres b. marítimas c. fortuna d. fama e. conhecimento f. pessimismo g. prisão h. biográficas i. saudade

20

25

Luís de Camões nasceu e viveu em século de partidas e viagens; fossem por terra os caminhos que a paragens distantes conduziam, fossem as rotas do mar que a longes terras iam levando: caravelas que buscavam aventura, fortuna ou fama; estudantes que buscavam, na Europa, novos saberes. O desconcerto melancólico tão característico do homem português tinha, pois, condições propícias ao seu desenvolvimento. À medida que o fim de século se aproxima (e Camões viveu esses anos), uma imagem de caos vai-se instalando; a vida não passa de uma prisão e é, toda ela, no fim de contas, um desterro. Forçoso é reconhecer, ao cabo de um percurso que vem desde a Idade Média, com o pessimismo sofredor da ausência a animar o nosso lirismo, que essa visão angustiada e angustiante tão típica dos derradeiros anos de Quinhentos não é, de todo em todo, novidade. Acontece, no entanto, que Luís de Camões vai bem mais longe no desacerto (ou desencontro, se se preferir) das suas raízes. Perdido em meio de um labirinto, ora de espelhos, ora de trevas, Camões acaba por tornar-se o mais primoroso herdeiro do lirismo medieval, no que ao canto da saudade e do amor ausente diz respeito e, ao mesmo tempo (e talvez por isso mesmo), o primeiro grande imitador, em Portugal, do poeta desterrado por excelência, o poeta latino Ovídio*. É certo que o percurso biográfico do nosso poeta, marcado por múltiplas partidas, viagens diversificadas, longas ausências, foi particularmente propício à adesão aos temas ovidianos; mas o seu apego ao “mal de ausência” (expressão camoniana, da elegia Aquela que de amor descomedido) não resulta apenas de circunstâncias biográficas; é, de algum modo, o reflexo desse fim de século português, quando o homem, onde quer que estivesse, se entreolhava ensimesmado e construía, para si mesmo, uma espécie de consciência de cidadãos de parte incerta. José Augusto Cardoso Bernardes, História crítica da literatura portuguesa. Humanismo e Renascimento, vol. II, Lisboa, Editorial Verbo, 1999, pp. 418-419.

1. Complete o seguinte esquema. Ambiente quinhentista

1.o parágrafo Marcado por viagens a.

e b.

, à procura de aventura, c.

, e d.

, e.

.

2.o parágrafo Propício ao desconcerto do homem português, no final do século, e prolongando uma mentalidade medieval, acentua-se o caos, o f. g.

, um desterro.

3.o e 4.o parágrafos Assim, Camões, não só por circunstâncias h. a i.

154

e a ideia da vida como uma

e o amor ausente.

, revela o seu desacerto, cantando

Rimas

EDUCAÇÃO LITERÁRIA A reflexão sobre a vida pessoal foi também uma temática cantada nos poemas de Camões.

O dia em que eu nasci, moura e pereça O dia em que eu nasci, moura e pereça1, não o queira jamais o tempo dar, não torne mais ao mundo, e, se tornar, eclipse nesse passo o sol padeça. 5

10

A luz lhe falte, o sol se [lhe] escureça, mostre o mundo sinais de se acabar, nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar, a mãe ao próprio filho não conheça. As pessoas pasmadas, de ignorantes, as lágrimas no rosto, a côr perdida, cuidem que o mundo já se destruiu. Ó gente temerosa, não te espantes, que este dia deitou ao mundo a vida mais desgraçada que jamais se viu!

Dulle Griet, 1564, Pieter Bruegel, o Velho (c. 1525-69), Museum Mayer van der Berg, Antuérpia.

Luís de Camões, Rimas. Texto estabelecido e prefaciado por Álvaro J. da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 2005 [1994], p. 182. 1

Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.7; 14.9

morra.

1. Atente na primeira quadra. 1.1

PROFESSOR

Refira o desejo expresso pelo sujeito lírico, caracterizando o seu estado de espírito.

1.2 Faça o levantamento de expressões que comprovem o tom disfórico empregue. 2. Considere as segunda e terceira estrofes. 2.1 Comprove a criação por parte do “eu” lírico de um ambiente apocalítico (fim do

mundo), justificando as suas afirmações com expressões textuais. 3. Comente as reações dos seres humanos perante esse ambiente desejado pelo “eu”. 4. Atente agora no último terceto. 4.1 Identifique o interlocutor do sujeito poético, referindo o recurso expressivo em-

pregue. 4.2 Comprove com o levantamento de expressões que esta estrofe apresenta o moti-

vo pelo qual o “eu” lírico formulou o desejo expresso na primeira quadra. 4.3 Identifique o recurso expressivo presente no último verso, justificando o seu em-

1.1 O sujeito lírico exprime o desejo de que o dia do seu nascimento desapareça, não se tornando a repetir. Esta aspiração permite caracterizar o sujeito, destacando-o pela negativa, como um ser sofredor e martirizado. 1.2 As palavras que exprimem o tom disfórico são “moura”, “pereça”, “eclipse” e “padeça”. 2.1 O “eu” lírico refere um conjunto de elementos apocalíticos, como o eclipse do sol (“o sol se [lhe] escureça”, v. 5), o aparecimento de monstros ("nasçam-lhe monstros”, v. 7), a chuva de sangue (“sangue chova o ar”, v. 7), o não reconhecimento dos filhos pelas próprias mães (“a mãe ao próprio filho não conheça”, v. 8).

prego.

155

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a O temaA da reflexão mudança sobre e do a vida desconcerto pessoal PROFESSOR 3. O sujeito deseja que as pessoas fiquem pasmadas perante a sucessão de acontecimentos, acreditando que o mundo está à beira do fim, o que será uma forma de realçar a tragédia que este associa à sua vida e à revolta que sente. 4.1 O sujeito dirige-se à “gente temerosa”, identificando o seu interlocutor por meio de uma apóstrofe. 4.2. “que este dia deitou ao mundo a vida / mais desgraçada que jamais se viu!” (vv. 13-14) 4.3 O final do poema é marcado pela hipérbole, como forma de intensificação do caráter excecional do poeta e do seu destino trágico. Educação Literária 14.3; 15.1; 16.1 Leitura 7.1; 7.2; 7.3; 8.1 1.1 passagem; desordem 1.2 superior 1.3 solitário 1.4 implacável 1.5 falhas

INFORMAR Leia os tópicos que se seguem e resolva a atividade proposta abaixo.

A lírica camoniana • A lírica de Camões revela um sujeito poético que, perante o decurso da vida, reflete sobre o tempo e a mudança, temas característicos da época renascentista. Vemos também um “eu” que analisa o desconcerto que vê dentro e fora de si. A desordem social e psicológica, o absurdo do mundo e a existência, invencível, do mal, embora funcione sempre como causa de espanto e de revolta, conjuga-se com o destino que subjuga e esmaga. Elaborado a partir de Poesia Lírica, Luís de Camões, seleção e introdução por Isabel Pascoal, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, p. 34.

• Sujeito à implacável mecânica do tempo – que tudo vai mudando e destruindo – o mundo aparece, sob olhar da melancolia camoniana, como um lugar absurdo e injusto onde o mal triunfa tantas vezes sobre o bem.

• O poeta assume uma posição de um cada vez maior isolamento perante os outros, manifestando um insistente desânimo face ao decurso da sua vida.

• O isolamento do poeta reforça a noção sempre muito viva da sua firme singularidade: a melancolia que o faz sofrer como vítima de um destino cruel e fatal, que desde sempre parece tê-lo marcado e para o qual contribuiu um conjunto de diversos fatores, alguns involuntários, mas outros dependendo dos seus erros. • O caráter excecional deste destino torna-se um dos grandes tópicos de melancolia camoniana, mostrando alguém fortemente desiludido com as provações a que foi sujeito ao longo dos anos. Elaborado a partir de Fernando Pinto do Amaral, “Melancolia”, in Vítor Aguiar e Silva (coord.), Dicionário de Luís de Camões, Alfragide, Editorial Caminho, 2011, p. 585.

1. Selecione, dos termos indicados entre parênteses, o que se adequa às informações

fornecidas pelos textos. 1.1

A lírica camoniana apresenta uma reflexão sobre a (passagem/estagnação) do tempo e sobre a (ordem/desordem) que o sujeito poético vê dentro e fora de si.

1.2 A ideia de desconcerto presente na lírica camoniana dá-nos uma visão do mundo

em que o mal é

(superior/inferior) ao bem.

1.3 Perante a consciência da passagem do tempo, o poeta torna-se um ser cada vez

mais

(solidário/solitário).

1.4 O poeta considera-se vítima de um destino

(generoso/implacável)

para o

qual contribuíram fatores externos e internos. 1.5 A melancolia que caracteriza a lírica camoniana advém de fatores externos

ao poeta, mas também das

156

(falhas/virtudes) que caracterizaram a sua vida.

Rimas

PROFESSOR

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Leia, agora, as Rimas relativas ao tema da mudança e do desconcerto.

Correm turvas as águas deste rio Correm turvas as águas deste rio, que as do Céu e as do monte as enturbaram; os campos florecidos se secaram, intratável se fez o vale, e frio. 5

10

Passou o verão, passou o ardente estio1, ũas cousas por outras se trocaram; os fementidos2 Fados3 já deixaram do mundo o regimento, ou desvario4. Tem o tempo sua ordem já sabida; o mundo, não; mas anda tão confuso, que parece que dele Deus se esquece. Casos, opiniões, natura e uso5 fazem que nos pareça desta vida que não há nela mais que o que parece.

1 2 3 4

5

verão falsos destinos vv. 7-8: já entregaram o governo do mundo / dos homens à loucura natureza e costume

Luís de Camões, Rimas. Texto estabelecido e prefaciado por Álvaro J. da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 2005 [1994], p. 168.

1. Na segunda estrofe, o sujeito lírico dá conta da passagem do tempo. 1.1

Explicite como se processa esta ideia, relacionando-a com a primeira estrofe.

1.2 Analise a importância dos tempos verbais ao serviço da expressão desta ideia. 1.3 Relacione os dois primeiros versos desta quadra com o conteúdo da primeira. 2. Explicite o conteúdo do primeiro terceto, considerando as realidades evidenciadas

e os elementos linguísticos. 2.1 Interprete a referência à figura de Deus nesta estrofe. 3. Identifique o recurso expressivo ao serviço da ilustração da desordem verificada

no mundo. 4. Relacione o conteúdo do poema com o tema da mudança e do desconcerto.

1.1 Esta ideia processa-se por meio da referência indireta às estações do ano, sinalizadas pelas águas turvas (inverno), pelos campos de flores (primavera), pelos campos secos (verão) e pelo frio (outono). 1.2 Na quadra, o pretérito perfeito permite marcar as ações passadas ("enturbaram", "secaram", "fez"). Já o presente do indicativo aponta para a estação atual, contribuindo para a noção da passagem do tempo. 1.3 Estes versos reiteram a ideia da passagem do tempo expressa na primeira quadra, associando-a, aqui, ao tópico da mudança inerente à passagem das diferentes estações. 2. O primeiro verso do terceto aponta para a transformação, natural que o tempo opera na Natureza; os dois versos que se seguem transportam-nos para a realidade humana e os seus comportamentos. Veja-se o advérbio de negação (“não”) a estabelecer a oposição (reforçada pelo conector “mas”) entre a ordem natural das coisas e os comportamentos humanos. 2.1 Deus é referido como o garante da ordem do mundo. Desta forma, o sujeito julga que a desordem que se verifica no mundo só poderá ficar a dever-se a um possível esquecimento por parte desse ser superior. 3. O recurso expressivo é a enumeração, presente no primeiro verso do segundo terceto – "Casos, opiniões, natura e uso". 4. A mudança verifica-se na alteração cíclica da Natureza, em que tudo se transforma; o desconcerto decorre da confusão humana. Gramática 18.1

GRAMÁTICA 1. Identifique os referentes dos pronomes sublinhados na seguinte transcrição:

“que as do Céu e as do monte as enturbaram” (v. 2). 1.1

Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.7; 14.9

Refira a função sintática desses pronomes.

1. As duas primeiras ocorrências − “águas”; a terceira ocorrência – “as águas deste rio”. 1.1 Complemento direto

BLOCO INFORMATIVO – pp. 271-272

157

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a O tema da mudança e do desconcerto PROFESSOR

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Áudio “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades.

Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.6; 14.7; 14.8; 14.9; 14.10 1. a. mudança b. três c. quatro d. duas e. negativa f. o último g. Natureza h. terceto i. outra mudança faz de mor espanto j. que não se muda já como soía k. tempo l. as mágoas m. e do bem (se algum houve), as saüdades n. antítese 2. Trata-se de um soneto, composto por duas quadras e dois tercetos, constituídos por versos decassilábicos (Mu/dam/-s(e) os/tem/pos,/ mu/dam/-s(e) as/von/ta/ [des]). A rima é interpolada e emparelhada nas quadras e cruzada nos tercetos, segundo o esquema: abba/abba /cdc/ dcd.

5

10

Contìnuamente vemos novidades, diferentes em tudo da esperança; do mal ficam as mágoas na lembrança, e do bem (se algum houve), as saüdades. O tempo cobre o chão de verde manto, que já coberto foi de neve fria, e, em mim, converte em choro o doce canto. E, afora1 este mudar-se cada dia, outra mudança faz de mor2 espanto, que não se muda já como soía3. Luís de Camões, Rimas. Texto estabelecido e prefaciado por Álvaro J. da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 2005 [1994], p. 162. 1

além de; 2 maior; 3 costumava.

A tempestade, séc. XVII, Rubens (1577-1640), Ashmolean Museum, Universidade de Oxford.

1. Complete o seguinte texto, com palavras suas e/ou expressões do poema, de modo

a obter uma breve análise do mesmo. Este poema tem como tema a a. e pode dividir-se em três momentos. O primeiro, correspondente à primeira estrofe, integra a apresentação e a afirmação de um mundo em constante transformação, como se pode verificar nos versos b. e c. . O segundo momento, correspondente às d. estrofes seguintes, constitui a constatação do sujeito relativamente à forma como a mudança se opera, sendo, para o ser humano, geralmente e. , como atestam os três primeiros versos da segunda estrofe e o f. do primeiro terceto. Pelo contrário, na g. , a mudança é cíclica e confunde-se com renovação, como se comprova com os dois primeiros versos do primeiro h. . Por fim, o terceiro momento é introduzido pela conjunção copulativa “e” que inicia o último terceto. Aqui, o “eu” lírico conclui que o próprio processo de mudança sofre os efeitos de mudança – i. “ / j. ”. O sujeito poético também é afetado pela mudança, consequente da passagem do k. , que lhe deixa o passado na memória, sejam as lembranças tristes, (associadas aos factos negativos l.“ ”) sejam as saudades dos factos positivos (m.“ ”). Assim, no poema explora-se a n. (“verde manto” / “neve fria”; “choro” / “doce canto”) para descrever o contraste entre o caráter cíclico e renovador da mudança na Natureza e a degradação que a mesma traz ao ser humano – a perda do passado, o envelhecimento. 2. Classifique o poema, justificando a sua resposta com a análise formal do mesmo

(estrofes, métrica, esquema rimático e tipo de rima). 158

Rimas

PROFESSOR

COMPREENSÃO DO ORAL Antes de proceder ao visionamento de um anúncio publicitário da Portugal Telecom, deve ler as atividades que se propõem, de forma a melhor selecionar a informação.

Vídeo "Portugal Telecom" Oralidade 1.1; 1.4; 1.5; 1.6; 1.7

1. Uma das características dos anúncios

publicitários é a multimodalidade, ou seja, o recurso a diferentes linguagens. 1.1

Comprove, com dois exemplos, o aspeto destacado.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Portugal Telecom

1.2 Refira o principal objetivo da conjugação dessas linguagens. 2. Identifique, justificando, o público a quem se destina o produto publicitado. 3. Os elementos paratextuais funcionam como um complemento do texto principal. 3.1 Indique aquele que confirma a ideia da mudança, da evolução temporal. 3.2 Evidencie de que forma se pretende passar uma imagem de inovação e de bom

serviço prestado aos clientes. 4. Considere o slogan do produto divulgado:

“Inovar, “I Inovar, M Mudar, udar, M Melhorar elhorar – é a n nossa ossa tradição.” tradição.”

4.1 Confirme a intenção da empresa, contida no slogan e sugerida em alguns elemen-

tos visionados.

1.1 A linguagem visual (movimento) e a sonora (fundo musical, declamação de um poema de Luís de Camões). 1.2 Despertar interesse e curiosidade no recetor, levando-o a comprar o produto ou a reforçar a imagem/ideia que tem de uma marca. 2. O produto destina-se a um público generalista que tem necessidade de comunicar entre si. 3.1 Um cronómetro, localizado na parte inferior direita, que dá conta da evolução dos tempos, desde 1551 (meados do século XVI, época em que viveu Camões) até 2005, ano em que foi apresentado este anúncio. 3.2 Por um lado, a presença de objetos tecnológicos que melhor permitem a comunicação; por outro, a alegria, a familiaridade, a boa disposição e o ritmo que perpassa pelas pessoas. 4.1 Inovar – a rede móvel das telecomunicações; a comunicação em movimento. Mudar – as crianças a brincar e os jovens a dançar; a celebração de um matrimónio e a cumplicidade de um casal idoso. Melhorar – atenuar as saudades pelo uso das telecomunicações.

BLOCO INFORMATIVO – p. 283

159

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a O tema da mudança e do desconcerto PROFESSOR

EDUCAÇÃO LITERÁRIA

Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.9 1. a. Soneto b. Versos decassilábicos c. Uso da 1ª pessoa( “quis”) d. Redondilha maior (sete sílabas métricas) e. Medida velha, redondilha (corrente tradicional) f. Uso da 1ª pessoa ( “vi”; "mim") g. Desconcerto do mundo 2. Os responsáveis pela situação atual vivida pelo sujeito poético são o Destino (Sorte/Fortuna) e o Tempo, que não permitem que ele atinja um estado de felicidade, retirando-lhe qualquer esperança de ser feliz. 3. A experiência do “eu” surge como oposição àquilo que acontece aos outros, que não são castigados pelos seus erros. Para ele, o desconcerto não funcionou, pois errou mas não foi premiado, mas sim, pelo contrário, castigado. 4. Os dois textos remetem para um descontentamento, uma vez que o sujeito poético, pela sua experiência de vida, conclui que qualquer esperança é enganadora, porque o tempo tudo destrói, e que o mundo em que vive tem os valores invertidos.

Leia os poemas apresentados e responda ao que é solicitado. TEXTO A

TEXTO B

Que me quereis, perpétuas saüdades?

Os bons vi sempre passar sua ao desconcerto do mundo

Que me quereis, perpétuas saüdades? Com que esperança ainda m'enganais? Que o tempo que se vai não torna mais, e se torna, não tornam as idades. 5

10

5

Razão é já, ó anos!, que vos vades, porque estes tão ligeiros que passais, nem todos para um1 gosto são iguais, nem sempre são conformes as vontades.

10

Aquilo a que já quis é tão mudado que quási é outra cousa; porque os dias têm o primeiro gosto já danado2.

Os bons vi sempre passar no mundo graves tormentos; e, para mais m'espantar, os maus vi sempre nadar em mar de contentamentos. Cuidando alcançar assim o bem tão mal ordenado, fui mau, mas fui castigado: Assi que, só para mim anda o Mundo concertado. Luís de Camões, Rimas. Texto estabelecido e prefaciado por Álvaro J. da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 2005 [1994], p. 102.

Esperanças de novas alegrias não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado, que do contentamento são espias.

1

o mesmo; 2 estragado.

Luís de Camões, Rimas. Texto estabelecido e prefaciado por Álvaro J. da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 2005 [1994], p. 170.

1. Analise o tema e a forma dos dois textos, completando o quadro seguinte. Texto A

Texto B

Classificação da composição

a.

Esparsa

Classificação da métrica

b.

d.

Estilo (lírica camoniana)

Clássico, medida nova (corrente renascentista)

e.

Marcas de um discurso pessoal

c.

f.

Tema

A mudança

g.

2. Identifique, no texto A, os responsáveis pela situação atual vivida pelo sujeito poé-

tico. 3. Justifique a introdução da experiência pessoal do “eu” no texto B. 4. Demonstre que as duas composições poéticas revelam um descontentamento do

sujeito poético face ao mundo em que vive. 160

Rimas

LEITURA

PROFESSOR Leitura 7.2; 7.3; 8.1

O desconcerto do mundo e as injustiças que lhe são inerentes manifestam-se em todas as épocas, mesmo em pleno século XX, numa Europa mais esclarecida.

1. O cônsul de Bordéus, através do seu cargo diplomático, conseguiu salvar mais de trinta mil judeus que fugiam a Hitler, pois assinou os vistos que permitiram a sua saída de França e a entrada em Portugal. 2. Foi perseguido pelo regime salazarista, tornando-se um refugiado no próprio país; viveu e morreu na pobreza. 3. Entre os dois irmãos que escapam à fúria de Hitler, Aristides de Sousa Mendes surge como um ser harmonioso, que se compara à música, arte que consegue (re)conciliar todos os desconcertos (as desarmonias) e vencer todas as desigualdades.

Leia o texto a propósito do filme que exalta um homem que tentou consertar e concertar o seu mundo e responda, de seguida, aos itens apresentados.

Um justo entre as Nações Na tradução do hebraico, o justo é um não-judeu merecedor do paraíso.

5

10

15

20

25

Atualmente, o estado de Israel refere-se assim às personalidades (góis/ gentios) que arriscaram as suas próprias vidas durante o Holocausto, para salvar judeus do extermínio perpetrado pelo nazismo. […] O caso de Aristides de Sousa Mendes é ainda hoje paradigmático: de cônsul em Bordéus a refugiado no próprio país (recebendo o auxílio da assistência judaica internacional, para sobreviver a uma perseguição política conduzida por Salazar), diz-se que morreu em Lisboa com um hábito franciscano (por não ter sequer um fato próprio). Em filme e com o título Aristides de Sousa Mendes – o Cônsul de Bordéus (dirigido por João Correa e Francisco Manso), divulga-se a condição deste grande homem (que assinou, contra a ordem de Salazar e a famigerada1 Circular 14, mais de trinta mil vistos, para que tantas vidas judaicas pudessem chegar a Portugal, oriundas da Europa invadida por Hitler e salvas da perseguição nazi). Numa narrativa que foca o percurso de um maestro judeu (Aaron Apelman) – o qual acaba por reencontrar uma irmã que julgava morta – ativam-se várias sequências fílmicas em analepse, para que se conheça a ação grandiosa do que é também conhecido como o Schindler português. Entre o percurso do maestro e o da irmã Esther sobressai o sucesso da liberdade, do reencontro, da reunião. E no seio deste há Aristides de Sousa Mendes, tal como a música, a harmonizar o que, no universo, possa ser o maior de todos os desconcertos: o esquecimento e a aniquilação do ser humano, independentemente de credo, sexo e raça. in http://carruagem23.blogspot.pt/2012/11/um-justo-entre-as-nacoes.html (texto adaptado, consultado em maio de 2017).

1

célebre, conhecida.

1. Explicite de que modo Aristides de Sousa Mendes contribuiu para o combate

à injustiça e à desigualdade. 2. Refira duas consequências pessoais da sua ação humanitária. 3. Esclareça o sentido do último período textual.

161

APRENDER

E

S

Funções sintáticas II

DAR TU

ICA R

G RA M Á T

A PR ATIC

Funções sintáticas

PREDICATIVO DO COMPLEMENTO DIRETO Função sintática desempenhada por um constituinte selecionado por um verbo transitivo-predicativo (considerar, achar, nomear, eleger, julgar…) Pode ser desempenhada por – um grupo nominal (a.); – um grupo adjetival (b.); – um grupo preposicional (c.). COMPLEMENTO DO NOME Função sintática interna a outra, desempenhada por um constituinte selecionado pelo nome, situado à sua direita. Pode ser desempenhada por – um grupo adjetival (a.); – um grupo preposicional oracional (b.); – um grupo preposicional não oracional (c.). Só alguns nomes selecionam o complemento do nome, a saber: – nomes deverbais, ou seja, formados a partir de verbos transitivos: visita (visitar), construção (construir), estudo (estudar), análise (analisar)… (d.); – nomes que indicam graus de parentesco: pai, mãe, filho, neto… (e.); – nomes icónicos, ou seja, nomes relacionados com representações da realidade: pintura, fotografia, desenho, escultura, esboço… (f.); – nomes epistémicos, isto é, relativos ao conhecimento, que indicam conceitos e ideias: hipótese, probabilidade, ideia, necessidade, possibilidade… (g.). COMPLEMENTO DO ADJETIVO É uma função sintática interna a outra, desempenhada por um constituinte selecionado pelo adjetivo. Pode ser desempenhada por – um grupo preposicional oracional (a.); – um grupo preposicional não oracional (b.);

162

Exemplos

a. Os portugueses consideram

Camões um grande escritor. b. Os alunos acham a obra

vicentina divertida. c. Considero esta adaptação teatral de muito mau gosto.

a. A revolta estudantil foi

importante. b. A hipótese de irmos à visita de

estudo agrada-me mais. c. A fotografia da turma está

espetacular.

d. A análise da lírica camoniana

não é fácil. e. O pai do Pedro é um leitor assíduo de Camões.

f. A estátua de Camões apresenta proporções guerreiras. g. A possibilidade de tirar uma positiva no teste é enorme.

a. O António ficou responsável por

apresentar oralmente a obra do projeto de leitura. b. A Maria ficou satisfeita com os resultados do teste.

APLICAR

PROFESSOR

1. Estabeleça uma relação entre os elementos da coluna A e os da coluna B, de forma

a classificar as funções sintáticas dos constituintes sublinhados. Coluna B

Coluna A

[A] Uma parte substancial da população portuguesa vê Camões como seu poeta de eleição. [B] O poeta ficou fascinado por uma mulher de pele escura.

[1] Complemento do adjetivo

1. [A] – [3] [B] – [1] [C] – [2] [D] – [3] [E] – [2] [F] – [3] [G] – [1] [H] – [2] 2. [C] 3. a. Complemento do adjetivo b. Complemento do nome c. Complemento do nome d. Complemento do adjetivo

[C] A beleza de Bárbara distancia-se do modelo petrarquista. [D] Maria elegeu o soneto camoniano “O dia em que nasci moura e pereça” o mais triste. [E] A obra lírica de Camões é uma conjugação da medida velha com a medida nova.

Gramática 18.1

[2] Complemento do nome

[F] A estética literária renascentista considerava fundamental a arte de imitar a Natureza. [G] Como consequência do intelectualismo derivado do predomínio da razão, o escritor clássico ficava dependente de um rigoroso código de regras fixas.

[3] Predicativo do complemento

direto

[H] Por vezes, o poeta traçava o retrato de uma Natureza sombria.

2. Indique a alínea cujo segmento sublinhado não corresponde a um complemento

do nome. [A] No século XVI, desenvolveu-se um grande interesse pelo Homem. [B] A mensagem trazida pelos descobridores era a da diversidade de raças e culturas. [C] Na época de D. João III, desenvolveram-se grandes estudos humanísticos. [D] A dura vida de soldado proporcionou a Camões um enriquecimento espiritual. 3. Identifique as funções sintáticas desempenhadas pelos constituintes sublinhados. a. Sabe-se que Camões terá estudado em Coimbra e que também era dado aos amores. b. Supõe-se que Luís de Camões tenha tido uma relação com a irmã de D. João III,

a infanta D. Maria. c. Muita gente guarda na memória a ideia de Camões a salvar Os Lusíadas a nado. d. Estou convencida de que vai ser muito interessante rever Os Lusíadas.

163

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a

LEITURA O Renascimento e uma nova visão do Homem no mundo manifestaram-se não só na literatura mas em todas as artes, nomeadamente na pintura. Leia o texto expositivo e responda, de seguida, aos itens apresentados.

Os pintores descobrem a realidade

5

10

15

20

Na Antiguidade, a pintura era vista como um ofício, o que era comum a todas as artes. Os mestres-pintores recebiam encomendas de personalidades importantes ou mesmo de instituições, e tinham de executar quadros num tempo limitado, com conteúdos predefinidos e destinados a um fim predeterminado. Somente há cerca de 700 anos é que os pintores começaram a lutar pela liberdade (criativa) de dar uma finalidade própria aos quadros – ou seja, de lhes emprestar um conteúdo que não se limitasse somente ao motivo principal. Nessa época, por volta da viragem do século XIII-XIV, os artistas superaram as formas pictóricas medievais e desenvolveram uma forma de representação em perspetiva que ainda hoje influencia os nossos hábitos de ver imagens. O leque de temas de arte, outrora reduzido às representações de teor sacro, foi-se alargando à medida que aumentava o interesse pelo mundo profano, levando a que novos temas fossem introduzidos nas Belas Artes. Lentamente, os artistas começaram a libertar-se da sua condição de artesãos, de modo a poderem exprimir as suas ideias como artistas livres. Esta nova conceção, que se anunciava, teve origem nas numerosas mudanças de todos os domínios da vida, que, ao fim da Idade Média, contribuíram para modificar a visão do mundo e a postura intelectual. As inúmeras relações comerciais e a intensa troca de mercadorias – sobretudo no Norte de Itália – trouxeram riqueza, prosperidade e crescimento às cidades. O crescimento económico leva a que a burguesia, que se começava a formar nas cidades, se aperceba das suas capacidades. Artesãos e comerciantes, orgulhosos dos seus ofícios, começavam a dar valor aos seus próprios méritos, reconhecendo que era 25 possível extrair lucros do seu trabalho. As pessoas deixavam pouco a pouco de se ver como parte de um todo, começando a dar mais importância ao indivíduo. Continuava a acreditar-se que o mundo era plano, porém 30 esta crença, tal como o próprio mundo, tornara-se num desafio. As pessoas deixavam de confiar somente na religião e na sabedoria controlada pelo clero. Levantavam questões, querendo investigar tudo. Audazes navega35 dores partiam para o desconhecido com o intuito de conhecer as lacunas dos mapas e de encontrar tesouros em países estranhos, contribuindo para aumentar a prosperidade e a riqueza das suas pátrias. Para levar a

São Francisco de Assis a pregar aos pássaros, Giotto di Bondone, século XIII, Louvre, Paris.

164

Rimas

40

45

cabo assuas viagens, necessitavam de ciências e técnicas mais orientadas para o mundo profano. Muitas das invenções da época, como por exemplo o relógio, os mapas e uma série de aparelhos mecânicos deixam transparecer claramente essa necessidade. À medida que os homens se iam interessando cada vez mais pelo mundo que os rodeava, começava-se a recorrer a um realismo até aí pouco usual na pintura. Esta nova visão do mundo encontra-se documentada pela primeira vez nos quadros do pintor italiano Giotto do Bondone. “Os pintores descobrem a realidade”, in Anna-Carola Kraube, História da Pintura, Do Renascimento aos nossos dias, Colónia, Konemann, 2001 (edição portuguesa).

1. Selecione a opção que completa adequadamente cada uma das afirmações

seguintes. 1.1

Na Antiguidade, a pintura era vista como [A] uma forma de expressão dos sentimentos dos mestres-pintores. [B] uma maneira de imortalizar a liberdade criativa do autor. [C] um trabalho como outro qualquer. [D] uma ocupação destinada só a senhores ricos.

1.2 A evolução no modo de encarar a arte deveu-se essencialmente à [A] mudança de mentalidades ocorrida nos inícios do século XIV. [B] revolta dos mestres-pintores. [C] necessidade de alargar o âmbito e os temas dos quadros produzidos. [D] influência do clero na educação da burguesia. 1.3 O progresso que se verificou nos finais da Idade Média refletiu-se também na arte

da pintura, [A] que passou a representar temas sagrados. [B] cujo teor se tornou progressivamente mais realista. [C] que passou a ser associada a comerciantes e artesãos ricos. [D] o que não foi bem aceite pelo clero. 1.4 No contexto em que surge, o termo “Audazes” (l. 34) pode ser substituído por [A] receosos. [B] perigosos.

PROFESSOR Leitura 7.2; 8.1 1.1 [C] 1.2 [A] 1.3 [B] 1.4 [D] 2. Na Antiguidade, a pintura era encarada como qualquer outro trabalho e era executada por artesãos, sob encomenda. Por seu lado, a pintura renascentista passou a ser vista como a expressão do modo de sentir do seu criador e diversificou a temática, incluindo aspetos profanos, não se limitando apenas aos de caráter sagrado. 3. As mudanças verificaram-se em diversos domínios. Por um lado, o desenvolvimento social e económico − as trocas comerciais e a ascensão da burguesia − que possibilitou o crescimento das cidades, e, por outro lado, o facto de se começar a dar mais importância ao indivíduo. 4 As navegações permitiram o desenvolvimento ou o aperfeiçoamento de determinadas ciências e técnicas, necessárias à consecução das Descobertas. Por outro lado, o crescente desvendar do mundo influenciou o modo de pensar e de agir do ser humano, o que suscitou mudanças sociais que se refletiram nas artes em geral. 5. A liberdade a que se faz referência na afirmação é a liberdade do artista e não do homem. Anteriormente, o pintor executava uma tela, segundo a vontade de quem a encomendava. A partir do Renascimento, passou a poder representar-se e a representar a sua maneira de ver o mundo; passou, portanto, a dispor de liberdade criativa.

[C] nervosos. [D] corajosos. 2. Enuncie duas diferenças entre a pintura da Antiguidade e a do Renascimento. 3. Explicite as mudanças que permitiram a evolução da pintura. 4. Clarifique a importância das navegações para o desenvolvimento das sociedades. 5. Comente a seguinte afirmação “[…] os artistas começaram a libertar-se […], de

modo a poderem exprimir as suas ideias como artistas livres.” (ll. 13-15).

165

PA R A S A B E R

Rimas

PROFESSOR

CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICO-LITERÁRIA Apresentação Galeria de imagens

Apresentação Síntese da Unidade

Teste interativo Rimas

Renascimento, Humanismo e Classicismo

• nova conceção do Homem e do Mundo • privilégio da razão e da experiência • sobreposição do antropocentrismo ao teocentrismo medieval • crença no saber do Homem e na sua experiência • recuperação dos clássicos por influência de Dante e Petrarca (nos temas, nas formas e na mitologia)

• coexistência de formas medievais e renascentistas na literatura

TEMÁTICAS DA POESIA LÍRICA DE CAMÕES A representação da amada • por influência petrarquista, surge a imagem de uma mulher: − angélica, um ser divino, de pele e cabelos claros, elementos físicos reveladores das qualidades da alma; − com um poder transformador da Natureza e do Homem; • do contacto com outras culturas, nasce um novo conceito de beleza feminina, distante do de Petrarca (pele e cabelos escuros), capaz de provocar fascínio e tranquilidade no amador.

A experiência amorosa e a reflexão sobre o amor • poeta dividido entre a fascinação do amor espiritual e a atração de um amor carnal, entre a mulher que admira e a que deseja; • à luz do petrarquismo, a ausência da mulher amada é ocasião de purificação amorosa; no entanto, por vezes, essa situação origina sofrimento, saudade e ânsia de reencontro físico; • o poder transformador do amor e os seus efeitos contraditórios.

166

A representação da Natureza • espaço alegre, tranquilo, sereno, propício ao amor (locus amoenus); • espelho da alma do poeta, refletindo os seus sentimentos; • confidente, testemunha da dor provocada pela ausência/separação da amada; • espaço onde o "eu" pode projetar os seus sentimentos negativos.

A reflexão sobre a vida pessoal • o poeta reflete sobre: − o Destino (que nunca lhe foi favorável); − os erros que cometeu; − o amor (fracassado).

TEMÁTICAS DA POESIA LÍRICA DE CAMÕES (cont.) O tema do desconcerto

O tema da mudança • consciente da irreversibilidade do tempo, o poeta reflete sobre:

• reflexão sobre o desconcerto do mundo, ao nível social e moral. Assim, este resulta: − da errada distribuição dos prémios e dos castigos (os maus são galardoados, os bons severamente castigados);

− a renovação cíclica da Natureza; − a mudança da vida e das coisas.

− dos contrastes entre a “opulência” e a “miséria”; − do crescente interesse dos homens por valores materiais.

LINGUAGEM, ESTILO E ESTRUTURA DA POESIA LÍRICA CAMONIANA

Estilo • engenhoso (a medida velha – redondilhas)

Estrutura • redondilha menor (5 sílabas métricas) ou maior (7 sílabas métricas): − com mote:

Linguagem • recurso a construções curtas a glosar um mote, com uma linguagem sóbria, mas engenhosa, servindo-se de:

vilancete

− jogos de palavras;

cantiga

− trocadilhos;

− sem mote: esparsa

− antíteses; − (…)

trova ou endecha • clássico (a medida nova – verso decassilábico)

• soneto (2 quadras e 2 tercetos)

• uso da linguagem ao serviço da: − descrição; − reflexão; − confissão; • presença diversificada de recursos expressivos, com predomínio para a linguagem figurada (metáforas, hipérboles, …) e a sonoridade (aliteração); • recurso a vocabulário e frases de influência latinizante.

167

PA R A V E R I F I C A R

Rimas

Verifique os seus conhecimentos sobre a lírica camoniana. Leia com atenção os dois textos que se apresentam e, de seguida, responda ao que é solicitado.

TEXTO A

PROFESSOR

a este mote alheio:

Educação Literária 14.2; 14.3; 14.8; 15.1; 16.1; 16.2

Enquanto quis Fortuna que tivesse

Vós, Senhora, tudo tendes, senão que tendes os olhos verdes.

Enquanto quis Fortuna que tivesse esperança de algum contentamento, o gosto de um suave pensamento me fez que seus efeitos escrevesse.

VOLTAS

Teste interativo "Luís de Camões – Rimas" 1. a. Texto B b. vv. 1-6 c. Texto A d. vv. 1-2; 3-4

TEXTO B

5

10

Dotou em vós Natureza o sumo da perfeição, que, o que em vós é senão, é em outras gentileza: o verde não se despreza, que, agora que vós o tendes, são belos os olhos verdes.

5

10

15

Ouro e azul é a milhor cor por que a gente se perde; mas, a graça desse verde tira a graça a toda a cor. Fica agora sendo a flor a cor que nos olhos tendes, porque são vossos... e verdes!

Porém, temendo Amor que aviso desse minha escritura a algum juízo isento, escureceu-me o engenho co tormento, para que seus enganos não dissesse. Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos a diversas vontades! Quando lerdes num breve livro casos tão diversos, verdades puras são, e não defeitos... E sabei que, segundo o amor tiverdes, tereis o entendimento de meus versos! Luís de Camões, Rimas. Texto estabelecido por A. J. Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 2005 [1994], p. 117.

Luís de Camões, Rimas. Texto estabelecido por A. J. Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 2005 [1994], pp. 12-13.

1. Selecione no(s) poema(s) elementos textuais que comprovem as temáticas elencadas.

Temáticas

168

TEXTOS (A/B)

Apresentação de dois elementos textuais comprovativos

(1) A experiência amorosa e a reflexão sobre o amor

a.

b.

(2) A representação da amada

c.

d.

PA R A R E C U P E R A R

Rimas PROFESSOR

EDUCAÇÃO LITERÁRIA 1. Insira no quadro abaixo os tópicos seguintes, relacionados com a lírica camoniana e

com a época em que o poeta viveu. a. Nova conceção do Homem e do Mundo; b. Privilégio da razão e da experiência; c. Estilo engenhoso assente na medida velha (redondilhas); d. Soneto, composição poética composta por versos decassilábicos; e. Vilancete, composição explorada por Camões adaptada às diversas temáticas; f. Presença de locus amoenus, em consonância ou dissonância com o estado de espírito do “eu” lírico; g. Reflexão sobre a desordem e a injustiça, ao nível moral e social; h. Consciência da irreversibilidade do tempo no ser humano e a mudança cíclica da Natureza; i. Mulher descrita como súmula da perfeição moral e física; j. Valorização do poder transformador do amor e os seus efeitos contraditórios; k. Poeta enquanto ser predestinado à infelicidade.

Corrente tradicional (formas)

Corrente renascentista (formas)

Representação da Natureza

Representação da amada

Experiência amorosa e reflexão sobre o amor

Tema da mudança

Tema do desconcerto

Reflexão sobre a vida pessoal

Humanismo

Educação Literária 1. Humanismo: a.; b. Corrente tradicional: (formas): c.; e. Corrente renascentista: (formas): d. Representação da Natureza: f. Representação da amada: i. Experiência amorosa e reflexão sobre o amor: j. Tema da mudança: h. Tema do desconcerto: g. Reflexão sobre a vida pessoal: k. Gramática 1.1 Sujeito simples; predicativo do complemento direto; complemento do adjetivo. 1.2 Valor causal. Escrita Resposta de caráter pessoal, dependendo do poema que o aluno escolher. Terá, no entanto, de obedecer aos aspetos elencados na instrução.

GRAMÁTICA 1. Atente na frase seguinte:

Muitos portugueses consideram Camões o príncipe dos poetas, uma vez que são sensíveis às temáticas exploradas nos seus poemas. 1.1

Identifique as funções sintáticas desempenhadas pelos constituintes sublinhados.

1.2 Indique o valor lógico do conector presente nessa frase.

E S C R I TA Num texto de apreciação crítica, entre 80 e 100 palavras, apresente o poema de Camões de que mais gostou, recorrendo a uma linguagem clara e valorativa e focando os seguintes aspetos:

• atualidade do poema selecionado; • tema(s) explorado(s); • um ou dois versos da sua preferência e respetiva justificação; • dois recursos expressivos significativos utilizados no desenvolvimento temático; • classificação da composição poética e análise formal da mesma.

169

Almeida Garrett

PA R A AVA L I A R

Rimas GRUPO I

PROFESSOR

Leia o poema de Camões a seguir transcrito e responda às questões que se seguem. Eu cantei já, e agora vou chorando o tempo que cantei tão confiado; parece que no canto já passado se estavam minhas lágrimas criando.

Apresentação Soluções Ficha de Avaliação GRUPO I

5

Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.6; 14.10 1. a. V b. F – Os tercetos apresentam rima interpolada. c. F – 10 sílabas métricas (decassílabos). d. V e. V f. V 2. No presente, o sujeito poético sente-se infeliz, por saber que as suas esperanças foram frustradas e que todos o enganaram ( “e agora vou chorando”, v. 1); “É tão triste este meu presente estado”, v. 7 ). No passado, o “eu” vivia feliz, mas estava ser enganado e, nesse passado, estavam a ser criadas as condições para o seu presente amargurado (“parece que no canto já passado / se estavam minha lágrimas criando”, vv. 3-4). 3. O sujeito poético cantava, sentia-se feliz, mas já estava a ser preparada a sua amargura futura. 4. O sujeito poético sente dificuldades em queixar-se de alguém porque toda a gente mente e a vida é toda ela feita de enganos. Assim sente-se profundamente só. 5. A Fortuna (ou Destino) está personificada, daí a utilização da maiúscula. O sujeito poético afirma que ela é a maior responsável pelo seu estado atual, mais do que qualquer erro que tenha cometido.

10

Cantei; mas se alguém me pergunta: – Quando? – Não sei; que também nisso fui enganado. É tão triste este meu presente estado que o passado, por ledo1, estou julgando. Fizeram-me cantar, manhosamente, contentamentos não, mas confianças; cantava, mas já era ao som dos ferros2. De quem me queixarei, que tudo mente? Mas eu que culpa ponho às esperanças onde a Fortuna injusta é mais que os erros? Luís de Camões, Rimas, Coimbra, Almedina, 2005, p. 171.

1 2

contente, feliz; referência às grades da prisão de Goa, onde o poeta esteve provavelmente preso ou a prisão amorosa (amor).

1. Indique se as afirmações são verdadeiras ou falsas, corrigindo as falsas sem recor-

rer à negativa. a. Este texto de Camões apresenta uma forma clássica. b. Os tercetos apresentam rima cruzada. c. Os versos contêm sete sílabas métricas (redondilha maior). d. Em todos os versos deste poema a última sílaba não é contabilizada para a métrica do verso. e. O último verso do poema tem quinze sílabas gramaticais. f.

Com os travessões, nos versos 5 e 6, o sujeito poético reproduz um discurso direto.

2. O sujeito poético reflete sobre a sua vida e estabelece uma oposição entre passado

e presente. Caracterize o sujeito poético nessas duas etapas da sua vida, fundamentando a resposta com citações textuais. 3. Justifique a utilização da adversativa “mas” no verso 11: “cantava, mas já era ao

som dos ferros.” 4. Explicite o sentido da interrogação no verso 12. 5. Justifique a maiusculização da palavra “Fortuna” no último verso do poema, expli-

citando a sua importância no percurso de vida do sujeito poético.

170

PROFESSOR

GRUPO II

Gramática 18.1; 18.4; 19.1; 19.4; 19.7

1. Classifique as orações seguintes. 1.1

GRUPO II

“que cantei tão confiado” (v. 2)

1.2 “que o passado, por ledo, estou julgando.” (v. 8) 2. Indique a função sintática do segmento sublinhado no verso ”É tão triste este meu

presente estado” (v. 7). 3. Atente nos seguintes versos: “parece que no canto já passado / se estavam minhas

lágrimas criando” (vv 3-4). 3.1 Indique a função sintática de “minhas lágrimas”. 3.2 Classifique os termos sublinhados quanto às classe e subclasse gramaticais. 4. Atente no seguinte verso: Fizeram-me cantar, manhosamente” ( v. 9). 4.1 Indique o tempo e o modo em que se encontra a forma verbal sublinhada. 4.2 Indique o processo de formação da palavra “manhosamente”. 5. Transcreva do poema um exemplo de arcaísmo. 6. Retire do texto duas palavras do campo lexical de “lágrimas”.

GRUPO III Elabore um texto de apreciação crítica, entre 120 e 180 palavras, que pudesse ser incluído no jornal da escola, sobre a poesia lírica de Camões. O texto deve ter uma estrutura tripartida, de acordo com o seguinte plano:

• introdução: apresentação do objeto apreciado: autor, época, tipo de composições (medida velha e medida nova) e principais temas; • desenvolvimento: apreciação crítica da lírica camoniana – importância destas composições como reflexo da época em que foram produzidas e como testemunho da experiência de vida do seu autor; – relevância destes textos no contexto da literatura nacional.

• conclusão: reforço das ideias principais e apelo ao estudo da lírica camoniana.

1.1 Subordinada adjetiva relativa restritiva. 1.2 Subordinada adverbial consecutiva. 2. Predicativo do sujeito. 3.1 Sujeito. 3.2 “que” – conjunção subordinativa completiva; “se” – pronome pessoal. 4.1 Pretérito perfeito do indicativo. 4.2 Palavra derivada por sufixação. 5. “ledo” (v. 8). 6. “chorando” (v. 1), “triste” (v. 7). GRUPO III Escrita 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1 Camões: um poeta sempre a descobrir Tão longe do nosso século está Camões e tão estranho parece ver o amor escrito em algumas palavras que já não se usam, em vilancetes, cantigas, trovas, esparsas ou sonetos, tão ao gosto do Homem de quinhentos. Em redondilha maior ou menor, ou decassílabos, o poeta canta a mulher idealizada, a sua dor, a Natureza, a mudança, o desconcerto do mundo e o da sua própria vida. E nós, neste século XXI, tão tecnológico, tão disperso, primeiro estranhamos, mas depois de percebermos essas tantas emoções, acabamos por as entranhar em nós, porque, enfim, é da nossa condição humana que o poeta fala. É bem certo que a obra, em muitos aspetos, espelha a vida do seu criador, que esteve em três dos quatro cantos do mundo. Mas essa obra é também espelho de uma glória do país passada, que já se sentia decair, dum mundo desconcertado e duma língua em mudança. Por tudo isto, a lírica camoniana é um precioso testemunho do passado e um marco na literatura portuguesa, que se deve visitar. (180 palavras)

171

MÓDULO

3

1. Luís de Camões, Os Lusíadas PARA CONTEXTUALIZAR | PARA INICIAR PARA DESENVOLVER

Educação Literária Os Lusíadas • Imaginário épico • Reflexões do poeta • Linguagem, estilo e estrutura Leitura Artigo de divulgação científica Exposição sobre um tema Escrita Exposição sobre um tema Oralidade [Compreensão/Expressão Oral] Documentário [Compreensão do Oral] Apreciação crítica [Compreensão/Expressão Oral] Reportagem [Compreensão do Oral] Gramática

• Funções sintáticas • Campo lexical/Campo semântico • Coordenação/Subordinação • Processos fonológicos • Referente • Tempo e modo verbal • Conector • Classe de palavras PARA SABER | PARA VERIFICAR | PARA RECUPERAR | PARA AVALIAR

PARA CONTEXTUALIZAR

Luís de Camões Contextualização

1524/1525

1553

1568

1572

1578

Data provável do nascimento de Luís de Camões

Embarque de Camões para o Oriente

Subida de D. Sebastião ao trono de Portugal

Publicação de Os Lusíadas

Desaparecimento de D. Sebastião na batalha de Alcácer Quibir (4 de agosto)

1579/1580 Data provável da morte de Luís de Camões (10 de junho)

Atente nos seguintes tópicos, para melhor compreender esta época, bem como a obra que nela se insere e que irá ser objeto de estudo.

Contexto socioeconómico do século XVI

5

10

15

Renascimento

• O século de Quinhentos deve ser encarado como o cul-

• Identifica-se com a recuperação da cultura greco-latina

minar de um processo transformativo que incidiu sobre as mais diversas áreas. • A burguesia comercial, em ascensão, que se foi apropriando de diversos e importantes meios económicos, começa a fazer ceder a sociedade rigidamente hierarquizada. • As Universidades, fundadas sob a proteção do poder régio e eclesiástico, começam a ver ameaçado o seu monopólio de construtoras do saber. • Com a emergência do poder absoluto do monarca, o espaço palaciano é objeto de valorização sociopolítica e cultural. • As cortes europeias começam a ter uma intensa vida artística e cultural, à semelhança das italianas de Veneza e de Florença, sobretudo. • Embora no século XVI tivessem proliferado as atividades mercantis, outras áreas da vida, nomeadamente a cultural, sofreram também grande incremento.

e dos valores que lhe são inerentes (em oposição à cultura e aos valores da Escolástica Medieval). • É um fenómeno sociocultural datável da segunda metade do século XV e situado essencialmente no espaço político que corresponde à república italiana, de onde irradiou depois para toda a Europa.

5

Elaborado a partir de José Augusto Cardoso Bernardes, “Renascimento”, in Vítor Aguiar e Silva (coord.), Dicionário de Luís de Camões, Alfragide, Editorial Caminho, 2011, p. 839.

A epopeia • As epopeias são narrativas de fundo histórico em que se

5

Elaborado a partir de José Augusto Cardoso Bernardes, História Crítica da Literatura Portuguesa, Humanismo e Renascimento, vol. II, Lisboa, Editorial Verbo, pp. 13-18.

174

registam poeticamente as tradições e os ideais de um grupo étnico sob a forma de aventuras de um ou alguns heróis. • Normalmente têm um herói central e narram as dificuldades através das quais se afirmou triunfalmente a sua personalidade. Elaborado a partir de António José Saraiva, Luís de Camões – estudo e antologia, 3.a ed., Lisboa, Livraria Bertrand, 1980, p. 119.

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a

COMPREENSÃO DO ORAL 1. Proceda ao visionamento de excertos de um documentário sobre Luís de Camões

e selecione as opções que correspondem ao conteúdo informativo do documento.

Camões e Os Lusíadas A data de celebração do aniversário da(o) a. (morte/nascimento) de Luís de Camões é 10 de b. (julho/junho). É oficialmente o dia de Portugal.

Os Lusíadas, Grandes Livros, RTP

(sabem/não sabem) as primeiras estâncias Muitos são os portugueses que c. de Os Lusíadas, mas só alguns conhecem a obra.

PROFESSOR 5

Vídeo "Documentário sobre Luís de Camões e Os Lusíadas" Oralidade 1.1; 1.4 Educação Literária 16.1; 16.2 1. a. morte b. junho c. sabem d. estudo e. difícil f. nacional g. mundial h. exaltação i. crise j. prodigioso k. histórica l. Vasco da Gama m. Índia n. 1497 o. portugueses p. fundação q. XVI r. portugueses s. fabulosas t. grandeza u. dia v. cem w. celebrar x. internacional y. tragédia z. prestigiosa

Em diferentes contextos, Camões foi considerado um símbolo f. (nacional/ e Os Lusíadas uma das obras-primas da literatura g. (nacional/ mundial). Esta obra é tanto um canto de h. (exaltação/crítica) como de i. (decadência/crise). internacional)

10

(previsível/ Os Lusíadas foram publicados em 1572, no final de um século j. A ação acompanha a k. (histórica/fatídica) viagem realizada por l. (Vasco da Gama/Bartolomeu Dias) à m. (Índia/China) em (1498/1497). Ao mesmo tempo descreve a grande aventura dos n. o. (portugueses/espanhóis) desde o(a) p. (declínio/fundação) da nacionalidade. prodigioso).

15

Camões escreve setenta e tal anos depois disso ter sucedido, e Portugal mudara entretanto, estando agora a empalidecer.

20

25

30

(XVI/XV), o mundo era literalmente dos r. (espanhóis/ No século q. portugueses). O avanço científico e tecnológico deste povo sustentava s. (fabulosas/quiméricas) ilusões de t. (grandeza/fraqueza). Garcia de Horta afirmava que, naquela época, se sabia mais em um u. (dia/ano) pelos portugueses do que em v. (cem/duzentos) anos pelos romanos. (criticar/celebrar) em literatura os feitos naNeste contexto, era natural w. cionais. Os portugueses tinham-se afirmado como nação imperial, mas faltava à língua portuguesa idêntico prestígio no plano t. (nacional/internacional). E o poema épico representava o mais alto desígnio a que uma língua poderia aspirar. A epopeia estava no topo do cânone dos géneros literários, juntamente com a y. (tragédia/comédia). Era muito importante, porque seria a forma mais z. (prestigiosa/fastidiosa) de a literatura poder enaltecer os feitos dos portugueses.

Outros poetas tentaram a escrita de uma epopeia em português, mas apenas Camões foi capaz de levar a bom porto este projeto nacional.

35

176

Ver alguém a ler Os Lusíadas num espaço público convoca a ideia de (estudo/saber) ou de dever a cumprir. É um livro e. (difícil/fácil) d. e tem sido usado como projeto de construção da identidade nacional.

Contudo, há uma ironia amarga nisto: do homem de quem herdamos uma história pouco ou nada sabemos da sua própria história. Sobre a vida de Camões são mais os mitos que circulam do que os factos comprovados.

PARA DESENVOLVER INFORMAR Efetue a leitura da informação apresentada a seguir.

Origem e valor simbólico do termo "lusíadas" Origem / século

• Surge no século XVI.

Valor simbólico

• Corresponde ao desejo de individualizar –

• Deriva de Lusus (“Luso”) mediante o sufixo grego -iades (“descendente”) e significa etimologicamente “descendentes do Luso”.

em termos de identidade – um povo que se distinguia dos restantes (o termo pertence a André de Resende, segundo o estudo de Carolina Michaëlis, Américo Costa Ramalho e Sebastião Pinho).

Adaptado de Virgínia Soares Pereira, "Lusíadas", in Vítor Aguiar e Silva (coord.), Dicionário de Luís de Camões, Alfragide, Editorial Caminho, 2011, pp. 489-490.

A génese de Os Lusíadas Porquê uma epopeia?

Estrutura interna da epopeia

Como se destinava a cantar os feitos excecionais, era necessário um tratamento literário também excecional.

• Proposição • Invocação • Dedicatória • Narração (in medias res) • Elevado, grandiloquente; recurso a latinismos e helenismos.

Estilo

• Recurso a factos e figuras da Antiguidade e da mitologia. • Inserção de episódios de tonalidade diferente (bucólicos, elegíacos, eróticos, cómicos), para evitar a monotonia da tensão épica.

Herói

Intenção

Destaque para as finalidades cívicas do heroísmo e para a nobreza das causas que o herói – que, no caso de Os Lusíadas, é coletivo – serve.

• Valorização do povo português. • Intenção também pedagógica. Elaborado com base em Maria Vitalina Leal de Matos, "Os Lusíadas", Dicionário de Luís de Camões, Alfragide, Editorial Caminho, 2011, pp. 492-494.

PROFESSOR

Link “A primeira edição de Os Lusíadas” Sugestão metodológica: aceda ao portal ensina.rtp.pt e passe o vídeo “A primeira edição de Os Lusíadas” para introdução deste conteúdo temático (http://ensina.rtp.pt/artigo/ primeira-edicao-dos-lusiadas/) Leitura 7.1; 7.2; 8.1 Educação Literária 14.3; 14.4; 14.6; 14.7; 11.11; 15.1; 15.2; 16.1 1. Lusíadas significa “descendentes de Luso”, ou seja portugueses. 2. Por um lado, as descobertas portuguesas dos séculos XV e XVI ofereciam matéria para o canto, na medida em que constituíam feitos excecionais. Por outro lado, era uma forma de valorizar a língua e o povo português. 3. A epopeia camoniana inicia-se com a Proposição, a Invocação e a Dedicatória, e a ação começa in medias res. O estilo é elevado, grandiloquente, com utilização de latinismos e helenismos (do Grego), com o aproveitamento frequente de factos e de figuras da História antiga e da mitologia clássica, com recurso a episódios de tonalidade diferente.

Considere a informação apresentada. 1. Explicite o significado do termo "lusíadas". 2. Demonstre a necessidade da existência de uma epopeia em Portugal. 3. Apresente a estrutura interna e o estilo da epopeia camoniana.

177

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a

INFORMAR PROFESSOR Educação Literária 14.3; 14.6; 14.7; 14.11; 15.1; 15.2; 16.1 1. Epopeia é uma narrativa em verso, de feitos históricos e sublimes, levados a cabo por um ou vários heróis. 2. (1) Plano da viagem de Vasco da Gama à Índia, em que se narram os feitos gloriosos dos navegantes portugueses; (2) Plano da História de Portugal (narração de acontecimentos passados e apresentação de profecias); (3) Plano dos deuses (imaginário mitológico pagão). 3. É o plano das considerações e reflexões do poeta, de natureza filosófica, sociológica, política e autobiográfica. 4. Os narradores são Vasco e Paulo da Gama, mas também uma Ninfa e Tétis, que apresentam os factos históricos sob a forma de profecias.

Poema épico Estruturação externa e interna de Os Lusíadas

Origens e objeto (poema épico)

Os Lusíadas são um poema épico, género narrativo que remonta, na cultura ocidental, à antiga Grécia, com Homero, e a Roma, com Virgílio. Destina-se a “cantar”, celebrar feitos grandiosos, reais ou fictícios, praticados por heróis fora do comum, em verso e num estilo “elevado”; os heróis, reais ou mais frequentemente míticos, têm normalmente representatividade coletiva, exprimindo valores, sonhos e capacidade de realização do povo ou grupo étnico a que pertencem.

Estrutura externa

O poema épico Os Lusíadas está dividido em 10 cantos e todas as estrofes são oitavas (de 10 sílabas métricas), segundo o esquema rimático abababcc; no total, 1102 estrofes, numa média de 110 por canto, havendo cantos mais longos, como o III e o X, e cantos mais curtos.

Estrutura interna

Na Introdução, apresenta também uma Dedicatória e, na Conclusão, o poeta faz um apelo. Nos dois casos, tem como recetor o rei que então governava e preparava uma ação militar contra Marrocos, D. Sebastião. No final, quando este já é rei, Camões aconselha-o no sentido de bem reinar e de conduzir o seu povo, que agora se encontra num período de crise, definido como “austera, apagada e vil tristeza”. Os Lusíadas integram quatro planos: • o da viagem – ação central – de Vasco da Gama em busca da Índia, realizada em 1497-98;

Planos narrativos

• o da História de Portugal – ação secundária – narrada por narradores participantes, Vasco da Gama, Paulo da Gama, e, em relação aos acontecimentos posteriores à viagem e anteriores a 1572, por deuses, com relevo para uma Ninfa e para Tétis, sob a forma de profecias; • o dos deuses, do imaginário mitológico pagão – que se articula com a narração da ação central, sendo os deuses agentes motores, como oponentes desta ação (no caso de Baco, que funciona, de certo modo, como a voz dos povos orientais, mas também de Neptuno e outras divindades do mar), ou como adjuvantes (Vénus, sobretudo, e Júpiter, a seu pedido);

Plano das considerações do poeta

• um plano não narrativo, constituído por considerações e reflexões filosóficas, sociológicas, políticas, autobiográficas do poeta e autor-narrador Luís de Camões.

Adaptado de Amélia Pinto Pais, História da Literatura em Portugal – uma perspetiva didática. Época medieval e época clássica, vol. I, Porto, Areal Editores, 2004, pp. 152-153.

Considere a informação anterior e responda às seguintes questões. 1. Baseando-se no primeiro tópico, defina, por palavras suas, epopeia. 2. Indique os três planos narrativos existentes n’Os Lusíadas, referindo o assunto respetivo. 3. Diga em que consiste o único plano não narrativo. 4. Identifique os narradores do plano da História de Portugal.

178

Os Lusíadas Contextualização Considere a informação recolhida nas páginas 177 e 178. 1. Complete cada alínea da coluna A com a opção correta da coluna B.

Coluna A

Coluna B [1] na viagem de descoberta do caminho marítimo para a Índia.

[A] A introdução de Os Lusíadas integra

[2] narradores humanos e mitológicos. [B] O plano da viagem, ação central, articula-se

[3] após as reflexões do poeta. [4] a Proposição, a Invocação e a Dedicatória.

[C] No plano da História surgem

[5] de peripécias ou acontecimentos que ocorrem durante a viagem.

[D] O plano da viagem centra-se

[6] com o plano mitológico.

[E] As intervenções do poeta resultam

[7] da necessidade de este se lamentar.

2. Complete o seguinte esquema.

PROFESSOR

Educação Literária 14.3; 14.6; 14.7; 14.11; 15.1; 15.2; 16.1 1. [A] – [4] [B] – [6] [C] – [2] [D] – [1] [E] – [5] 2. a. Invocação b. Dedicatória c. Narração d. da viagem e. dos deuses f. da História de Portugal g. do poeta 3. Nos planos da viagem e da História de Portugal, cujo herói é o povo luso, isto é, os portugueses.

Os Lusíadas

Estrutura interna

Estrutura externa

PROPOSIÇÃO

· 10 cantos · 1102 estrofes · 8816 versos (dispostos

a.

em decassílabos heroicos)

b. c. Ação central

e

Ação secundária

(encaixada na ação principal)

PLANO d.

PLANO e.

PLANO f.

REFLEXÕES g.

3. Observe de novo o esquema relativo à estrutura de Os Lusíadas e identifique os pla-

nos onde mais se evidencia a dimensão épica, com a consequente valorização do herói coletivo.

179

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a Canto I – Imaginário Épico FIXAÇÃO DE TEXTO

Luís de Camões, Os Lusíadas (leitura, prefácio e notas de A. Costa Pimpão), 4.a ed., Lisboa, Instituto Camões – Ministério dos Negócios Estrangeiros, 2000.

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Leia as estâncias 1 a 3, relativas à Proposição, atentando particularmente no caráter épico, e resolva as atividades propostas.

NOTAS

Luís de Camões, Os Lusíadas (edição organizada por Emanuel Paulo Ramos), Porto, Porto Editora, 1997.

PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.6; 14.9; 14.11 1. Plano da viagem de Vasco da Gama: “As armas e os Barões assinalados / Que da Ocidental praia Lusitana / Por mares nunca de antes navegados / Passaram ainda além da Taprobana, / Em perigos e guerras esforçados” (est. 1, vv. 1-5); Plano da História de Portugal: “as memórias gloriosas / Daqueles Reis que foram dilatando / A Fé, o Império” (est. 2, vv. 1-3); Plano dos deuses ou mitológico: “A quem Neptuno e Marte obedeceram” (est. 3, v. 6); Plano das reflexões do poeta: “Cantando espalharei por toda parte, / Se a tanto me ajudar o engenho e arte” (est. 2, vv. 7-8). 2. “Que eu canto o peito ilustre Lusitano” (est. 3, v. 5); sinédoque. 3.1 “Mais do que prometia a força humana” (est. 1, v. 6); “Se vão da lei da Morte libertando” (est. 2, v. 6); “A quem Neptuno e Marte obedeceram” (est. 3, v. 6). 3.2 Os portugueses, corajosos e persistentes, venceram o mar, passando por muitos perigos naturais e travando guerras difíceis em África e na Ásia. Dilataram, assim, o império e espalharam a fé cristã. Vencendo, com obras valerosas, as forças da Natureza e os homens, tornam-se imortais e merecem o estatuto de deuses. 4. Com a referência a heróis lendários, como Ulisses e Eneias, e a imperadores da Antiguidade, Camões estabelece uma comparação entre eles e os portugueses, que ele diz serem superiores. Por isso, o canto (as epopeias da Antiguidade) que exalta esses heróis passados deve ser esquecido, pois “outro valor mais alto se alevanta”, isto é, o povo luso.

180

Proposição 1 As armas e os Barões assinalados Que da Ocidental praia Lusitana Por mares nunca de antes navegados Passaram ainda além da Taprobana1, Em perigos e guerras esforçados Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas2 De África e de Ásia andaram devastando, E aqueles que por obras valerosas Se vão da lei da Morte libertando, Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

3 Cessem do sábio Grego3 e do Troiano4 As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro5 e de Trajano6 A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano7, A quem Neptuno8 e Marte9 obedeceram. Cesse tudo o que a Musa antiga10 canta, Que outro valor mais alto se alevanta.

1 extremo sul da Ásia; 2 pagãs; 3 herói Ulisses, na Odisseia de Homero; 4 herói Eneias, na Eneida de Virgílio; 5 Alexandre Magno; 6 imperador romano de origem espanhola; 7 o valor do povo português; 8 deus do mar; 9 deus da guerra; 10 metonímia: Musa por poesia. Para os antigos, a Musa da epopeia e da eloquência era Calíope.

1. Preencha o quadro seguinte com expressões textuais, tendo em conta os quatro

planos que constituem a estrutura interna de Os Lusíadas. MATÉRIA ÉPICA Plano da viagem de Vasco da Gama

Plano da História de Portugal

Plano dos deuses ou mitológico

Plano das reflexões do poeta

2. Indique o verso em que se apresenta sucintamente o herói que será cantado na

epopeia camoniana, identificando o recurso expressivo presente nesse verso. 3. Na Proposição, Camões aponta já para a mitificação do herói coletivo, ou seja, do

povo português. 3.1 Retire do texto três versos reveladores dessa mitificação. 3.2 Refira, por palavras suas, os feitos gloriosos que justificam a “divinização” dos por-

tugueses. 4. Justifique a referência que é feita na estância 3 a Eneias, a Ulisses, a Alexandre

Magno e a Trajano.

Os Lusíadas

COMPREENSÃO DO ORAL

PROFESSOR

Proceda à audição do tema musical “Contentores”, dos Xutos e Pontapés e estabeleça aproximações entre o conteúdo da Proposição e o da canção, completando a tabela. Aspetos focados

Os Lusíadas

"Contentores"

Local de partida

“da Ocidental praia Lusitana”

a.

Percurso efetuado

“Por mares nunca de antes navegados”

“pelo espaço fundo”

Condições da viagem

“Em perigos e guerras esforçados”

b.

Destino

“entre gente remota”

c.

Expressões valorativas

“Mais do que prometia a força humana”

d.

Objetivo

“edificaram / Novo Reino, que tanto sublimaram”

“voltam a zero num planeta distante”

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Leia, agora, as estâncias relativas à Invocação.

Invocação 4 E vós, Tágides1 minhas, pois criado Tendes em mi um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mi vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloco e corrente2, Por que de vossas águas Febo3 ordene Que não tenham enveja às de Hipocrene4. 1

5 Dai-me ũa fúria grande e sonorosa5, E não de agreste avena ou frauta ruda6, Mas de tuba canora e belicosa7, Que o peito acende8 e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso.

Link "Xutos e pontapés – Contentores" Oralidade 1.1; 1.4; 1.5; 2.1; 2.2 a. "a cidade natal" b. "voo noturno" c. "para outro mundo" d. "planeta distante" Educação Literária 14.3; 14.4; 14.7; 15.1; 16.1; 16.2 1. O poeta argumenta com o serviço prestado às Ninfas, dada a sua dedicação à poesia, e com a grandiosidade dos feitos da famosa gente que deve ser reconhecida universalmente e ter um canto grandioso e sublime que os iguale. 2. Por exemplo, "Gente vossa, que a Marte tanto ajuda" (est. 5, v. 6). 3. Uso do vocativo (“Tágides minhas”), da 2.a pessoa do plural (“vós”) e do imperativo (“Dai-me”). 4. A presença deste elemento corresponde ao momento a partir do qual se marcará a diferença relativamente aos escritores anteriores.

ninfas do Tejo; 2 canto elevado e fluente; 3 Apolo, deus do sol e da poesia; 4 fonte que transformaria em

poeta quem das suas águas bebesse; 5 inspiração, delírio; 6 flauta de pastor (poesia bucólica); 7 trombeta clamorosa e guerreira, ou seja, inspiração épica; 8 inflama o ânimo.

1. Apresente os argumentos usados pelo poeta para obter o favor das Tágides. 2. Saliente os vocábulos ou expressões que remetem para a grandiosidade e o espíri-

to guerreiro do povo lusitano. 3. Comprove, com dois elementos linguísticos pertinentes, a existência de uma invo-

cação. 4. Explique a funcionalidade do elemento "agora" (est. 4, v. 5) neste passo da epo-

peia.

181

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a Canto I – Imaginário Épico PROFESSOR

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Leia as estâncias 6 a 18, relativas à Dedicatória, e resolva, depois, as atividades propostas.

Áudio "Dedicatória"

Dedicatória 6 E vós, ó bem nascida segurança1 Da Lusitana antiga liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança,2 Maravilha fatal3 da nossa idade,4 Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Pera do mundo a Deus dar parte grande;

9 Inclinai por um pouco a majestade Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo;12 Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos.

7 Vós, tenro e novo ramo florecente De ũa árvore, de Cristo5 mais amada Que nenhua nascida no Ocidente, Cesárea6 ou Cristianíssima7 chamada (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória8 já passada, Na qual vos deu por armas e deixou As que Ele pera si na Cruz tomou);

10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quási eterno; Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno,13 E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de tal gente.

8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro, Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando dece o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério9 Do torpe Ismaelita10 cavaleiro, Do Turco Oriental e do Gentio Que inda bebe o licor do santo Rio:11 1

D. Sebastião − penhor da independência de Portugal; 2 exército dos Mouros; 3 determinada pelo destino; época, tempo5 árvore genealógica, linhagem dos reis de Portugal; 6 dos imperadores da Alemanha; 7 dos reis da França; 8 a que se seguiu à batalha de Ourique, a partir da qual se acrescentaram cinco escudos à cruz já usada nas nossas armas; 9 domínio e injúrias; 10 turcos; 11 Ganges; 12 templo da fama eterna; 13 superior. 4

182

Os Lusíadas

11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas Que excedem as sonhadas, fabulosas, Que excedem Rodamonte14 e o vão Rugeiro15 E Orlando,16 inda que fora verdadeiro. 12 Por estes vos darei um Nuno17 fero, Que fez ao Rei e ao Reino tal serviço, Um Egas18 e um Dom Fuas,19 que de Homero A cítara par’eles só cobiço; Pois polos Doze Pares20 dar-vos quero Os Doze de Inglaterra e o seu Magriço;21 Dou-vos também aquele ilustre Gama,22 Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos,23 Rei de França, Ou de César,24 quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso,25 cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele26 que a seu Reino a segurança Deixou, com a grande e próspera vitória; Outro Joane,27 invicto cavaleiro; O quarto e quinto Afonsos e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora28 Se fizeram por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco29 fortíssimo e os temidos Almeidas,30 por quem sempre o Tejo chora, Albuquerque terríbil, Castro forte,31 E outros em quem poder não teve a morte. 14

personagem de Orlando Enamorado, de Boiardo, poeta italiano do séc. XV; 15 personagem de Orlando Furioso, de Ariosto, poeta italiano do séc. XVI; 16 palavra italiana correspondente à francesa Roland, herói da Chanson de Roland, poema do fim do séc. XI 17 Nuno Álvares Pereira; 18 Egas Moniz; 19 D. Fuas Roupinho; 20 doze nobres companheiros de Carlos Magno; 21 doze cavaleiros portugueses que, no reinado de D. João I, teriam ido a Inglaterra combater e entre os quais se encontrava um tal Magriço; 22 Vasco da Gama; 23 Carlos Magno; 24 Caio Júlio César, general e político romano; 25 D. Afonso Henriques; 26 D. João I; 27 D. João II; 28 no Oriente; 29 Duarte Pacheco Pereira, defensor de Cochim; 30 D. Francisco de Almeida (primeiro vice-rei da Índia) e seu filho D. Lourenço. Ambos foram mortos em combate por inimigos de Portugal; 31 D. João de Castro, que reagiu virilmente quando lhe anunciaram a morte de seu filho, D. Fernando.

183

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a Canto I – Imaginário Épico 15 E, enquanto eu estes canto − e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto −, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso32 (Que polo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares,33 De África as terras e do Oriente os mares.

PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.6; 14.7; 14.8; 14.9; 15.3 1. a. Louvor ao Rei D. Sebastião b. 9-14 c. 15-17 d. Conclusão e reforço do primeiro apelo 2.1 São utilizadas diversas apóstrofes, sempre iniciadas pela segunda pessoa do plural do pronome pessoal, anaforicamente repetida nas estâncias 6 e 7, versos 1 e 2. 2.2 O poeta descreve o Rei como defensor da liberdade da pátria, continuador da dilatação da fé e do império, temido pelos infiéis e descendente de linhagem amada por Cristo. 3. a. personificação b. movimento c. Rei d. O Sol, logo em nascendo e. Vê-o também no meio do Hemisfério f. E quando dece o deixa derradeiro 4. O poeta apresenta um conjunto de elementos constitutivos da matéria épica que se encontram ao serviço da persuação do Rei: o louvor aos heróis portugueses; a anulação dos feitos fictícios cantados em epopeias da Antiguidade, substituídos pelos feitos reais dos portugueses; a superação dos heróis reais da Antiguidade pelos heróis portugueses.

184

16 Em vós os olhos tem o Mouro frio,34 Em quem vê seu exício35 afigurado; Só com vos ver, o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tétis36 todo o cerúleo37 senhorio38 Tem pera vós por dote aparelhado,39 Que, afeiçoada ao gesto40 belo e tenro, Deseja de comprar-vos pera genro. 17 Em vós se vêm,41 da Olímpica morada,42 Dos dous avós43 as almas cá famosas; Ũa, na paz angélica dourada, Outra, pelas batalhas sanguinosas. Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos têm lugar, no fim da idade,44 No templo da suprema Eternidade. 32

grande; 33 incomparáveis; 34 apavorado; extermínio, ruína completa; 36 deusa do mar; 37 azul, da cor do mar; 38 império (Cerúleo senhorio = mar); 39 aprestado, aprontado; 40 rosto; 41 veem; 42 céu; 43 o paterno, D. João III, e o materno, o Imperador Carlos V (os dois avós de D. Sebastião, a quem o poeta se está a referir); 44 vida; 45 a sua nova epopeia; 46 salgado e prata, respetivamente; as ondas de prata; 47 navegantes gregos que, na nau Argo, foram à Cólquida, comandados por Jasão, em busca do velo de ouro que um dragão guardava. 35

18 Mas, enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento,45 Pera que estes meus versos vossos sejam, E vereis ir cortando o salso argento46 Os vossos Argonautas,47 por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado.

1. Complete o quadro seguinte, procedendo à divisão do texto em quatro partes lógicas. Partes

Estâncias

Assunto

1.a

6-8

a.

2.a

b.

Apelo ao Rei e apresentação dos argumentos que o fundamentam

3.a

c.

Incitamento ao Rei

4.a

18

d.

Os Lusíadas

2. Atente nas estâncias 6 e 7. 2.1 Identifique dois recursos expressivos utilizados para interpelar diretamente o Rei,

ilustrando-os com expressões textuais. 2.2 Apresente três elogios feitos a D. Sebastião nessas estâncias. 3. Considere agora a estância 8 e complete o texto, de modo a evidenciar a imponên-

PROFESSOR 5. O poeta pretende incitar o Rei a desenvolver feitos nunca praticados, de forma a poder produzir matéria para um novo canto, que pretende levar a cabo.

cia do império português e do jovem monarca. Nesta estância, através de uma a. , Camões mostra-nos que o Sol, com o seu aparente b. , passa por todas as regiões dominadas pelo povo lusitano e “vê” a grandeza do império e do c. . Primeiro, vê o Oriente – d.“ ”; depois, a Europa e África – e.“ ” ; por fim, o continente novo – f.“ ”.

Gramática 18.1; 19.4 1. Sujeito (simples). 2. a. lexical. 3. Valor de fim ou finalidade.

4. Considerando as estâncias 9 a 14, apresente os elementos constitutivos da maté-

ria épica convocados como argumentos para persuadir o Rei. 5. Atente nas estâncias 15 a 17 e explicite o incitamento dirigido a D. Sebastião, referin-

do a intenção do poeta.

GRAMÁTICA 1. Indique a função sintática do grupo “o Mouro frio” (est. 16, v. 1). 2. Selecione a opção que completa adequadamente a afirmação seguinte. 2.1 Os vocábulos “Olímpica”, “almas” e “angélica” fazem parte do mesmo campo [A] lexical;

Escrita 18.1; 10.4; 13.1 Por um lado, n’ Os Lusíadas, Camões propõe-se exaltar o valor dos portugueses, sobretudo no projeto dos Descobrimentos, que constitui o tema fundamental do poema. Por outro lado, dá-nos como exemplo o venerabilíssimo Velho do Restelo, que o condena. Cabe que perguntemos, por isso mesmo, qual é verdadeiramente o seu objetivo: o da exaltação ou o da condenação? (57 palavras)

[B] semântico. 3. Refira o valor lógico da locução “Pera que” (est. 18, v. 4).

E S C R I TA Reescreva o excerto procedendo à supressão ou à substituição dos segmentos sublinhados por outros mais económicos. Por um lado, no seu canto épico, Camões propõe-se exaltar o valor dos seus conterrâneos, muito principalmente na grande empresa levada a cabo por eles e que deu novos mundos ao mundo, que constitui o tema fundamental do poema. Por outro lado, dá-nos como modelo de uma sabedoria magnânima, de grande experiência e de elevada honradez o venerabilíssimo Velho do Restelo, que condena o próprio feito que a epopeia camoniana se propõe cantar. Cabe que perguntemos, por isso mesmo, qual é verdadeiramente o objetivo que é pretendido pelo (96 palavras) autor: o da exaltação, ou o da condenação? BLOCO INFORMATIVO –

pp. 271-273, 282, 265

185

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a Canto I – Reflexões do Poeta PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.4; 14.9 1.1 O poeta inicia a sua reflexão no verso 5 da estância 105. 1.2 A frase exclamativa (complexa) e as afirmações valorativas (“grandes”, “gravíssimos”, “nunca certo”, “esperança”, “pouca segurança”) comprovam o caráter subjetivo e reflexivo deste momento textual e denunciam o tom de lamento por parte do poeta. 2.1 Nos primeiros 4 versos da estância 106, o poeta faz referência à tormenta e às dificuldades com que os portugueses se depararam, tanto no mar como na terra. 2.2 A reflexão de Camões não se centra apenas nas dificuldades vividas pelos marinheiros portugueses, antes incide sobre a própria condição humana. Refletindo sobre esta realidade, o poeta indigna-se com a pequenez humana e a sua fragilidade face a todas as adversidades que tem de suportar. 2.3 Com a metáfora “bicho da terra tão pequeno”, Camões refere-se ao ser humano em geral e pretende colocar em evidência a sua pequenez, a sua insignificância e a sua incapacidade perante forças mais poderosas e superiores. Oralidade 1.1; 1.3; 1.4; 2.1; 6.1 Resposta de caráter pessoal, mas o aluno pode focar os seguintes aspetos: a estância 106 serve de introdução aos amores trágicos de Inês de Castro, também ela um ser frágil, que sucumbe ao poder despótico e cruel do Amor; a melodia doce, num ritmo lento, adequa-se ao lamento do poeta, à saudade de Inês, à sua falsa segurança; a viola, o violino, a flauta e o oboé contribuem para a suavidade melódica que sugere a fragilidade de Inês, em particular, e a do ser humano, em geral, criando também um ambiente introspetivo, característico dos momentos de reflexão.

186

EDUCAÇÃO LITERÁRIA No final do canto I, depois de os portugueses terem caído numa cilada montada por Baco, o poeta tece a sua primeira reflexão, relativa à fragilidade da vida humana, ou seja, do Homem, “um bicho da terra tão pequeno”. Leia as estâncias e responda depois às questões.

105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaxo o veneno vem coberto, Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos, Ó caminho de vida nunca certo, Que aonde a gente põe sua esperança Tenha a vida tão pouca segurança!

1

106 No mar tanta tormenta e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida1! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade2 avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que3 não se arme e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?

iminente; 2 conjunto de necessidades a que temos de nos sujeitar; 3 conjunção subordinativa

consecutiva, ainda que o “tão”, antes de “segura”, esteja omisso.

1. Atente na estância 105. 1.1

Identifique o verso em que o poeta inicia a sua reflexão.

1.2 Assinale os elementos linguísticos que apontam para o caráter subjetivo e emotivo

dessa reflexão. 2. Considere as estâncias 105 e 106. 2.1 Comprove que os portugueses se depararam com várias dificuldades. 2.2 Explicite o conteúdo da interrogação presente nos últimos quatro versos da es-

tância 106. 2.3 Identifique o recurso expressivo presente no último verso da estância 106, esclare-

cendo o seu sentido.

COMPREENSÃO / EXPRESSÃO ORAL Ouça atentamente o tema musical do grupo galego Milladoiro e, em 2 a 3 minutos, faça uma breve apreciação crítica da canção, considerando os seguintes aspetos:

• adequação do conteúdo das estâncias retiradas do episódio lírico de Inês de Castro ao conteúdo da estância 106 do canto I;

• adequação do arranjo musical (melodia, ritmo, instrumentos selecionados) à letra da canção. Estruture a sua resposta, recorrendo a conectores adequados e a um vocabulário valorativo (apreciativo ou depreciativo).

Os Lusíadas Canto V – Reflexões do Poeta PROFESSOR

EDUCAÇÃO LITERÁRIA As reflexões do poeta continuam no canto V, agora versando o desprezo que os portugueses têm pelas artes e a sua incapacidade para responder ao ideal de homem renascentista − aquele que consegue aliar as artes e as letras.

Link “Milladoiro – Inês”

92 Quão doce é o louvor e a justa glória Dos próprios feitos, quando são soados1! Qualquer nobre2 trabalha que3 em memória Vença ou iguale os grandes já passados. As envejas da ilustre e alheia história Fazem mil vezes feitos sublimados. Quem valorosas obras exercita, Louvor alheio muito o esperta e incita. 93 Não tinha em tanto os feitos gloriosos De Aquiles, Alexandro, na peleja, Quanto de quem o canta os numerosos4 Versos: isso só louva, isso deseja. Os troféus5 de Milcíades, famosos, Temístocles despertam só de enveja; E diz que nada tanto o deleitava Como a voz que seus feitos celebrava. 94 Trabalha por mostrar Vasco da Gama Que essas navegações que o mundo canta Não merecem tamanha glória e fama Como a sua, que o Céu e a Terra espanta. Si; mas aquele Herói que estima e ama Com dões, mercês, favores e honra tanta A lira Mantuana6, faz que soe Eneias, e a Romana glória voe. 95 Dá a terra Lusitana Cipiões, Césares, Alexandros, e dá Augustos; Mas não lhe dá contudo aqueles dões7 Cuja falta os faz duros e robustos. Octávio, entre as maiores opressões, Compunha versos doutos e venustos8 (Não dirá Fúlvia9, certo10, que é mentira, Quando a deixava António por Glafira11).

Luís de Camões, 1885, Severo da Ponte.

96 Vai César sojugando toda França E as armas não lhe impedem a ciência; Mas, nũa mão a pena e noutra a lança, Igualava de Cícero a eloquência. O que de Cipião se sabe e alcança É nas comédias grande experiência. Lia Alexandro a Homero de maneira Que sempre se lhe sabe à cabeceira.

1

celebrados; 2 qualquer pessoa que seja nobre; 3 para que; 4 harmoniosos; 5 triunfos; 6 Virgílio; 7 aquelas qualidades; 8 graciosos;

9

terceira mulher de António; 10 certamente; 11 Gláfira, amante de António.

187

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a Canto V – Reflexões do Poeta 97 Enfim, não houve forte Capitão Que não fosse também douto e ciente, Da Lácia12, Grega ou Bárbara nação, Senão da Portuguesa tão somente. Sem vergonha o não digo: que a razão De algum não ser por versos excelente É não se ver prezado o verso e rima, Porque quem não sabe arte, não na estima.13

99 Às Musas agardeça o nosso Gama O muito amor da pátria, que as obriga A dar aos seus,15 na lira, nome e fama De toda a ilustre e bélica fadiga; Que ele, nem quem na estirpe seu se chama, Calíope não tem por tão amiga Nem as filhas do Tejo,16 que deixassem As telas d’ouro fino e que o cantassem.

98 Por isso, e não por falta de natura, Não há também Virgílios nem Homeros; Nem haverá, se este costume dura, Pios Eneias nem Aquiles feros. Mas o pior de tudo é que a ventura Tão ásperos os fez e tão austeros, Tão rudos e de engenho tão remisso,14 Que a muitos lhe dá pouco ou nada disso.

100 Porque o amor fraterno17 e puro gosto De dar a todo o Lusitano feito Seu18 louvor, é somente o pros[s]uposto Das Tágides gentis, e seu respeito. Porém não deixe, enfim, de ter disposto Ninguém a grandes obras sempre o peito:19 Que, por esta ou por outra qualquer via, Não perderá seu preço e sua valia.

12

do Lácio, Latina; 13 não a estima; 14 acanhado, boto; 15 à família de Vasco da Gama ou aos portugueses, consoante as

interpretações; 16 Tágides; 17 de irmão (as Tágides são aqui consideradas irmãs dos portugueses); 18 devido; 19 vontade.

PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.6; 14.7; 14.9 1. a. F – O poeta começa por referir que a glória dos feitos próprios é digna de ser imortalizada através da arte. b. V c. V d. F – Os heróis lusitanos igualam algumas figuras históricas da Antiguidade em força e valentia, mas não no amor às artes. e. F – O poeta sente tristeza e constrangimento por os bravos portugueses não se assemelharem aos heróis gregos e romanos, no que se refere ao apreço pelas artes. f. V g. F – Estas estâncias inserem-se no plano das reflexões do poeta. 2. a. compara b. heróis c. Antiguidade d. guerreiro e. desprezavam f. lamento

188

1. Assinale, as seguintes afirmações como verdadeiras ou falsas, corrigindo as falsas.

a. O poeta começa por referir que a glória dos feitos dos nossos antepassados é digna de ser imortalizada através da arte. b. Seguidamente, refere que os heróis se alegravam quando ouviam os seus feitos celebrados em poesia. c. De acordo com o conteúdo da estância 94, as epopeias greco-romanas são menos importantes do que a portuguesa. d. Os heróis lusitanos igualam algumas figuras históricas da Antiguidade em força, valentia e amor às artes. e. O poeta sente tristeza e constrangimento por não ter conhecido os capitães da Lácia e da nação Grega. f. Na penúltima estância faz-se referência ao desamor dos portugueses pela poesia. g. Estas estâncias inserem-se no plano da História de Portugal. 2. Complete o texto de modo a obter uma síntese das reflexões do poeta presentes

nestas estâncias. O poeta a. os portugueses aos b. da c. e conclui que estes aliavam a arte ao espírito d. , enquanto os lusitanos e. as artes, o que provoca o f. do poeta.

Os Lusíadas Canto VII – Reflexões do Poeta

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Depois de refletir, no canto VI, sobre o verdadeiro valor da fama e da glória, no canto VII o poeta intervém de novo para, na estância 2, elogiar o espírito de cruzada dos portugueses. Mas, a partir da estância 78, surge um conjunto de lamentações de teor autobiográfico, que leva Camões a invocar as Ninfas para que possa engrandecer no seu canto aqueles que o merecem.

78 Um ramo na mão tinha... Mas, ó cego, Eu, que cometo,1 insano e temerário, Sem vós, Ninfas do Tejo2 e do Mondego, Por caminho tão árduo, longo e vário! Vosso favor invoco, que navego Por alto mar, com vento tão contrário Que, se não me ajudais, hei grande medo Que o meu fraco batel se alague cedo. 79 Olhai que há tanto tempo que, cantando O vosso Tejo e os vossos Lusitanos, A Fortuna me traz peregrinando, Novos trabalhos vendo e novos danos: Agora o mar, agora experimentando Os perigos Mavórcios3 inumanos, Qual Cánace,4 que à morte se condena, Nũa mão sempre a espada e noutra a pena; 80 Agora, com pobreza avorrecida, Por hospícios5 alheios degradado; Agora, da esperança já adquirida, De novo mais que nunca derribado; Agora, às costas6 escapando7 a vida, Que dum fio pendia tão delgado Que não menos milagre foi salvar-se Que pera o Rei Judaico8 acrecentar-se. 81 E ainda, Ninfas minhas, não bastava Que tamanhas misérias me cercassem, Senão que aqueles que eu cantando andava Tal prémio de meus versos me tornassem:9 A troco dos descansos que esperava, Das capelas10 de louro que me honrassem, Trabalhos nunca usados me inventaram, Com que em tão duro estado me deitaram.

Camões e as tágides, 1885, Columbano Bordalo Pinheiro (1894), Museu Grão Vasco, Viseu.

1

me atrevo Tágides 3 de Marte, da guerra 4 nome de rapariga 5 regiões 6 nas costas (junto das quais Camões naufragara) 7 salvando 8 Ezequias, a quem Jeová concedeu quinze dias de vida, após o dia em que deveria morrer 9 dessem 10 coroas (destinadas a glorificar os Poetas) 2

189

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a Canto VII – Reflexões do Poeta

11

grandes senhores de Portugal 12 dê 13 inconstante 14 Proteu, guardador do gado de Neptuno, célebre pelas suas metamorfoses 15 Musas

82 Vede, Ninfas, que engenhos de senhores11 O vosso Tejo cria valerosos, Que assi sabem prezar, com tais favores, A quem os faz, cantando, gloriosos! Que exemplos a futuros escritores, Pera espertar engenhos curiosos, Pera porem as cousas em memória Que merecerem ter eterna glória! 83 Pois logo, em tantos males, é forçado Que só vosso favor me não faleça, Principalmente aqui, que sou chegado Onde feitos diversos engrandeça: Dai-mo vós sós, que eu tenho já jurado Que não no empregue em quem o não mereça, Nem por lisonja louve algum subido, Sob pena de não ser agradecido. 84 Nem creiais, Ninfas, não, que a fama desse12 A quem ao bem comum e do seu Rei Antepuser seu próprio interesse, Imigo da divina e humana Lei. Nenhum ambicioso que quisesse Subir a grandes cargos, cantarei, Só por poder com torpes exercícios Usar mais largamente de seus vícios; 85 Nenhum que use de seu poder bastante Pera servir a seu desejo feio, E que, por comprazer ao vulgo errante,13 Se muda em mais figuras que Proteio.14 Nem, Camenas,15 também cuideis que cante Quem, com hábito honesto e grave, veio, Por contentar o Rei, no ofício novo, A despir e roubar o pobre povo!

190

Os Lusíadas

86 Nem quem acha que é justo e que é direito Guardar-se a lei do Rei severamente, E não acha que é justo e bom respeito Que se pague o suor da servil gente; Nem quem sempre, com pouco experto16 peito, Razões aprende, e cuida que é prudente, Pera taxar, com mão rapace e escassa, Os trabalhos alheios que não passa.17 16

87 Aqueles sós direi que aventuraram Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida, Onde,18 perdendo-a, em fama a dilataram, Tão bem de suas obras merecida. Apolo e as Musas, que me acompanharam, Me dobrarão a fúria concedida, Enquanto eu tomo alento, descansado, Por tornar ao trabalho, mais folgado.

experimentado; 17 sofre (não passa = não avalia com justiça); 18 pelo que.

1. Ordene as seguintes frases, de modo a reconstruir a ordem sequencial do conteúdo

PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.6; 14.9 1. a. (6), est. 84-85 b. (2), est. 79, vv. 5-6 c. (9), est. 87, vv. 5-8 d. (3), est. 80, vv. 1-6 e. (7), est. 86, vv. 1-8 f. (8), est. 87, vv. 1-4 g. (1), est. 78, vv. 2-8 h. (4), est. 82, vv. 1-4 i. (5), est. 82, v. 5-8 Gramática 18.4

do texto e identificando as estâncias e os versos correspondentes. Assunto

Estâncias (versos)

a. O poeta recusa cantar homens sem escrúpulos, movidos pelos seus interesses pessoais e pela sua enorme ambição e refere a falta de reconhecimento pelo trabalho.

1. a. para que; oração subordinada adverbial final. b. uma vez que; oração subordinada adverbial causal.

b. O poeta refere as dificuldades por que passou: as viagens marítimas e a guerra.

c. O poeta assume, de novo, o desalento e o cansaço, o que faz com que conte com o apoio do deus da música e da poesia, de modo a conseguir terminar a sua obra com mais ânimo.

d. Camões menciona também os problemas económicos por que passou, o desterro, as desilusões e o naufrágio.

e. Também condena os que se escudam nas leis (mas que não cumprem com os direitos dos mais desfavorecidos) e os que exploram os mais necessitados.

f. Camões exaltará aqueles que se colocam ao serviço de Deus e do Rei abdicando dos seus interesses pessoais.

g. Camões inicia uma nova reflexão, de caráter autobiográfico, pedindo auxílio às musas para que possa prosseguir o seu canto, pois receia não o conseguir.

h. Camões prossegue interpelando as musas, num tom irónico cuja intenção é a de criticar aqueles que desprezam os seus versos.

i. Luís de Camões afirma também que a falta de reconhecimento do seu trabalho enquanto poeta funciona, na sua perspetiva, como desmotivação para futuros escritores.

GRAMÁTICA 1. Selecione o conector que melhor se adequa às frases a seguir apresentadas e clas-

BLOCO INFORMATIVO –

pp. 264-265; 277

sifique as orações que eles introduzem. a. O poeta pede ajuda às Ninfas para que / para / porque o engenho não lhe falte agora. b. Os opressores serão banidos do seu canto, visto / por / uma vez que põem os seus

interesses à frente do bem comum.

191

v

A frase complexa: coordenação

N DE R RE AP

APRENDER

G RA M Á T

ICA

APL ICA

R

FRASE COMPLEXA A frase complexa é aquela que apresenta mais do que um verbo principal ou copulativo, ou seja, trata-se de uma frase com mais do que uma oração, podendo obter-se pelo recurso à coordenação e/ou à subordinação.

COORDENAÇÃO Ao nível da frase complexa, a coordenação é um processo de combinação de duas ou mais frases equivalentes. Por isso, a oração coordenada está contida numa frase complexa, não mantendo uma relação de subordinação sintática com a(s) frase(s) ou oração(ões) com que se combina. Distingue-se, tipicamente, das orações subordinadas por não poder ser anteposta. As orações coordenadas podem ser:

Assindéticas Orações coordenadas justapostas, sem recurso a conjunções/locuções conjuncionais. Ex.: Os navegadores sacrificaram-se; não se pouparam a esforços; foram grandiosos.

Sindéticas Orações coordenadas ligadas por conjunções/locuções conjuncionais. Ex.: As Ninfas ficaram fascinadas e convidaram os nautas portugueses. Estas orações estabelecem entre si relações semânticas expressas pelas conjunções ou locuções coordenativas que as unem, tal como se sistematiza na tabela seguinte: Designação

Conjunções/locuções conjuncionais coordenativas

Sentido

Copulativa/ aditiva

e, nem, nem… nem, não só… mas também, não só… como (também), tanto… como

Adição

Adversativa

mas

Oposição, contraste

ora… ora

Alternativa, outra possibilidade

Conclusiva

logo

Conclusão

Explicativa

pois

Justificação, explicação

Disjuntiva

192

ou, ou… ou,

Exemplificação

• Camões não só usou a pena como também usou a espada.

• Camões foi renascentista, mas deve muito aos modelos clássicos. • Camões ora criticava os homens ambiciosos ora elogiava os defensores do Rei. • O poema épico camoniano relata factos extraordinários, logo todos devem conhecê-lo. • Camões sentia-se pouco valorizado, pois realçou, por diversas vezes, a importância da união da espada e das letras.

APLICAR PROFESSOR

1. Indique quais as frases simples do conjunto seguinte. [A] Os heróis camonianos são homens de carne e osso que se lançaram na aven-

Gramática 18.2; 18.3

tura marítima. [B] Quase todos os cantos de Os Lusíadas apresentam considerações do poeta

sobre diversos temas. [C] As reflexões do poeta são suscitadas por acontecimentos narrados em mo-

mentos anteriores. [D] O poeta, numa das suas reflexões, lamenta que os portugueses não apreciem a

arte. 2. Complete as frases seguintes, usando a conjunção/locução conjuncional coordena-

tiva adequada. a. Os marinheiros passaram por vários sacrifícios, b. Camões sente-se desprotegido,

devem ser recompensados.

não desiste do seu canto.

c. Nenhum poeta anterior a Camões escreveu uma epopeia

teve a ousadia

de o tentar. d. Pensa-se que Camões não terá sido reconhecido, e. Segundo o épico português, os seus contemporâneos

artes

morreu pobre e só. desprezavam as

ignoravam o seu trabalho poético.

1. [B]; [C] 2. a. logo b. mas c. ou/nem d. pois e. não só... como 2.1 a. conclusiva b. adversativa c. disjuntiva / copulativa d. explicativa e. copulativa 3.1 [C] 3.2 [B] 3.3 [D] 4. a. A poesia camoniana é sublime, mas a leitura de Os Lusíadas é exigente para o leitor. b. O poeta afasta-se dos homens do seu tempo, pois prefere associar-se a Apolo e às Musas.

2.1 Classifique as orações coordenadas obtidas. 3. Identifique a opção que completa adequadamente cada afirmação seguinte. 3.1 A frase Vénus recompensa os portugueses e oferece-lhes um banquete na Ilha dos

Amores. integra uma oração coordenada [A] adversativa.

[C] copulativa.

[B] disjuntiva.

[D] explicativa.

3.2 A conjunção “e”, em Os marinheiros sofreram várias adversidades e nunca se lamen-

taram., no contexto, tem valor [A] aditivo.

[C] conclusivo.

[B] adversativo.

[D] explicativo.

3.3 A oração sublinhada em Os navegadores partiram de livre vontade ou foram obriga-

dos a embarcar? classifica-se como [A] coordenada adversativa.

[C] coordenada copulativa.

[B] subordinada causal.

[D] coordenada disjuntiva.

4. Una os dois pares de frases, recorrendo à conjunção ou locução conjuncional coordena-

tiva adequada, fazendo as alterações necessárias. a. A poesia camoniana é sublime. A leitura de Os Lusíadas é exigente para o leitor. b. O poeta afasta-se dos homens do seu tempo. Este prefere associar-se a Apolo e às Musas.

193

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a Canto VIII – Reflexões do Poeta

EDUCAÇÃO LITERÁRIA As reflexões do poeta prosseguem no canto VIII, agora sobre o vil poder do dinheiro, que corrompe quer os ricos quer os pobres. Leia-as expressivamente. 96 Nas naus estar se deixa, vagaroso, Até ver o que o tempo lhe descobre; Que não se fia já do cobiçoso Regedor, corrompido e pouco nobre. Veja agora o juízo curioso Quanto no rico, assi como no pobre, Pode o vil interesse e sede imiga Do dinheiro, que a tudo nos obriga.

PROFESSOR Educação Literária 14.1; 14.2; 14.3; 14.4 1. Os primeiros quatro versos apresentam uma estrutura narrativa, pelo predomínio da terceira pessoa ( “se deixa”) e pelo relato das ações da personagem Vasco da Gama. Os restantes versos iniciam a reflexão, o que se verifica pela utilização da primeira pessoa do plural (“nos obriga”), um “eu” coletivo no qual o próprio poeta se inclui. 2. O poeta apresenta como exemplos do efeito corruptor do dinheiro figuras mitológicas e da Antiguidade que traíram (“Entrega aos inimigos a alta torre”), mataram "A Polidoro mata o rei Treício”) e enganaram (“Com a filha de Acriso a chuva d’ouro”) para alcançarem riqueza, fama ou poder. 3. O poeta conclui a sua reflexão com a constatação de que até os elementos do clero, que se dedicam a Deus, se deixam corromper e iludir pelo poder do ouro. No entanto, conseguem disfarçar esta atração pela riqueza sob uma capa de falsa virtude.

97 A Polidoro1 mata o Rei Treício, Só por ficar senhor do grão tesouro; Entra, pelo fortíssimo edifício, Com a filha2 de Acriso3 a chuva d’ouro; Pode tanto em Tarpeia4 avaro vício Que, a troco do metal luzente e louro, Entrega aos inimigos a alta torre, Do qual quási5 afogada em pago morre. 98 Este6 rende munidas7 fortalezas; Faz trédoros e falsos os amigos; Este a mais nobres faz fazer vilezas, E entrega Capitães aos inimigos; Este corrompe virginais purezas, Sem temer de honra ou fama alguns perigos; Este deprava às vezes as ciências, Os juízos cegando e as consciências. 99 Este interpreta mais que sutilmente Os textos; este faz e desfaz leis; Este causa os perjúrios entre a gente E mil vezes tiranos torna os Reis. Até os que só a Deus omnipotente Se dedicam8, mil vezes ouvireis Que corrompe este encantador, e ilude; Mas não sem cor9, contudo, de virtude!

1

filho de Príamo, rei de Troia. Para salvá-lo, quando a cidade estava prestes a cair em poder dos Gregos, o soberano mandou-o com ouro ao rei da Trácia, que, todavia, se apoderou do metal e matou o jovem 2 Dánae 3 Soberano de Argos (na Grécia), que, para anular a profecia de um oráculo − a sua morte por um neto –, prendeu a filha Dánae numa torre. Júpiter, porém, sob a forma de chuva de ouro, introduziu-se na torre e tornou-a mãe de Perseu, que veio a assassinar Acrísio 4 rapariga romana que, na esperança de obter anéis de ouro dos Sabinos, que sitiavam Roma, lhes abriu as portas da cidade. Os inimigos, porém, não a pouparam, esmagando-a sob as joias e os escudos 5 como que 6 ouro 7 bem fortificadas 8 “os que só a Deus […] / Se dedicam” − os sacerdotes (perífrase) 9 aspeto exterior

1. Delimite na estância 96 um momento narrativo e um momento reflexivo, justificando. 2. Retire das estâncias 97 e 98 três exemplos do poder corruptor do dinheiro. 3. Explique o sentido dos quatro últimos versos da estância 99.

194

Os Lusíadas

INFORMAR

PROFESSOR

Leia as informações a seguir apresentadas e responda às questões.

Leitura 7.1; 7.2; 8.1 Educação Literária 14.3; 14.4; 15.1; 15.2; 16.1

Simbologia da Ilha dos Amores A. A Ilha dos Amores tem início na estância 18 do Canto IX e prolonga-se até à estância 143 do Canto X, ocupando, por conseguinte, cerca de vinte por cento da totalidade do poema; representa a apoteose e a conclusão da aventura marítima da epopeia. B. A narrativa erótica do episódio da “Ilha dos Amores” atinge o clímax na estância 87 do Canto IX, porque a estância 88 inicia já a transição para a simbologia desenvolvida nas estâncias 89 e seguintes. C. As ninfas, Tétis, a “Ilha angélica pintada” e os seus deleites significam as honras, os prémios, os triunfos e a glória concedidos aos heróis que, pelas suas obras valorosas e pelos seus sacrifícios, mereceram subir ao Olimpo, “sobre as asas ínclitas da Fama”. D. As estâncias finais do Canto IX (92-95), que constituem uma veemente apóstrofe exortativa endereçada a destinatários nomeados pronominal e verbalmente, apresentam os detentores do poder político, os conselheiros do rei, os responsáveis pela administração pública e os cavaleiros e homens de armas e explicitam os valores éticos e políticos configuradores da utopia: a reprovação da ociosidade, a condenação da cobiça e da tirania, a administração de leis justas e estáveis que protejam os súbditos mais frágeis e pobres, o destemor bélico contra os inimigos da Igreja de Cristo, o serviço leal prestado ao rei, quer com o aconselhamento bem ponderado quer com as armas rutilantes. E. O reino ficará, assim, mais poderoso e mais rico, o monarca ganhará glória, os seus servidores na governação, na justiça e nas armas hão de fruir riquezas merecidas e honras ilustres e, acima de tudo, receberão

o título de “heróis esclarecidos” e serão acolhidos na “Ilha de Vénus”. F. Concluída a narrativa profética da Ninfa e terminado o banquete, Tétis culmina a glorificação dos nautas lusitanos ao anunciar a Vasco da Gama e aos seus companheiros que a “Sapiência Suprema” (Deus) lhes concedia o singular favor de poderem ver com “olhos corporais” os segredos da “grande máquina do Mundo”, de modo a contemplarem o que “a vã ciência / dos errados e míseros mortais” não podia ver. G. Tétis, Vasco da Gama e os nautas lusos subiram, simbolicamente, um monte coberto de mato “árduo, difícil, duro a humano trato” — a ascensão neste terreno inóspito é uma alegoria do esforço e do trabalho necessários para alcançar o conhecimento — e no cume do monte contemplaram um globo translúcido que representava um “transunto”, isto é, uma cópia ou imagem da “grande máquina do Mundo”, descrita segundo o sistema geocêntrico de Ptolomeu. H. Tétis, na sua longa exposição, descreve e mostra, além dos espaços celestes, as diversas regiões do mundo, desde a África e a Índia até ao Japão e ao Brasil, onde decorrerão “os futuros feitos” lusitanos, engrandecendo o reino e difundindo a fé de Cristo. I. As derradeiras palavras de Tétis retomam o tema originário e nuclear do episódio da “Ilha dos Amores”: a união amorosa das ninfas e dos navegadores. Elaborado a partir de Vítor Aguiar e Silva, "Ilha dos Amores", in Vitor Aguiar e Silva (coord.), Dicionário de Luís de Camões, Alfragide, Editorial Caminho, 2011, pp. 437 e 441-443.

PROFESSOR

1. Identifique os tópicos que remetem para o valor simbólico do episódio da “Ilha dos

Amores”. 2. Refira, a partir do tópico D, os destinatários de Camões e os aspetos em que estes

são condenados/criticados. 3. Indique os tópicos que remetem para o elogio dos nautas portugueses.

1. B, C, G, H. 2. O poeta dirige-se a destinatários concretos, “os detentores do poder político, os conselheiros do rei, os responsáveis pela administração pública e os cavaleiros e homens de armas”, com o intuito de reprovar e condenar a ociosidade, a cobiça e a tirania, reclamando a proteção dos "súbditos mais frágeis e pobres”. 3. C, E, F, G, H.

195

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a Canto IX — Imaginário Épico PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.5 1.1 Ao contrário do que sucede, não são as naus que se acercam da ilha, mas é ela que se aproxima, trazida de longe por Vénus e que a coloca na direção dos marinheiros, de forma a assegurar-se que seria avistada por eles. 1.2 A sensação visual está presente nas formas verbais “viram”, “levava”, “enxergava”, “movia”, “Pintou” e nos adjetivos “bela”, “branca”, “Curva”, “quieta”, “ruivas”. 1.3 Dupla adjetivação (“Curva e quieta”) e personificação (“quieta”).

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Neste canto IX, e no conjunto de estâncias apresentadas, também é possível percecionar a matéria épica. Leia-as atentamente e responda depois às questões. 52 De longe a Ilha viram, fresca e bela, Que Vénus pelas ondas lha levava (Bem como o vento leva branca vela) Pera onde a forte armada se enxergava; Que, por que não passassem, sem que nela Tomassem porto, como desejava, Pera onde as naus navegam a movia A Acidália1, que tudo, enfim, podia.

1 2 3 4 5 6 7 8 9

53 Mas firme a fez2 e imóbil, como3 viu Que era dos Nautas vista e demandada, Qual ficou Delos, tanto que4 pariu Latona5 Febo6 e a Deusa à caça usada7. Pera lá logo a proa o mar abriu, Onde a costa fazia ũa enseada Curva e quieta, cuja branca areia Pintou8 de ruivas conchas Citereia9. […]

196

Vénus tornou quando logo que mãe de Apolo Apolo Diana enfeitou Vénus (que teria nascido junto da ilha de Citera)

Os Lusíadas

66 Mas os fortes mancebos10, que na praia Punham os pés, de terra cobiçosos11 (Que não há nenhum deles que não saia), De acharem caça agreste desejosos, Não cuidam que, sem laço ou redes, caia Caça naqueles montes deleitosos, Tão suave, doméstica e benina, Qual ferida lha tinha já Ericina12.

69 Dá Veloso, espantado, um grande grito: − «Senhores, caça estranha (disse) é esta! Se inda dura o Gentio antigo rito, A Deusas é sagrada16 esta floresta. Mais descobrimos do que humano esprito Desejou nunca, e bem se manifesta Que são grandes as cousas e excelentes Que o mundo encobre aos homens imprudentes17.

67 Alguns, que em espingardas e nas bestas13 Pera ferir os cervos, se fiavam, Pelos sombrios matos e florestas Determinadamente se lançavam; Outros, nas sombras, que de as altas sestas Defendem a verdura, passeavam Ao longo da água, que, suave e queda, Por alvas pedras corre à praia leda.

70 «Sigamos estas Deusas e vejamos Se fantásticas são, se verdadeiras.» Isto dito, veloces mais que gamos, Se lançam a correr pelas ribeiras. Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos, Mas, mais industriosas18 que ligeiras, Pouco e pouco, sorrindo e gritos dando, Se deixam ir dos galgos alcançando.

68 Começam de enxergar subitamente, Por entre verdes ramos, várias cores, Cores de quem a vista julga e sente Que não eram das rosas ou das flores, Mas da lã fina e seda diferente14, Que mais incita a força dos amores, De que se vestem as humanas rosas15, Fazendo-se por arte mais fermosas.

10

jovens; 11 cheios de cobiça; 12 Vénus (por ter um templo no monte

Erix, na Sicília); 13 arma para lançar flechas; 14 variegada; de cores ou matizes variadas; 15 mulheres; 16 consagrada; 17 ignorantes; 18 astutas.

1. Releia as estâncias 52 e 53. 1.1

Refira os aspetos que conferem a esta ilha um caráter de excecionalidade.

1.2 Retire das estâncias expressões que remetem para o predomínio da sensação

visual na descrição da ilha. 1.3 Identifique o(s) recurso(s) expressivo(s) presente(s) na expressão “enseada / Cur-

va e quieta” (est. 53, vv. 6-7). 2. Atente nas estâncias 66, 67 e 68. 2.1 Explicite o motivo por que os “mancebos” recorrem às armas. 2.2 Comprove que os marinheiros exploram a ilha de formas diferentes. 2.3 Diga que outra realidade vem captar a atenção dos jovens marinheiros. 3. A utilização do discurso direto intromete-se na descrição. 3.1 Identifique o locutor desse discurso. 3.2 Mostre que neste passo do episódio se prepara a divinização do herói.

PROFESSOR 2.1 Os "mancebos", chegados a terra, preparam-se para caçar, daí alguns levarem espingardas e bestas. 2.2 Uns preparam-se para caçar (est. 67, vv. 1-4); outros, mais saudosos das delícias da terra, passeiam ao longo dos cursos de água (est. 67, vv. 5-8). 2.3 Os jovens marinheiros acabam por avistar vultos de mulheres – “as humanas rosas” (est. 68, v. 7). 3.1 O locutor desse discurso é Veloso, um dos marinheiros portugueses. 3.2 Inicia-se aqui a consideração do caráter excecional dos heróis portugueses, uma vez que, com a perseguição das Ninfas, tem início um convívio que só seria possível no plano extraterreno, espaço até onde os nautas ascenderam. Deste modo, processa-se a sua divinização.

197

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a Canto IX — Imaginário Épico e Reflexões do Poeta

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Apresenta-se agora um novo conjunto de estâncias do canto IX, onde, para além da matéria épica, são visíveis novas reflexões do poeta, incitando à ação todos os que pretendem alcançar a imortalidade e revelando o modo de o conseguir. Leia-as atentamente e resolva, depois, as atividades propostas. 88 Assi a fermosa e a forte companhia O dia quási todo estão passando Nũa alma,1 doce, incógnita alegria, Os trabalhos tão longos compensando. Porque dos feitos grandes, da ousadia Forte e famosa, o mundo está guardando O prémio lá no fim, bem merecido, Com fama grande e nome alto e subido. 89 Que as Ninfas do Oceano, tão fermosas, Tétis2 e a Ilha angélica pintada, Outra cousa não é que as deleitosas Honras que a vida fazem sublimada. Aquelas preminências gloriosas, Os triunfos, a fronte coroada De palma e louro, a glória e maravilha,3 Estes são os deleites desta Ilha. 90 Que as imortalidades que fingia4 A antiguidade, que os Ilustres ama, Lá no estelante5 Olimpo, a quem subia Sobre as asas ínclitas da Fama, Por obras valerosas que fazia, Pelo trabalho imenso que se chama Caminho da virtude, alto e fragoso,6 Mas, no fim, doce, alegre e deleitoso, 91 Não eram senão prémios que reparte, Por feitos imortais e soberanos, O mundo cos varões que esforço e arte Divinos os fizeram, sendo humanos. Que Júpiter, Mercúrio, Febo7 e Marte, Eneas e Quirino8 e os dous Tebanos,9 Ceres, Palas e Juno com Diana, Todos foram de fraca carne humana. 1

reconfortante, santa; 2 deusa do mar, esposa do Oceano; 3 admiração inventava; 5 constelado; 6 pedregoso; 7 Apolo; 8 Rómulo; 9 Hércules e Baco.

4

198

Os Lusíadas

92 Mas a Fama, trombeta de obras tais, Lhe deu no Mundo nomes tão estranhos De Deuses, Semideuses, Imortais, Indígetes,10 Heróicos e de Magnos.11 Por isso, ó vós que as famas estimais, Se quiserdes no mundo ser tamanhos, Despertai já do sono do ócio ignavo,12 Que o ânimo, de livre, faz escravo.

94 Ou dai na paz as leis iguais,14 constantes, Que aos grandes não dêem o dos pequenos,15 Ou vos vesti nas armas rutilantes, Contra a lei dos imigos Sarracenos: Fareis os Reinos grandes e possantes, E todos tereis mais e nenhum menos: Possuireis riquezas merecidas, Com as honras que ilustram tanto as vidas.

93 E ponde na cobiça um freio duro, E na ambição também, que indignamente Tomais mil vezes, e no torpe e escuro Vício da tirania infame e urgente,13 Porque essas honras vãs, esse ouro puro, Verdadeiro valor não dão à gente: Milhor é merecê-los sem os ter, Que possuí-los sem os merecer.

95 E fareis claro16 o Rei que tanto amais, Agora cos conselhos bem cuidados, Agora co as espadas, que imortais Vos farão, como os vossos já passados.17 Impossibilidades não façais, Que quem quis, sempre pôde; e numerados18 Sereis entre os Heróis esclarecidos E nesta «Ilha de Vénus» recebidos.

10 12

homens ilustres, venerados como divindades, após a morte; 11 grandes − qualificativo romano de todos os deuses, exceto de Júpiter (maximus); indolente; 13 que oprime; 14 equitativas; 15 aquilo que é dos humildes; 16 ilustre; 17 antepassados; 18 mencionados.

1. Ligue os elementos da coluna A aos da coluna B, de modo a obter uma síntese do

PROFESSOR

conteúdo das estâncias lidas. Coluna A

Coluna B

[A] O encontro com as ninfas

[1] dependem da grandiosidade e das obras dos seus súbditos.

[B] Além deste prémio, o mundo

[2] são difíceis de obter, mas, quando atingidas, trazem felicidade e satisfação.

[C] Coroas de louro e palma, honras e glória

[3] a serem justos e a sobressaírem na luta contra os infiéis.

[D] A fama e a virtude

[4] constitui uma recompensa pelos feitos grandiosos dos portugueses.

[E] O poeta aconselha os que querem atingir a fama

[5] constituem os deleites dos portugueses na ilha.

[F] A tirania e a cobiça

[6] reserva outras recompensas aos nautas portugueses.

[G] O poeta aconselha ainda aos que pretendem ser distinguidos

[7] devem ser controladas por aqueles que pretendem ser reconhecidos como grandiosos.

[H] O valor e a glória do Rei

[8] a despertarem da ociosidade e a perseguirem com perseverança o seu objetivo.

GRAMÁTICA

Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.7; 15.1; 15.2 1. [A] – [4] [B] – [6] [C] – [5] [D] – [2] [E] – [8] [F] – [7] [G] – [3] [H] – [1] Gramática 18.1 1. Os verbos usados na apresentação dos conselhos estão no modo imperativo, que é utilizado com valor exortativo. 2. “na cobiça” – complemento oblíquo; “um freio duro” – complemento direto.

1. Identifique o modo verbal usado na apresentação dos conselhos e refira o seu valor. 2. Identifique as funções sintáticas desempenhadas pelos constituintes sublinhados

em “E ponde na cobiça um freio duro” (est. 93, v. 1).

199

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a Canto X — Imaginário Épico

EDUCAÇÃO LITERÁRIA A matéria épica não se esgotou no canto IX. Também no canto X, o último, esta pode ser percecionada, destacando-se a excecionalidade dos navegadores portugueses e, em particular, do seu supremo representante, Vasco da Gama. 75 Despois que a corporal necessidade Se satisfez do mantimento nobre, E na harmonia e doce suavidade Viram os altos feitos que descobre, Tétis1, de graça ornada e gravidade, Pera que com mais alta glória dobre As festas deste alegre e claro2 dia, Pera o felice Gama assi dizia:

79 Uniforme13, perfeito, em si sustido, Qual, enfim, o Arquetipo14 que o criou. Vendo o Gama este globo, comovido De espanto e de desejo ali ficou. Diz-lhe a Deusa: − «O transunto15, reduzido Em pequeno volume, aqui te dou Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas Por onde vás e irás e o que desejas.

76 − «Faz-te mercê, barão, a Sapiência Suprema3 de, cos olhos corporais, Veres o que não pode a vã ciência Dos errados4 e míseros mortais.5 Sigue-me firme e forte, com prudência, Por este monte espesso, tu cos mais.» Assi lhe diz e o guia por um mato Árduo, difícil, duro a humano trato.

80 «Vês aqui a grande máquina do Mundo, Etérea e elemental16, que fabricada Assi foi do Saber, alto e profundo, Que é sem princípio e meta limitada17. Quem cerca em derredor este rotundo Globo e sua superfícia tão limada, É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende, Que18 a tanto o engenho humano não se estende.

77 Não andam muito que6 no erguido cume Se acharam, onde um campo se esmaltava De esmeraldas, rubis, tais que presume A vista que divino chão pisava. Aqui um globo vêm7 no ar, que o lume8 Claríssimo por ele penetrava, De modo que o seu centro está evidente, Como a sua superfícia, claramente.

81 «Este orbe que, primeiro, vai cercando Os outros mais pequenos que em si tem, Que está com luz tão clara radiando Que a vista cega e a mente vil também, Empíreo19 se nomeia, onde logrando20 Puras almas estão daquele Bem Tamanho, que ele só se entende e alcança, De quem não há no mundo semelhança.

78 Qual a matéria seja não se enxerga, Mas enxerga-se bem que está composto De vários orbes,9 que a Divina verga10 Compôs, e um centro a todos só tem posto. Volvendo,11 ora se abaxe, agora se erga,12 Nunca s’ergue ou se abaxa, e um mesmo rosto Por toda a parte tem; e em toda a parte Começa e acaba, enfim, por divina arte,

200

1

deusa do mar, esposa do Oceano; 2 ilustre, digno de perene lembrança; 3 Deus (um dos atributos divinos é a omnisciência); 4 que se enganam; 5 os homens; 6 quando; 7 veem; 8 luz (começa a descrição do Cosmos, segundo o sistema de Ptolomeu); 9 esferas ou céus que, na conceção ptolomaica, se encontravam a seguir às esferas do Ar e do Fogo, concêntricas, com a Terra no centro; 10 o Poder de Deus; 11 girando; 12 ora se abaixa ora se ergue (em relação ao plano do horizonte); 13 homogénea, por ser esférica a superfície; 14 modelo = Deus; 15 cópia (“reduzido / Em pequeno volume” = em miniatura); 16 formada pelos quatro elementos: terra, água, ar e fogo; 17 perífrase para Deus (v. 3 e v. 4); 18 conjunção subordinativa causal; 19 paraíso cristão; 20 usufruindo.

Os Lusíadas

1. Explique os dois primeiros versos da estância 75.

PROFESSOR

2. Na estância seguinte, verifica-se o recurso ao discurso direto. 2.1 Identifique o locutor desse discurso. 2.2 Refira a intencionalidade do discurso utilizado por esse emissor.

Áudio “Canto X, 75-91” Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.7

3. Depois do pedido da deusa, ambos se dirigem para um monte. 3.1 Descreva o percurso efetuado antes da chegada ao cume. 3.2 Indique o que é mostrado a Gama nesse local. 3.3 Associe as características do percurso ao que é mostrado a Gama, evidenciando

as intenções do poeta. 3.4 Justifique o facto de este episódio contribuir para a divinização dos marinheiros.

EDUCAÇÃO LITERÁRIA A descrição do Universo prossegue e Vasco da Gama continua a assimilar as informações que Tétis lhe transmite. 82 «Aqui, só verdadeiros, gloriosos Divos1 estão, porque eu, Saturno2 e Jano,3 Júpiter, Juno,4 fomos fabulosos, Fingidos de mortal e cego engano. Só pera fazer versos deleitosos Servimos; e, se mais o trato humano Nos pode dar, é só que o nome nosso Nestas estrelas pôs o engenho vosso.

84 «Quer logo7 aqui a pintura que varia8 Agora deleitando, ora ensinando, Dar-lhe9 nomes que a antiga Poesia A seus Deuses já dera, tabulando; Que os Anjos de celeste companhia Deuses o sacro verso10 está chamando, Nem nega que esse nome preminente Também aos maus se dá, mas falsamente.

83 «E também, porque a santa Providência, Que em Júpiter aqui se representa, Por espíritos mil que têm prudência Governa o Mundo todo que sustenta (Ensina-lo5 a profética ciência,6 Em muitos dos exemplos que apresenta); Os que são bons, guiando, favorecem, Os maus, em quanto podem, nos empecem;

85 «Enfim que o Sumo Deus, que por segundas Causas obra no Mundo, tudo manda. E tornando a contar-te das profundas Obras da Mão Divina veneranda, Debaxo deste círculo onde as mundas11 Almas divinas gozam, que12 não anda, Outro corre, tão leve e tão ligeiro Que não se enxerga: é o Móbile primeiro.

1. Depois que a fome foi saciada. 2.1 O locutor desse discurso é Tétis. 2.2 Tétis pretende que Gama a siga para lhe mostrar aquilo que os olhos humanos não podem ver. 3.1 Seguiram por um “monte espesso” e a deusa guiou-o por um mato difícil para o ser humano, até chegarem ao cimo de um monte. 3.2 Neste local é mostrado a Gama um globo no ar, formado por vários círculos, por onde uma luz penetrava, o qual é designado por “máquina do Mundo”. 3.3 Todo o percurso é apresentado como uma metáfora do caminho para a Fama e para a Glória. Assim, as dificuldades do caminho percorrido por Gama sugerem as dificuldades dos trabalhos associados às novas conquistas. A maravilha do que é dado a observar a Gama associa-se à recompensa destinada aos homens no final do caminho da Fama e da Glória. 3.4 Este episódio contribui para a divinização dos marinheiros, na medida em que é concedido a Gama o dom da omnisciência e do saber que só aos deuses é permitido.

1

santos (da Santa Madre Igreja); 2 filho do Céu e da Terra; 3 filho de Apolo, representado com duas caras, simbolizando a sua capacidade de adivinhar o passado e o futuro; 4 esposa de Júpiter; 5 ensina-no-lo; 6 sagrada escritura; 7 portanto; 8 pintura que varia: poesia; 9 aos outros; 10 texto da Sagrada Escritura; 11 puras, limpas; 12 tem por antecedente "círculo".

201

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a Canto X — Imaginário Épico 86 «Com este rapto13 e grande movimento Vão todos os que dentro tem no seio; Por obra deste, o Sol, andando a tento,14 O dia e noite faz, com curso alheio.15 Debaxo deste leve,16 anda outro lento, Tão lento e sojugado a duro freio, Que enquanto Febo, de luz nunca escasso, Duzentos cursos faz, dá ele um passo.

87 «Olha estoutro debaxo, que esmaltado De corpos lisos anda e radiantes, Que também nele tem curso ordenado E nos seus axes17 correm cintilantes. Bem vês como se veste e faz ornado Co largo Cinto d’ouro,18 que estelantes Animais doze traz afigurados,19 Apousentos de Febo20 limitados. 88 «Olha por outras partes a pintura Que as Estrelas fulgentes vão fazendo:21 Olha a Carreta,22 atenta a Cinosura,23 Andrómeda e seu pai,24 e o Drago25 horrendo; Vê de Cassiopeia a formosura E do Orionte26 o gesto turbulento27; Olha o Cisne morrendo28 que suspira, A Lebre e os Cães, a Nau e a doce Lira.29 13

movimento giratório; 14 com regularidade; 15 com movimento que não é, propriamente, devido ao sol, mas ao "Móbile primeiro"; 16 levemente; 17 eixos; 18 Cinto d’ouro: o Zodíaco; 19 estelantes / Animais doze traz afigurados: doze constelações; 20 Apousentos de Febo: os doze signos (Febo = Apolo); 21 figuras que as estrelas parecem formar no céu (= constelações); 22 Ursa Maior; 23 Ursa Menor; 24 Cefeu; 25 Dragão; 26 Orião ou Orion; 27 que traz chuvas e tempestades; 28 ao morrer; 29 nomes de constelações (os que estão escritos com maiúscula nos versos 7 e 8).

PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.9 1. Esse espaço está reservado para os santos. 2. A afirmação reduz os deuses ao seu verdadeiro papel. Estes são seres que resultam da imaginação humana, e que, na verdade, não têm consistência. Os deuses apenas servem para dar o nome às estrelas. Esta afirmação contribui para o relevo dado à divinização dos marinheiros, que, sendo seres de carne e osso, ultrapassam os deuses, que não passam de meras ficções. 3. Os favorecidos são os bons e os desfavorecidos são os maus. 4. Anástrofe, dado que a ordem correta deveria ser: “que anda esmaltado de corpos lisos e radiantes”. Gramática 18.1 1. Complemento indireto. 1.1 Este pronome refere-se a Vasco da Gama. 2. O complexo verbal sugere continuidade, duração.

1. Identifique para quem está reservado o espaço a que Tétis se refere na estância 82. 2. Explicite a intenção da afirmação “fomos fabulosos, / Fingidos de mortal e cego

engano” (est. 82, vv. 3-4). 3. Indique quem é favorecido e quem é desfavorecido pela santa Providência, de acor-

do com o conteúdo da estância 83. 4. Identifique, justificando, o recurso expressivo presente nos versos “que esmaltado /

De corpos lisos anda e radiantes” (est. 87, vv. 1-2).

GRAMÁTICA 1. Indique a função sintática do pronome te, em “contar-te” (est. 85, v. 3). 1.1

Identifique a quem se refere o pronome.

2. Explicite o valor do complexo verbal “vão fazendo” (est. 88, v. 2). BLOCO INFORMATIVO – pp. 271-273, 266-268

202

Os Lusíadas

EDUCAÇÃO LITERÁRIA A descrição e disposição das divindades são feitas por Tétis, que explicita também as razões dessa ordenação. Aí se percebe a dimensão épica associada aos feitos das várias entidades convocadas. 89 «Debaxo deste grande Firmamento, Vês o céu de Saturno, Deus antigo; Júpiter logo faz o movimento, E Marte abaxo, bélico inimigo; O claro Olho do céu, no quarto assento, E Vénus, que os amores traz consigo; Mercúrio, de eloquência soberana1; Com três rostos2, debaxo vai Diana3. 90 «Em todos estes orbes, diferente Curso verás, nuns grave4 e noutros leve5; Ora fogem do Centro longamente6, Ora da Terra estão caminho breve, Bem como quis o Padre omnipotente, Que o fogo fez e o ar, o vento e neve, Os quais verás que jazem mais a dentro E tem co Mar a Terra por seu centro.

91 «Neste centro, pousada dos humanos, Que não sòmente, ousados, se contentam De sofrerem da terra firme os danos, Mas inda o mar instábil exprimentam, Verás as várias partes, que os insanos Mares dividem, onde se apousentam Várias nações que mandam vários Reis, Vários costumes seus e várias leis7. 1

do verso 1 ao verso 7 enumeram-se os sete céus a que o poeta já se referira em outros cantos 2 Lua Cheia, Quarto Crescente e Quarto Minguante (a Lua Nova é praticamente invisível) 3 Lua PROFESSOR 4 lento 5 rápido Educação Literária 6 a grande distância 14.2; 14.4; 14.9 7 religiões

1. Apresente a razão para a designação de Marte como “bélico inimigo” (est. 89, v. 4). 2. Identifique o recurso expressivo presente nos versos 3 e 4 da estância 90. 3. Indique a quem se refere Tétis com a expressão “o Padre omnipotente” (est. 90, v. 5).

E S C R I TA Redija um texto expositivo, de 120 a 150 palavras, sobre os Descobrimentos, considerando os tópicos apresentados:

• Ao nível do conteúdo: identificação do tema; perigos e obstáculos encontrados; vantagens e desvantagens decorrentes da iniciativa.

• Ao nível da estruturação do discurso e da correção linguística: seleção e diversificação vocabular e de conectores; obediência às regras da não contradição e da progressão; marcação de períodos e de parágrafos; correção ao nível da ortografia, da pontuação e da acentuação.

1. Marte é considerado "bélico inimigo" porque ele é o deus da guerra. 2. Anáfora. 3. Tétis refere-se a Deus, que criou o Céu e a Terra. Escrita 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 13.1 Resposta de caráter pessoal, no entanto os alunos podem desenvolver os seguintes aspetos: A nível dos perigos e dos obstáculos – as doenças dos marinheiros, a fome, os fenómenos climatéricos/ atmosféricos, as ciladas; a nível das vantagens decorrentes da iniciativa – o desenvolvimento das ciências náuticas/geográficas, o conhecimento do mundo e dos seus habitantes, o desenvolvimento económico do país; a nível das desvantagens causadas – a desertificação da pátria (no que concerne a homens), o adultério, a sobrecarga sobre as mulheres e o desamparo dos filhos.

BLOCO INFORMATIVO – p. 283 MANUAL – pp. 26-27

203

mais/menos … do que, qual (depois de “tal”), quanto (depois de “tanto”), tanto/tão … como, bem como, como s

A frase complexa: subordinação

N DE R RE AP

APRENDER

ICA SUBORDINAÇÃO

R

G RA M Á T

A PR ATIC

Processo de combinação de duas ou mais orações em que uma delas, a subordinada, está sintaticamente dependente de outra, a subordinante. Oração subordinante1

Oração subordinada

Constituinte que inclui um verbo principal ou copulativo, podendo conter ainda elementos com função de sujeito, de complemento e/ou de modificador.

É a que desempenha uma função sintática na frase complexa em que se encontra.

1

Há elementos subordinantes que não são oracionais, como acontece, normalmente, com os antecedentes das orações subordinadas adjetivas relativas.

De acordo com o tipo de função sintática que desempenham, as orações subordinadas classificam-se como substantivas, adjetivas ou adverbiais.

Orações subordinadas adverbiais Desempenham a função sintática de modificador e devem ser destacadas por vírgula(s) quando antecedem a subordinante ou são intercaladas. Têm grande mobilidade na frase, exceto no caso das comparativas e das consecutivas, e expressam diferentes valores semânticos, que determinam a sua classificação. Assim, uma oração subordinada pode ser:

Classificação

Conjunções/locuções conjuncionais subordinativas

Causal

porque, que, como, dado, dado que, uma vez que, visto que, pois, já que

Comparativa

mais/menos… do que, qual (depois de “tal”), quanto (depois de “tanto”), tanto/tão… como, bem como, como, como se, que nem

Sentido Indica a razão, a causa, o motivo ou a justificação da situação expressa na subordinante. Expressa uma comparação, contendo o segundo elemento da comparação estabelecida com o conteúdo da subordinante. As subordinadas comparativas podem corresponder a construções elípticas, nas quais o grupo verbal é elidido.

Exemplificação • Como o perigo espreitava constantemente, os nautas estavam atentos.

• Vasco da Gama falou como um douto capitão falaria.

Concessiva

embora, conquanto que, ainda que, mesmo que/se, posto que, se bem que, por mais/menos que

Apresenta uma ideia ou um facto que contrasta com o expresso na subordinante.

• Camões prosseguirá o seu canto, mesmo que o Rei o ignore.

Condicional

se, caso, desde que, contanto que, salvo se, a menos que, a não ser que

Apresenta a condição ou hipótese exigida para a realização da situação expressa na subordinante.

• Caso as Ninfas o ajudem, Camões produzirá um canto superior aos da Antiguidade.

Consecutiva

tão/tanto… que, a ponto de, de tal modo… que

Expressa o efeito ou a consequência do que é dito na subordinante.

• A aventura foi tão grandiosa que deu origem a um poema épico.

Final

para, para que, com a finalidade/ o objetivo de, de modo a/que, de forma a que, a fim de (que), de maneira a (que)

Refere o propósito, a intenção ou a finalidade da ação expressa na subordinante.

• Vénus conduziu os portugueses até à Ilha com o objetivo de os recompensar pelo seu esforço.

Temporal

quando, enquanto, apenas, mal, logo que, depois de/que, antes de/ que, até que, sempre que, todas as vezes que, agora que, cada vez que, assim que

Cria uma referência temporal à luz da qual a ação expressa na subordinante deve ser interpretada.

• Os marinheiros foram surpreendidos por uma enorme tempestade, enquanto navegavam no mar.

204

se, que nem…

APLICAR

PROFESSOR

1. Expanda as frases seguintes, introduzindo-lhes uma oração subordinada adverbial

Gramática 18.2; 18.4; 18.5

do tipo indicado entre parênteses. , os marinheiros ficaram eufóricos.

a.

b. Camões foi um grande poeta,

(temporal)

.

(concessiva)

c. O épico português só terminaria o seu canto, d. Vasco da Gama fica no navio

.

.

e. O susto do capitão português foi tão grande

(condicional) (final)

.

(consecutiva)

f. Há quem veja em Os Lusíadas uma epopeia de imitação,

. (causal)

g. Os quatro planos estruturais de Os Lusíadas estão organizados

. (comparativa)

2. Identifique e classifique a oração subordinada adverbial presente em cada uma

das frases. a. Os marinheiros divertiram-se tanto na Ilha que ficaram maravilhados. b. Vasco da Gama ordenou o adiamento da partida, uma vez que as condições clima-

térias não eram favoráveis à navegação. c. Os navegadores aportariam em Melinde desde que a agitação marítima o permi-

tisse. d. Logo que chegaram à Ilha dos Amores, as Ninfas disfarçaram-se de caçadores. e. Ainda que o medo fosse grande, Vasco da Gama enfrentou o Adamastor. 3. Leia atentamente as duas frases a seguir apresentadas. a. O rei de Melinde receberia os portugueses desde que eles fossem desarmados. b. A chegada do Catual era desejada desde que ele demonstrara vontade de visitar as naus. 3.1 Selecione a alternativa que corresponde à situação de subordinação anterior. [A] As orações anteriores são subordinadas condicionais. [B] As duas orações são subordinadas adverbiais condicionais. [C] A oração da alínea a. é subordinada adverbial condicional e a da b. é temporal. 4. Transforme as frases simples em frases complexas, considerando o exemplo dado

e recorrendo a orações subordinadas adverbiais. · No Renascimento, revitaliza-se o género épico. · Quando surge o Renascimento, revitaliza-se o género épico.

1. a. Quando chegaram à Índia, b. embora tivesse vivido na pobreza. c. se o rei o escutasse. d. para que os nativos não o façam, de novo, prisioneiro. e. que passou a duvidar de tudo. f. dado ter semelhanças com as epopeias da Antiguidade. g. como se fossem uma peça de joalharia, com várias incrustrações. 2. a. "que ficaram maravilhados" − subordinada adverbial consecutiva. b. "uma vez que as condições climatérias não eram favoráveis à navegação" − subordinada adverbial causal. c. "desde que a agitação marítima o permitisse" − subordinada adverbial condicional. d. "Logo que chegaram à Ilha dos Amores" − subordinada adverbial temporal. e. "Ainda que o medo fosse grande" − subordinada adverbial concessiva. 3.1 [C] 4. a. Camões seguiu o modelo greco-latino embora tivesse procedido a algumas adaptações. b. Camões teria desistido da epopeia se o rei se mostrasse indiferente. c. Vasco da Gama vacilou uma vez que o rei de Melinde fizera um pedido estranho. d. Quando anoiteceu, o rei de Melinde abandonou a nau do capitão.

a. Camões seguiu o modelo greco-latino com algumas adaptações. b. Camões teria desistido da epopeia perante a indiferença do rei. c. Vasco da Gama vacilou com o pedido estranho do rei de Melinde. d. Ao cair da noite, o rei de Melinde abandonou a nau do capitão.

205

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a

LEITURA A viagem foi e é potenciadora de descobertas e de conhecimento. E se o mar foi desvendado na época clássica, na era moderna a preocupação centra-se também na descoberta do espaço. Leia o artigo de divulgação científica que a seguir se apresenta e responda, depois, às questões.

Explorando Vénus Desde 2006 que a sonda Venus Express nos envia dados fascinantes sobre o planeta conhecido como “estrela da manhã” ou “da tarde”. 15

5

10

A Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla inglesa) atuou depressa para adequar a sonda Mars Express a uma viagem ao segundo planeta a contar do Sol, demorando apenas três anos da conceção ao lançamento. Enviada do cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, a Venus Express orbita Vénus há quase oito anos. Uma órbita leva cerca de 24 horas a completar e o ponto máximo de aproximação ao planeta é a respetiva região polar norte. A sonda efetuou o estudo mais detalhado até à data sobre a “estrela da manhã”. O foco é a atmosfera venusiana, sobretudo a sua química, dinâmica e as interações

PROFESSOR Leitura 7.1; 7.3; 7.4; 7.5; 7.6; 8.1; 8.2

20

25

com o vento solar e a superfície do planeta. A ESA controla a sonda a partir do centro de operações da missão em Darmstadt, na Alemanha. Durante a órbita, uma antena numa estação da ESA perto de Madrid, Espanha, é utilizada para as comunicações. A sonda recolhe dados quando se encontra sobre o polo norte de Vénus, armazena-os e depois transmite-os quando atinge o ponto da sua órbita mais próximo da Terra. Até agora já encontrou indícios de atividade geológica recente em Vénus – que ainda poderá estar a decorrer. Também detetou raios na atmosfera e possibilitou a criação de mapas meteorológicos que nos permitem ter hoje um conhecimento muito melhor sobre o clima venusiano. Quero Saber, n.o 45, junho de 2014, p. 56.

1. Indique o tema do artigo e o momento em que é apresentado no texto. 2. Relacione o meio de publicação com as referências concretas e científicas do texto. 3. Justifique o recurso a construções sintáticas simples e objetivas, tendo em conta

os destinatários da publicação onde surge este artigo. 1. O tema é a exploração do planeta Vénus, e surge apresentado no título e no parágrafo destacado (parágrafo inicial). 2. A revista Quero Saber, como o próprio título indica, aborda questões de várias áreas do saber e dá conta de um conjunto de novidades/ descobertas, como é o caso da exploração deste planeta. 3. Tratando-se de uma publicação destinada ao público em geral, tem, obviamente, de permitir a todos os leitores aceder e compreender o conteúdo do artigo.

4. Exemplifique o recurso a algum vocabulário específico e técnico. 5. Comprove que existe uma hierarquização das ideias e uma progressão textual. 6. Refira uma possível vantagem da investigação espacial para a humanidade. 7. Selecione, entre os pares de palavras, as que lhe permitem completar corretamen-

te a definição do género textual explorado. Um artigo de divulgação científica é um género textual que assume um caráter (argumentativo/expositivo), com informação c. (geb. nérica/seletiva), onde impera a d. (desordenação/hierarquização) das ideias, e. (o rigor/a suposição) e a f. (subjetividade/objetividade). O vocabulário deve ser g. (polissémico/monossémico) e a sintaxe (simples/complexa). h. BLOCO INFORMATIVO – p. 283

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Os Lusíadas Canto X – Reflexões do Poeta PROFESSOR

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Na última intervenção, que fecha a epopeia, assiste-se à lamentação do poeta por cantar a gente surda e endurecida e por a Pátria se encontrar envolta numa apagada e vil tristeza. Por isso, o poeta refere os sacrifícios a que os portugueses serão capazes de se sujeitar pelo rei, exortando D. Sebastião à realização de novos feitos, e comprometendo-se a enaltecê-lo no seu canto.

145 Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho Destemperada1 e a voz enrouquecida, E não do canto, mas de ver que venho Cantar a gente surda e endurecida. O favor2 com que mais se acende o engenho Não no dá a pátria, não, que está metida No gosto da cobiça e na rudeza Dũa austera3, apagada e vil tristeza

1

4. Termos como “sonda”, “cosmódromo”, “órbita”, “venusiana”, “atividade geológica” ou “mapas meteorológicos” fazem parte de áreas específicas do saber, pelo que não são usados com frequência nosso quotidiano. 5. A hierarquização é visível na forma como se parte do geral para o particular: o autor começa por apresentar o tema; de seguida, fala do envio da sonda e descreve a sua utilidade, exemplificando com a sua atividade no planeta; termina com a referência de alguns dados fornecidos pela sonda. 6. Por exemplo, quanto mais o Homem conhecer mais poderá expandir-se e aumentar a sua possibilidade de sobrevivência. 7. a. expositivo b. seletiva c. hierarquização d. o rigor e. objetividade f. monossémico g. simples

146 E não sei por que influxo de Destino Não tem um ledo orgulho e geral gosto, Que os ânimos levanta de contino A ter pera trabalhos ledo o rosto. Por isso vós, ó Rei, que por divino Conselho4 estais no régio sólio5 posto, Olhai que sois (e vede as outras gentes) Senhor só6 de vassalos excelentes.

desafinada; 2 aplauso; 3 sombria; 4 divino / Conselho: providência de Deus; 5 trono (de Portugal); 6 único.

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LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a Canto X – Reflexões do Poeta

147 Olhai que7 ledos vão, por várias vias, Quais rompentes liões e bravos touros, Dando os corpos a fomes e vigias8, A ferro, a fogo, a setas e pelouros, A quentes regiões, a plagas9 frias, A golpes de Idolátras10 e de Mouros, A perigos incógnitos do mundo, A naufrágios, a pexes, ao profundo11.

151 Os Cavaleiros tende em muita estima, Pois com seu sangue intrépido e fervente Estendem não sòmente a Lei de cima,20 Mas inda vosso Império preminente. Pois aqueles que a tão remoto clima Vos vão servir, com passo diligente21, Dous inimigos vencem: uns, os vivos,22 E (o que é mais) os trabalhos excessivos.

148 Por vos servir, a tudo aparelhados12; De vós tão longe, sempre obedientes; A quaisquer vossos ásperos mandados, Sem dar reposta, prontos e contentes. Só com saber que são de vós olhados, Demónios infernais, negros e ardentes, Cometerão13 convosco, e não duvido Que vencedor vos façam, não vencido.

152 Fazei, Senhor, que nunca os admirados Alemães, Galos,23 Ítalos e Ingleses, Possam dizer que são pera mandados,24 Mais que pera mandar, os Portugueses. Tomai conselho só d’exprimentados, Que viram largos anos, largos meses, Que, posto que em cientes muito cabe, Mais em particular o experto sabe.

149 Favorecei-os logo, e alegrai-os Com a presença e leda humanidade14; De rigorosas leis desalivai-os15, Que assi se abre o caminho à santidade16. Os mais exprimentados levantai-os, Se, com a experiência, têm bondade17 Pera vosso conselho, pois que sabem O como, o quando, e onde as cousas cabem.

153 De Formião,25 filósofo elegante, Vereis como Anibal escarnecia, Quando das artes bélicas, diante Dele, com larga voz tratava e lia.26 A disciplina militar prestante Não se aprende, Senhor, na fantasia, Sonhando, imaginando ou estudando, Senão vendo, tratando e pelejando.

150 Todos favorecei em seus ofícios, Segundo têm das vidas o talento; Tenham Religiosos exercícios18 De rogarem, por vosso regimento19, Com jejuns, disciplina, pelos vícios Comuns; toda ambição terão por vento, Que o bom Religioso verdadeiro Glória vã não pretende nem dinheiro.

154 Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo, De vós não conhecido nem sonhado? Da boca dos pequenos sei, contudo, Que o louvor sai às vezes acabado.27 Nem me falta na vida honesto estudo, Com longa experiência misturado, Nem engenho28, que aqui vereis presente, Cousas que juntas se acham raramente.

7

quão; 8 vigílias; 9 território; 10 que adora ídolos; 11 abismo da morte; 12 preparados; 13 acometerão; 14 benevolência; 15 aliviai-os; 16 veneração (dos

súbditos); 17 capacidade, competência; 18 Religiosos exercícios: práticas de devoção; 19 reinado; 20 religião cristã (de cima = do Céu); 21 zeloso, cuidadoso; 22 os homens; 23 Franceses; 24 para (serem) mandados 25 filósofo grego que, em Éfeso, dissertou perante Aníbal acerca da arte de combater; o general cartaginês, naturalmente, só pôde notar desacertos naquele saber teórico; 26 expunha pomposamente; 27 perfeito; 28 talento.

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Os Lusíadas

155 Pera servir-vos, braço às armas feito29, Pera cantar-vos, mente às Musas dada; Só me falece30 ser a vós aceito, De quem virtude31 deve ser prezada. Se me isto o Céu concede, e o vosso peito Dina empresa tomar de ser cantada, Como a pres[s]aga32 mente vaticina33 Olhando a vossa inclinação divina, 156 Ou fazendo que, mais que a de Medusa,34 A vista vossa tema o monte Atlante35, Ou rompendo nos campos de Ampelusa36 Os muros de Marrocos e Trudante37, A minha já estimada e leda Musa Fico38 que em todo o mundo de vós cante, De sorte que Alexandro em vós se veja, Sem à dita de Aquiles ter enveja.39

29 31 33

profetiza; 34 uma das três Górgonas − que tornava de pedra aqueles que a contemplassem; 35 Atlas, em Marrocos; 36 cabo Espartel, a oeste de Tânger; 37 Tarudante, capital de uma província marroquina; 38 asseguro; 39 em vós se veja / Sem à dita de Aquiles ter enveja: em vós possa reverse sem invejar a glória de Aquiles (que, cantado na Ilíada, era invejado, por este motivo, por Alexandre).

PROFESSOR

A El-Rei D. Sebastião, 1973, João Cutileiro (1937- ), Lagos.

1. O regresso à Pátria origina nova reflexão do poeta.

Distinga, na estância 145, dois dos quatro planos de Os Lusíadas, justificando. 2. Justifique a exortação ao “Rei” que se verifica na estância 146. 2.1 Evidencie três marcas linguísticas associadas ao apelo do poeta. 3. Nesta última reflexão, surgem sentimentos contraditórios, relacionados ora com

o desalento ora com o orgulho e a esperança. Proceda ao levantamento dos factos que suscitam esta duplicidade de sentimentos. 4. Complete o quadro que se segue, baseando-se nas estâncias apresentadas e/ou

nos versos selecionados. Recurso expressivo

Exemplos textuais

Metonímia

“Não no dá a pátria, não, que está metida / No gosto da cobiça e na rudeza” (est. 145, vv. 6-7)

a.

“ó Rei” (est. 146, v. 5)

Comparação

b.

c.

afeito, habituado; 30 falta; merecimento; 32 sábia;

“A ferro, a fogo, a setas e pelouros, / […] a pexes, ao profundo.” (est. 147, vv. 4-8)

d.

“Só com saber que são de vós olhados, / Demónios infernais, negros e ardentes, / Cometerão convosco […]” (est. 148, vv. 5-7)

Metáfora

e.

f.

“Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo, / De vós não conhecido nem sonhado?” (est. 154, vv. 1-2)

Personificação

“Se me isto o Céu concede” (est. 155, v. 5)

Anástrofe

g.

Educação Literária 14.2; 14.3; 14.6; 14.7; 14.9 1. Plano mitológico e plano do poeta, como se vê pela referência às musas, pela utilização da primeira pessoa gramatical e pelas lamentações do poeta. 2. A exortação deve-se ao facto de o poeta pensar que o rei, apesar de dever alegrar-se por ter tão bons vassalos, ainda não agiu em conformidade. 2.1 Uso do vocativo, do pronome pessoal “vós”, da segunda pessoa e da forma verbal na mesma pessoa e no imperativo (“Olhai”). 3. O desalento resulta da indiferença dos portugueses face ao seu canto, afirmando o poeta que a Pátria está envolta numa “austera, apagada e vil tristeza” (est. 145, v. 8); o orgulho e a esperança devem-se à consciência do seu talento e ao facto de os portugueses continuarem a lutar pelo rei, que o poeta espera venha a reconhecer todos os que o merecem e o engrandecem. 4. a. Apóstrofe; b. “Quais rompentes liões e bravos touros” (est. 147, v. 2); c. Enumeração ou aliteração; d. Hipérbole; e. “Pois com seu sangue intrépido e fervente” (est. 151, v. 2); f. Interrogação retórica, tripla adjetivação; g. “A vista vossa tema o monte Atlante” (est. 156, v. 2). 5. Valor final ou de finalidade.

5. Atendendo ao conteúdo da estância 156 e consultando a nota 39, indique o valor

lógico do conector “De sorte que” (v. 7). 209

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a

PROFESSOR Gramática 17.3; 18.1; 18.3; 18.4 1. a. epêntese b. epêntese c. prótese 2. a. Coordenada copulativa b. Subordinada adverbial condicional c. Subordinada adverbial comparativa d. Coordenada disjuntiva 2.1 a. “os” − complemento direto b. “me” − complemento indireto 2.2 “a pres[s]aga mente”. 2.3 Modificador do nome restritivo. 3. Campo lexical.

GRAMÁTICA 1. Indique o nome do processo fonológico verificado nas palavras selecionadas,

considerando a grafia atual. Palavras exemplificativas Processo fonológico

Grafia anterior

Grafia atual

pexes (est. 147, v. 8)

peixes

a.

reposta (est. 148, v. 4)

resposta

b.

inda (est. 151, v. 4)

ainda

c.

2. Classifique as orações seguintes. a. “e alegrai-os / Com a presença e leda humanidade” (est. 149, vv. 1-2) b. “Se me isto o Céu concede” (est. 155, v. 5) c. “Como a pres[s]aga mente vaticina” (est. 155, v. 7) d. “Ou rompendo nos campos de Ampelusa / Os muros de Marrocos e Trudante” (est. 156, vv. 3-4)

Escrita 10.2; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 13.1 O aluno poderá desenvolver os seguintes tópicos: – O poeta Luís Vaz de Camões viveu no século XVI, tendo nascido por volta de 1525 e morrido em 1579 ou 1580. – Este período foi influenciado pelo Humanismo e pelo Renascimento, o que se vai refletir na vida e na obra do poeta. – Influenciado pelos valores renascentistas, o poeta acaba por congregar em si as duas grandes características do Homem renascentista, sintetizadas num verso da sua obra – “nũa mão sempre a espada e noutra a pena” –, o que se pode comprovar pelo conteúdo das estâncias 154 (vv. 5-8) e 155 (vv. 1-4).

2.1

Indique as funções sintáticas de “os” (alínea a.) e de “me” (alínea b.)

2.2 Identifique o sujeito da frase da alínea c. 2.3 Refira a função sintática do segmento “de Marrocos e Trudante” (alínea d.) 3. Identifique a relação semântica existente entre os vocábulos “Cavaleiros” (est. 151, v. 1),

“inimigos” (est. 151, v. 7), “militar” (est. 153, v. 5) e “armas” (est. 155, v. 1).

E S C R I TA Apresente, num texto expositivo de 120 a 150 palavras, as qualidades literárias e bélicas do poeta, baseando-se nas estâncias 154 e 155 e nos conhecimentos adquiridos. Apresente as ideias de forma fundamentada e objetiva, encadeando-as lógica e sequencialmente, e atentando na correção linguística e ortográfica. Planifique o seu texto, obedecendo à seguinte estrutura.

• Introdução – Identificação do autor; breve referência à época em que viveu. • Desenvolvimento – (…). • Conclusão – Confirmação das ideias transmitidas nas estâncias referidas e nos aspetos avançados no desenvolvimento.

BLOCO INFORMATIVO –

pp. 278-279, 277, 282, 283 MANUAL – pp. 26-27

210

Os Lusíadas

COMPREENSÃO DO ORAL Até aqui viajou pelo mundo através das palavras do poeta Luís de Camões. Agora, irá contactar com outra forma de conhecer a época dos Descobrimentos. Acompanhe atentamente uma reportagem, com cerca de cinco minutos, sobre o World of Discoveries, uma iniciativa que convida a embarcar numa viagem até aos Descobrimentos, e resolva depois as atividades. 1. Assinale as seguintes afirmações como verdadeiras ou falsas, atendendo ao

que viu e ouviu. De seguida, corrija as falsas. a. O museu e parque temático World of Discoveries recria os Descobrimentos portugueses.

World of Discoveries, Vozlocal.

b. O empreendimento é da responsabilidade do Ministério da Cultura. c. O primeiro interveniente na reportagem afirma nunca ter saído de Portugal. d. Segundo a diretora deste espaço, o museu sediou-se no Porto porque aquele local estava abandonado. e. O espaço onde está implementado o World of Discoveries já foi um dos mais importantes estaleiros dos séculos XV e XVI. f. Três das naus da armada de Vasco da Gama foram construídas nos estaleiros da Alfândega. g. Os primeiros visitantes foram recebidos num ambiente alusivo à época quinhentista. h. Neste espaço existem vinte áreas temáticas, preenchidas por tecnologias multimédia, hologramas e muito mais. i. O espaço tem uma dupla vertente – interativa e tecnológica – e a criação de um cenário à escala real. j. As pessoas são convidadas a viajar no tempo e a viver uma experiência inesquecível. k. Os visitantes podem ver, num ecrã gigante, a verdadeira viagem realizada pelos navegadores portugueses. l. O Norte de África e o Cabo das Tormentas são dois dos pontos pelos quais os visitantes podem passar. m. Territórios como a China, Japão, Macau, Timor e Brasil podem ser visitados virtualmente. n. Na opinião dos entrevistados, a visita é fatigante e, por isso, só deverá ser feita por jovens. o. O espaço é único, lúdico e dinâmico. p. O preço mais alto do bilhete de ingresso neste espaço é de 11 euros. q. O custo do investimento rondou os 11 milhões de euros e o valor estimado de visitantes é de 300 mil, no primeiro ano.

PROFESSOR Oralidade 1.3; 1.5; 2.1; 6.1

Vídeo "World of Discoveries" 1. a. V b. F – O empreendimento é da responsabilidade do empresário Mário Ferreira. c. V d. F – O museu sediou-se no Porto porque foi aí que nasceu o Infante D. Henrique. e. V f. F – Três das naus da armada de Vasco da Gama foram construídas nos estaleiros de Miragaia. g. V h. V i. V j. V k. F – Os visitantes podem experimentar a verdadeira viagem realizada pelos navegadores portugueses. l. V m. V n. F – Na opinião dos entrevistados, a visita é deslumbrante e, por isso, obrigatória. o. V p. F – O preço mais alto é de 14 euros. q. F – O custo do investimento rondou os 8 milhões de euros.

211

mais/menos … do que, qual (depois de “tal”), quanto (depois de “tanto”), tanto/tão … como, bem como, como s

Orações subordinadas substantivas e adjetivas

N DE R RE AP

APRENDER

G RA M Á T

ICA

APL ICA

R

Orações subordinadas substantivas Podem ser: • Completivas − frequentemente introduzidas por uma conjunção completiva, podem desempenhar as funções sintáticas de sujeito, de complemento de um verbo, de complemento de um nome ou de complemento de um adjetivo. • Relativas − introduzidas por uma forma relativa que não tem antecedente, podem desempenhar as funções sintáticas de sujeito, de complemento direto, de complemento indireto, de complemento oblíquo, de predicativo do sujeito ou de modificador do grupo verbal.

Designação da oração subordinada substantiva

Elementos de ligação

Sentido/Exemplificação Completa o sentido de a. outra oração • Creio que Camões superou os épicos da Antiguidade.

Completiva Funciona como sujeito, complemento do verbo, do nome ou de um adjetivo

• conjunções subordinativas completivas: que, se, para

• Perguntou-lhe se reconhecia o valor dos seus súbditos. • Ele pediu para D. Sebastião aceitar o seu poema. b. um nome • Camões tinha a certeza de que não era compreendido. c. um adjetivo • Camões estava convicto de que os seus conselhos eram importantes.

Relativa Funciona como sujeito, complemento direto, indireto, oblíquo, predicativo do sujeito ou modificador (do grupo verbal)

• pronomes relativos: quem, (o) que • advérbio relativo: onde

Introduzida por um relativo que não retoma um antecedente • Quem cantou os feitos dos portugueses merece todo o respeito. • O Catual não era quem parecia ser. • Os marinheiros foram onde havia mantimentos.

Orações subordinadas adjetivas São introduzidas por um pronome, determinante, quantificador ou advérbio relativo que retoma um antecedente. Desempenham, frequentemente, a função sintática de modificador do nome, restritivo ou apositivo.

Designação da oração subordinada adjetiva

Relativa explicativa

Elementos de ligação • pronomes relativos: que, quem (invariáveis), o qual (variável em género e número) • determinante relativo: cujo (variável em género e número)

Relativa restritiva

• quantificador relativo: quanto (variável em género e número) • advérbio relativo: onde

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Sentido/Exemplificação Introduzida por um relativo que retoma um referente antecedente. Fornece informação adicional sobre o constituinte que modifica. • Luís de Camões, que escreveu poesia lírica, dedicou-se também à escrita de uma epopeia. Nota: estas frases vêm sempre entre vírgulas

Introduzida por um relativo que retoma um antecedente. Restringe a referência do constituinte que modifica. • Li todos as estrofes que apresentam as reflexões do poeta.

se, que nem…

APLICAR

PROFESSOR Gramática 18.1; 18.2; 18.4; 18.5

Atente nas frases seguintes. a. É provável que Camões tenha sofrido vários infortúnios. b. O poeta cumpriu todos os requisitos que a epopeia exige. c. O território onde Gama foi acolhido situava-se na costa oriental africana. d. Quem se dedicava ao exercício das armas e das letras era considerado um verdadei-

ro homem renascentista. 1. Registe a única opção que permite obter uma afirmação verdadeira. 1.1

A frase a. integra uma oração subordinada [A] substantiva completiva. [B] adjetiva relativa restritiva. [C] adjetiva relativa explicativa. [D] adverbial causal.

1.2 O conector sublinhado em “que a epopeia exige” (alínea b.) introduz uma oração

subordinada [A] adverbial consecutiva. [B] substantiva completiva. [C] substantiva relativa. [D] adjetiva relativa restritiva. 1.3 Na frase c. o advérbio relativo “onde” retoma o antecendente, e a oração subordi-

nada por ele iniciada designa-se de [A] substantiva relativa. [B] adjetiva relativa restritiva. [C] substantiva completiva. [D] adverbial causal.

1.1 [A] 1.2 [D] 1.3 [B] 1.4 [C] 2. a. “que Luís de Camões nasceu em Constância” − oração subordinada substantiva completiva b. "Quem sempre sofreu várias desditas” − oração subordinada substantiva relativa c. “que tinham ao seu alcance” − oração subordinada adjetiva relativa restritiva d. “a quem as seguiu” − oração subordinada substantiva relativa e. “que sobrevoavam as naus” − oração subordinada adjetiva relativa explicativa f. “que os portugueses desprezavam as artes” − oração subordinada substantiva completiva 3. a. Complemento direto b. Sujeito c. Modificador do nome restritivo d. Complemento indireto e. Modificador do nome apositivo f. Complemento do adjetivo consciente

1.4 A frase d. integra uma oração subordinante e uma oração subordinada [A] substantiva completiva.

[C] substantiva relativa.

[B] adjetiva relativa restritiva.

[D] adverbial consecutiva.

2. Identifique e classifique as orações subordinadas das frases seguintes. a. Pensa-se que Luís de Camões nasceu em Constância. b. Quem sempre sofreu várias desditas não é feliz. c. Os marinheiros usaram as armas que tinham ao seu alcance. d. As musas ofereceram uma coroa de louros a quem as seguiu. e. Os portugueses ficaram espantados com a flora da Ilha e com as aves, que sobre-

voavam as naus. f. Camões estava consciente de que os portugueses desprezavam as artes. 3. Identifique a função sintática desempenhada por cada uma das orações subordi-

nadas identificadas em 2.

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LEITURA

PROFESSOR Leitura 7.6; 8.1 1. A comparação diz respeito ao nível de conhecimentos que se possui sobre a superfície da Lua e as profundezas do mar, concluindo-se que se sabe mais sobre a superfície do satélite natural da Terra (Lua). 2. O desejo terá surgido após ter sido imaginado o primeiro submarino, por um estalajadeiro inglês. 3. O estudo das profundezas do mar pode ajudar cientistas e exploradores “a conhecer melhor a superfície do nosso planeta” (l. 12), nomeadamente ao nível do estudo das placas tectónicas, contribuindo para prevenir “terramotos e tsunamis” (l. 14). 4. O texto apresenta uma linguagem objetiva, denotativa, um caráter demonstrativo e conciso.

Os navegadores portugueses conquistaram o mar. Todavia, as profundezas deste elemento estão ainda por descobrir.

Exploradores oceânicos ESTAS INCRÍVEIS PROEZAS DA ENGENHARIA APROXIMAM-NOS DAS PROFUNDEZAS DOS MARES.

5

10

Gramática 18.4 Trata-se de uma oração subordinada adjetiva relativa restritiva. “O conteúdo de cada conto” (pp. 215-217) 1. a. Reflexão a propósito do desprezo a que os portugueses votam as artes e da incapacidade destes em aliar as armas às letras. b. Na estância 2, surge nova intervenção do poeta a elogiar o espírito de cruzada dos portugueses. Na estância 78, o poeta invoca as Ninfas do Tejo e do Mondego e lamenta a situação em que se encontra, tendo já sido vítima de vários infortúnios. Critica os opressores e aqueles que não prezam quem os canta, afugentando assim outros escritores. Por isso, pede o favor das Ninfas para que, no seu canto, enalteça apenas os que o mereçam. c. As reflexões centram-se no incitamento à ação daqueles que pretendem alcançar a imortalidade, devendo, para isso, recusar a tirania e lutar contra os sarracenos, pois só deste modo se alcançarão as verdadeiras honras e o direito a serem recebidos na ilha de Vénus.

214

15

20

25

O que jaz no fundo do mar? Esta é uma questão que nos fascina há décadas. Sabemos mais sobre a superfície da Lua do que sobre os oceanos profundos do nosso planeta, pois as limitações de uma deslocação ao fundo do mar são tantas como as de ir ao espaço. Mas quando a natureza nos coloca problemas, nós ripostamos com soluções tecnológicas. O primeiro submarino terá sido imaginado em 1580 por um estalajadeiro inglês, ao refletir sobre as propriedades da flutuabilidade e da deslocação da água. A partir daí, o princípio de levar seres humanos desde o nível do mar até às regiões mais profundas conhecidas dos oceanos numa cabina pressurizada evoluiu para uma indústria colossal, essencial para cientistas, militares e exploradores. Mas quais as vantagens de mergulhar tão fundo e o que há para ver? Estudar o fundo do mar e as suas características geológicas e topográficas em determinadas regiões pode ajudar a conhecer melhor a superfície do nosso planeta. Os cientistas que estudam as placas tectónicas podem aprender muito com as fossas oceânicas, adquirindo conhecimentos que podem conduzir a avanços nos sistemas de alerta para terramotos e tsunamis. Da mesma forma, o estudo da matéria em decomposição recolhida no fundo oceânico pode ajudar-nos a saber mais sobre a forma como o carbono circula sobre os ecossistemas e é armazenado nos oceanos, o que pode influenciar o nosso conhecimento das alterações climáticas. Regra geral, um submersível é um pequeno veículo subaquático tripulado mas não totalmente autónomo como um submarino. Um dos mais famosos e há mais tempo em serviço é o Alvin, do Instituto Oceanográfico de Woods Hole (IOWH), no Massachusetts (EUA) − o primeiro do seu género capaz de transportar passageiros. Para explorar as profundezas oceânicas também existem os ROV (de Remotely Operated Vehicle), ou veículos operados remotamente; equipados com câmaras e ferramentas para captar imagens e recolher amostras, podem ser controlados a partir de um navio à superfície. Quero Saber, n.o 52, janeiro de 2015, p. 54.

1. No primeiro parágrafo do texto estabelece-se uma comparação.

Clarifique-a. 2. Indique o momento a partir do qual se criaram os princípios que poderiam levar os

seres humanos às profundezas do mar. 3. Mencione os aspetos positivos decorrentes do estudo do mar. 4. Identifique três características do texto expositivo aqui presentes.

GRAMÁTICA Classifique a oração “que estudam as placas tectónicas” (ll. 12-13).

Os Lusíadas O conteúdo de cada canto

INFORMAR

O conteúdo de cada canto Leia, atentamente, a síntese e a cronologia dos acontecimentos em Os Lusíadas. CANTOS

SÍNTESE

REFLEXÕES DO POETA

1498

CANTO I (106 estâncias)

No Canto I surge a Proposição, a Invocação e a Dedicatória. A partir da estância 19, dá-se início à narração, no momento em que a armada portuguesa se encontra no oceano Índico. A narração é logo interrompida na estância 20, dando-se início ao Consílio dos deuses do Olimpo. Assim, percebe-se que, a par do plano da viagem, surge o plano dos deuses. Após a decisão favorável ao prosseguimento da viagem, os lusos continuam e navegam até à Ilha de Moçambique, onde contavam ser bem recebidos. Mas, por intervenção de Baco, acabam por cair numa cilada da qual saem com a ajuda de Vénus. Deste modo, chegam a Mombaça.

Reflexão acerca dos perigos a que os frágeis humanos estão sujeitos, não conseguindo encontrar segurança.

O canto termina com a primeira reflexão do poeta. Prossegue a narração com o relato da entrada de dois portugueses em Mombaça, a convite do rei, os quais, ao regressarem, trazem recado de amigos, porque foram enganados por Baco. Porém, Vénus e as Nereides intervêm e afastam as naus do perigoso porto. CANTO II (113 estâncias)

Após a descoberta da armadilha, o falso piloto mouro põe-se em fuga e Vasco da Gama agradece a proteção da divina guarda. Vénus pede auxílio ao pai Júpiter, que envia Mercúrio, seu mensageiro, para indicar a Vasco da Gama, em sonhos, o caminho a seguir para encontrar terra amiga. Os nautas portugueses partem, então, de Mombaça e dirigem-se para Melinde, onde são bem recebidos, e Vasco da Gama é convidado pelo rei a contar a história da sua gente. SÉCULO II a. C. a SÉCULO XIV

CANTO III (143 estâncias)

O poeta pede inspiração a Calíope para dar conta do que Vasco da Gama narrara ao rei e, em analepse encaixada, o capitão português vai descrever a situação geográfica da Europa, bem como a origem e a afirmação da nacionalidade, incluindo neste relato as batalhas de S. Mamede e as de Ourique, a ação de Egas Moniz, o pedido de auxílio para o marido, por parte de Maria ao pai, D. Afonso IV, facto que constitui o episódio lírico designado de “Formosíssima Maria”. Exalta-se o heroísmo de D. Afonso IV, destacando-o como herói da batalha do Salado (1.o episódio) e de outros monarcas portugueses, como Afonso III e D. Dinis. A partir da estância 119, o poeta detém-se na história de amor de Pedro e Inês, surgindo o 2.o episódio lírico, o de Inês de Castro. Termina o canto com a referência ao caráter brando de D. Fernando. SÉCULO XV e 1497

CANTO IV (104 estâncias)

Vasco da Gama prossegue o relato da História de Portugal ao rei de Melinde, falando-lhe da morte de D. Fernando e da ascensão ao trono do novo rei, D. João, não sem antes explicar o perigo que D. Leonor representava para a nação portuguesa, dada a sua ligação a Castela. Integra também o discurso de incitamento de Nuno Álvares Pereira, bem como a descrição da preparação e da batalha de Aljubarrota (3.o episódio), a conquista de Ceuta, não esquecendo D. Duarte, D. Afonso V, D. João II e o sonho profético de D. Manuel I, que vai confiar a Vasco da Gama a descoberta do caminho marítimo para a Índia. Inclui ainda as despedidas em Belém e apresenta o 4.o episódio, o do Velho do Restelo, considerado simbólico e profético.

215

LP ua ídsr ed eA nC taómnõi oe sV i e i r a O conteúdo de cada canto

CANTOS

SÍNTESE

REFLEXÕES DO POETA

1498 Continua a narração de Gama ao rei de Melinde, dando conta, agora, dos acontecimentos relativos à viagem, desde Lisboa até Melinde, descrevendo a travessia marítima e os incidentes ocorridos, nomeadamente o fogo-de-Santelmo e a tromba marítima. Insere ainda um episódio breve (o 5.o), relativo à aventura de Fernão Veloso, o marinheiro que, com os nativos, se aventurou na mata. Prossegue o relato da viagem para destacar o 6.o episódio, o do Adamastor, ocorrido aquando da passagem pelo Cabo das Tormentas. CANTO V (100 estâncias)

a.

A viagem prossegue até à terra que designaram de Bons Sinais, onde foram bem recebidos e ergueram um padrão. Contudo, a alegria cede lugar à desventura quando se veem assolados pelo escorbuto, doença fatal para quem a apanhava, como foi o caso de alguns companheiros. Partiram de novo procurando terra mais firme, tendo chegado a Moçambique, onde se depararam com a falsidade, e, só depois, a Melinde, onde se encontram no momento. O canto termina com nova reflexão. Neste canto, destaca-se a festa de despedida em Melinde, de onde a armada parte, depois de abastecida, em direção à Índia, retomando-se, assim, a viagem. Assiste-se a nova intervenção de Baco, que desce ao palácio de Neptuno, pedindo-lhe que convoque os Deuses do mar, e é Tritão que, a seu mando, o vai fazer. Dá-se o 2.o Consílio, do qual saem ações que visam impedir os portugueses de chegarem à Índia, nomeadamente a dos ventos repugnantes, enviados por Éolo.

CANTO VI (99 estâncias)

Como os navegadores vinham cansados e ensonados, começam a contar histórias para não adormecer. Deste modo, surge o 7.o episódio − os doze de Inglaterra. Enquanto os marinheiros ouvem a narrativa de Veloso, os ventos crescem e começam a destruir velas e mastros, instalando-se uma terrível tempestade, que leva Vasco da Gama a fazer uma prece à “Divina Guarda”.

Comentário acerca do verdadeiro valor da fama e da glória, enumerando o que deve ser recusado e o que deve ser considerado para se alcançarem honras imortais.

De novo, as Ninfas amorosas, enviadas por Vénus, vão abrandar os ventos furiosos e impor a bonança, o que faz com que Vasco da Gama agradeça a Deus o seu auxílio. A fechar o canto, surge novo comentário do poeta.

CANTO VII (87 estâncias)

Os navegadores chegam à Índia (Calecute) e, mais próximos da nova terra, os lusos veem chegar pequenas embarcações de pescadores que os conduzem à cidade de Calecute. Segue-se a descrição dessa terra, que fica entre os rios Indo e Ganges, e cujo senhor se chama Samorim. Aí, é enviado um português a terra, que vai ser acompanhado por Monçaide, que visita, depois, a frota portuguesa. Vasco da Gama desembarca e é recebido pelo Catual, o regedor do reino. Este fala com o capitão português, que, posteriormente, é recebido pelo Samorim, que o aloja a ele e à comitiva portuguesa. O Catual vai depois visitar as naus lusitanas e vai ser recebido por Paulo da Gama. A partir da estância 78, o poeta intervém de novo.

216

b.

Os Lusíadas

CANTOS

SÍNTESE

REFLEXÕES DO POETA

Ao observar as bandeiras ostentadas no barco onde fora recebido, o Catual detém-se nas figuras aí representadas, querendo saber de quem se trata.

CANTO VIII (99 estâncias)

Paulo da Gama satisfaz a curiosidade do Catual e vai falar de várias figuras, desde Luso e Viriato até D. Duarte de Meneses, acrescentando que muitos outros poderiam ser lembrados, mas a falta de luz já tal não permitia. O Catual regressa a terra e, por influência de Baco, os indianos vão acreditar que os portugueses estavam ali para os aniquilar. Por isso, surge o propósito de destruir a frota portuguesa e Gama é feito prisioneiro do Catual. Este só vai ser libertado a troco de mercadorias.

Reflexão que se prende com o poder do dinheiro, que tanto a pobres como a ricos corrompe.

Este resgate desencadeia nova reflexão do poeta. Ultrapassadas as dificuldades que encontraram na Índia e ajudados por Monçaide a não cair de novo em armadilhas, os portugueses encetam a viagem de regresso à pátria.

CANTO IX (95 estâncias)

Vénus quer recompensar os navegadores portugueses e dar-lhes o repouso e a glória que estes mereciam; por isso, prepara-lhes, no meio do oceano, uma ilha, onde as Ninfas os aguardarão com danças e afetos, contando a deusa protetora com a ajuda de seu filho Cupido.

c.

As divindades vão trabalhar para, com um manjar deleitoso, receberem os marinheiros. Estes avistam de longe a ilha que Vénus lhes levava e que depois imobilizou para que aí desembarcassem. Surge, assim, a ilha dos Amores. Assiste-se, ainda neste canto, à exortação de Veloso, ao relato da aventura de Lionardo, à confraternização e aos casamentos entre as Ninfas e os nautas lusitanos, simbolizando a divinização dos heróis. Vasco da Gama visita o palácio de Tétis e, posteriormente, é explicado ao leitor o sentido alegórico da ilha – a recompensa ou o prémio pelos trabalhos já passados.

Ainda na ilha, os nautas vão ser presenteados com um banquete oferecido por Tétis e as restantes Ninfas.

CANTO X (156 estâncias)

Uma deusa vai prever a vinda de outras armadas e as dificuldades que irão encontrar, mas é interrompida pelo poeta, que faz uma invocação a Calíope, para que o seu gosto pela escrita não esmoreça devido ao peso da idade ou ao seu infortúnio. A Ninfa prossegue com a sua profecia acerca das conquistas futuras dos portugueses. Para terminar os festejos, Tétis conduz Vasco da Gama ao cume de um monte, onde se encontra um globo, a que a deusa chama “máquina do Mundo”. Aqui, indica-lhe os lugares onde os portugueses farão grandes feitos. Tétis despede-se dos portugueses e estes regressam à pátria.

No fim do canto e da epopeia, o poeta refere o seu desânimo por “cantar a gente surda e endurecida” e por a pátria estar envolta na cobiça e na tristeza; enumera as sevícias a que os portugueses são capazes de se submeter para servir o rei e exorta D. Sebastião a realizar novos feitos, oferecendo-se para mostrar ao mundo a grandeza do monarca, através do seu canto. PROFESSOR

1. Complete os espaços da coluna da direita (alíneas a., b. e c.), recuperando o conteú-

do das reflexões do poeta que se encontram em falta.

1. Proposta de resolução na página 214.

217

PA R A S A B E R

Os Lusíadas

PROFESSOR

Observe e leia os esquemas desta dupla página para obter uma visão global da epopeia camoniana. Apresentação Síntese da Unidade

OS LUSÍADAS

Apresentação Galeria de imagens

Epopeia Narrativa em verso destinada a celebrar feitos grandiosos de um herói, neste caso coletivo

ESTRUTURA INTERNA

PROPOSIÇÃO (I, 1 a 3)

INTRODUÇÃO

INVOCAÇÃO (I, 4 e 5)

DEDICATÓRIA (I, 6 a 18)

DESENVOLVIMENTO

NARRAÇÃO (I, 19 a X, 144)

Fragilidade da vida humana (I)

Momento em que o poeta dá conta do seu propósito ou intenção Pedido de inspiração endereçado às Tágides (existem outras invocações nos cantos III, VII e X)

Oferta do poema a D. Sebastião, ainda futuro rei; termina com um apelo

PLANO DA VIAGEM (de Vasco da Gama à Índia)

PLANO DOS DEUSES OU MITOLÓGICO

Acompanha, em paralelo, a ação central

PLANO DA HISTÓRIA DE PORTUGAL

AÇÃO SECUNDÁRIA (encaixada na ação central)

Desprezo dos portugueses pelas artes (V) Verdadeiro valor da fama e da glória (VI) Lamentações por ser vítima de vários infortúnios (VII) O vil poder do ouro, fonte de corrupção e de perjúrio (VIII) Verdadeiras formas de alcançar a fama e o heroísmo (IX) Retoma do tema do desprezo pela arte e nova exortação ao rei (X)

CONCLUSÃO

Desencanto do poeta e exortação final a D. Sebastião (X, 145 a 156)

218

AÇÃO CENTRAL

PLANO DAS REFLEXÕES DO POETA (sobretudo no fim dos cantos, o poeta tece considerações sobre vários assuntos, como se vê à esquerda)

INTERDEPENDÊNCIA As reflexões surgem em consequência de acontecimentos relatados anteriormente, e que suscitam as considerações que o poeta faz

NARRADORES

O POETA (I, II, VI, VII, VIII, IX, X)

VASCO DA GAMA (III, IV, V)

PAULO DA GAMA (VIII)

FERNÃO VELOSO (VI, "Doze de Inglaterra")

IMAGINÁRIO ÉPICO

Matéria Épica

Sublimidade do canto

Feitos históricos e viagem

Celebração de feitos grandiosos

Mitificação do herói

Divinização dos navegadores, alcançada pela união com as Ninfas; estes atingem a imortalidade

10 cantos 1102 estrofes Oitavas (estrofes de 8 versos)

ESTRUTURA EXTERNA

Decassílabos (10 sílabas métricas)

Rima cruzada e emparelhada (nos 6 primeiros e nos 2 últimos, respetivamente)

LINGUAGEM E ESTILO

Combinação de uma língua culta latinizante com a língua tradicional, oral. A primeira é visível nos discursos onde predomina um vocabulário erudito, construções alatinadas, onde se inverte a ordem das palavras. A segunda verifica-se na utilização de uma linguagem oral, com recurso a aforismos, como "melhor é merecê-los sem os ter, que possui-los sem os merecer".

Estilisticamente, abundam perífrases e metonímias, metáforas, comparações, paralelismos, simetrias, personificações, antíteses, imagens dos campos lexicais da natureza, da navegação e da ciência náutica, da guerra e das atividades bélicas, das cores e da visualidade.

219

PA R A V E R I F I C A R

Os Lusíadas Verifique as suas aprendizagens sobre a obra épica camoniana, resolvendo as tarefas propostas. 1. Selecione a opção que completa corretamente cada afirmação. 1.1

Camões terá tido como fonte(s) inspiradora(s) [A] as epopeias da Antiguidade e outros textos históricos anteriores. [B] a sua experiência pessoal, adquirida na viagem de Vasco da Gama. [C] os relatos das experiências dos navegadores seus contemporâneos. [D] a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto.

1.2 Na epopeia camoniana verifica-se a existência de [A] vários planos narrativos, com destaque para o dos deuses ou mitológico. [B] três planos narrativos e as reflexões do poeta, no final de alguns cantos. [C] duas ações, relativas aos deuses pagãos e aos deuses cristãos. [D] uma ação central, a da História de Portugal, e uma secundária, a do Poeta. 1.3 Ao nível da estrutura externa, a obra apresenta [A] catorze cantos e estrofes de sete versos decassilábicos. [B] oito cantos, com uma distribuição equitativa de estrofes. [C] dez cantos, com oitavas de dez sílabas métricas. [D] quatro partes: Proposição, Invocação, Dedicatória e Reflexões. 1.4 No canto I surge(m) [A] o relato da viagem ao rei de Melinde e a intervenção dos deuses. [B] a Proposição, a Invocação, a Dedicatória e o início da Narração. [C] a descrição da chegada a Calecute e a receção do rei de Melinde. [D] o Consílio dos deuses no Olimpo e o dos deuses marinhos. 1.5 Os planos narrativos encontram-se organizados da seguinte forma: [A] plano dos deuses, com plano da viagem encaixado, seguido do plano da

História de Portugal. [B] plano da História de Portugal, onde se encaixa o da viagem e o dos deuses. [C] plano da História de Portugal, seguido, em paralelo, pelo plano dos deuses,

onde se encaixa o da viagem. [D] plano da viagem, em alternância com o dos deuses, encaixando-se o da

História de Portugal na ação central. 1.6 Na “ínsula divina”, os portugueses são [A] perseguidos por animais ferozes. [B] conduzidos a um fosso profundo. [C] presenteados pelas Ninfas. [D] convidados a ir ao cume de um monte.

220

1.7 O episódio da Ilha dos Amores tem um caráter simbólico porque [A] representa o mundo do maravilhoso. [B] ilustra a mitologia d’Os Lusíadas. [C] remete para a recompensa dada aos nautas. [D] sugere o mundo do onírico.

2. Ordene as considerações do poeta, atendendo à sua disposição na epopeia. [A] Reflexões acerca do desprezo a que os portugueses lançam a arte, em particu-

lar a poesia. [B] Considerações acerca da fragilidade do ser humano e dos perigos a que este

PROFESSOR

está sujeito. [C] Lamentações do poeta por estar submetido a vários infortúnios e não ser reco-

nhecido. [D] Comentários acerca da(s) forma(s) de obter a verdadeira glória e a fama, real-

çando o que não deve ser usado para as obter. [E] Lamentos do poeta por cantar a gente “surda e endurecida”, dado não ser re-

conhecido, e exortação ao rei D. Sebastião para que erga de novo a nação, concretizando novos feitos. [F] Considerações sobre a forma de os humanos alcançarem a imortalidade, exor-

tando à ação aqueles que querem ver os seus nomes imortalizados.

3. Indique se as afirmações são verdadeiras ou falsas. Corrija as afirmações falsas.

a. A “máquina do Mundo” é revelada por Vasco da Gama aos marinheiros. b. Os planos presentes em Os Lusíadas apresentam-se interligados. c. A união entre as Ninfas e os nautas simboliza a imortalidade alcançada pelos seus feitos. d. Em Os Lusíadas, o poeta recorre unicamente à narração. e. No canto VII, assiste-se a lamentações do poeta suscitadas pela evocação das suas vivências. f. Camões revela alguma arrogância perante o rei D. Sebastião. g. Os aspetos negativos da conduta dos seus compatriotas são omitidos pelo poeta. h. O lirismo presente em Os Lusíadas resulta do intenso dramatismo evidenciado pelo poeta.

Teste interativo Camões – Os Lusíadas Educação Literária 14.3; 14.7; 15.1; 15.3 1.1 [A] 1.2 [B] 1.3 [C] 1.4 [B] 1.5 [D] 1.6 [C] 1.7 [C] 2. [B] – [A] – [D] – [C] – [F] – [E] 3. a. F – A “máquina do Mundo” é revelada por Tétis a Vasco da Gama. b. V c. V d. F – Em Os Lusíadas o poeta recorre também à descrição e ao lirismo. e. V f. F – Camões revela subserviência perante o rei D. Sebastião. g. F – Os aspetos negativos da conduta dos seus compatriotas são criticados pelo poeta. h. V i. F – Os acontecimentos relatados em Os Lusíadas baseiam-se também nos factos concretos e nas experiências pessoais do autor.

i. Os acontecimentos relatados em Os Lusíadas são única e exclusivamente fruto da imaginação do poeta.

221

PA R A R E C U P E R A R PROFESSOR

EDUCAÇÃO LITERÁRIA 1. Complete o texto.

Apresentação Galeria de imagens

Apresentação Síntese da Unidade

Teste interativo Os Lusíadas Educação Literária 1. a. epopeia b. latinos c. externa d. dez e. cantos f. oitavas g. decassílabos h. interna i. quatro j. Invocação k. Dedicatória l. planos m. plano n. viagem o. mitológico p. reflexões/considerações q. poeta 2. [A] – [6] [B] – [1] [C] – [2] [D] – [5] [E] – [4] [F] – [3]

Os Lusíadas é uma a. do século XVI, escrita por Luís de Camões, e segue os modelos greco-b. . A obra, quanto à sua estrutura c. , está dividida em d. e. , constituídos por um número variável de f. (estâncias de oito versos). Os versos são todos g. . Quanto à estrutura h. , a epopeia camoniana divide-se em i. partes: a Proposição, a j. , a k. e a Narração. Há ainda a considerar quatro l. estruturais, a saber: o m. da n. , o plano o. , o plano da História de Portugal e o plano das p. do q. . 2. Faça corresponder as ideias da coluna A às passagens da epopeia camoniana pre-

sentes na coluna B. Coluna A

[A] O poeta reflete sobre a fragilidade humana.

[1] “Vai César sojugando toda a França / E as armas não lhe impedem a ciência; / Mas, numa mão a pena e noutra a lança,” [2] “Sem vergonha o não digo, que a razão / […] É não se ver prezado o verso e a rima, / Porque quem não sabe arte, não na estima.”

[B] O herói, à boa maneira clássica, deve ser completo: guerreiro e dotado culturalmente.

[C] Os portugueses, na sua opinião, desprezam as artes e as letras.

[D] O poeta tece considerações de caráter autobiográfico, criticando aqueles que o perseguiam em vez de valorizarem os seus serviços à pátria.

[E] O poeta sente-se cansado, não de cantar, mas de constatar que não é escutado nem recompensado.

[F] Camões reflete sobre o poder do ouro, capaz de corromper todos os homens.

222

Coluna B

[3] “Nas naus estar se deixa, […] / Que não se fia já do cobiçoso / Regedor, corrompido e pouco nobre. […] Veja agora o juízo curioso / Quanto no rico, assi como no pobre, / Pode o vil interesse e sede immiga / Do dinheiro, que a tudo obriga.” [4] “No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho / Destemperada e a voz enrouquecida, / E não do canto, mas de ver que venho / Cantar a gente surda e endurecida. / O favor com que mais se acende o engenho / Não no dá a Pátria […]” [5] “[…] Mas, ó cego, / Eu, que cometo, […] Por caminho tão árduo, longo e vários […] / […] há tanto tempo que […] / A Fortuna me traz peregrinando […] Não bastava / Que tamanhas misérias me cercassem, / […] aqueles que eu cantando andava […] / Trabalhos nunca usados me inventaram […]” [6] “Oh! Grandes e gravíssimos perigos, / Oh! Caminho da vida nunca certo, / Que, aonde a gente põe a sua esperança, / Tenha a vida tão pouca segurança! […] Que não se arme e se indigne o Céu sereno / Contra um bicho da terra tão pequeno!”

Os Lusíadas

GRAMÁTICA 1. Leia com atenção as seguintes frases. a. Pensa-se que os navegadores, que eram muito esforçados, trouxeram glória ao país. b. Quando regressaram da Índia, os nautas pareciam extenuados. c. O marinheiro e o Adamastor tiveram uma conversa longa. d. O povo ofereceu gentilmente uma recompensa a Vasco da Gama. e. A Índia foi explorada há alguns séculos pelos nossos antepassados. f. A descoberta do caminho marítimo para a Índia constitui um passo essencial

na construção do Império. 1.1

Indique a função sintática dos segmentos sublinhados em cada frase.

1.2

Reescreva as frases c. e d., pronominalizando os segmentos em que tal seja possível.

1.3

Indique em que voz (ativa ou passiva) se encontram as frases d. e e.

1.4

Reescreva as frases d. e e., transformando a frase ativa em passiva ou a voz passiva em ativa.

2. Considere as frases abaixo apresentadas. a. Se os portugueses não tivessem chegado à Índia, o Oriente seria desconhecido. b. Asseguro-vos que nunca tinha havido heróis tão corajosos. c. Os nautas eram tão aventureiros que não temeram os perigos do mar. 2.1

Classifique a oração sublinhada em cada frase.

2.2 Indique em que tempo se encontram as formas verbais destacadas a negrito nas

frases a. e b.

E S C R I TA Observe a imagem.

Hylas and the Nymphs, 1896, John William Waterhouse, Galeria de Arte de Manchester, Inglaterra.

Num texto expositivo (80 a 120 palavras), associe a imagem a um momento concreto do episódio da Ilha dos Amores, focando os seguintes aspetos:

• local onde se passa a ação;

PROFESSOR Gramática 1.1 a. "que eram muito esforçados" – modificador do nome apositivo; "ao país" – complemento indireto b. "da Índia"– complemento oblíquo, "extenuados" – predicativo do sujeito c. "O marinheiro e o Adamastor" – sujeito (composto); "longa" – modificador do nome restritivo d. "uma recompensa" – complemento direto; "a Vasco da Gama" – complemento indireto; e. "pelos nossos antepassados" – complemento agente da passiva f. "do caminho marítimo para a Índia" – complemento do nome; "essencial" – modificador do nome restritivo; "do Império" – complemento do nome 1.2 c. Eles tiveram-na. d. Ele ofereceu-lha gentilmente. 1.3 d. voz ativa; e. voz passiva. 1.4 d. Uma recompensa foi gentilmente oferecida a Vasco da Gama pelo povo. e. Os nossos antepassados exploraram a Índia há alguns séculos. 2.1 a. Oração subordinada (adverbial) condicional; b. Oração subordinada (substantiva) completiva; c. Oração subordinada (adverbial) consecutiva. 2.2 a. Pretérito-mais-que-perfeito composto do conjuntivo; b. Pretérito mais-que-perfeito composto do indicativo. Escrita Este quadro poderia representar um dos marinheiros (se ignorarmos o vestuário do jovem), que se encanta com a beleza das jovens a banharem-se num dos regatos da ilha. Inicia-se, então, um convívio amistoso. Os olhares das jovens são sedutores e todas requisitam a atenção do homem. A água, os tons castanhos e os verdes sugerem um local fresco e sombrio, convidativo aos jogos amorosos. As flores amarelas nos cabelos das ninfas realçam o seu tom castanho arruivado, que contrasta com a pele cor da neve, pintada assim à maneira petrarquista. (90 palavras)

• personagens intervenientes; • os tons predominantes. 223

Almeida Garrett

PA R A AVA L I A R

Os Lusíadas

PROFESSOR

GRUPO I GRUPO I Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.9; 15.3 1. As estâncias selecionadas pertencem à Dedicatória, momento em que o poeta vai dedicar o seu poema a D. Sebastião, referindo também a proeminência em termos geográficos do reino que o monarca lidera, como se pode comprovar em “Vós, poderoso Rei, cujo alto Império / O Sol, logo em nascendo, vê primeiro” (est. 8, vv. 1-2) e ainda em “Inclinai por um pouco a majestade / Que nesse tenro gesto vos contemplo” (est. 9, vv. 1-2). 2. O rei D. Sebastião é caracterizado como muito jovem (“Que nesse tenro gesto vos contemplo”, est. 9, v. 2), mas muito corajoso e capaz de causar terror aos mouros (“Vós, que esperamos jugo e vitupério / Do torpe Ismaelita cavaleiro, / Do Turco Oriental e do Gentio”, est. 8, vv. 5-7). É bondoso (“Os olhos da real benignidade / Ponde no chão […]”, est. 9, vv. 5-6) e digno de alcançar eterna glória (“Quando subindo ireis ao eterno templo”, est. 9, v. 4). 3. O poeta pede ao rei que se digne a olhar para a sua obra, pois nela verá o engrandecimento da pátria, pelos feitos realizados pelo povo luso. 4. O poeta recorre a várias formas verbais no imperativo (“Inclinai”; “Ponde”; “Ouvi”), pois está a formular um pedido a D. Sebastião: que este preste atenção à epopeia que lhe é dedicada e que enaltece o povo que governa. 5. O canto do poeta é superior, dado basear-se em feitos concretos e reais: “Em versos divulgado numerosos” (est. 9, v. 8). Por isso, o poeta afirma que o rei não verá “com vãs façanhas, / Fantásticas, fingidas, mentirosas, / Louvar os [nossos feitos] (est. 11, vv. 1-3), mas verá apenas as “Que excedem as sonhadas, fabulosas, / Que excedem Rodamonte e o vão Rugeiro” (est. 11, vv. 6-7).

224

Leia com atenção as estâncias seguintes. 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro, Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando dece o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério1 Do torpe Ismaelita2 cavaleiro, Do Turco Oriental e do Gentio Que inda bebe o licor do santo Rio3:

10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quási eterno; Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno5, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de tal gente.

9 Inclinai por um pouco a majestade Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo4; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos.

11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas Que excedem as sonhadas, fabulosas, Que excedem Rodamonte6 e o vão Rugeiro7 E Orlando8, inda que fora verdadeiro. Luís de Camões, Os Lusíadas (Canto I)

1 2 3 4 5 6 7 8

domínio e injúrias turcos Ganges templo da fama eterna superior personagem de Orlando Enamorado, de Boiardo, poeta italiano do séc. XV personagem de Orlando Furioso, de Ariosto, poeta italiano do séc. XVI palavra italiana correspondente à francesa Roland, herói da Chanson de Roland, poema do fim do séc. XI

1. Insira, de forma justificada, as estâncias selecionadas na estrutura interna do poe-

ma épico. 2. Apresente três traços caracterizadores do destinatário do poeta, comprovando a

sua resposta com elementos textuais. 3. Explicite o pedido formulado pelo poeta nos quatro últimos versos da estância 9. 4. Comente o recurso às formas verbais no imperativo, identificando-as. 5. Justifique a excecionalidade do canto do poeta, recorrendo a duas expressões tex-

tuais pertinentes.

GRUPO II

Museu interativo e parque temático dedicado aos Descobrimentos abriu no Porto

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1 10

15

Os Descobrimentos têm parque temático recentemente inaugurado no Porto. O Infante D. Henrique dá as boas vindas a quem chega ao World of Discoveries, o museu interativo que é também uma experiência sobre a glória dos portugueses nos séculos XVI e XVII. O espaço recria, à escala real, alguns episódios históricos permitindo visualizar aquilo que habitualmente nos chega através de livros. Com recurso a suportes tecnologicamente avançados e à interação com atores vestidos à época pretende-se suscitar o interesse dos visitantes pelos Descobrimentos portugueses. A viagem começa em ambiente de exposição, com réplicas de embarcações da época e instrumentos de navegação. Para continuar a saber mais sobre a matéria, os visitantes são convidados a interagir com os suportes tecnológicos instalados, como os globos 4D que desvendam a evolução da cartografia ou os painéis interativos que exploram o contexto sociocultural envolvente.

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25

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3 35

A encenação e interação de atores com os visitantes procuram fazer desta visita uma experiência inesquecível. Fomos surpreendidos por um “marinheiro” que acabou por nos convidar a visitar a sua nau, onde é possível, entre outras coisas, experimentar a réplica de uma cama a bordo e perceber como era apertado e pequeno o espaço disponível. Mas há também fidalgos, donzelas e ilustres personagens a circular pelo espaço. Passando a área de estaleiro naval, entra-se naquela que será a grande “viagem” do visitante. Convidado a embarcar numa réplica de uma caravela, dá início a uma volta ao mundo que tem partida da medieval Lisboa, onde se pode avistar a Torre de Belém ainda em construção, com passagem pelo Norte de África, cabo das Tormentas, Moçambique, floresta equatorial, Índia, Timor, Japão, China e Brasil. Os cenários são detalhados e com passagens interessantes, como as cortinas de fumo com projeção de imagens ou a onda gigante que envolve estes marinheiros de água doce. […]

http://canelaehortela.com/world-of-descoveries (consultado em fevereiro de 2017).

1. Depois de ler o texto, selecione a alternativa que completa corretamente cada afir-

PROFESSOR

mação. 1.1

O parque temático agora inaugurado no Porto [A] poderá substituir o que se lê em livros.

Apresentação Solução Ficha de Avaliação

[B] recria alguns factos/acontecimentos históricos. [C] relembra a história apenas com recurso a tecnologias. 1.2

A experiência será inolvidável graças à [A] visita que as pessoas fazem às naus. [B] cartografia e aos painéis interativos expostos. [C] encenação e à interação entre atores e visitantes.

225

Almeida Garrett

PA R A AVA L I A R

PROFESSOR GRUPO II Leitura 8.1 1.1 [B] 1.2 [C] 1.3 [A]

Os Lusíadas 1.3 A visita aos diferentes territórios conquistados pelos portugueses faz-se [A] embarcando numa réplica de uma caravela que passa por espaços recriados. [B] através de dramatizações preparadas pelos atores. [C] pela manipulação das várias tecnologias disponibilizadas. 2. Classifique o sujeito do primeiro período do texto. 3. Identifique a função sintática desempenhada pelos constituintes abaixo apresen-

Gramática 18.1; 18.4

tados. a. “a quem chega ao World of Discoveries” (l. 3)

2. Sujeito composto. 3. a. Complemento indireto b. Complemento do nome c. Modificador (do grupo verbal) d. Complemento agente da passiva 4. a. Oração subordinada (adverbial) final b. Oração subordinada (adjetiva) relativa (restritiva) 5. Campo lexical. 6. “os globos 4D”.

b. “dos visitantes pelos Descobrimentos portugueses” (l. 11) c. “em ambiente de exposição” (l. 12) d. “por um ‘marinheiro’” (l. 22) 4. Classifique as seguintes orações. a. “Para continuar a saber mais” (l. 14) b. “que tem partida da medieval Lisboa” (ll. 31-32) 5. Identifique a relação semântica existente entre “onda”, “marinheiro” e “caravela”. 6. Indique o referente do pronome sublinhado em “que desvendam a evolução da car-

tografia” (l. 17).

GRUPO III Escrita 11.1; 11.2; 12.1; 12.2; 12.4; 13.1 Resposta de caráter pessoal, contudo os alunos devem referir os seguintes tópicos: o momento da partida de Lisboa (Restelo); a despedida festiva, com pompa e circunstância; a nobreza e o clero em primeiro plano na praia (o vermelho e os dourados no vestuário indiciam o estatuto social), seguidos do povo; Vasco da Gama é o último a embarcar, despedindo-se de Portugal; as naus com as velas preparadas para receber o vento, algumas nuvens num céu azul, o mar calmo (indício de boa viagem); a cruz de oito pontas, símbolo da Ordem de Cristo, representante da fé cristã. Tudo denuncia um país em expansão, o início de um império.

226

GRUPO III Observe a imagem.

A partida de Vasco da Gama para a Índia, 1900, Alfredo Roque Gameiro, Biblioteca Nacional de Portugal

Num texto de apreciação crítica (100 a 140 palavras), associe a imagem a um momento concreto de Os Lusíadas, recorrendo a uma linguagem valorativa e focando os seguintes aspetos: • local onde se passa a ação; • personagens intervenientes; • tons predominantes; • estrutura tripartida do texto.

MÓDULO

3

2. História Trágico-Marítima PARA CONTEXTUALIZAR | PARA INICIAR PARA DESENVOLVER

Educação Literária Capítulo V, "As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho" Leitura Apreciação crítica Exposição sobre um tema Relato de viagem Escrita Síntese Apreciação crítica Oralidade [Compreensão/Expressão Oral] Documentário [Compreensão do Oral] Gramática Geografia do português no mundo [Aprender/Aplicar]

• Funções sintáticas • Subordinação • Tempos e modos verbais • Relações semânticas • Classe de palavras • Campo lexical PARA SABER | PARA VERIFICAR | PARA RECUPERAR | PARA AVALIAR

PARA CONTEXTUALIZAR

1539

1565

1578

1596

1735-36

Nascimento de Jorge de Albuquerque Coelho

Embarque de Jorge de Albuquerque Coelho para Portugal na nau “Santo António”

Partida de Jorge de Albuquerque Coelho com D. Sebastião para Alcácer Quibir

Falecimento de Jorge de Albuquerque Coelho

Publicação dos primeiros volumes da História Trágico-Marítima no reinado de D. João V

Início da atividade do Santo Ofício em Portugal

Desaparecimento de D. Sebastião na Batalha de Alcácer Quibir

Atente nos seguintes tópicos, para melhor compreender esta época, bem como na obra que nela se insere e que irá ser objeto de estudo.

Os naufrágios

5

10

15

20

Os relatos de naufrágios

• Jorge de Albuquerque Coelho embarcou para Portugal

• De cariz narrativo, a Viagem ocupa lugar obrigatório e im-

no navio “Santo António”, e a sua Viagem foi uma das mais tormentosas que pode imaginar-se, tanto que a descrição dessa infeliz travessia figura na história marítima. • A fome afligia os míseros náufragos e foram necessárias a constância e a coragem de Jorge de Albuquerque para evitar muitos atos de desespero. Navegando ao acaso e sem probabilidade alguma de chegar a um porto qualquer, foi quase por milagre que conseguiram chegar à costa portuguesa. • Foram acolhidos com muita curiosidade e compaixão, e razão havia para isso, porque nunca mais tão horrível drama se passará sobre as águas do mar. • Em 1578, Jorge de Albuquerque foi encarregado, no exército que D. Sebastião levou à fatal expedição africana, do comando duma coluna de cavalaria. • O rei Filipe II, desejando cativar homem de tanta fama, ofereceu-lhe auxílio para poder manter a província americana de que era donatário e Jorge de Albuquerque aceitou. Porém, não voltou ao Brasil, fazendo-se representar pelo filho Duarte, quando este chegou à idade própria. Ficou em Portugal, onde morreu, provavelmente, nos princípios do século XVII, uma vez que em 1596 ainda estava vivo.

portante na expressão literária de todos os tempos e de todos os povos. • N’Os Lusíadas já estão presentes os perigos e os erros da Viagem, começando a desenhar-se a contraluz elegíaca1 que há de marcar os relatos de naufrágios reunidos na série da “História Trágico-Marítima”.

5

Construído a partir de José Augusto Cardoso Bernardes, História crítica da literatura portuguesa. Humanismo e Renascimento, vol. II, Lisboa, Editorial Verbo, pp. 293-294, 296.

5

• A viagem era oficialmente justificada como estando ao serviço de Deus; por isso, os relatos de naufrágios baseavam-se na conexão causal entre Culpa e Castigo. • A estrutura narrativa destes relatos obedece a um registo experiencial, sendo ou não o narrador personagem participante na história que assume uma matriz verosímil ou fantástica. Construído a partir de José Augusto Cardoso Bernardes, História crítica da literatura portuguesa. Humanismo e Renascimento, vol. II, Lisboa, Editorial Verbo, pp. 297-298.

Elaborado a partir de http://epl.di.uminho.pt/~ritafaria/MEC/ instanciaConceito.php?conc=Biografia&id=97.

1

228

“contraluz elegíaca” – face negativa dos Descobrimentos.

PARA INICIAR COMPREENSÃO DO ORAL Visione, com atenção, um excerto do documentário da RTP, intitulado História Trágico-Marítima – os naufrágios do Império. A autoria e a apresentação do programa são do historiador Fernando Rosas. 1. Complete os tópicos das partes A e B com a informação recolhida no do-

cumentário.

História Trágico-Marítima – os naufrágios do Império, RTP

A. Expansão marítima Séculos em que ocorreu

a.

Principais rotas

b.

Consequências negativas da expansão

c.

Principais mercadorias transportadas

d.

B. Naufrágio da nau “Nossa Senhora dos Mártires” Local de partida da nau

a.

Local do naufrágio

b.

Causa do naufrágio

c.

Mercadoria que se espalha pelo rios e pelas praias

d.

Número de corpos que aparecem na praia

e.

Quantidade de mercadoria afundada

f.

PROFESSOR

2. Assinale a única causa do elevado número de naufrágios das naus da carreira da

Índia, entre os séculos XVI e XVIII, que não é referida neste documentário. a. Deficiente preparação das naus. b. Carga excessiva das naus. c. Partida com condições meteorológicas desfavoráveis.

Link História Trágico-Marítima – os naufrágios do Império Oralidade 1.3; 1.4; 1.5; 1.7; 2.1

d. Ataque dos corsários. e. Inexperiência de alguns marinheiros. 3. Das afirmações seguintes, indique as que correspondem às características do do-

cumentário, patentes no excerto que acabou de visionar. a. O documentário é um género ficcional. b. O documentário parte sempre de dados factuais. c. O documentário apresenta um caráter autoral, traduzindo a opinião/visão do seu autor sobre o tema abordado. d. O documentário integra múltiplas linguagens, de modo a configurar uma visão global do tema tratado. e. O documentário tem uma finalidade estética.

A 1. a. XVI a XVIII b. Asiática e brasileira c. Naufrágios, perdas humanas e materiais d. Pimenta, ouro, diamantes, escravos B a. Índia b. Esporão rochoso do forte de S. Julião da Barra c. Tempestade d. Pimenta e. 200 f. 20 000 toneladas 2. d. Ataque dos corsários. 3. b., c., d., f.

f. O documentário tem uma finalidade informativa.

229

H i s t ó r i a Tr á g i c o - M a r í t i m a

EXPRESSÃO ORAL Resolva oralmente as atividades propostas, após a leitura do poema.

Poema da malta das naus Lancei ao mar um madeiro, espetei-lhe um pau e um lençol. Com palpite marinheiro medi a altura do sol. 5

10

PROFESSOR

15

Oralidade 3.2; 4.2; 5.1; 5.3 1. a. Tanto o documentário como o poema retratam o período dos Descobrimentos. b. As dificuldades comuns são a pobreza, a guerra e as doenças. c. Mar revolto, vagas altas, condições propícias a contrair doenças. d. Necessidade de se recomendarem a Deus e esperar a sua ajuda. e. O documentário remete para a realidade, enquanto o texto poético sugere o imaginário.

20

Deu-me o vento de feição, levou-me ao cabo do mundo. Pelote1 de vagabundo, rebotalho de gibão2. Dormi no dorso das vagas, pasmei na orla das praias, arreneguei, roguei pragas, mordi peloiros3 e zagaias4.

25

30

35

Tremi no escuro da selva, alambique de suores. Estendi na areia e na relva mulheres de todas as cores. Moldei as chaves do mundo a que outros chamaram seu, mas quem mergulhou no fundo Do sonho, esse, fui eu. O meu sabor é diferente. Provo-me e saibo-me a sal. Não se nasce impunemente nas praias de Portugal. António Gedeão, Teatro do Mundo, Coimbra, Atlântida Editora, 1958.

Chamusquei o pelo hirsuto, tive o corpo em chagas vivas, estalaram-me as gengivas, apodreci de escorbuto. Com a mão direita benzi-me, com a direita esganei. Mil vezes no chão, bati-me, outras mil me levantei. Meu riso de dentes podres ecoou nas sete partidas. Fundei cidades e vidas, rompi as arcas e os odres.

1

vestuário de grandes abas colete esfarrapado 3 bala 4 lança 2

1. Estabeleça uma comparação entre este poema e o documentário que visionou,

identificando: a. a época referida/aludida; b. as dificuldades comuns; c. as condições atmosféricas/climatéricas; d. os aspetos religiosos; e. a associação à realidade/ficção dos dois documentos.

230

“As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho ( 1565)”

LEITURA Leia atentamente o seguinte texto expositivo.

A carreira da Índia

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30

Em 1592, partiu de Goa a nau “Chagas”, capitaneada por Francisco de Melo, tendo por mestre Manoel Dias e por piloto João da Cunha. Cedo se juntou a outras duas naus vindas de Cochim – a “Santo Alberto” (capitão Julião de Faria Cerveira) e a “Nossa Senhora da Nazareth” (capitão Braz Correia). As três vinham carregadas em excesso, como era uso na carreira da Índia, tanto de mercadorias valiosas, como os famosos “bisalhos” de pedraria1, como de fidalgos, pessoas nobres e gente do povo. O atraso na partida, o excesso de carga e a tormenta2 encontrada ao largo do cabo da Boa Esperança obrigaram à separação da frota à arriba3 da “Chagas” a Moçambique, onde teve de invernar4. A “Santo Alberto” não foi tão afortunada e viu abrir-se-lhe o costado, entrando tanta água que nem o alijamento5 de parte da carga nem a evacuação da água com bombas, baldes e barris conseguiram impedir que o navio se afundasse cada vez mais. A tripulação acabou por fazê-la encalhar na costa, num naufrágio tornado célebre por uma narrativa de João Baptista Lavanha. Algo de semelhante aconteceu com a “Nazareth”. Por gozar de reputação de grande navegabilidade e ter uma tripulação capaz e experimentada, tinha sido muito procurada pelos passageiros de retorno ao Reino. Demasiadas pessoas viajavam nela, com o consequente excesso de mercadorias. Sobrevindo-lhe um temporal, a nau abriu pelas “picas e delgados da proa, desfazendo-se-lhe as ligações em vários locais, saindo a estopa e o calafate do cavername6”, o que ocasionou a entrada de água. Com grande custo, a tripulação conseguiu chegar a Moçambique, onde encalhou, procedendo à descarga das mercadorias. Os sobreviventes da “Santo Alberto”, os passageiros da “Nazareth” e a maior parte da sua carga foram então acolhidos a bordo da “Chagas”, a única sobrevivente da armada de 1592. O excesso de carga e de passageiros (mais de 270 escravos e 130 portugueses) era tal que parte do convés ficava por vezes submersa, o que levava a que a nau, ainda no porto, fizesse já água. Apesar deste contratempo, a embarcação conseguiu dobrar o cabo, tendo, porém, a tripulação que alijar parte da mercadoria. Entre seguir para a ilha de Santa Helena, como era habitual, ou para Luanda, o capitão optou pela última hipótese, devendo-se tal escolha à interdição da ida a Santa Helena por regimento do rei Filipe II “por lhe constar estar a ilha infestada de corsários ingleses”. Visão História, Naufrágios e Tesouros, A grande aventura dos mares, n.o 37, setembro 2016, p. 54

1. O texto descreve as dificuldades vividas pela tripulação de uma armada que fazia

a carreira da Índia. 1.1

Indique o nome de cada uma das naus que compunham a armada.

1.2 Refira os locais de partida das naus. 2. Ao longo da viagem, a armada enfrentou várias dificuldades. 2.1 Apresente dois exemplos dessas dificuldades.

1

«”bisalhos” de pedraria» bolsinha onde se traziam pedrarias ou preciosidades 2 tempestade 3 costa alta e escarpada 4 passar o inverno 5 aliviar a carga do navio 6 partes constituintes e materiais usados nas embarcações

PROFESSOR Leitura 7.1; 8.1 1.1 As naus chamam-se “Chagas”, “Santo Alberto” e “Nossa Senhora de Nazareth”. 1.2 A “Chagas” partiu de Goa e as outras duas de Cochim, na Índia. 2.1 As naus enfrentaram vários problemas, entre eles o excesso de mercadorias e de pessoas e a tempestade (tormenta) vivida ao largo do cabo da Boa Esperança, que obrigou à separação da armada. 3. A “Santo Alberto” e a “Nazareth” encalharam ao largo do cabo da Boa Esperança; a “Chagas” conseguiu dobrar o cabo e aportou em Luanda.

3. Indique o destino final de cada uma das naus.

231

HP iasdt ór er i aA Tr n táógni ci oo- MV ai er íitri am a

PARA DESENVOLVER

As aventuras e desventuras dos Descobrimentos

INFORMAR

A História Trágico-Marítima

5

10

15

Frontispício da Historia Trágico-Marítima, Lisboa, 1735. PROFESSOR 20

PowerPoint® História Trágico-Marítima − Contextualização histórico-literária 25

Leitura 8.1; 8.2 Educação Literária 14.3; 14.7; 15.1; 16.1 1. a. História Trágico-Marítima b. Bernardo Gomes de Brito c. Dois d. Reinado de D. João V (1735-1736) e. “em que se escrevem chronologicamente os Naufragios que tiveraõ as Naos de Portugal, depois que se poz em exercicio a Navegação da India” (ll. 5-6) f. “misto de crónica e de reportagem jornalística” (l. 11) g. “da devastação e da ruína de homens e de bens no «mar português» (ll. 22-23) h. “profundo sentimento de crise e de declínio” (l. 24)

232

Em pleno reinado de D. João V, ainda sob o influxo de uma cultura tardo-barroca, Bernardo Gomes de Brito publica em Lisboa − oficina da Congregação do Oratório, 1735-1736 − os dois primeiros volumes (previam-se mais três) de uma antologia de naufrágios, sucessivamente reeditada até aos nossos dias e intitulada História Trágico-Marítima, em que se escrevem chronologicamente os Naufragios que tiveraõ as Naos de Portugal, depois que se poz em exercicio a Navegação da India. Recolhendo e ordenando cronologicamente uma dúzia de relatos de naufrágios ocorridos sobretudo na longa e difícil “carreira da Índia”, a obra do erudito setecentista reafirmava o interesse histórico-literário, a notável popularidade e o sucesso editorial dessas relações de viagens atribuladas e desastres marítimos. […] Num misto de crónica e de reportagem jornalística ante litteram − “relatos quase jornalísticos” (João Gaspar Simões) −, normalmente assinadas por autores mais ou menos conhecidos, as relações de naufrágio conheceram uma enorme circulação editorial e desencadearam apreciáveis sentimentos de comoção universal. Num topos1 recorrente, implícita ou expressamente, a vivacidade e o dramatismo dos relatos transmitia a constante ideia de realismo dramático e cinético2, face à novelística da época e mesmo à tradicional literatura de viagens, ora mais factual ora mais dada a mirabilia3. […] Os relatos de naufrágios que acompanharam a época das grandes descobertas expressam a funesta ruína de vidas e destruição de fazendas, inaugurando uma literatura de perda, centrada na dimensão mais negra e trágica desse período áureo da História de Portugal − a da devastação e da ruína de homens e de bens no “mar português”. Já a partir de finais de Quinhentos, a imagem do naufrágio expressava um profundo sentimento de crise e de declínio; e a trágica estatística dos desastres da carreira da Índia, bem como alguns relatos cronísticos, são por si só bem eloquentes. José Cândido de Oliveira Martins, “História trágico-marítima”, in Vítor Aguiar e Silva (coord.), Dicionário de Luís de Camões. Alfragide, Editorial Caminho, 2011, pp. 410-412. 1

tema; 2 relativo a movimento; 3 coisas admiráveis ou maravilhas.

1. Selecione a informação mais relevante para dar resposta aos seguintes tópicos. Título da antologia

a.

Responsável pela sua publicação

b.

Número de volumes publicados

c.

Data de publicação

d.

Conteúdo da obra

e.

Género literário

f.

Realidade(s) retratada(s)

g.

Sentimento(s) despertado(s)

h.

“As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho ( 1565)”

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Os excertos que se apresentam pertencem ao capítulo V da História Trágico-Marítima − narrativas de naufrágios da época dos Descobrimentos*, “As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho”, uma adaptação de António Sérgio. EXCERTO 1

Antecedentes – missão de Jorge de Albuquerque Coelho

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35

*FIXAÇÃO DE TEXTO

História Trágico-Marítima – narrativa de naufrágios da época dos Descobrimentos (adaptação de António Sérgio e ilustrações de André Letria), Lisboa, Sá da Costa Editora, edição Expresso, 2008.

Como se sabe, no tempo do rei D. João III foi o Brasil dividido em capitanias, cada uma concedida a um donatário. A de Pernambuco, uma das que primeiro se povoaram e que logo alcançou grande importância, coube a um fidalgo de reto espírito, nobre, perseverante, trabalhador, que tinha por nome Duarte Coelho. Parece que dispunha de consideráveis recursos e é de supor que esses seus haveres fossem o resultado de trabalhos longos que passou em África e no Oriente. Alcançada a mercê real, transferiu-se logo para o Brasil, acompanhado de muitos dos seus parentes. Sob a sua hábil administração, a capitania prosperou. Passados alguns anos, resolveu vir até à metrópole, a fim de angariar colonos novos e contratar industriais competentes com que pudesse desenvolver a sua empresa. Confiou a um seu cunhado, Jerónimo de Albuquerque, o governo da capitania, e embarcou acompanhado de seus filhos: Duarte Coelho de Albuquerque e Jorge de Albuquerque Coelho, que tivera de sua mulher, Dona Brites de Albuquerque. Na metrópole veio a falecer Duarte Coelho em 1554; e, já no tempo em que a rainha Dona Catarina, avó do rei D. Sebastião, governava Portugal durante a menoridade do seu neto, chegou nova do Brasil, e especialmente de Pernambuco, de que a maior parte das tribos indígenas se levantara ali contra os portugueses, pondo cerco aos principais lugares daquela colónia de Pernambuco. Ordenou pois Dona Catarina que Duarte de Albuquerque Coelho, herdeiro da capitania, a fosse sem demora socorrer; e, entendendo ele que lhe seria utilíssima a companhia e ajuda de seu irmão, Jorge de Albuquerque Coelho, suplicou à rainha regente que lhe desse ordem de o acompanhar; e assim ela fez. Chegou em 1560 a Pernambuco, não contando mais de vinte anos de idade; e, havendo chamado a conselho alguns padres da Companhia de Jesus e várias personagens entre as principais da terra, assentou-se entre todos, ponderado lance, que se elegesse por chefe militar da capitania a Jorge de Albuquerque Coelho, o qual, como lhe disseram que cumpria ao bem público o aceitar ele e servir tal cargo, o aceitou, e se aventurou, e se esforçou muitíssimo, correndo risco de perder a vida no zeloso cumprimento dos seus deveres. Começou o ataque aos inimigos naquele mesmo ano de 1560, com tropa de soldados e de criados seus, que alimentava, vestia e calçava à sua custa.

233

HP iasdt ór er i aA Tr n táógni ci oo- MV ai er íitri am a As aventuras e desventuras dos Descobrimentos PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6; 14.7; 15.2; 16.1

40

1. [C] – [A] – [D] – [G] – [B] – [J] – [E] – [F] – [H] – [I] Gramática 18.4

45

1. a. Complemento indireto b. Complemento oblíquo c. Sujeito 2. a. Oração subordinada adjetiva relativa restritiva. b. Oração subordinada substantiva completiva.

50

Prosseguiu nas operações de guerra através de montes e de desertos, durante verões e durante invernos, de noite e de dia, passando grandíssimos trabalhos, sendo ele e os seus soldados feridos pelo gentio muitas vezes, e combatendo a pé e a cavalo. Frequentemente, não tinham mais que para comer do que os caranguejos do mato que encontravam, cozinhados de farinha de pau e fruta selvagem daqueles campos. Quando acampavam, faziam os escravos choupanas de palma, em que se agasalhava toda a tropa. Com estes cuidados que sempre tinha e com as boas palavras que lhes dizia, consolava e contentava a sua gente. Entrada uma aldeia dos inimigos, corria logo sobre a mais próxima e a tomava assim com facilidade, por não terem tempo de se fazerem prestes. Com esta diligência e brevidade, pacificou em cinco anos a capitania. Quando chegara, não ousavam os moradores da vila de Olinda sair mais que duas léguas pela terra dentro, e ao longo da costa, três ou quatro; ao fim daquele tempo, podiam ir até vinte pelo interior, e sessenta léguas ao logo da costa, − as que tinha a capitania no seu âmbito. Então, deixando essa colónia conquistada, e os indígenas quietos e pacíficos com pedirem paz que lhes outorgaram, embarcou para a metrópole na nau “Santo António”, na qual viagem se deram os casos que nesta narrativa se contêm. 1. Ordene as afirmações seguintes, de acordo com a lógica sequencial do texto. [A] A capitania de Pernambuco foi atribuída a Duarte Coelho, um nobre fidalgo que

enriqueceu à custa do seu trabalho em África e no Oriente. [B] Após a morte de Duarte Coelho, Dona Catarina ordenou ao herdeiro da capita-

nia que a fosse socorrer, pois estava a ser ameaçada pelos indígenas. [C] No reinado de D. João III, o Brasil estava dividido em capitanias. [D] A capitania de Pernambuco prosperou durante a governação de Duarte Coelho. [E] Jorge de Albuquerque Coelho assumiu a chefia militar da capitania de Pernambuco. [F] Jorge de Albuquerque Coelho era um jovem aventureiro, lutador, corajoso e

cumpridor dos seus deveres. [G] A partida de Duarte Coelho para a Metrópole levou à entrega da capitania a seu

cunhado. [H] Sob o comando militar de Jorge de Albuquerque Coelho, a capitania de Per-

nambuco alcançou a paz e alargou o seu território. [I] Jorge de Albuquerque Coelho embarcou para a Metrópole após a pacificação da

capitania. [J] Duarte de Albuquerque Coelho pediu ajuda a seu irmão Jorge de Albuquerque

Coelho para governar a capitania.

GRAMÁTICA 1. Identifique as funções sintáticas dos constituintes sublinhados. a. “A de Pernambuco […] coube a um fidalgo de reto espírito” (ll. 2-4) b. “Parece que dispunha de consideráveis recursos” (ll. 4-5) c. “faziam os escravos choupanas de palma” (l. 42) BLOCO INFORMATIVO –

pp. 271-273, 277

2. Classifique as orações. a. “que passou em África e no Oriente” (l. 6) b. “que lhe desse ordem de o acompanhar” (l. 22)

234

“As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho ( 1565)”

EDUCAÇÃO LITERÁRIA A viagem de Jorge de Albuquerque Coelho até Portugal anuncia-se desastrosa logo desde a sua partida. EXCERTO 2

Partida

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40

Carregada a nau de muita fazenda no belo porto de Olinda, deu à vela com o vento em popa a 16 de maio de 65. Não eram ainda bem saídos da barra quando se acalmou o vento com que partiram; logo depois se lhes tornou contrário, os levou de través e os atirou para um baixo, onde permaneceram por quatro marés e se viram em risco de se perderem, o que lhes teria sem dúvida acontecido se fossem então os mares mais grossos. Acudiram-lhes com presteza muitos batéis, que lograram salvar a gente toda e a maior parte da carregação. Porém, nem assim descarregada se desencalhou, pelo que decidiram cortar os mastros; então, nadou e saiu dos baixos. Tornada a nau ao porto da vila, foi examinada por oficiais para verem se poderia seguir viagem; e, por acharem que não recebera dano que a impossibilitasse para a navegação, se tornou a preparar e a carregar. Vários amigos de Albuquerque Coelho, vendo que ele pensava em reembarcar na nau, quiseram dissuadi-lo de tal proceder pelos maus princípios que já tivera; mas nem ele, nem os demais passageiros quiseram dar ouvidos a tais prognósticos, e tornaram a embarcar na “Santo António”, que largou enfim da vila de Olinda a 29 de junho de 65. Cinco dias depois da largada mudou o vento de maneira súbita, tornando-se tão contrário e de tal violência que trataram de alijar1 fazenda ao mar, por isso que a nau lhes mareava2 mal, pela muita carga com que dali partira. Pela tarde piorou ainda e o casco3 abriu água. Davam à bomba continuamente, às seis mil zonchaduras4 entre noite e dia. Pouco depois, um pé de vento quebrou o gurupés5. Finalmente, já nos doze graus de latitude norte, o vento acalmou. Andaram dezanove dias em calmarias, acompanhadas de trovoadas. Resolveram, então, demandar6 uma das ilhas de Cabo Verde, em cuja latitude se encontravam para tirarem a água que no navio entrava e repararem a avaria do gurupés. A 29 de julho, não estando já longe de uma das ilhas, deram vista de uma nau e de uma zabra7 de franceses. Estes seguiram a “Santo António” e às três horas da noite estavam tão perto que vieram à fala com a nossa gente, intimando-a a que se rendesse. Mas entendendo então da nossa nau que se estava aparelhando para defender-se, não ousaram acometê-la durante a noite, e deixaram-se andar na sua esteira, para tentarem abordá-la pela madrugada. Na antemanhã, porém, caiu uma trovoada muito forte, que os obrigou a apartarem-se uns dos outros, sem que pudessem ver-se na cerração. No dia seguinte, 31 de julho, tentaram enfim demandar a ilha. Quando estavam já perto, o vento começou a soprar da terra, e muito rijo. Tiveram por isso de desistir, apesar da muita água que então faziam. Correram assim até 37 graus (latitude norte). Deviam achar-se bastante para oeste, porque a nau, com os ventos contrários, abatera muito. (Nesse tempo, ainda só se calculava a latitude, pela altura da estrela polar ou pela altura meridiana do Sol; a longitude não se calculava, e apenas se estimava pelo caminho andado, imperfeitissimamente). 235

HP iasdt ór er i aA Tr n táógni ci oo- MV ai er íitri am a As aventuras e desventuras dos Descobrimentos

45

50

55

Então, durante uma semana, foram outra vez as calmarias, − dias de repouso físico relativo, passados na monotonia de um balanço lento, sonolento, que impacientava. No dia 29 de agosto começou a soprar uma brisa larga, animadora e próspera. O plano, agora, era demandar o arquipélago dos Açores, para ver se numa das ilhas se consertava a nau, e se tapava, finalmente, a muita água que ela estava fazendo. Já por esse tempo se passava muita fome e muita sede; e, sabendo Jorge de Albuquerque Coelho a necessidade dos tripulantes e dos passageiros, e que não havia na nau mais mantimentos que o que ele trazia para si e para os seus criados, mandou colocar tudo adiante de todos e repartiu mui irmãmente pela companhia, sem nada pretender para si próprio, se bem que toda a gente lho quis pagar por lhe valer muito. Tudo o generoso fidalgo recusou: com o que ficaram todos mui contentes e se sustentaram por espaço de alguns dias. No entanto, levantaram-se grandes brigas e discórdias entre marinheiros e passageiros; mas Jorge de Albuquerque, sabedor do caso, interveio, − e lá os foi acalmando e pondo em paz. 1

tirar ou deitar fora; 2 andava, governava; 3 parte do navio que assenta na água; 4 operação de levantar o zoncho ou o êmbolo da bomba do navio, para fazer subir a água; 5 mastro colocado na extremidade da proa, para diante, formando com a horizontal um ângulo de 30 a 40 graus; 6 procurar; 7 embarcação pequena.

1. Complete a síntese do excerto com os conectores adequados e os marcadores

temporais em falta.

PROFESSOR Escrita 12.3

1. a. Porém b. dois dias c. apesar de d. Cinco dias e. que f. onde g. A 29 de julho h. No entanto i. Assim j. Contudo l. a 29 de agosto m. Mas n. que

No dia 16 de maio de 1565, a nau “Santo António” partiu carregada da vila de Olinda. a. , devido a ventos contrários, foi arrastada para um baixio, onde perma, tendo voltado, depois, a terra para ser reneceu durante b. muiparada. O reembarque deu-se a 29 de junho de 1565, c. tos amigos de Albuquerque Coelho o terem aconselhado a não partir, dado o estado da embarcação. d. depois, a violência dos ventos obrigou os marinheiros a alijar e rompeu o casco da nau, e. começou a deixar entrar água. Quando o vento amainou, seguiu-se um período de dezanove dias de calmaria, após o qual os navegadores tentaram chegar a Cabo Verde, f. pretendiam reparar a nau. g. , avistaram uma embarcação de corsários franceses e prepararam-se para se defenderem. h. , uma tempestade afastou as embarcações e os franceses desistiram do ataque. i. , na manhã seguinte, a nau portuguesa continuou a sua rota, rumo a Cabo Verde. j. , os ventos contrários não permitiram a aproximação à ilha e os marinheiros desistiram do seu objetivo. Seguiu-se uma semana de calmaria, até que, l. , se levantaram ventos favoráveis e os navegadores decidiram rumar aos Açores para tentarem novamente consertar a nau. Com todas estas atribulações, a fome e a sede atingiram a tripulação. m. Jorge de Albuquerque Coelho, com a sua bondade e sabedoria, repartiu os seus alimentos por todos, ao mesmo tempo que tentava acalmar as discórdias n. surgiam devido à escassez de alimentos e ao cansaço. BLOCO INFORMATIVO – p. 283

236

“As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho ( 1565)”

INFORMAR

PROFESSOR Leitura 7.1; 8.1

As embarcações portuguesas foram de importância determinante para a época dos Descobrimentos.

1. Barco de alto bordo, espaçoso e lento, com três cobertas e velas quadradas no mastro principal.

e a imagem e leia o texto, no sentido de identificar algumas característica Observe características das ortuguesas. naus portuguesas.

Esquema (desenho técnico de nau), Páginas da História, manual de História 8.° ano, Porto, Edições ASA, 2014, pp. 28-29.

A nau

5

A nau é um barco de alto bordo, relativamente curto, espaçoso e lento, com lotação de 500 a 1000 toneladas, com três cobertas, velas quadradas no mastro principal e no traquete1, e triangulares no de mezena2: em meados do século XVI é também introduzida uma vela quadrada no mastro posterior e faz a sua aparição o mastro de contramezena3. É a embarcação por excelência, com o casco erguido à popa e à proa a formar dois “castelos”, sendo o primeiro destinado ao alojamento dos passageiros ricos.

1

a maior vela do mastro da proa (parte dianteira do barco) 2 mastro mais próximo da ré do navio (parte traseira do barco) 3 mastro do navio oposto ao da mezena

Giulia Lanciani, Sucessos e naufrágios das naus portuguesas, Lisboa, Caminho, 1997, pp. 34-35.

1. Refira três características das naus portuguesas.

237

HP iasdt ór er i aA Tr n táógni ci oo- MV ai er íitri am a As aventuras e desventuras dos Descobrimentos

EDUCAÇÃO LITERÁRIA O caráter de Jorge de Albuquerque Coelho é constantemente posto à prova. EXCERTO 3

Encontro com os corsários

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A 3 de setembro, navegando eles em demanda das ilhas, alcançou-os uma nau de corsários franceses, bem artilhada e consertada, como costumavam. Vendo o piloto, o mestre e os demais tripulantes da “Santo António” que não iam em estado de se defenderem, pois mais artilharia não havia a bordo que um falcão1 e um só berço2 (afora as armas que o Albuquerque trazia, para si e para os seus criados) determinaram de se render. Jorge de Albuquerque, porém, opôs-se a isso com a maior firmeza. Não! por Deus, não! Não permitisse Nosso Senhor que uma nau em que vinha ele se rendesse jamais sem combater, tanto quanto possível! Dispusessem todos ao que lhes cumpria, e ajudassem-no na resistência: pois somente com o berço e com o falcão tinha ele esperança que se defenderiam! Só sete homens, contudo, se lhe ofereceram para o acompanhar; e com esses sete, e contra o parecer de todos os demais, se pôs às bombardas com a nau francesa, às arcabuzadas3, aos tiros de flecha, determinado e enérgico. Durou esta luta quase três dias, sem ousarem os franceses abordar os nossos pela dura resistência que neles achavam, apesar de os combatentes serem tão poucos e de não haver senão o berço e o falcão, aos quais Jorge de Albuquerque pessoalmente carregava, bordeava, punha fogo, por não vir na viagem bombardeiro, ou quem soubesse fazê-lo tão bem como ele. Ora, vendo o piloto, o mestre, os marinheiros, que havia perto de três dias que andavam eles neste trabalho; que recebiam os nossos muito dano dos tiros disparados pelos franceses, e que já lhes ia faltando a pólvora, − pediram ao fidalgo e aos que o ajudavam que consentissem enfim na rendição, pois lhes era impossível o prosseguir na defesa: não fossem causa de os matarem a todos, ou de os meterem no fundo! Responderam a isto os combatentes que estavam decididos a não se renderem enquanto capazes para pelejar. Os outros, vendo-os assim determinados, deram de súbito com as velas em baixo, e começaram a bradar para os franceses: entrassem, entrassem na nau, que se lhes rendia! Os que combatiam, indignados, quiseram matar o piloto e o mestre, pelo ato de fraqueza a que forçavam todos; não tardou, 30 porém, que subissem e entrassem dezassete franceses, armados de espadas, de broquéis, de pistoletes, e alguns deles com alabardas. Num instante se assenhoriaram da nau. Verificando a maneira como vinha esta, perguntaram com que artilharia e que mu35 nições se haviam defendido tantos dias, e o número dos homens que combatiam. Responderam-lhes que só Jorge de Albuquerque fizera tudo, para o carregarem a ele com toda

“As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho ( 1565)”

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a culpa. Ouvindo isto, dirigiu-se o capitão dos franceses a Jorge de Albuquerque Coelho com o rosto soberbo e melancólico, e disse-lhe assim: − Que coração temerário é o teu, homem, que tentaste a defesa desta nau tendo tão poucos petrechos de guerra, contra a nossa, que vem tão armada, e que traz seis dezenas de arcabuzeiros? Ao que respondeu o Albuquerque Coelho, bem seguro de si: − Nisso podes ver que infeliz fui eu, em me embarcar em nau tão despreparada para a guerra; que se viera aparelhada como cumpria, ou trouxera o que a tua traz de sobejo, creio que tivéramos, tu e eu, estados diferentíssimos em que estamos. Aliás, a boa fortuna que tivestes, agradece-a à traição desses meus companheiros – o mestre, o piloto, os marujos, − que se declararam contra mim: pois se me houvessem ajudado, como me ajudaram estes amigos, não estarias aqui como vencedor, nem eu como vencido. Contraveio o capitão francês: − Não te desconsoles, amigo: é isto fortuna da guerra, que hoje favorece uns, amanhã outros. Pelo bom soldado que tu és, far-te-ei muito boa companhia e àqueles que te ajudaram a combater: que tudo merece quem faz o que deve, cumprindo a obrigação da sua pessoa. 1

pequena peça de artilharia; 2 peça de artilharia curta; 3 inflamar a pólvora.

1. Releia o primeiro parágrafo. 1.1

Descreva por palavras suas a nau dos corsários franceses.

1.2 Refira o argumento apresentado por Jorge de Albuquerque para não se render aos

corsários franceses. 2. Caracterize Jorge de Albuquerque a partir do seu comportamento perante o ata-

que dos corsários, descrito no segundo parágrafo. 3. Justifique a atitude do capitão francês em relação a Jorge de Albuquerque, presen-

te no último parágrafo. 4. Apresente dois exemplos deste excerto que contribuam para o relato das aventu-

ras e desventuras dos Descobrimentos.

GRAMÁTICA 1. Releia o último parágrafo do texto. 1.1

Indique a expressão que desempenha a função sintática de vocativo.

PROFESSOR Educação Literária 14.1; 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6; 14.7; 15.1; 15.2; 16.1 1.1 A nau dos corsários franceses apresentava-se bem artilhada e em bom estado, o que era costume nestas embarcações estrangeiras. 1.2 Jorge de Albuquerque não aceitava a rendição sem combater, mesmo que os seus meios de defesa fossem escassos em relação às armas da nau francesa. 2. Jorge de Albuquerque revela uma grande coragem, altruísmo e dedicação à causa que defende. 3. O capitão dos franceses louva a atitude de Jorge de Albuquerque, pela forma como combateu e defendeu a nau, não o considerando um vencido, mas um inimigo digno de respeito. Por isso, promete tratá-lo com a consideração que merece. 4. Ao longo deste excerto, a tripulação da “Santo António” debate-se com vários problemas, entre eles o estado deplorável da nau, sem artilharia suficiente para se defender; o ataque que sofreu por parte dos corsários, bem mais apetrechados que os portugueses, e ainda a traição de alguns elementos da tripulação. Gramática 18.1; 18.4 1.1 “amigo” (l. 53). 1.2 “que hoje favorece uns, amanhã outros” (ll. 53-54). 1.3 “far-te-ei” (l. 54). 2. a. Complemento direto b. Complemento indireto 3. Oração subordinada substantiva completiva.

1.2 Transcreva a oração subordinada adjetiva relativa explicativa. 1.3 Retire um exemplo de uma forma verbal no futuro do indicativo. 2. Indique a função sintática dos pronomes nos segmentos: a. “alcançou-os uma nau” (l. 1) b. “Responderam-lhes que só Jorge de Albuquerque” (ll. 36-37) 3. Classifique a oração “que consentissem enfim na rendição” (l. 22).

BLOCO INFORMATIVO –

pp. 271-273, 267-268

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HP iasdt ór er i aA Tr n táógni ci oo- MV ai er íitri am a As aventuras e desventuras dos Descobrimentos PROFESSOR Leitura 7.3; 7.6; 8.1; 8.2 1. O estudo Sucessos e naufrágios das naus portuguesas, de Giulia Lanciani. 2. “sedutora temática” (l. 2); “útil e alargada antologia” (ll. 22-23); “pressupõe um aturado labor” (ll. 35-36); “esta importante obra” (ll. 40-41); “uma referência obrigatória” (l. 44). 3. A obra é uma referência obrigatória para quem se dedica à Literatura de Naufrágios (ll. 43-45).

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LEITURA A celebração dos 500 Anos dos Descobrimentos Portugueses, bem como a opção pela temática dos Oceanos para o Ano Internacional de 1998 – ambas combinadas na Exposição Mundial de Lisboa, Expo' 98 – incentivou a publicação de vários estudos/livros relacionados histórica e literariamente com estes temas. Um desses estudos foi Sucessos e naufrágios das naus portuguesas, publicado em 1997, da autoria de Giulia Lanciani, professora de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Roma. Leia um excerto da apreciação crítica a esta publicação e responda às questões.

Sucessos e naufrágios das naus portuguesas

A obra [Sucessos e naufrágios das naus portuguesas, de Giulia Lanciani] centra-se na sedutora temática dos relatos de naufrágios dos séculos XVI e XVII, coligidos por Bernardo Gomes de Brito nos dois volumes da História Trágico-Marítima (Lisboa, 1735-36), um dos mais belos monumentos da anónima epopeia negra da Literatura Portuguesa. […] [N]a primeira parte, a autora […] começa por refletir sobre as razões explicativas de um género peculiar da literatura de viagens (relato de naufrágio) e suas funções moralizantes, didascálicas ou educativas, mas também ideológicas ou civilizadoras; discorre, depois, sobre a "matriz literária" das narrativas de naufrágio, assinalando os procedimentos que configura o modelo narrativo dos relatos de naufrágio; por fim, explicita o modelo narrativo dos relatos de naufrágio, enumerando, critica e exemplificadamente cada uma das partes ou unidades fundamentais, com suas variantes: antecedentes – partida – tempestade – naufrágio e arribada – peregrinação / ou (sequência alternativa) ataque corsário – captura – impiedade dos inimigos – retorno. A segunda parte, constituída por uma útil e alargada antologia (pp. 181-562), edita oito relatos de naufrágio, em integral e cuidada transcrição textual. Os textos são retirados da História Trágico-Marítima, a começar pela

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modelar "Relação da mui notável perda do Galeão Grande S. João...", mais conhecida como Naufrágio de Sepúlveda; até à breve "Relação do sucesso que teve o patacho chamado N. Sra. da Candelária...". […] Por conseguinte, tem o mérito de ser a primeira e única edição deste importante relato de naufrágio. Procurando superar os compreensíveis erros das sucessivas edições dos relatos de naufrágios, originalmente publicados em populares folhetos de cordel pelos séculos XVI e XVII, esta publicação de Giulia Lanciani pressupõe um aturado labor em bibliotecas e arquivos nacionais e estrangeiros, como se depreende, aliás, do aparato crítico do trabalho da professora italiana. Numa época de redescoberta do valor literário e cultural da Literatura de Viagens e de Naufrágios, […] esta importante obra de Giulia Lanciani apresenta-se a um público vasto, com destaque para professores e alunos do ensino secundário e superior. Constitui-se, assim, como uma referência obrigatória no âmbito peculiar da cativante Literatura de Naufrágios, que comporta hoje uma vasta bibliografia crítica e cujo profundo e alegórico simbolismo, em forma de retórica da decadência pátria, atravessa praticamente toda a Literatura Portuguesa, desde a Renascença até à contemporaneidade. J. Cândido Martins, in http://alfarrabio.di.uminho.pt/ (adaptado, consultado em fevereiro de 2017).

1. Identifique o objeto em apreciação. 2. Destaque três expressões reveladoras da opinião do autor do artigo acerca do ob-

jeto em causa. 3. Apresente um argumento que, segundo o autor, justifica a importância da obra de

Giulia Lanciani.

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“As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho ( 1565)”

LEITURA

As viagens dos Descobrimentos

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Ao longo do século XIV, toda a Europa atravessava uma grave crise económica. Portugal não era exceção. Todos os grupos sociais procuravam expandir-se em busca de uma nova vida, mas a paz com Castela cedo definiu as fronteiras portuguesas. No entanto, o contacto com o mar fez-nos um povo de marinheiros e pescadores, atraídos pelo desconhecido. A situação geográfica de Portugal, a sudoeste da Europa, com a sua faixa litoral voltada para o Atlântico e com uma costa recortada com bons portos, era propícia à navegação. O país voltou-se para o mar, Portugal lançou-se na Expansão Marítima. Na época, já se faziam viagens pelos portos de Inglaterra, França, Flandres, Norte de África (Navegação de Cabotagem) e desde tempos muito antigos que se navegava no Mediterrâneo. Verificavam-se, ainda, grandes progressos na construção naval e na ciência náutica, graças à presença, entre nós, de marinheiros genoveses e catalães. Nas primeiras viagens, realizadas com barcas, navegava-se junto à costa e os marinheiros não tinham grande dificuldade de orientação. Utilizavam-se as cartas náuticas, onde se escolhia o destino, seguia-se o roteiro da viagem e mantinha-se o rumo com a agulha de marear (bússola). A arte de navegar não era muito diferente da utilizada pelos marinheiros do Mediterrâneo. No entanto, o espírito aventureiro, corajoso e destemido do povo português fez com que as viagens fossem cada vez mais longe, avançando em mares ignorados. Sem cartas nem roteiros que orientassem os pilotos, era necessário contornar com cuidado os promontórios, observar os ventos, os abrigos e prestar atenção ao quebrar das ondas, para se evitarem os baixios. Nas viagens de exploração, a tarefa essencial que competia aos marinheiros era a de colherem todas as informações sobre o oceano navegado e os lugares que visitavam. Assim se atualizavam os roteiros e se passavam as informações aos cartógrafos, que melhoravam o rigor das cartas. Destas novas se aproveitavam aqueles que repetissem as mesmas navegações. Até ao final da Idade Média, os conhecimentos geográficos eram poucos e estavam envolvidos em imensas lendas. Acreditava-se que a Terra era um disco plano que pairava no espaço, circulando à sua volta os outros corpos celestes, como a Lua, o Sol e as estrelas visíveis no céu (Teoria Geocêntrica). O Cabo Bojador tinha fama de horrores. Ficava a caminho da região equatorial, junto a um imenso deserto. Não se sabia se o mundo acabaria ali. Helena Maria Teixeira et alii, in http://www.prof2000.pt/users/hjco/Descoweb/Pg000400.htm (adaptado, consultado em fevereiro de 2017).

1. Identifique o tema do texto.

E S C R I TA Redija, em 100 a 130 palavras, a síntese do texto.

Mapa do Mundo de Ptolomeu, in Claudii Ptolomaei Alexandrini (1467). PROFESSOR Leitura P R O F E S S O R 7.1 1. O texto refere-se às navegações, àquilo que as motivou, bem como ao alargamento de conhecimentos que as viagens marítimas proporcionaram. Escrita 11.1; 13.1 Ao longo do século XIV, a Europa atravessava uma grave crise económica e, por isso, aspirava-se a uma nova vida. A situação geográfica de Portugal, com uma vasta costa com bons portos, era propícia à navegação. Assim, os portugueses voltaram-se para o mar, começando a Expansão Marítima. A necessidade e o espírito aventureiro dos lusos reclamavam novas paragens, mas eram necessários grandes progressos na construção naval e na ciência náutica. Eram também essenciais as viagens de exploração, dado permitirem informações sobre os oceanos e os territórios visitados. Deste modo, procedia-se à atualização dos roteiros, que facilitavam o progresso da cartografia e auxiliavam os que navegavam de novo por estas paragens. Tudo isto contribuiu para aumentar os conhecimentos geográficos e desmistificar lendas e mitos criados durante a Idade Média. (128 palavras)

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HP iasdt ór er i aA Tr n táógni ci oo- MV ai er íitri am a As aventuras e desventuras dos Descobrimentos

EDUCAÇÃO LITERÁRIA A viagem de Jorge de Albuquerque Coelho na nau “Santo António” enfrenta mais um dos muitos obstáculos, desta vez a Natureza em fúria. EXCERTO 4

Tempestade 1

lufada 2 fazendo estrondo 3 a mais baixa e maior vela redonda do mastro de proa 4 longa peça de madeira que se coloca horizontalmente sobre os mastros, para nela se prenderem as velas 5 venda que pendia de uma verga atravessada no gurupés 6 parte mais avançada da proa 7 vela latina do mastro de ré 8 atirados, arremessados 9 pavimento ou andar do navio 10 brilhavam intensamente, ameaçavam 11 o lado de onde sopra o vento 12 tempestade no mar

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Às dez, escureceu por completo, parecia noite. O negro mar, em redor, todo se cobria de espumas brancas; o estrondo era tanto, − do mar e do vento, − que uns aos outros se não ouviam. Nisto, levanta-se de lá uma vaga altíssima, toda negra por baixo, coroada de espumas; e, dando na proa com um borbotão1 de vento, galga sobre ela, a submerge, e arrasa. Estrondeando2 e partindo, leva o mastro do traquete3 com a sua verga4 e enxárcia; leva a cevadeira5, o castelo de proa, as âncoras; estilhaça a ponte, o batel, o beque6, arrebatando pessoas, mantimentos, pipas. Tudo se quebra e lá vai no escuro. A nau, até o mastro grande, fica rasa e submersa, e mais de meia hora debaixo de água. Os sobreviventes, que se arrastavam pávidos, confluem a um padre que se acha a bordo e atropela as rezas e as confissões. Um relâmpago risca, ilumina a treva: veem-se todos de joelhos, com as mãos no ar, a pedir misericórdia e a clamar por Deus. Jorge de Albuquerque, como de costume, falava aos outros para lhes dar coragem. Confiassem em Deus, − e ao mesmo tempo fossem dando à bomba, esgotando a água que invadira o convés. Enquanto houver vida – dizia-lhes – trabalhem todos por a conservar. E se Deus dispusesse por outra forma, tivessem paciência ante os seus decretos: somente Ele sabe o que nos é melhor. Com estas palavras os persuadia à faina. Deram à bomba, com imensa dificuldade de se aguentarem de pé, e esgotaram a água. Mas outro vagalhão se lançou sobre a nau. Cobrindo o convés, arrebatou o mastro grande, verga, vela, enxárcias, camarotes, borda; levou o mastro da mezena7 com o aparelho todo, uma parte da popa, e também um dos franceses dos de maior jerarquia. Os portugueses que trabalhavam na bomba foram logo arrojados8 aqui e além; cobertos pelo mar, todos se convenceram de que se afogariam. Levantaram-se aos poucos, queixando-se este de que partira um braço, aquele uma perna. Ficou tudo mergulhado por algum tempo; e o mar, depois, dava ainda pelos joelhos dos desgraçados. Mandou Albuquerque alguém à coberta9, para ver a água que nela entrava. Só lhe faltavam três palmos para chegar acima, e a encher de todo. Fuzilavam10 relâmpagos; a força do vento, a imensidade das ondas, aterravam os ânimos; a água que entrava vinha cheia de areia. Jorge de Albuquerque, apesar de tudo, consolava os tristes, afirmando-lhes a esperança de se saírem daquilo. O mastro grande, quando caiu, ficou preso na enxárcia; por debaixo de água, passara para a banda de barlavento11; e de aí, jogado na vaga, dava choques horríveis de encontro ao costado, que tremia todo com som cavernoso. Enfim, vieram uns mares que o levaram para longe, e de mais esse tormento se viram livres. Passados três dias, em que continuamente se deu à bomba, começou enfim a bonançar a procela12.

1. Indique duas sensações presentes no primeiro parágrafo, referindo a sua importânPROFESSOR

cia para o ambiente de tempestade descrito. 2. Refira duas características de Jorge de Albuquerque neste momento da viagem,

fundamentando a sua resposta com expressões textuais. 3. Transcreva do segundo período do sexto parágrafo um exemplo de enumeração

e comente a sua expressividade.

E S C R I TA Observe o seguinte quadro.

Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6; 14.7; 15.1; 15.2 1. No primeiro parágrafo estão presentes a sensação visual (“escureceu por completo, parecia noite”, l. 1) e a sensação auditiva (“o estrondo era tanto”, l. 2). Estas sensações contribuem para criar um ambiente tempestuoso, medonho, que aterrorizava a tripulação. 2. Jorge de Albuquerque, perante o ambiente de medo vivido, mostrava-se solidário com a tripulação (“falava aos outros para lhes dar coragem”, ll. 15-16) e determinado (“Enquanto houver vida – dizia-lhes – trabalhem todos por a conservar”, ll. 17-18). 3. “arrebatou o mastro grande, verga, vela, enxárcias, camarotes, borda” (ll. 22-23) – a enumeração exprime a violência da tempestade que assolou a nau, atingindo todas as partes da embarcação, que não resistiram à força das ondas e do vento. Escrita 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1

Tempestade-Naufrágio, 1823, William Turner (1775-1851), The British Museum, Inglaterra.

Elabore um texto de apreciação crítica, de 130 a 180 palavras, sobre o quadro acima. O texto deverá obedecer a um plano prévio, apresentando uma estrutura tripartida.

· Introdução: identificação do quadro, do autor e da época. · Desenvolvimento: – descrição sucinta do objeto, organizada do geral para o particular (elementos da composição e seu simbolismo… ), integrando os elementos observados; – cores e espaço; – situação e articulação com a obra em análise; – apreciação pessoal (valorativa ou depreciativa), associando o quadro ao tema/ assunto dos textos abordados neste módulo (viagens, perigos do mar…).

· Conclusão: síntese das principais ideias e reforço da apreciação.

Tópicos a abordar: – Quadro de William Turrner, pintor inglês do século XIX; retratando uma tempestade. – Em primeiro plano, a violência das águas e do vento expressa pela forma das ondas, pela cor (negro, verde-escuro, cinza, branco da espuma) e pela indefinição entre céu e mar. – Em segundo plano, as embarcações “perdidas” no emaranhado das ondas, frágeis perante a força da tempestade. – Tela que retrata, de forma muito realista, a força dos elementos da Natureza, perante a fragilidade das embarcações da época do pintor, o que a aproxima da descrição dos problemas enfrentados pelas naus portuguesas do tempo das Descobertas e da fase pós-expansionista.

BLOCO INFORMATIVO – p. 283

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HP iasdt ór er i aA Tr n táógni ci oo- MV ai er íitri am a As aventuras e desventuras dos Descobrimentos

EDUCAÇÃO LITERÁRIA Depois de tantas aventuras e desventuras, eis que se avizinha a Pátria amada. EXCERTO 5

Regresso a Lisboa

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Mais três dias se passaram assim, no trabalho contínuo de dar à bomba. A 2 de outubro, entre a neblina, pareceu-lhes divisar arrumação de terra. Cerca do meio-dia, dissipou-se a névoa. Maravilha! Deus louvado! Era a serra de Sintra! Lá estava, ao cimo das rochas, a própria casa da Senhora da Pena! […] Ao outro dia, 3 de outubro, amanheceram chegados ao cabo da Roca; e indo já a nau para dar à costa, passou perto uma caravela, que se dirigia para a Pederneira. Suplicaram-lhe socorro; pagar-lho-iam bem. – Que Jesus lhes valesse, responderam eles; nada, não queriam perder tempo na sua viagem… E seguiram avante, sem nenhum dó. Pouco depois, felizmente, avistaram uma barca pequenina, que navegava para a Atouguia. Começaram a bradar-lhes, de joelhos, que lhes valessem, e estando a barca a um tiro de berço, logo lhes acudiu com muita pressa. Vinha a bordo dessa barca um Rodrigo Álvares de Atouguia, mestre e senhorio dela, e uns parentes e amigos seus. Todos começaram a esforçar os da nau. Não temessem nada; não os desamparariam, ainda que com risco de se perderem eles próprios. Não desejavam por isso prémio algum. Vendo o estado em que estavam os da nau, ficaram atónitos. Logo lhes deram pão, água e frutas, que para si traziam. O senhorio da barca, tanto que acabou de lhes dar de comer, passou-lhes um cabo de reboque com que afastaram a nau da rocha e a foram trazendo ao longo da costa até à baía de Cascais, aonde chegaram pelo sol-posto. Acorreram botes, em que se meteram; uns desembarcaram ali em Cascais; outros só em Belém tomaram terra. A nau, durante a noite, ficou amarrada à poupa da barca, por não ter âncora com que fundeasse. No dia seguinte, o cardeal infante D. Henrique, que governava o Reino, fez expedir uma galé que a fosse trazendo pelo rio acima. Fundeou a nau, finalmente, diante da igreja de S. Paulo, onde numerosa gente a foi visitar, espantando-se do destroço em que a viam posta.

PROFESSOR

1. Partindo da leitura deste excerto final da História Trágico-Marítima, complete o quaEducação Literária 14.4; 14.5; 14.7 1. a. “Maravilha! Deus louvado! Era a serra de Sintra!” (l. 3) b. “passou perto uma caravela […] não queriam perder tempo na sua viagem… E seguiram avante, sem nenhum dó.” (ll. 7-10) c. “avistaram uma barca pequenina […] logo lhes acudiu com muita pressa.” (ll. 11-13). d. Estado faminto da tripulação. e. Estado deplorável da nau.

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dro abaixo, com os factos ou com as expressões que ilustram as aventuras e desventuras dos Descobrimentos, aquando do regresso da tripulação da nau “Santo António”. Aventuras e desventuras dos Descobrimentos Factos Entusiasmo e agradecimento pelo regresso. Abandono por parte dos “grandes” que os veem chegar. Acolhimento por parte dos “pequenos” que os veem chegar.

Exemplificação textual a. b. c.

d.

“Logo lhes deram pão, água e frutas” (ll. 18-19)

e.

“espantando-se do destroço em que a viam posta.” (ll. 27-28)

“As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho ( 1565)”

GRAMÁTICA 1. Indique os vários tipos de embarcações referidos no excerto. 1.1

PROFESSOR

Refira a relação semântica entre o termo “embarcações” e as palavras que indicou.

2. Complete a grelha com palavras ou expressões associadas ao termo navegar, reti-

radas do texto, de acordo com o exemplo. Nome

Verbo

Nau

Dar à bomba

a.

a.

b.

b.

c.

c.

d.

d.

3. A palavra navegar surge no texto com o significado de viajar por mar, mas pode

adquirir outros sentidos, de acordo com o contexto em que surge. Interprete o significado da palavra nas frases abaixo, associando-a à definição correta. a. Os jovens passam muito tempo a navegar na Internet. b. Como não estudam nada, andam completamente a navegar. c. Quem se aventura em terras desconhecidas arrisca-se a navegar em águas turvas. d. Navegar no espaço poderá ser uma opção turística ainda no nosso século. 1. andar sem rumo 3. utilizar (a Internet)

Gramática 19.3; 19.6 1. Caravela, barca, nau, bote, galé. 1.1 Relação de hiperonímia/ hiponímia: embarcações – hiperónimo; caravela, barca, nau, bote, galé – hipónimos. 2. Nome: a. Caravela b. Viagem c. Barca d. Mestre Verbo: a. Dar à costa b. Desembarcaram c. Tomaram terra d. Fundeasse 3. a. 3 b. 1 c. 4 d. 2 Escrita 12.4

2. viajar no espaço

4. meter-se em sarilhos, perder-se

BLOCO INFORMATIVO – p. 282

E S C R I TA

1.1 a. casco b. velas c. enxárcias d. mastro e. leme f. convés

1. A nau “Santo António” partiu do Brasil carregada de mercadoria, rumo a Portugal.

Mas ao longo da viagem foram vários os perigos que enfrentou. 1.1

Complete os espaços em branco com os termos abaixo indicados, que correspondem às diferentes partes de uma nau (consulte a informação da página 237). • convés

• velas

• mastro

• enxárcias

• casco

• leme

O vento arrastou a nau para um baixio, o que fez com que o a. abris, as se e a água entrasse. As fortes rajadas de vento rasgaram as b. c. partiram, o d. quebrou. O e. ficou pendurado só por um ferro e não era possível conduzir a nau com ele naquele estado. Os marinheiros sofriam muito com todos estes perigos e com a fome que surgia após tanto tempo no mar. Alguns caíam no f. da nau sem força para se levantarem.

245

HP iasdt ór er i aA Tr n táógni ci oo- MV ai er íitri am a As aventuras e desventuras dos Descobrimentos PROFESSOR

COMPREENSÃO / EXPRESSÃO ORAL

Leitura / Ed. Literária 9.3; 9.5; 9.7; 12.1; 20.4; 21.2; 22.1

1. Ouça atentamente o poema de José Régio, interpretado pelo grupo musical The

Gift no seu álbum “Amália Hoje”, e complete-o com os vocábulos em falta.

Link “Amália Hoje – Fado

1. Português” 1.º Chegada ao cais; 2.º Barca do Diabo; 3.º Barca do Anjo; 4.º Barca do Diabo. Oralidade 2. O Fidalgo 1.3; 3.2;mostra-se 4.1; 4.2; 5.1; arrogante e altivo, 5.3; 6.1; 6.2; 6.3 desprezando o Diabo e a sua barca. A sua atitude está 1. a. amurada relacionada com os símbolos b. veleiro que traz consigo (a cadeira, c. marinheiro o Pajem e o manto), que d. tamanha caracterizam o Fidalgo do e. monte ponto de vista social (nobreza) f. flores e pessoal (vaidoso e com um g. frutas sentimento de superioridade h. ceguinho relativamente aos restantes). i. frágil j. lábio k. beijos l. beija m. Guarda n. que o. faço p. levo q. ou 2. a. A parte final do capítulo V da História Trágico-Marítima articula-se com este poema, na medida em que os marinheiros da História Trágico-Marítima estariam desejosos por regressar a casa, saudosos de reencontrar aqueles que amam, tal como se encontra o marinheiro deste poema. Por outro lado, já junto à costa de Portugal, esteve perto o naufrágio da nau “Santo António”. Ora, a ideia de morte também está, de certo modo, presente no poema de José Régio, nos últimos três versos da penúltima estrofe. b Existe uma estrutura narrativa, pois apresenta-se uma personagem, que é caracterizada (“que, estando triste, cantava”), havendo localização espácio-temporal da ação (“um dia”; “na amurada dum veleiro”) e o recurso ao pretérito perfeito do indicativo (“nasceu”), alternado com o pretérito imperfeito (“cantava”). c. As aspas introduzem o discurso direto, ou seja, a canção/o fado que o marinheiro estaria a cantar.

Fado Português

5

10

15

20

O Fado nasceu um dia, quando o vento mal bulia e o céu o mar prolongava, na a. dum b. , no peito dum c. que, estando triste, cantava, que, estando triste, cantava. “Ai, que lindeza d. , meu chão, meu e. , meu vale, de folhas, f. , g. de oiro, vê se vês terras de Espanha, areias de Portugal, olhar h. de choro.”

25

30

“Mãe, adeus. Adeus, Maria. m. bem no teu sentido n. aqui te o. uma jura: que ou te p. à sacristia, q. foi Deus que foi servido dar-me no mar sepultura.” Ora eis que embora outro dia, quando o vento nem bulia e o céu o mar prolongava, à proa de outro veleiro velava outro marinheiro que, estando triste, cantava, que, estando triste, cantava.

Na boca de um marinheiro do i. barco veleiro, morrendo a canção magoada, diz o pungir dos desejos do j. a queimar de k. que l. o ar, e mais nada, que beija o ar, e mais nada.

José Régio, Poemas de Deus e do Diabo, Famalicão, Quasi Edições, 2016.

2. Faça, oralmente, em 2-3 minutos, uma síntese do conteúdo do poema, observando

os seguintes aspetos: a. relação entre o conteúdo deste poema e o “Regresso a Lisboa”, parte final do capítulo V

da História Trágico-Marítima. b. existência de uma estrutura narrativa; c. recurso às aspas; d. existência de uma paisagem idealizada.

GRAMÁTICA 1. Construa um campo lexical de “navegação”, tendo em conta a última estrofe do poe-

ma.

BLOCO INFORMATIVO – pp. 282, 277,

271-273

246

“As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho ( 1565)”

2. Selecione a opção que completa adequadamente cada afirmação. 2.1 O segmento sublinhado em “O Fado nasceu um dia / quando o vento mal bulia” (vv. 1-2)

corresponde à oração

[A] subordinada adverbial temporal. [B] subordinante. [C] subordinada adverbial causal. [D] subordinada adverbial condicional. 2.2 Os termos sublinhados em “Mãe, adeus. Adeus, Maria.” (v. 21) desempenham a fun-

PROFESSOR d. A paisagem Leitura /éEd. idealizada Literária através 9.3; do9.5; recurso 9.7; 12.1; à 20.4; metáfora 21.2;“frutas 22.1 de oiro”, pois o ouro confere um caráter de excecionalidade, 1. 1.º Chegada aoaos cais;frutos. 2.º Barca de preciosidade do Diabo;também 3.º Barca do Anjo; Remete para Barca do Diabo. o4.ºparaíso perdido. 2. O Fidalgo mos Gramática 18.1; 18.4; 19.5

ção sintática de [A] sujeito e vocativo, respetivamente. [B] sujeito e complemento indireto, respetivamente. [C] vocativo.

1. vento, céu, mar, proa, veleiro, marinheiro 2.1 [B] 2.2 [C] 2.3 [D]

[D] complemento direto e complemento indireto, respetivamente. 2.3 No segmento “dar-me no mar sepultura” (v. 26), o pronome desempenha a função

sintática de [A] sujeito.

Escrita 10.2; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 12.5; 13.1 Resposta de caráter pessoal. No entanto, o aluno poderá focar os seguintes aspetos: a sequência em fila de mulheres de joelhos (como se estivessem numa atitude de súplica) junto aos homens que amam e que partem; a limitação do contacto (eles enclausurados na embarcação, elas no exterior); a fotografia a preto e branco que se adequa a um ambiente de dolorosa despedida; ao contrário do poema, que nos remete para um regresso desejado, queimando a boca do marinheiro dos beijos que ele não dá, aqui as bocas queimam dos beijos que dão, mas que poderão ser os últimos, porque uma viagem por mar poderá não ter regresso, como quase sucedeu com a nau “Santo António”.

[B] predicativo do sujeito. [C] complemento direto. [D] complemento indireto.

E S C R I TA Faça uma apreciação crítica, de 130 a 150 palavras, da fotografia, tendo em consideração os seguintes aspetos:

· descrição sucinta do objeto, partindo do primeiro plano (elementos observados, postura das personagens, sentimentos expressos, cor… );

· apreciação pessoal (valorativa ou depreciativa), associando a imagem ao tema do poema de José Régio e aos textos abordados neste módulo (desventuras das viagens);

· correção sintática e linguística; · diversificação vocabular. Soldados americanos despedindo-se antes da partida para o Egito, 1963, autor desconhecido.

BLOCO INFORMATIVO – p. 283

247

HP iasdt ór er i aA Tr n táógni ci oo- MV ai er íitri am a As aventuras e desventuras dos Descobrimentos

LEITURA Leia o texto e responda, de seguida, aos itens apresentados.

Dois anos a pedalar…

Samos, Grécia.

15

20

25

30

35

[…] Alguém nos perguntava, em tom de balanço, como têm sido estes dois anos de vida vividos ao máximo. Respondemos que o “máximo” que vivemos é pouco convencional, porque é um “máximo” feito de “mínimos”, com o essencial – que já é bastante – de comida, roupa, abrigo. 5 […] No total já lá vão 15 países percorridos, com cerca de 18 000 euros gastos, o que dá uma média de 12 euros por dia, por pessoa, […] e podíamos continuar aqui a desdobrar números, mas matemática nunca foi o meu forte e na ciência dos números não cabe a ciência do que vai cá dentro e, por tal, passemos a outros resu10 mos… Por exemplo, à simbiose que ocorre nas 1427 horas passadas em cima das bicicletas – em que nós e as nossas máquinas nos transformamos num só, numa espécie de Eduardo mãos de tesoura a quem cresceram duas rodas como extensão das pernas – o nosso corpo, […] a nossa mente, a nossa bicicleta uma só entidade. Se alguma não está bem as outras têm de trabalhar em overtime para compensar. […] Dos quinze países por onde passámos, […] muito mais do que o espaço que os seus carimbos ocupam nos nossos passaportes, contam sobretudo os carimbos incontáveis das amizades e dos gestos de generosidade alheia que ficam nas nossas memórias e nas nossas saudades… dos encontros e dos reencontros, do derrubar de ideias preconcebidas que nos fazem pensar que o mundo é a preto e branco quando o mundo é uma paleta de cores infinitas, cheias de nuances. […] Celebrámos os dois anos no Irão, onde o frio, o azul dos mil e um ladrilhos das mesquitas, assim como a generosidade das suas gentes, nos têm preenchido os dias. Esta é não só uma união geográfica que nos afaga os antagonismos, mas, sobretudo, uma que nos desperta para o facto de que as diferenças e a diversidade, afinal, são o que de melhor vamos criando e deixando no mundo como seres humanos. Nos poucos contratempos que enfrentámos, porque nem tudo são alegrias ou facilidades, destacamos a saga financeira e logística dos vistos e as suas limitações temporais que nos encurtaram a estadia e as pedaladas em alguns países que desejávamos ter percorrido na sua totalidade. […] O meu joelho a precisar de descanso e a ensinar-me a lição de que para receber também é importante dar e que uns alongamentos no final do dia se calhar não eram má ideia. Ou o frio do inverno iraniano a travar-nos as pedaladas rumo a casa e a obrigar-nos a ir buscar motivação extra para seguir, resistindo à tentação de nos enfiarmos no próximo voo com destino às praias quentes e paradisíacas da Birmânia – mas os contratempos são, neste contexto, apenas ínfimos detalhes que nos fazem repensar as nossas opções e reajustar planos. […] Joana Oliveira e Nuno Pedrosa, in http://globonautas.net/dois-anos-a-pedalar/ (adaptado, consultado em fevereiro de 2017).

248

“As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho ( 1565)” PROFESSOR

1. Selecione a opção que completa adequadamente cada afirmação. 1.1

Segundo os globonautas, os recursos de que dispõem [A] não são os suficientes. [B] ainda que parcos são os suficientes. [C] não incluem o vestuário. [D] são sobretudo roupa e comida.

1.2 Quando se trata de fazer o balanço dos dois anos de viagem, os autores do relato [A] destacam o dinheiro gasto e os quilómetros percorridos. [B] afirmam que o mais importante é terem viajado juntos por 15 países. [C] asseguram que mais importante do que o dinheiro gasto ou os países

percorridos são os ganhos em termos pessoais. [D] dão igual importância aos ganhos em termos pessoais e aos gastos efetuados. 1.3 Do relato lido, destaca-se como importante a ideia dos globonautas de que [A] a viagem contribuiu para mudar a opinião que tinham sobre o mundo. [B] o mundo é, afinal, aquilo que eles imaginavam que fosse. [C] percorrer tantos países serviu para confirmar que a diversidade não é

uma das características do globo. [D] durante a viagem descobriram que o mundo é a preto e branco. 1.4 Segundo os autores do relato, as adversidades são [A] pequenos pormenores, mas já os levaram quase a desistir da viagem. [B] muito desmotivadoras, embora nunca os tenham levado a desistir. [C] frequentes e muito desmotivadoras. [D] pequenos pormenores solucionados, após redefinição de projetos. 2. Responda de forma correta e contextualizada. 2.1 Explicite o que os viajantes consideram como mais importante nas suas viagens. 2.2 Demonstre que as situações burocráticas e o tempo atmosférico influenciaram

a viagem dos globonautas. 2.3 Clarifique o significado da expressão inglesa "overtime" (l. 16). 2.4 Explique por que consideram eles que “o mundo é uma paleta de cores infinitas,

Leitura 7.1; 7.2; 7.4; 8.1; 9.1 1.1 [B] 1.2 [C] 1.3 [A] 1.4 [D] 2.1 O mais importante são os ganhos em termos de amizade e de convivência, além da perceção da verdadeira realidade no que se refere à diversidade étnica existente no nosso planeta. 2.2 Os problemas legais com os vistos e o tempo meteorológico obrigaram os globonautas a permanecerem menos tempo do que desejariam em alguns países e a não poder visitá-los na sua globalidade. 2.3. Overtime, neste contexto, significa sobrecarga de esforço e de tempo nas situações em que a bicicleta ou a pessoa não se encontra em perfeitas condições (mecânicas ou físicas, respetivamente). 2.4 A expressão poderá significar que as diferenças étnicas e as diversidades morfológicas dos países contribuem para tornar mundo harmonioso e colorido, em vez de monótono e “cinzento”. 2.5 As marcas de género podem ser exemplificadas com os seguintes segmentos textuais: Discurso pessoal – “Dos quinze países por onde passámos” (l. 17); “Nos poucos contratempos que enfrentámos” (l. 29); Dimensão narrativa – “Alguém nos perguntava […] de comida, roupa, abrigo.” (ll. 1-4)

cheias de nuances” (l. 22). 2.5 Exemplifique as marcas de género: discurso pessoal e dimensão narrativa.

GRAMÁTICA 1. Indique o tempo e o modo da forma verbal “têm sido” (l. 1). 2. Reescreva, na primeira pessoa do singular, o primeiro período do último parágrafo. 3. Atente na forma verbal “obrigar-nos” (l. 35). 3.1 Escreva-a no futuro simples do indicativo. 3.2 Identifique a função sintática desempenhada pelo pronome pessoal sublinhado. BLOCO INFORMATIVO – pp. 266-267

Gramática 18.1 1. Pretérito perfeito composto do indicativo. 2. Nos poucos contratempos que enfrentei, porque nem tudo são alegrias ou facilidades, destaco a saga financeira e logística dos vistos e as suas limitações temporais que me encurtaram a estadia e as pedaladas em alguns países que desejava ter percorrido na sua totalidade. 3.1 obrigar-nos-á. 3.2 Complemento direto.

249

v

Geografia do português no mundo

N DE R RE AP

APRENDER

G RA M Á T

ICA

APL ICA

R

Como se pode ver pelo mapa abaixo apresentado, o português encontra-se espalhado por vários continentes. O português europeu corresponde àquele que é falado em Portugal continental, na Madeira e nos Açores. O português não europeu refere-se ao uso da língua portuguesa em países situados em outros continentes, como é o caso do Brasil e dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa). A título de curiosidade, acrescente-se que, recentemente, o português foi decretado, a par do francês e do espanhol, língua oficial na Guiné Equatorial.

PROFESSOR

Apresentação Português europeu e Português não europeu (variedade brasileira e variedade africana)

Documento Mapa – Português, língua oficial no mundo Gramática 17.8; 17.9

“Português – Língua Oficial no Mundo”, in Gramática do Português (coord. Eduardo Raposo), vol. I, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2013, pp. 72-73.

A par da língua oficial portuguesa, muitos países utilizam crioulos, que nasceram da necessidade urgente de comunicação entre falantes com línguas maternas distintas. A colonização e a língua portuguesa (do povo colonizador) está na origem dos crioulos de base portuguesa que possuem um léxico que pertence maioritariamente ao português, ainda que a estrutura gramatical seja a da língua indígena. No quadro abaixo, apresentam-se os principais crioulos de base portuguesa.

Em África, formaram-se dois grupos de crioulos: • Crioulos da Alta Guiné (pertencem a este grupo os crioulos de Cabo Verde e da Guiné-Bissau; são os mais antigos que se conhecem). • Crioulos do Golfo da Guiné (pertencem a este grupo os crioulos de S. Tomé e Príncipe).

250

Na Ásia, os crioulos de base portuguesa desapareceram quase todos ou estão em vias de desaparecimento. Consideram-se três grupos de crioulos: • Indo-portugueses (situam-se na Índia). • Malaio-portugueses (localizam-se na Malásia, em algumas ilhas da Indonésia e em Timor). • Sino-portugueses (são os crioulos de Macau e Hong Kong).

APRENDER

O português no mundo – especificidades sintáticas e morfossintáticas Português Europeu

• Pronomes pessoais em posição pós-verbal – Passa-me o livro. Você senta-se aí! (recurso a hífen)

• Pronome pessoal com função de complemento direto – Eu avistei-o.

Português do Brasil

• Pronomes pessoais em colocação pré-verbal – Me passa o livro. Você se senta aí!

• Pronome pessoal com função de sujeito, usado como complemento direto – Eu avistei ele.

Português de África

• Colocação diferenciada do pronome pessoal – Me passa o livro. Ele diz que você senta-se aí.

• Pronome pessoal com função de complemento indireto, usado como complemento direto – Eu avistei-lhe.

• Supressão da preposição que antecede • Recurso ao verbo haver a anteceder expressões temporais – Ele está em Londres há dois anos.

• Uso de artigo antes de possessivo – A tua mãe já chegou.

• Seleção do conjuntivo em certas orações

• Recurso ao verbo fazer a anteceder expressões temporais – Ele está em Londres faz dois anos.

• Ausência de artigo antes de possessivo – Tua mãe já chegou.

• Seleção do indicativo em certas orações

subordinadas – Foi pena que ele não chegasse a tempo!

subordinadas – Foi pena que ele não chegou a tempo!

• Recurso à 2.a pessoa do singular e/ou

• Recurso à 3.a pessoa do singular e/ou

ao pronome pessoal tu em contextos informais – Tu vais ao cinema?

ao pronome pessoal você em contextos informais – Você vai no cinema?

• Uso do infinitivo impessoal em frases

• Uso do infinitivo pessoal em frases

completivas – Os alunos preferem brincar nos corredores.

completivas – Os alunos preferem brincarem nos corredores.

• Seleção do conjuntivo com talvez

• Seleção do indicativo com talvez

e embora – Talvez ele venha.

• Complexos verbais com recurso a infinitivo precedido da preposição a – A mãe está a fazer o jantar.

• Preposições que antecedem complemento do verbo – Ela foi ao teatro. Ele volta para casa.

o complemento indireto – Entregou os amigos a bola.

e embora – Talvez ele vem.

• Complexos verbais com recurso ao gerúndio – A mãe está fazendo o jantar.

• Alteração no uso de preposições que antecedem complemento do verbo – Ela foi no teatro.

• Alteração no uso de preposições que antecedem complemento do verbo – Ela foi no teatro. Ele volta em casa.

• Utilização transitiva direta de verbos transitivos indiretos – Todos protestaram a iniciativa.

• Utilização transitiva de verbos intransitivos – Estava disposto a evoluir a aldeia.

Há ainda uma grande variação no que diz respeito ao léxico, por influência das línguas nativas, assim como na fonética, sendo mais acentuada a diferença entre o Português do Brasil e a variante europeia, do que entre esta e as variantes africanas.

251

Geografia do português no mundo APLICAR Os três textos seguintes são ilustrativos de três variedades do português: o texto A contém a variedade africana (português de Angola), o texto B a variedade africana (português de Moçambique) e o texto C a variedade do português do Brasil.

TEXTO A

5

10

15

O Jika era o mais novo da minha rua. Assim: o Tibas era o mais velho, depois havia o Bruno Ferraz, eu e o Jika. Nós até às vezes lhe protegíamos doutros mais-velhos que vinham fazer confusão na nossa rua. O almoço na minha casa era perto do meio-dia. Às vezes quase à uma. Ao meio-dia e quinze, o Jika tocava à campainha. – O Ndalu tá? – perguntava à minha irmã ou ao camarada António. – Sim, tá. – Chama só, faz favor. Eu interrompia o que estivesse a fazer, descia. – Mô Jika, comé? – Ndalu, vinha te perguntar uma coisa. – Diz. – Hoje num queres me convidar pra almoçar na tua casa? – Deixinda ir perguntar à minha mãe. Entrei. O Jika ficou ansioso na porta, aguardando a resposta. Quase sempre a minha mãe dizia sim. Só se fosse mesmo maka de pouca comida, ou muita gente que já estava combinada para o almoço. Ondjaki, Os da minha rua, Editorial Caminho, 4.a edição, 2007 (pp. 13-14).

TEXTO B

5

10

Filha de cantineiros portugueses, Meninita sempre fora moça comedida. Na penumbra da loja, ela atendia os negros como se fossem sombras de outros, reais viventes. A miúda se ia fazendo ao corpo – o fruto se adoçava em polpa açucrosa. A sede se inventa é para a miragem de águas. Pois nas redondezas não viviam outros brancos, únicos a quem ela entregaria seus açucares. A família Pacheco se pioneirara na adez Shiperapera, onde mesmo os negros originários escasseavam. […] Dona Esmeralda, a esposa, se angustiava vendo o crescer da filha. […] Adoentada, a moça deixou de atender ao balcão. Substituiu-a o moço Massoco, cresceram simpatias na loja. Meninita se internou em seu quarto, emigrada da vida, exilada dos outros. Massoco, ao fim do dia, se apresentava, em solene tristeza. Chegou a pedir: – Peço licença ir lá ver a patroinha… Mia Couto, Contos do nascer da terra, “A filha da solidão”, Editorial Caminho, 8.a edição (pp. 49-52).

252

APLICAR

Gramática 17.2; 17.4; 17.5

TEXTO C

5

10

PROFESSOR

Professor desviou os olhos do livro, bateu a mão descarnada no ombro do negro, seu mais ardente admirador: – Uma história zorreta, seu Grande – seus olhos brilhavam. […] E volveu os olhos para as páginas do livro. João Grande acendeu um cigarro barato, ofereceu outro em silêncio ao Professor e ficou fumando de cócoras, como que guardando a leitura do outro. Pelo trapiche ia um rumor de risadas, de conversas, de gritos. João Grande distinguia bem a voz do Sem-Pernas, estrídula e fanhosa. O Sem-Pernas falava alto, ria muito. Era o espião do grupo, aquele que sabia se meter na casa de uma família uma semana, passando por um bom menino perdido dos pais na imensidão agressiva da cidade. Coxo, o defeito físico valera-lhe o apelido. Mas valia-lhe também a simpatia de quanta mãe de família o via, humilde e tristonho, na sua porta, pedindo um pouco de comida e pousada por uma noite. Jorge Amado, Capitães da areia, Herdeiros de Jorge Amado e Leya SA, 2009 (p. 32).

1. Retire dos textos expressões que ilustrem as seguintes especificidades linguísticas. a. Utilização de pronomes/determinantes da 3.a pessoa para designar o interlocutor. b. Alteração ou supressão da preposição que antecede complementos do verbo. c. Utilização do pronome pessoal lhe/lhes com função de complemento direto. d. Pronome pessoal em posição pré-verbal. e. Emprego do gerúndio em complexos verbais. f. Ausência de artigo definido antes de determinante possessivo. 2. Reescreva as seguintes passagens de acordo com as regras do português europeu. a. “Nós até às vezes lhe protegíamos doutros” (texto A, l. 2) b. “– Ndalu, vinha te perguntar uma coisa.” (texto A, l. 11) c. “– Hoje num queres me convidar pra almoçar na tua casa?” (texto A, l. 13) d. “A miúda se ia fazendo ao corpo – o fruto se adoçava” (texto B, l. 3) e. “Meninita se internou em seu quarto, emigrada da vida” (texto B, l. 10) f. “– Peço licença ir lá ver a patroinha…” (texto B, l. 13) g. “bateu a mão descarnada no ombro do negro, seu mais ardente admirador” (texto C, ll. 1-2)

h. “seus olhos brilhavam.” (texto C, l. 3) i.

“e ficou fumando de cócoras” (texto C, l. 5)

j.

“Mas valia-lhe também a simpatia de quanta mãe de família o via, […] na sua porta, pedindo um pouco de comida e pousada por uma noite.” (texto C, ll. 10-12)

1. a. “seu Grande” (texto C – l. 3) b. “vinham fazer confusão na nossa rua” (texto A – l. 3); “Peço licença ir lá ver” (texto B – l. 13); “bateu a mão descarnada no ombro” (texto C – l. 1); “na sua porta” (texto C – l. 12) c. “até às vezes lhe protegíamos doutros” (texto A – l. 2). d. “vinha te perguntar” (texto A – l. 11), “queres me convidar” (texto A – l. 13); “A miúda se ia fazendo ao corpo” (texto B – l. 3), “o fruto se adoçava” (texto B – l. 3), “A sede se inventa” (texto B – l. 4), “se angustiava” (texto B – l. 8), “Meninita se internou” (texto B – l. 10); “aquele que sabia se meter na casa” (texto C – ll. 8-9) e. “e ficou fumando de cócoras” (texto C – l. 5), “o via, humilde e tristonho, na sua porta, pedindo um pouco de comida” (texto C – ll. 11-12) f. “ela entregaria seus açucares” (texto B – l. 5), “internou em seu quarto” (texto B – l. 10); “seu mais ardente admirador” (texto C – l. 2) 2. a. Nós às vezes até o protegíamos doutros. b. Ndalu, vinha perguntar-te uma coisa. c. Hoje num (não) me queres convidar para almoçar em tua casa? d. A miúda ia-se fazendo ao corpo – o fruto adoçava-se. e. Meninita internou-se no seu quarto, emigrada da vida. f. Peço licença para ir lá ver a patroinha. g. bateu com a mão descarnada no ombro do negro, o seu mais ardente admirador h. Os seus olhos brilhavam. i. e ficou a fumar de cócoras j. Mas valia-lhe também a simpatia de quanta mãe de família o via […] à sua porta a pedir um pouco de comida e pousada por uma noite.

253

PA R A S A B E R

"As terríveis aventuras de Jorge de A. Coelho" A História Trágico-Marítima é uma antologia de naufrágios, uma espécie de anti-epopeia dos descobrimentos, publicada por Bernardo Gomes de Brito, em 1735-1736. O capítulo V dessa coletânea é dedicado ao naufrágio por que passou Jorge de Albuquerque Coelho. A EPOPEIA DE JORGE DE ALBUQUERQUE COELHO Assunto Aspetos focados e acontecimentos

Estrutura Núcleos narrativos dos relatos de naufrágios

• Exposição do contexto sociopolítico – colonização do Brasil (rainha Dona Catarina). 1. Antecedentes: antes da partida para a metrópole e ainda em Pernambuco

• Apresentação do herói (determinação, coragem, liderança eficaz, resistência, solidariedade, bondade, disciplina, honradez e espírito de sacrifício). • Lutas travadas com os inimigos (gentios) das terras.

2. Partida: primeira tentativa de embarque rumo a Portugal

• Lutas contra as adversidades da Natureza (ventos contrários e estragos na nau). • Destruição de partes da nau.

Antes da tempestade (as atribulações que acometeram a nau “Santo António”)

• Alagamento da embarcação. • Falta de alimentos. • Lutas entre os sobreviventes. • Tentativa de saque/pilhagem por corsários franceses. • Traição de uma parte da tripulação.

3. A viagem A tempestade

• Adensamento das condições climatéricas – tormenta (ventos fortes, relâmpagos impetuosos, vagas enormes). • Perda/destruição do leme, mastro, vergas, enxárcias, amarras, âncoras, batel e mantimentos. • A calmaria/a bonança.

Depois da tempestade

• Saque da nau “Santo António” e abandono por parte dos corsários franceses. • Prosseguimento da viagem à deriva, com os equipamentos destruídos, ao rumo do vento e do mar. • Indiferença e desumanidade da tripulação de uma outra caravela que não os socorre.

4. O regresso

• Salvamento por parte de uma pequena embarcação. • Chegada a Lisboa.

5. A peregrinação

• Romaria a Nossa Senhora da Luz em agradecimento pela salvação.

Dimensão religiosa presente no episódio Os constantes apelos à ajuda divina/à misericórdia de Nosso Senhor: Durante a viagem • Uns, ajoelhados, pediam a Deus que os livrasse do perigo. • Outros, junto de um padre, escutavam e rezavam. • As permanentes palavras de fé divina proferidas por Jorge de Albuquerque Coelho. Após o retorno • A ida, em romaria, com alguns companheiros, a Nossa Senhora da Luz.

254

“As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho ( 1565)”

PA R A V E R I F I C A R

PROFESSOR

Após a leitura e a análise do relato de naufrágio “As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho”, verifique os seus conhecimentos.

Apresentação

1. Identifique as afirmações verdadeiras e as falsas. Corrija as falsas.

Galeria de imagens Síntese da Unidade

a. A História Trágico-Marítima é uma compilação das aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho. b. O capítulo V da História Trágico-Marítima assume a vivacidade e o dramatismo característicos dos relatos de naufrágios. c. O naufrágio narrado no capítulo V situa-se na segunda metade do século XIV, aquando da colonização do Brasil. d. Jorge de Albuquerque Coelho apresenta-se, logo de início, como um indivíduo aventureiro, lutador e zeloso dos seus deveres. e. Jorge de Albuquerque Coelho foi responsável pela paz na capitania de Pernambuco. f. A nau “Santo António” foi assaltada por corsários franceses, mal se fez ao mar, atrasando assim a sua partida para Lisboa. g. Ainda no início da viagem, quando vieram as calmarias, a tripulação já passava fome e sede. h. Quando corsários franceses tentaram saquear a embarcação de Jorge de Albuquerque Coelho, este rendeu-se de imediato, para poupar as vidas dos homens que o acompanhavam. i. Quer a nau francesa quer a “Santo António” estavam bem apetrechadas para poderem resistir à batalha que travaram. j. O capitão dos franceses elogiou o caráter guerreiro e destemido de Jorge de Albuquerque Coelho. k. A tempestade que assolou a nau causou danos materiais elevadíssimos e a perda de vidas humanas. l. Quando o desânimo se apossou do capitão Jorge de Albuquerque Coelho, foi a tripulação quem o encorajou. m. Graças ao ânimo e ao encorajamento de Jorge de Albuquerque Coelho, a tripulação resistiu à tempestade, dando à bomba durante dois dias. n. A dimensão religiosa está presente ao longo do relato, com a evocação a Deus em momentos difíceis e na descrição de Jorge de Albuquerque Coelho. o. A tripulação da embarcação que ajudou os sobreviventes da “Santo António” a chegarem a Belém revelou um acentuado espírito cristão, partilhando o que tinha.

Teste interativo História Trágico-Marítima (Cap. V) Educação Literária 14.3; 14.4; 14.5; 14.7; 15.1; 15.2; 15.3; 16.1 1. a. F – É uma compilação de naufrágios sofridos por embarcações portuguesas após a viagem marítima de Vasco da Gama à India. b. V c. F – Situa-se no século XVI. d. V e. V f. F – Foi acometida por ventos fortes que provocaram a entrada de água e partiram o gurupés. A tripulação também teve de se libertar da carga excessiva que a nau levava. g. V h. F – Jorge de Albuquerque Coelho resistiu e lutou, acompanhado apenas por sete homens, até que a tripulação, à rebelião, se rendeu. i. F – As duas naus estavam em situação de desequilíbrio: a nau francesa apresentava-se bem armada e em boas condições; a “Santo António” precisava de consertos e não tinha artilharia suficiente para vencer o inimigo. j. V k. V l. F – Foi precisamente o contrário que sucedeu: Jorge de Albuquerque Coelho é quem encoraja a tripulação desesperada e sem mais força, para continuar a lutar contra os elementos da Natureza. m. F – A tripulação deu à bomba durante três dias. n. V o. V

255

PA R A R E C U P E R A R EDUCAÇÃO LITERÁRIA 1. Ordene as seguintes afirmações, de forma a reconstituir a cronologia dos aconte-

cimentos relatados no capítulo V da História Trágico-Marítima. [A] Jorge de Albuquerque Coelho partiu da vila de Olinda, no Brasil, depois de uma

primeira tentativa falhada, a 29 de junho de 1565. PROFESSOR Educação Literária 1. [B] – [A] – [D] – [F] – [K] – [C] – [E] – [I] – [H] – [J] – [G]

[B] Jorge de Albuquerque Coelho assumiu o comando militar da capitania de Per-

nambuco, tendo conseguido pacificá-la. [C] O capitão dos franceses elogiou a atitude de Jorge de Albuquerque Coelho

e tratou-o com respeito. [D] A 29 de julho os marinheiros avistaram uma nau e uma pequena embarcação fran-

Leitura/Escrita 1. a. 1 b. 2 c. 3 d. 2 e. 2 f. 3 g. 4 h. 1

cesas, que os perseguiram, desistindo de os atacar devido a uma forte trovoada. [E] Já com os franceses a bordo, a nau “Santo António” foi assolada por uma tem-

pestade que destruiu grande parte das suas estruturas. [F] A 3 de setembro foram atacados por uma nau de corsários franceses, bem artilhada. [G] A nau “Santo António” encalhou, tendo sido visitada por muitos curiosos, que

se espantaram com o seu estado deplorável. [H] A 2 de outubro, a tripulação avistou a serra de Sintra. [I] Passados três dias, a tempestade acalmou e a nau “Santo António” prosseguiu

viagem, apesar do estado deplorável em que se encontrava. [J] A nau “Santo António” foi acolhida pelos homens que navegavam numa barca

de pequenas dimensões. [K] Jorge de Albuquerque Coelho tentou resistir ao ataque dos franceses, mas uma

parte da tripulação opôs-se a esta resistência.

L E I T U R A / E S C R I TA 1. Ao longo deste módulo contactou com vários géneros textuais.

Associe cada um dos géneros, indicados abaixo, às suas características, apresentadas nas afirmações que se seguem. 1. Exposição sobre um tema 2. Apreciação crítica 3. Síntese 4. Relato de viagem a. Texto que assume um caráter demonstrativo, apresentando uma elucidação sobre um tema ou uma ideia. b. Género textual que se centra na apreciação de um objeto (livro, filme…). c. Registo que seleciona as ideias essenciais de um texto-fonte. d. Texto que apresenta um comentário crítico do objeto visado, numa perspetiva positiva ou negativa. e. Texto que recorre à argumentação para fundamentar uma perspetiva. f. Registo que deve evitar a colagem ao texto-fonte. g. Texto onde existe um discurso pessoal e uma dimensão narrativa e descritiva. h. Texto objetivo e revelador de conhecimentos sobre o tema ou a ideia apresentada.

256

Almeida Garrett

PA R A AVA L I A R

História Trágico-Marítima GRUPO I

Leia atentamente o seguinte excerto do capítulo V da História Trágico-Marítima, referente à descrição da tempestade que assolou a nau “Santo António”.

5

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20

Então, a 12 de setembro, o vento acalmou, para logo depois rondar ao sudoeste. Pouco tardou que soprasse em fúria, zunindo1 nas enxárcias2, turbilhonando3 nuvens, rendilhando espumas, açoitando no escuro os vagalhões roncantes. Alija!4 Alija! Alija carga! Alija! Alijaram tudo que na coberta havia, e debaixo da ponte. Como enfunasse5 ainda mais o tempo, trataram de alijar os mastaréus6 das gáveas7, e todas as caixas que cada um trazia. Para que não fosse isto pesado a alguém, foi a de Jorge de Albuquerque Coelho a primeira de todas que se lançaram ao mar, na qual ele trazia os seus vestidos e outros objetos de importância. E, parecendo que não bastava isto, arrojaram para as águas a artilharia, com muitas caixas que continham açúcar, e numerosos fardos de algodão. Um mar mais violento desmanchou o leme. Atravessou-se a nau aos escarcéus8, e não foi possível desviá-la para a fazer tornar a correr em popa. Quase todos, então, se sentiram descoroçoar9. Jorge de Albuquerque, vendo-os assim, começou a falar-lhes para lhes dar ânimo, e ordenou a alguns que buscassem meio com que se pudesse enfim governar a nau. Ajoelharam os outros, e pediram a Deus que os livrasse do perigo. Já a este tempo, que seriam nove horas da manhã, o navio dos corsários franceses se não avistava; – e os Franceses que estavam na “Santo António” vendo a tormenta desencadeada, o leme desmanchado, atravessada a nau, o rumor que fazia toda a gente, – chegavam-se aos nossos em tom amigo e cumpriam tudo que lhes mandavam, como se fossem cativos dos Portugueses, e não os corsários e roubadores. História Trágico-Marítima, “As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho”, Sá da Costa Editora, adaptação de António Sérgio, pp. 134-135.

1

produzindo som agudo e sibilante; 2 conjunto de cabos fixos, que seguram o mastro; 3 formando turbilhão; 4 alivia a carga; 5 tornasse mais bojuda a vela; 6 pequeno mastro suplementar; 7 velas do mastro grande; 8 encapelamento e ruído das ondas; 9 desanimar.

1. Identifique as sensações presentes no primeiro parágrafo e comente a sua expres-

sividade.

PROFESSOR Leitura P / Ed. R OLiterária FESSOR 9.3; 9.5; 9.7; 12.1; 20.4; 21.2; 22.1 1. Apresentação 1.º Chegada ao cais; 2.º Barca Ficha doSoluções Diabo; 3.º Barca do Anjo; Avaliação 4.ºde Barca do Diabo. 2. O Fidalgo mos GRUPO I Educação Literária 14.3; 14.4; 14.5 1. No primeiro parágrafo, temos a sensação visual “rendilhando espumas” e a sensação auditiva “os vagalhões roncantes”, que exprimem o ambiente tempestuoso, contribuindo para o caráter realista da descrição. 2. Para enfrentar a tempestade, a tripulação teve de alijar, lançando ao mar parte da carga, começando por bens menos necessários, como as caixas com vestuário e outros pertences, passando, depois, a lançar para a água a artilharia e caixas com açúcar e algodão. 3. Jorge de Albuquerque Coelho revela-se um bom líder, sendo ele o primeiro a desfazer-se dos seus bens, para dar o exemplo, mostrando que era necessário alijar (“Para que não fosse isto pesado a alguém, foi a de Jorge de Albuquerque Coelho a primeira de todas que se lançaram ao mar, na qual ele trazia os seus vestidos e outros objetos de importância.”, (ll. 6-8). Mostra-se também um homem generoso e solidário com a tripulação (“Jorge de Albuquerque, vendo-os assim, começou a falar-lhes para lhes dar ânimo, e ordenou a alguns que buscassem meio com que se pudesse enfim governar a nau.”, (ll. 13-15)

2. Refira as ações empreendidas pela tripulação da nau “Santo António” para enfren-

tar a tempestade. 3. Caracterize Jorge de Albuquerque Coelho, fundamentando a sua resposta com ex-

pressões textuais. 4. Justifique a alusão a Deus nesta passagem da obra. 5. Explicite a atitude dos franceses que estavam na nau, descrita no último parágrafo

do excerto.

257

Almeida Garrett

PA R A AVA L I A R

"As terríveis aventuras de Jorge de A. Coelho" GRUPO II Leia o texto com atenção.

5

PROFESSOR 4. Os marinheiros, num ato de desespero e sem meios para enfrentar a tempestade, recorrem a Deus para os ajudar, ajoelhando e orando, pois Ele era o único que os podia auxiliar em situação tão extrema. 5. Os franceses que estavam na nau encontravam-se com medo, tal como os portugueses, esquecendo-se da sua posição de atacantes, para pensar apenas na sua sobrevivência. Por isso, acatavam as ordens dos portugueses, mostrando-se amigos e solidários e colaborando para que a nau resistisse à intempérie. GRUPO II Leitura 7.1; 7.4; 7.6; 8.1 1.1 [C] 1.2 [B] 1.3 [C] 1.4 [A] 1.5 [B]

10

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25

A pergunta era se eu não sentia orgulho quando chegava ao cabo da Boa Esperança. Orgulho de ser português. Hesitei. Vou ser franco ou não? Dou uma resposta de circunstância e vaga, ou entro na questão a fundo? Viajar por muito tempo tem esta consequência: adquire-se um certo relativismo. Fica difícil aceitar os dogmas e os mitos propagados na pátria ao longo de gerações. Visitamos outros países e ficamos a saber que os nossos dogmas e mitos valem tanto como os deles. […] Esse formidável promontório, no fundo de África, é um ponto de referência impressionante quer para os que o alcançam por terra quer para os que o contornam por mar. Aliás, recordo a minha desilusão quando o visitei pela primeira vez, por encontrar um dia de mar calmo e translúcido, de céu cristalino e brisa suave, que nada fazia supor ser ali o lugar do mito do Adamastor. Mas em visitas seguintes, as coisas cósmicas alinharam-se de maneira a poder assistir a tempestades brutais de mar e vento sobre o cabo que por nós foi pela primeira vez dobrado. A pergunta era se eu sentia orgulho. De ser português no cabo da Boa Esperança. Não. Passaram muitos séculos. O que eu não consigo deixar de sentir é uma perplexidade incomodada. Onde foram parar esses homens que estavam na vanguarda do seu tempo? Onde foram parar o arrojo e a antevidência da raça que soube dar novos mundos ao mundo? O meu incómodo é ainda maior, se viro as costas ao cabo e regresso à cidade, talvez a mais cenográfica e apetecível de todas as cidades fora da Europa, e penso que podia ser uma cidade de ascendência portuguesa, mas que simplesmente deixámos que os holandeses ficassem com ela. A Cidade do Cabo, Cape Town, a “Taverna dos Mares”. Na realidade, para contornar África, não basta dobrar o cape of Good Hope, há outro mais a sul e que marca, esse sim, o final do continente: o cabo Agulhas. […] Gonçalo Cadilhe, “Qualquer coisa nos lugares”, in Visão, edição online, 19 de junho de 2013 (consultado em fevereiro de 2017).

1. Selecione a opção que completa adequadamente cada uma das afirmações. 1.1

O texto de Gonçalo Cadilhe é [A] uma exposição sobre a expansão portuguesa.

Gramática 18.1; 18.4; 19.3

[B] uma apreciação crítica sobre a Cidade do Cabo. [C] um relato de viagem.

2.1 Oração subordinada substantiva completiva. 2.2 Complemento agente da passiva. 2.3 “Esse formidável promontório, no fundo de África”. 2.4 Adjetivo qualificativo. 2.5 Campo semântico.

[D] uma síntese de um texto de outro autor. 1.2 Viajar durante muito tempo tem, segundo o autor, consequências como [A] o esquecimento de locais que deveriam ficar na memória. [B] a relativização da importância de certos locais. [C] a perceção de que afinal valeu a pena fazer aquela viagem. [D] a valorização da terra ou país que deixámos para trás.

258

1.3 Considerando o conteúdo das linhas 12 a 16, o viajante ter-se-á deparado com [A] o gigante Adamastor no local visitado. [B] o promontório como um local de visita obrigatório. [C] situações climatéricas e atmosféricas distintas das descritas no episódio

do Adamastor. [D] vários portugueses a visitar o cabo da Boa Esperança. 1.4 Uma certa revolta apoderou-se do autor quando ele [A] refletiu acerca da perda da Cidade do Cabo para os holandeses [B] soube que a Cidade do Cabo era apelidada de “Taverna dos Mares”. [C] pensou no facto de a Cidade do Cabo já não ser portuguesa. [D] percebeu que o cabo nada tinha de perigoso. 1.5 A forma verbal “deixámos” (l. 24 ) encontra-se [A] no presente do indicativo. [B] no pretérito perfeito do indicativo. [C] no pretérito imperfeito do indicativo. [D] no presente do conjuntivo. 2. Responda aos itens seguintes. 2.1 Classifique a oração “se eu não sentia orgulho” (l. 1). 2.2 Identifique a função sintática do constituinte sublinhado em “por nós foi pela pri-

meira vez dobrado” (l. 16). 2.3 Identifique o referente do pronome “o” em “quando o visitei” (l. 12). 2.4 Classifique o termo “translúcido” (l. 13) quanto à classe de palavras. 2.5 Identifique a relação que se estabelece entre os vários sentidos da palavra terra

nas seguintes frases: a. O marinheiro gritou “Terra à vista!” b. O lavrador trabalha a terra.

PROFESSOR GRUPO Leitura III / Ed. Literária 9.3; 9.5; 9.7; 12.1; 20.4; Escrita 21.2; 22.1 10.2; 11.1; 11.2; 12.1; 12.2; 12.4; 13.1 1. 1.º Chegada ao cais; 2.º Barca do Diabo; 3.º Barca do Anjo; , Trágico-Marítima A História 4.º capítulo Barca doV,Diabo. no retrata as aventuras 2. O Fidalgo e desventuras mos da nau “Santo António”, capitaneada por Jorge de Albuquerque Coelho, que embarca no Brasil, rumo a Portugal, carregada de gente e de mercadoria. Ao longo da viagem, a tripulação enfrenta várias adversidades. Luta contra uma forte tempestade, que quase destrói a nau, e contra o ataque dos corsários franceses, bem armadilhados, contrastando com a fraca artilharia da nau portuguesa. Estas duas situações deixam a tripulação da “Santo António” em grande penúria, pois perde grande parte da carga e tem de navegar numa embarcação em estado deplorável. Destaca-se, no entanto, no meio destas adversidades, o altruísmo de Jorge de Albuquerque, que tenta encorajar os marinheiros. Esta obra dá-nos uma visão trágica das aventuras vividas pela tripulação das naus que, durante vários séculos, fizeram a carreira da Índia e do Brasil, para trazer para a metrópole as riquezas das colónias. (148 palavras)

c. Ele é muito terra a terra.

GRUPO III Redija um texto expositivo, de 120 a 150 palavras, sobre as aventuras e desventuras da expansão portuguesa, entre os séculos XVI e XVIII, partindo da leitura do capítulo V da História Trágico-Marítima. O texto deve apresentar uma estrutura tripartida, de acordo com as orientações que se seguem.

• Introdução: Integração da História Trágico-Marítima (capítulo V) na fase expansionista portuguesa.

• Desenvolvimento: As aventuras e desventuras marítimas vividas pela tripulação da nau “Santo António”.

• Conclusão: Síntese das principais ideias.

259

B L O C O I N F O R M AT I V O

Bloco informativo

I – GRAMÁTICA (SISTEMATIZAÇÃO) Os conteúdos gramaticais aqui sistematizados têm como referência o Dicionário Terminológico (http://dt.dge.mec.pt/) e seguem a hierarquia e a nomenclatura apresentadas nas Metas Curriculares dos Ensinos Básico e Secundário (para o 10.o ano de escolaridade). Alguns deles foram já apresentados, sistematizados e exercitados ao longo das unidades que fazem parte deste Manual, por isso serão aqui apenas referenciados.

CLASSES DE PALAVRAS Classes

Subclasses Nome próprio1: designa uma entidade individualizada, única.

1

Lisboa foi o local de onde partiu a armada de Vasco da Gama.

2

As sereias confraternizaram com os marinheiros.

3

A fauna e a flora das regiões descobertas maravilharam os navegadores.

• O primeiro livro de Gil Vicente foi um sucesso.

Numeral

Exprimem ordem ou sucessão. Ocupam, geralmente, uma posição pré-nominal, podendo ser antecedidos por determinantes. Correspondem à classe tradicional dos numerais ordinais.

Qualificativo

Exprimem uma qualidade ou propriedade • A bandeira branca simboliza a paz. do nome. Ocupam, geralmente, uma • Vasco da Gama foi um sublime posição pós-nominal, embora alguns navegador. ocorram quer à esquerda quer à direita, • Paulo da Gama era um homem originando, todavia, valores semânticos grande. diferentes. Variam em número e alguns em grau; quando biformes, variam em género. 1

Alguns escritores quinhentistas dedicaram-se bastante à poesia.

2

Quantidade e grau

Advérbios que contribuem com informação sobre quantidade ou grau. Podem ocorrer internamente ao predicado1, ou como modificador de grupos adjetivais2 ou adverbiais3. Alguns destes advérbios são utilizados para a formação do grau dos adjetivos e advérbios.

Pero Marques ficou muito triste com a decisão de Inês.

3

Algumas embarcações cruzavam as águas muito devagar.

Negação

Advérbio que contribui para reverter o valor de verdade de uma frase afirmativa ou para negar um constituinte.

• Não gosto das cantigas de escárnio e maldizer.

1

Afirmação

Advérbios que se utilizam em resposta a interrogativas globais1 ou como modificador de um constituinte2, contribuindo para asserir ou reforçar o valor afirmativo de um enunciado.

Nome comum : não designa necessariamente um referente único. Nome comum coletivo3: designa, no singular, um conjunto de seres ou entidades do mesmo tipo.

Adjetivo

Advérbio Valores semânticos

260

Exemplificação

Os nomes têm por referentes entidades com existência real ou imaginária. Apresentam características semânticas (dado designarem entidades), morfológicas (porque variam em número, e alguns em género e grau) e ainda sintáticas (uma vez que são o núcleo do grupo nominal, podendo ser antecedidos de determinantes ou de quantificadores).

2

Nome

Características

• O décimo canto de Os Lusíadas é o mais longo.

Fizeram o trabalho de pares proposto? Sim.

2

Eles fizeram o trabalho de grupo, sim, e ainda o apresentaram na aula.

Bloco informativo Classes

Subclasses

Exemplificação

Advérbios que modificam, incluindo o constituinte num conjunto.

• Todos os alunos participaram, até o Pedro, que não costuma.

Exclusão

Advérbios que permitem realçar o constituinte que modificam, excluindo-o de um conjunto. Podem modificar cada um dos grupos constituintes de uma frase.

• Fernão Lopes escreveu só uma crónica sobre D. João I.

Dúvida

Advérbios que evidenciam uma ideia de incerteza, indecisão ou hesitação.

• Provavelmente, Camões terá escrito muito mais rimas.

Designação

Advérbios que remetem para a indicação de algo ou alguém.

• Eis o poema de que te falei! 1

Os marinheiros comiam mal porque não havia comida.

2

Modo

Advérbios que, habitualmente, podem ser modificadores de predicado1, da frase2 ou, ocasionalmente, predicativos do sujeito3.

Infelizmente, não havia fruta.

3

Depois de Inês Pereira ter recusado a proposta de casamento de Pero Marques, este ficou mal.

Tempo

Advérbios que geralmente são modificadores.

• Outrora, as navegações pareciam eternas. 1

Vasco da Gama parou ali.

Lugar

Advérbios que podem ser complementos oblíquos1, predicativos do sujeito2 ou modificadores3.

2

O povo ficou ali.

3

Os marinheiros descansaram ali.

Advérbios que identificam o constituinte interrogado numa construção interrogativa, sendo substituíveis por grupos adverbiais ou preposicionais.

• Quando procurou ela o Escudeiro?

Advérbios que estabelecem nexos entre frases1 ou constituintes da frase2, nomeadamente relações de consequência3, de contraste4 ou de ordenação5. Distinguem-se de conjunções com valor idêntico por poderem, por exemplo, ocorrer entre o sujeito e o predicado6 (no caso das orações subordinadas relativas1).

1

O Escudeiro entrou em casa. Depois, procurou Inês.

2

Gostei da poesia trovadoresca, concretamente das cantigas de amor.

3

Inês era demasiado sonhadora, assim, acabou por perder oportunidades.

4

O Pedro não estudou a lírica camoniana; o Rui, porém, fez um trabalho espetacular.

5

Primeiramente, estudámos as cantigas de amigo, depois as de amor.

6

Pero Marques foi rejeitado por Inês e o bom homem, todavia, não desistiu.

1

A casa onde morava o Ermitão ficava distante da aldeia.

2

Ela sabia onde ela morava.

Inclusão

Advérbio Valores semânticos

Características

(continuação)

Interrogativo

Conectivo Advérbio Funções

Relativo

Advérbio que introduz uma oração subordinada relativa, permitindo identificar uma relação com o nome antecedente (no caso das orações subordinadas relativas1). Introduz também orações relativas sem antecedente (orações subordinadas substantivas relativas2).

• Apenas o Miguel leu os textos todos.

• Como pensava Inês resolver isso? • Porquê voltar a acreditar nela?

261

Bloco informativo Classes

Valores

Locução adverbial São constituídas por duas ou mais palavras e têm comportamento e classificação iguais aos de um advérbio, apresentando os mesmos valores semânticos.

Classes

Subclasses

• locativo

• à esquerda, de fora, de longe, em cima, ...

• temporal

• à noitinha, desde cedo, por agora, …

• modo

• de bom grado, por acaso, à pressa, …

• negação

• de modo algum, de maneira nenhuma, …

• quantidade e grau

• no mínimo, de mais, tão pouco, …

• afirmação

• de facto, na verdade, sem dúvida, … Características

Exemplificação

Antepõem-se ao nome1−2, contribuindo para a sua leitura genérica ou indefinida. O artigo indefinido nunca antecede um nome próprio nem coocorre com os quantificadores todos e ambos. Os artigos definidos e indefinidos surgem, muitas vezes, contraídos com as preposições a, de, em e por: ao (a+o), à (a+a), da (de+a), num (em+um), pela (por+a).

1

O marinheiro de verde está doente.

2

Um poeta que se preze alia a arte e as letras.

1

Este trovador sabe trovar.

2

Este seu poema está bem bonito.

3

Demonstrativo este(s), esta(s), esse(s), essa(s), aquele(s), aquela(s)

Variam em género e número. Têm valor deítico ou anafórico, contribuindo para a construção da referência do nome que precede tendo em conta a sua relação de proximidade ou distância. Não podem coocorrer com o artigo1, e, em caso de coocorrência com o determinante possessivo, este precede-os obrigatoriamente2. Podem ser precedidos de certos quantificadores3.

Todo este estudo não foi em vão.

1

O meu poema ficou bem.

2

Este meu irmão tira-me do sério!

Possessivo meu(s), minha(s), teu(s), tua(s), seu(s), sua(s), nosso(s), nossa(s), vosso(s), vossa(s)

Variam em pessoa, género e número e em contextos definidos. São obrigatoriamente precedidos por um artigo definido1 ou por um determinante demonstrativo2, exceto quando têm a função de vocativos3 ou de modificadores apositivos4. Podem ser precedidos de certos quantificadores5. Em contextos indefinidos, ocorrem em posição pós-nominal6.

3

Meus meninos, venham cá.

4

O poeta saiu com a musa, sua amada, para lhe confessar o seu amor.

5

Todos os seus marinheiros marearam arduamente.

6

Um marinheiro seu não faria isso.

Variam em género e número e são utilizados em contextos em que se assume que o referente do nome que precedem não corresponde a informação específica ou identificada1. Distinguem-se dos artigos indefinidos por poderem coocorrer com estes2.

1

Certos navegadores assumiram comportamentos incorretos.

2

[Uns] certos marinheiros fizeram disparates.

Artigo • Definido: o, a, os, as • Indefinido: um, uma, uns, umas

Determinante

Indefinido certo(s), certa(s), outro(s), outra(s)

262

Exemplos

Bloco informativo Classes

Subclasses

Características

Exemplificação

Relativo cujo(s), cuja(s)

Varia em género e número e estabelece a ligação entre o nome seu antecedente e a oração relativa que introduz.

• Os textos cujos autores foram selecionados são muito bons.

Precedem um nome em construções interrogativas, permitindo a identificação do constituinte interrogado.

• Que ilhas viram?

Interrogativo que, qual, quais

Variam em pessoa e número, e alguns variam em género. As formas átonas ocorrem adjacentes ao verbo (à esquerda do verbo − em próclise −, à direita − em ênclise −, ou ainda no interior das formas de futuro do indicativo e condicional − em mesóclise); as restantes são formas tónicas.

1

Inês viu-se no espelho.

2

O trovador e a sua “senhor” encontraram-se na ermida.

3

Dorme-se mal no convés da nau.

4

Dizem-se coisas estranhas sobre Camões.

5

O Escudeiro porta-se mal.

Variam em género e número e têm um valor deítico ou anafórico. Estabelecem a sua referência tendo em conta a relação de proximidade ou de distância em relação a um participante do discurso ou a um antecedente textual.

1

Este pajem é um ignorante e aquele também.

2

Isto incomoda-me.

3

Ele comprou um livro e leu-o rapidamente.

4

Ele disse que viu um gigante. / Ele disse-o.

Variam em pessoa, género e número e têm um valor deítico ou anafórico, referindo-se, tipicamente, a um participante do discurso ou a um antecedente tomado como possuidor, respetivamente. São geralmente precedidos de artigo definido.

• Os poemas de Camões são fantásticos! E os vossos?

Determinante (continuação)

Pessoal • Formas tónicas: eu, tu, você, ele/ela, nós, vós, vocês, eles/elas, mim, ti, si • Formas átonas: me, te, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes, se 1 - São formas de contração do pronome pessoal tónico com a preposição com as seguintes: comigo, contigo, connosco, convosco, consigo

• Qual caminho devemos seguir?

As formas da variante átona do pronome pessoal se podem assumir diferentes valores: reflexividade1 e reciprocidade2; 2 - São formas de contração de podem ser usados como marcadores de indefinição do sujeito (valor dois pronomes pessoais impessoal – ocorrendo exclusivamente as formas mo(s)/ma(s) na terceira pessoa3), estratégia de (contração de me e passivização (valor passivo – só na o(s)/a(s)), to(s)/ta(s) terceira pessoa4) ou podem constituir (contração de te parte integrante do verbo (valor e o(s)/a(s)), lho(s)/lha(s) inerente5). (contração de lhe e o(s)/a(s))

Pronome

Demonstrativo 1

• Formas tónicas variáveis : este(s), esta(s), esse(s), essa(s), aquele(s), aquela(s) • Formas tónicas invariáveis2: isto, isso, aquilo • Formas átonas3: o(s), a(s) • Forma átona invariável4: o (usada na substituição de constituintes oracionais) Possessivo • Um possuidor: meu(s), minha(s), teu(s), tua(s) seu(s), sua(s) dele(s), dela(s) • Vários possuidores: nosso(s), nossa(s) vosso(s), vossa(s)

263

Bloco informativo Classes

Subclasses Indefinido • Formas invariáveis1: alguém, ninguém, tudo, nada, algo, outrem

Pronome (continuação)

• Formas variáveis2: algum(a), alguns, algumas, nenhum(a), nenhuns, nenhumas, outro(a)(s), muito(a)(s), pouco(a)(s), todo(a)(s), vário(a)(s), tanto(a)(s) Relativo 1

• Variáveis : o qual, os quais, a qual, as quais • Invariáveis2: (o) que, quem

Quantificador

Numeral

Conjunções coordenativas • copulativas1: e, nem • adversativas2: mas • disjuntivas3: ou • conclusivas4: logo

Características Alguns admitem variação em género e número, quando correspondentes ao uso pronominal de um quantificador ou de um determinante indefinido. Referem uma terceira pessoa ou uma quantidade indeterminadas.

1

Alguém surgiu do mar.

1

Eles comeram tudo.

1

Ninguém lhe revelou o segredo.

2

Todos foram ao banquete.

2

Vós levastes muitos mantimentos, mas eu só trouxe alguns.

Ocorrem no início das orações relativas. Podem remeter para um constituinte anterior, quando possuem antecedente.

1

Trouxe-vos os frutos aos quais me referi ontem.

2

Indico-vos a rota que deveis seguir.

Expressam uma quantidade numérica inteira precisa (numeral cardinal1), um múltiplo de uma quantidade (numeral multiplicativo2), ou uma fração precisa de uma quantidade (numeral fracionário3). Os quantificadores numerais fracionários e multiplicativos são, muitas vezes, locuções (metade de, dobro de, etc.).

1

Li duas cantigas de amigo de D. Dinis.

2

Leste o dobro das minhas cantigas.

3

Ele leu metade das tuas cantigas.

Ligam elementos com igual valor sintático, sejam palavras6 ou grupos de palavras numa só oração, sejam orações diferentes mas equivalentes sintaticamente e independentes umas das outras.

1

Introduzem orações subordinadas que desempenham uma função sintática relativamente à subordinante.

1

A jovem perguntou à mãe se podia sair com as amigas.

2

Como estava triste, procurou as amigas.

3

Ela fez tudo como lhe explicaram.

4

O Escudeiro era fanfarrão, embora não tivesse tostão.

5

Ficaria feliz caso visse o amigo.

6

Procurou-o com tanto fervor que acabou por o avistar.

7

Inês arranjou-se para receber o Escudeiro.

8

Mal chegou, sentou-se.

• explicativas5: pois, que

Conjunção

Conjunções subordinativas − Substantivas completivas1: que, se, para − Adverbiais • causais2: porque, como… • comparativas3: como, conforme… • concessivas4: embora, malgrado… • condicionais5: se, caso… • consecutivas6: que (antecedido de tão, tanto…) • finais7: para… • temporais8: apenas, enquanto, quando, mal…

264

Exemplificação

A donzela não se encontrou com o amigo nem viu a mãe. 2 As donzelas foram à romaria, mas não viram os amigos. 3 A mãe tinha o papel de confidente ou assumia-se como conselheira. 4 A jovem chegou atrasada, logo não viu o amigo. 5 Penso que a jovem ficou triste, pois ela estava a chorar. 6 A donzela e a mãe foram à romaria.

Bloco informativo Locuções conjuncionais São constituídas por duas ou mais palavras cujo valor semântico se associa ao das conjunções coordenativas ou subordinativas.

Coordenativas

• copulativas: não só… mas/como também; nem… nem; tanto… como • disjuntivas: ou… ou; já… já; ora… ora • causais: visto que; dado que; uma vez que; atendendo a que; dado que • comparativas: bem como; assim como; tal… qual; tão/tanto… como; mais… (do) que • concessivas: se bem que; ainda que; nem que; não obstante

Subordinativas

• condicionais: salvo se; desde que; sem que; exceto se; contanto que; a não ser que • consecutivas: de modo que; de maneira que; de forma que • finais: para que; a fim de/que; com a finalidade de • temporais: antes de/que; logo que; agora que; cada vez que; até que; assim que; …

Palavra invariável que exige sempre ser complementada por: uma oração1, um grupo nominal2, um grupo adverbial3. a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, perante, por, segundo, sem, sob, sobre, trás Preposição

As preposições a, de, por e em podem ocorrer contraídas com artigos (definidos e indefinidos), determinantes e pronomes demonstrativos, advérbios, …

1

O trovador foi para onde a dama iria.

2

Contra a força não há resistência.

3

O falso piloto espreitou por detrás do capitão.

• Pero Marques falou à alcoviteira. • O capitão ordenou aos nativos que saíssem dali. • Camões interessou-se pelas artes. • O Catual viu Paulo da Gama na nau.

Locuções prepositivas São formadas tipicamente por um advérbio ou um nome seguido de uma preposição ou por um advérbio no meio de duas preposições. Exs.: apesar de; junto a; além de; em redor de; perto de; defronte a/de; por causa de; em vez de; antes de; para com; … Interjeição Não estabelece relações sintáticas com outras palavras e tem uma função exclusivamente emotiva. O valor de cada interjeição depende do contexto de enunciação e corresponde a uma atitude do falante ou enunciador. Interjeições oh!; ah!; eia!

Locuções interjetivas

Valores semânticos

que bom! muito bem!

Alegria

eia!; vamos!; coragem!; upa!

vamos lá! toca a andar!

Incitamento/encorajamento

bravo!; viva!; boa!; apoiado!; fixe!; bis!; eia!

muito bem! é assim mesmo!

Aplauso

ai!; ui!; Jesus!; credo!

valha-nos Deus! ai Jesus! ai que aflição!

Aflição, dor, tristeza, terror

atenção!; cuidado!; oh!

Advertência ou repreensão

ó!; pst!; olá!; eh!; socorro!

ó da guarda! ó senhor!

Chamamento, invocação

oh!; oxalá!; tomara!

quem me dera! Deus queira! se Deus quiser!

Desejo

hum! ah!; oh!; hi!; ena!; caramba!; diabo!; credo!; chi!; puxa!; bolas!

Dúvida essa é boa! não é possível! não acredito! essa agora!

Espanto ou surpresa

265

Bloco informativo Interjeições

Locuções interjetivas (cont.)

(cont.)

Valores semânticos (cont.)

bolas!; irra!; fogo!; arre!; mau!

ora bolas!; raios partam; mau, mau!

Impaciência, irritação ou aborrecimento

irra!; homessa!; apre!; ora!

ora essa!; nem pensar!

Indignação

chega!; basta!; alto!

Interrupção ou suspensão

silêncio!; caluda!; fora!; rua!; alto!; chega!

fora daqui!; toca a andar!; em frente!

Ordem

paciência!; pronto!

que remédio!; é a vida!; deixa lá!

Resignação

olá!; adeus!

ora viva!; boa noite!; bem haja!; bons olhos o vejam!;

Saudação

psiu!; silêncio!; caluda!

toca a calar!

Silêncio

Classe − VERBO Subclasses Intransitivo • Não seleciona complementos1. Transitivo direto • Seleciona um sujeito e um complemento com a função sintática de complemento direto2.

Características Dividem-se em várias subclasses, de acordo com as suas restrições de seleção.

Transitivo indireto • Seleciona um sujeito e um complemento indireto3 ou oblíquo4. Verbo principal

Exemplificação 1

Pero Marques desmaiou.

2

Camões escreveu Os Lusíadas. Camões escreveu-os.

3

Camões respondeu à jovem. Camões respondeu-lhe.

4

Vasco da Gama foi até à Índia.

5

Transitivo direto e indireto • Seleciona um sujeito e dois complementos: um complemento direto e outro complemento indireto5 ou oblíquo6, não sendo este último pronominalizável.

Camões dedicou o poema a D. Sebastião. Camões dedicou-lhe o poema.

6

Inês levou o marido até à ermida. Inês levou-o até à ermida.

7

Tétis considerava os Portugueses dignos de uma epopeia.

Transitivo-predicativo • Seleciona um complemento direto e um predicativo do complemento direto7. São exemplos deste tipo de verbo: achar, considerar, julgar, nomear, eleger, declarar, chamar, supor, ter (por), tratar (por).

Verbo copulativo

Verbo auxiliar

266

• Seleciona um predicativo do sujeito. São exemplos deste tipo de verbo: ser, estar, ficar, continuar, parecer, permanecer, tornar-se, revelar-se.

Ocorre numa frase em que existe um constituinte com a função sintática de sujeito e outro com a função sintática de predicativo do sujeito.

• Este poema é fácil.

• São exemplos deste tipo de verbo: ser, ter, haver, estar, dever, poder.

Coocorre com um verbo principal, posicionando-se antes dele. A estrutura da frase (nomeadamente a seleção de sujeito e de complementos) é feita pelo verbo principal e não pelo auxiliar. O verbo auxiliar é usado na formação de tempos compostos1 (ter/haver), em construções passivas2 (ser), podendo, ainda, contribuir para veicular valores modais3 (dever, poder) ou aspetuais4 (estar).

1

Os navegadores tinham avistado a ilha.

2

A ilha foi avistada pelos navegadores.

3

Os alunos podiam fazer um esforço maior.

4

O poeta está a pedir inspiração às Musas.

Bloco informativo

Verbo Palavra que exprime processos ou estados e os situa no tempo. Apresenta diferentes formas, que variam quer em função de valores de pessoa e número quer atendendo a valores de modo e tempo. Estas formas podem ser simples ou compostas, como pode ver na tabela seguinte.

Modo

Indicativo

Tempo Presente

vou, vais, vai, vamos, ides, vão

Pretérito imperfeito

ia, ias, ia, íamos, íeis, iam

Pretérito perfeito

simples

fui, foste, foi, fomos, fostes, foram

composto

tenho ido, tens ido, tem ido, temos ido, tendes ido, têm ido

Pretérito mais-que-perfeito

simples

fora, foras, fora, fôramos, fôreis, foram

composto

tinha ido, tinhas ido, tinha ido, tínhamos ido, tínheis ido, tinham ido

simples

irei, irás, irá, iremos, ireis, irão

composto

terei ido, terás ido, terá ido, teremos ido, tereis ido, terão ido

Futuro Formas finitas

Conjuntivo

Presente

vá, vás, vá, vamos, vades, vão

Pretérito imperfeito

fosse, fosses, fosse, fôssemos, fôsseis, fossem

Pretérito perfeito composto

tenha ido, tenhas ido, tenha ido, tenhamos ido, tenhais ido, tenham ido

Pretérito mais-que-perfeito composto

tivesse ido, tivesses ido, tivesse ido, tivéssemos ido, tivésseis ido, tivessem ido

Futuro

Condicional Imperativo

simples

for, fores, for, formos, fordes, forem

composto

tiver ido, tiveres ido, tiver ido, tivermos ido, tiverdes ido, tiverem ido

simples

iria, irias, iria, iríamos, iríeis, iriam

composto

teria ido, terias ido, teria ido, teríamos ido, teríeis ido, teriam ido

Presente Pessoal

Infinitivo Formas não finitas

Exemplificação

Impessoal

Gerúndio

vai, ide simples

ir, ires, ir, irmos, irdes, irem

composto

ter ido, teres ido, ter ido, termos ido, terdes ido, terem ido

simples

ir

composto

ter ido

simples

indo

composto

tendo ido

Particípio

ido

267

Bloco informativo

Verbos regulares / irregulares Quanto à flexão, os verbos podem ser regulares ou irregulares. Os primeiros mantêm a forma do radical e os sufixos típicos de flexão em toda a conjugação; os segundos apresentam variação da forma do radical e/ou dos sufixos de flexão. Exs.: Verbo regular: falo / falava / falei / falara / falarei / fale / falasse / falaria… Verbo irregular: faço / fazia / fiz / fizera / farei / faça / fizesse / faria… Existem, em português, vários outros verbos que apresentam alterações no radical, sendo, assim, irregulares. Alguns exemplos são: aprazer / caber / crer / dar / dizer / estar / fazer / ir / ler / haver / poder / pôr / querer / rir / ser / saber / ter / trazer / ver / vir.

Conjugações verbais Existem três conjugações em português, que se identificam pela vogal temática: • tema em -a (1.a conjugação: falar) • tema em -e (2.a conjugação: receber) • tema em -i (3.a conjugação: fingir)

Verbos defetivos (impessoais e unipessoais) Um verbo defetivo é aquele que não apresenta todas as formais flexionadas possíveis. Verbos como abolir, adequar, aturdir, banir, bramir, colorir, demolir, doer, demolir, esculpir, exaurir, explodir, extorquir, falir, fulgir, florescer, precaver, puir, reaver, remir, retorquir, ruir não apresentam todas as formas número-pessoais e modo-temporais. Os verbos defetivos podem ser: • Impessoais

Os que apresentam apenas formas no infinitivo e na 3.a pessoa do singular, ocorrendo, normalmente, em frases sem sujeito, como é o caso daqueles que exprimem fenómenos da Natureza (chover, trovejar, ventar). O verbo haver é, também, impessoal, quando significa existir. • Unipessoais

Os que apresentam apenas formas no infinitivo e na 3.a pessoa do singular e do plural, como é o caso dos que indicam vozes de animais, como cacarejar, chilrear, ladrar, ganir, mugir, miar, uivar, zumbir, …

268

Bloco informativo

PRONOME PESSOAL EM ADJACÊNCIA VERBAL − REGRAS DE UTILIZAÇÃO As formas átonas (tais como o, a, os, as, nos, vos, lhe, lhes) ocorrem em adjacência verbal, ou seja, junto ao verbo, desempenhando a função de complemento direto ou de complemento indireto.

Colocação do pronome pessoal átono 1. Tradicionalmente, o pronome surge em posição pós-verbal − ênclise.

Ex.: O falso piloto enganou o capitão português.

O falso piloto enganou-o.

• Nesta posição, os pronomes o, a, os, as podem sofrer alterações, se a forma verbal terminar em -r,

-s ou -z. Neste caso, estas consoantes desaparecem e os pronomes tomam as formas -lo(s), -la(s). Ex.: O marinheiro fez o trabalho todo.

O marinheiro fê-lo todo.

• Se a forma verbal terminar em -ns, passa a -m, quando seguida de pronome átono o, a, os, as, e os

pronomes tomam as formas -lo(s), -la(s). Ex.: Tu tens o meu livro.

Tu tem-lo.

• Quando a forma verbal termina em ditongo nasal (-am, -õe, -ão), os mesmos pronomes assumem

as formas -no(s), -na(s). Exs.: Os marinheiros comiam peixe cru. Os marinheiros comiam-no. Veloso põe a arma ao ombro. Veloso põe-na ao ombro. 2. Quando ocorrem com formas verbais do futuro do indicativo e do condicional, os pronomes átonos

são colocados no interior dessa forma verbal − mesóclise. Exs.: Camões dedicará o seu poema a D. Sebastião. Ele dedicaria os seus versos a outros mecenas.

Camões dedicá-lo-á a D. Sebastião. Ele dedicá-los-ia a outros mecenas.

3. O pronome átono desloca-se para antes do verbo – próclise – em construções frásicas como as

seguintes: a. Frases de polaridade negativa.

Exs.: Ele nunca revelou o segredo.

Ele nunca o revelou. Paulo da Gama não içou a bandeira. Paulo da Gama não a içou.

b. Frases com conjunções coordenativas com um elemento de polaridade negativa (não só… mas

também; nem… nem; etc.) e conjunções coordenativas disjuntivas (ou… ou; etc.). Exs.: Camões não só elogiou o monarca como também lhe ofereceu o poema. Camões não só o elogiou como também lhe ofereceu o poema. Ou alguém ajuda o poeta ou ele se perde. Ou alguém o ajuda ou ele se perde. c. Frases com quantificadores como todo(s), toda(s), tudo, qualquer, quaisquer, ambos, bastante,

muito(s), muita(s), pouco(s), pouca(s). Ex.: Todos os portugueses aclamaram o poeta.

Todos os portugueses o aclamaram.

d. Frases com pronomes indefinidos como alguém, ninguém.

Ex.: Ninguém percebeu a estância 106.

Ninguém a percebeu.

269

Bloco informativo e. Frases em que o verbo é antecedido de advérbios como mal, sempre, ainda, já, apenas, só, talvez,

aqui, … Ex.: Ainda li este poema ontem.

Ainda o li ontem.

f. Orações introduzidas por uma conjunção subordinativa.

Exs.: Os alunos dizem que leram um artigo de apreciação crítica

Os alunos dizem que o leram. Diz-me quando vais comprar o livro recomendado. Diz-me quando o vais comprar. A professora disse para lermos o livro. A professora disse para o lermos.

g. Orações relativas.

Exs.: O trovador que elogiou a sua “senhor” foi criticado. Quem defendeu o trovador foi a sua “senhor”.

O trovador que a elogiou foi criticado. Quem o defendeu foi a sua ‘senhor’.

h. Frases ou orações iniciadas por um pronome relativo1, um pronome ou advérbio interrogativo2.

Exs.: Quem narrou a História de Portugal ao rei de Melinde? 1 Quem a narrou foi Vasco da Gama. 2 Quem protegeu os portugueses? Quem os protegeu? 3 Onde puseste o material? Onde o puseste? i.

Frases de tipo exclamativo nas quais se manifestem emoções ou desejos1 ou aquelas em que o falante constrói frases com determinada intencionalidade, destacando certos constituintes e desviando-os da ordem padrão2. Exs.: Oxalá percebas os poemas todos! / 1Oxalá os percebas todos! Que Nossa Senhora proteja os marinheiros! / 2Que Nossa Senhora os proteja!

4. Colocação do pronome pessoal átono em complexos verbais. a. Nos complexos verbais com os auxiliares dos tempos compostos (ter e haver) e o auxiliar da

passiva (ser), o pronome é colocado à direita do verbo auxiliar. Exs.: Gama tinha aconselhado calma aos marinheiros. O poema é oferecido pelo poeta aos leitores.

Gama tinha-lhes aconselhado calma. O poema é-lhes oferecido pelo poeta.

b. Pode ocorrer antes do complexo verbal quando algum elemento requer a próclise.

Ex.: Ninguém quis ler em voz alta o poema.

Ninguém o quis ler em voz alta.

c. Nos complexos verbais com auxiliares como começar a, acabar de, estar a, andar a, o pronome

ocorre depois do verbo principal. Ex.: Estou a apreciar este soneto camoniano.

270

Estou a apreciá-lo.

Bloco informativo

FUNÇÕES SINTÁTICAS Sujeito Função sintática desempenhada pelo constituinte da frase que controla a concordância verbal. O constituinte que exerce a função de sujeito pode ser um grupo nominal, substituível pelos pronomes pessoais eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles/elas, ou um constituinte oracional, encontrando-se, por norma, em posição pré-verbal.

Expresso − sujeito com realização lexical. Pode ser:

Nulo − em português, o sujeito diz-se "nulo" porque não tem realização lexical obrigatória. Pode ser:

• Simples Ex.: Gil Vicente escreveu farsas. (grupo nominal) Quem lê aprende. (oração)

• Subentendido Ex.: Lemos várias estrofes de Os Lusíadas.

• Composto

(depreende-se da forma verbal − Nós)

Ex.: Gil Vicente e Camões são autores do séc. XVI. (coordenação de grupos nominais)

• Indeterminado

Quem leu e quem pesquisou aprendeu.

Ex.: Dizem que a poesia é difícil.

(duas orações ou mais)

(alguém diz)

Vocativo Função sintática desempenhada por um constituinte que não controla a concordância verbal e que serve apenas para interpelar ou chamar o interlocutor, surgindo em frases de tipo imperativo1, interrogativo2 ou exclamativo3.

Exs.: 1 Veloso, não faça isso. 2

Minha senhora, estais a ouvir-me?

3

Ó Tágides, é tão grande o meu infortúnio! Predicado

Função sintática desempenhada pelo grupo verbal. Pode corresponder só ao verbo ou ao verbo com os seus respetivos complementos e/ou predicativos requeridos, e ainda os modificadores do grupo verbal. Assim, temos: • Predicado — só com verbo ou grupo verbal (por norma, quando o verbo é intransitivo) Ex.: A donzela sorriu. • Predicado — verbo + complementos e/ou predicativos e modificadores Ex.: Tétis conduziu a ilha dos amores até aos nautas portugueses. Complemento direto Função sintática selecionada por verbos transitivos diretos, transitivos diretos e indiretos ou transitivos-predicativos, sendo exercida por grupos nominais (GN) ou constituintes oracionais. Os GN que exercem esta função são pronominalizáveis pelos pronomes pessoais o, a, os, as1, e os constituintes oracionais são substituíveis pelos pronomes demonstrativos invariáveis isto, isso, aquilo2.

Exs.: 1Este soneto evidencia a complexidade da poesia. / Este soneto evidencia-a. 2

O poeta pedia que o rei o escutasse. / O poeta pedia aquilo. Complemento indireto

Função sintática selecionada por um verbo transitivo indireto, ou transitivo direto e indireto. O constituinte sintático que exerce a função de complemento indireto é introduzido pela preposição a e pronominalizável pelos pronomes lhe, lhes.

Ex.: Camões respondeu a D. Sebastião. / Camões respondeu-lhe.

271

Bloco informativo Complemento oblíquo Função sintática selecionada por um verbo transitivo indireto, ou transitivo direto e indireto. O constituinte sintático que exerce a função de complemento oblíquo é introduzido por uma preposição, podendo assumir um valor locativo1, de movimento2, de duração3, de necessidade ou carência4.

Exs.: 1 Camões viveu em Constância. 2

Vasco da Gama chegou à Índia em 1498.

3

A viagem durou cerca de um ano.

4

A tripulação precisou de um guia. Complemento agente da passiva

Função sintática desempenhada por um constituinte selecionado por um verbo transitivo direto conjugado na passiva, tendo como auxiliar o verbo ser.

Ex.: Os navegadores portugueses foram salvos por Vénus. Predicativo do sujeito Função sintática desempenhada por um constituinte selecionado por um verbo copulativo que atribui uma propriedade ao sujeito.

Exs.: Os navegadores andavam em aflição durante as tempestades. Vasco da Gama permaneceu na nau. As Ninfas pareciam umas sereias. Predicativo do complemento direto Função sintática desempenhada por um constituinte selecionado por um verbo transitivo-predicativo que atribui uma propriedade ao complemento direto.

Exs.: Acho a poesia trovadoresca complicada. Os romanos elegeram Vénus (como) deusa do amor. O rei D. Manuel I nomeou Vasco da Gama (como) comandante da expedição à Índia. Modificador Função sintática desempenhada por um constituinte de uso facultativo. Acrescenta informação sobre o constituinte que modifica e pode ser eliminado sem que a frase se torne agramatical. O modificador pode incidir sobre uma frase/oração1 ou sobre o grupo verbal. Neste último caso, a função do modificador (do grupo verbal) pode ser desempenhada por uma oração subordinada2, por um grupo preposicional3 ou por um grupo adverbial4.

Exs.: 1 Lamentavelmente, Vasco da Gama foi traído por um falso piloto. 2

Os marinheiros adormeciam quando já estavam exaustos. Como se sentiam cansados, os marinheiros pediram silêncio.

272

3

Os navegadores seguiram as Ninfas com emoção.

4

Saíram das embarcações devagar.

Bloco informativo

Funções sintáticas internas ao grupo nominal Complemento do nome Função sintática desempenhada por um constituinte selecionado por um nome e que lhe completa a referência. Corresponde geralmente a um grupo preposicional, a uma oração introduzida por uma preposição ou a um grupo adjetival. Requerem complemento os: • nomes de graus de parentesco1 • nomes de profissões que derivam de outros nomes2 (guia, condutor, …) • nomes icónicos3 (gravura, fotografia, …) • nomes epistémicos4 (hipótese, desejos,…) • numerais fracionários e multiplicativos5 (o dobro, o terço, …) • nomes que derivam de verbos6 (construção, pesca, …)

Exs.: 1

O pai de Camões era cortesão.

2

O guia dos navegadores era de Melinde.

3

A gravura do monarca estava desbotada.

4

O desejo de chegar a terra animava os marinheiros.

5

A viagem custou o dobro do previsto.

6

A pesca da baleia pôs a espécie em perigo. Complemento do adjetivo

Função sintática exercida por um constituinte selecionado por um adjetivo e que ocorre normalmente à direita desse adjetivo, sendo, habitualmente, um grupo preposicional.

Exs.: Os marinheiros ficaram satisfeitos com a recompensa da Ilha dos Amores. Os navegantes estavam desejosos de encontrar terra amiga. Modificador do nome Constituinte do grupo nominal que lhe modifica o sentido, apesar de não ser por ele selecionado. Pode ser: • Modificador do nome restritivo: restringe/limita a referência do nome que modifica. Pode configurar-se num grupo adjetival1, num grupo preposicional2, numa oração adjetiva relativa3, numa oração subordinada final4. • Modificador do nome apositivo: não restringe/não limita a referência do nome que modifica. É obrigatoriamente delimitado por vírgula(s), e pode estar configurado num grupo nominal5, num grupo adjetival6 ou num grupo preposicional7, mas também numa oração adjetiva relativa explicativa8.

Exs.: 1 A caravela moderna oferece melhores condições. 2

A nau de Vasco da Gama veio carregada.

3

O conhecimento que foram adquirindo permitiu-lhes chegar mais longe.

4

As novas técnicas para navegar deram um forte impulso aos Descobrimentos.

5

Camões, o poeta épico, dedicou a sua obra a D. Sebastião.

6

As florestas, frondosas e verdejantes, atraíram os portugueses.

7

Os deuses, com função de oponentes, criaram os obstáculos.

8

A viagem, que traria muitos perigos, acabou por se realizar.

273

Bloco informativo

FRASES ATIVAS E PASSIVAS

Formas

Ativa

Passiva

Explicação

Exemplos

A frase é ativa quando apresenta um grupo verbal constituído por um verbo principal transitivo direto, transitivo direto • Os alunos leem partes de Os Lusíadas. e indireto ou transitivo-predicativo, podendo ser antecedido ou não de verbo auxiliar. A frase é passiva quando apresenta um grupo verbal constituído por um verbo principal no particípio passado, antecedido pelo verbo auxiliar ser. Na transformação da frase ativa para a frase passiva: • Partes de Os Lusíadas são lidas pelos – o complemento direto da frase ativa é transformado alunos. no sujeito da frase passiva; – o sujeito da frase ativa, se for realizado, transforma-se em complemento agente da passiva.

Pelo exposto, percebe-se que, pelas posições relativas distintas que ocupam os constituintes que exercem a função de sujeito nas respetivas frases, o uso de uma ou outra forma permitirá pôr em relevo aspetos particulares da informação que a frase veicula, tal como traduz o esquema seguinte: Aquele trovador escreveu cantigas de amigo e de amor. sujeito

verbo principal

complemento direto

Cantigas de amigo e de amor foram escritas por aquele trovador. sujeito

frase ativa

verbo aux. ser + verbo principal (particípio)

frase passiva

compl. agente da passiva

Atenção: pode ser construída uma frase passiva sem recurso ao verbo auxiliar ser, utilizando-se o pronome pessoal se. O complemento agente da passiva pode também não estar expresso. Exs.: As caravelas construíram-se pouco a pouco. As caravelas foram construídas a pouco e pouco. Nota: Convém não esquecer que, ao transformar uma frase ativa em passiva, o verbo auxiliar da passiva (ser) terá de ficar no mesmo tempo e modo em que se encontrava o verbo principal da frase ativa e este terá de ser colocado no particípio passado, concordando em género e em número com o novo sujeito da passiva.

274

Bloco informativo

DISCURSO DIRETO E INDIRETO Reprodução do discurso de alguém, respeitando a forma linguística em que foi expresso. Na escrita, é marcado por operadores citacionais como: aspas, travessões, parágrafos, itálicos, tipo de letra. Na oralidade, pode ser assinalado através de modulações de tom e expressões gestuais e faciais. No texto literário, é frequente o narrador caracterizar personagens recorrendo a registos de língua específicos, reproduzindo em discurso direto os seus diálogos ou monólogos. Este tipo de discurso é introduzido por verbos: • de comunicação ou dicendi (que referenciam o ato de dizer) declarar, dizer, afirmar, comunicar, referir, proferir, … • de opinião julgar, considerar, opinar, crer, … Discurso direto

• de sentimento lamentar, lastimar, desabafar, … • que especificam características fónicas humanas ou animais gritar, berrar, sussurrar, balbuciar, miar, rosnar, ladrar, piar, … • que implicam interação começar, refutar, acrescentar, contestar, … • que explicitam uma força ilocutória garantir, afirmar, ordenar, … Ex.: «E disse: – «Ó gente ousada, mais que quantas No mundo cometeram grandes cousas, Tu, que por guerras cruas, tais e tantas, E por trabalhos vãos nunca repousas. Os Lusíadas, Canto V, est. 41.

Forma de alguém reproduzir no seu próprio discurso o discurso de outro, não lhe mantendo a forma original, ou seja, de um modo não citacional.

Discurso indireto

Nesta modalidade, o citador não abdica do estatuto de sujeito de enunciação. Por isso, seleciona, resume, parafraseia, interpreta o que o locutor disse. Daí resulta que a voz de quem é citado seja introduzida pelo recurso à subordinação, sendo as falas originais transformadas no que toca aos tempos verbais, pessoas gramaticais e locuções adverbiais. Torna-se frequentemente impossível reconstituir as falas originais. Ex.: «Contou então que, tanto que passaram Aquele monte os negros de quem falo, Avante mais passar o não deixaram, Querendo, se não torna, ali matá-lo; Os Lusíadas, Canto V, est. 36.

As alterações mais comuns são apresentadas na tabela da página seguinte.

275

Bloco informativo Transformações operadas na passagem do discurso direto para o discurso indireto Discurso direto 1.a e 2.a pessoas

Discurso indireto 3.a pessoa

eu, tu, nós, vós, me, nos meu(s), minha(s), teu(s), tua(s), nosso(s), nossa(s), vosso(s) este(s), esta(s), isto, esse(s), essa(s), isso aqui, cá, aí, ali, lá, acolá agora, neste momento, já, hoje, ontem, amanhã, logo

vocativo

frase interrogativa direta

Exemplificação Discurso direto Em que áreas há melhores e piores notas

Emília Lemos, presidente da Associação de Professores de Geografia, adianta: "Onde surgem mais problemas é nas perguntas abertas, de desenvolvimento, seu(s), sua(s), dele(s), dela(s) quer devido à formulação quer ao elevado grau de dificuldade de interpretação e de domínio da escrita científica." aquele(s), aquela(s), aquilo Miguel Barros, da Associação de Professores de História, sublinha: ali, lá, naquele lugar, naquele sítio "Com este novo modelo de exame, mais fechado e que inclui itens de seleção, naquele momento, imediatamente, como a escolha múltipla, ordenação naquele dia, na véspera, no dia anterior, ou associação, verificamos que os alunos no dia seguinte, depois demonstram mais dificuldades." João Paulo Leal, da Sociedade complemento indireto do verbo introdutor Portuguesa de Química, acusa o IAVE do discurso (Instituto de Avaliação Educativa): "As médias são muito baixas porque os responsáveis pelos exames assim o querem. Não houve, até hoje, vontade de mudar. Suspeito que haja uma vontade deliberada oração subordinada substantiva completiva de afastar os alunos desta área de ensino." ele(s), ela(s), o(s), a(s), lhe(s)

In Visão, n.o 1132, 13 a 19 de novembro de 2014, pp. 58-66 (texto adaptado e com supressões).

verbos vir e trazer

verbos ir e levar

presente do indicativo

pretérito imperfeito

pretérito perfeito do indicativo

pretérito mais-que-perfeito do indicativo

futuro do indicativo

condicional

presente do conjuntivo

pretérito imperfeito do conjuntivo

futuro do conjuntivo

pretérito imperfeito do conjuntivo

imperativo

pretérito imperfeito do conjuntivo ou infinitivo impessoal (precedido de para)

Discurso indireto Emília Lemos, presidente da Associação de Professores de Geografia, adiantou que onde surgiam mais problemas era nas perguntas abertas, de desenvolvimento, quer devido à formulação quer ao elevado grau de dificuldade de interpretação e de domínio da escrita científica. Miguel Barros, da Associação de Professores de História, sublinhou que com aquele novo modelo de exame, mais fechado e que incluía itens de seleção, como a escolha múltipla, ordenação ou associação, verificavam que os alunos demonstravam mais dificuldades. João Paulo Leal, da Sociedade Portuguesa de Química, acusou o IAVE, referindo que as médias eram muito baixas porque os responsáveis pelos exames assim o queriam. Não tinha havido/houvera, até àquele momento, vontade de mudar. Suspeitava que houvesse uma vontade deliberada de afastar os alunos daquela área de ensino.

Nota: As transformações apresentadas no quadro ocorrem quando o verbo introdutor do discurso indireto se encontra no passado (cf. verbos sublinhados).

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Bloco informativo

PROCESSOS DE COORDENAÇÃO E DE SUBORDINAÇÃO ENTRE ORAÇÕES Sistematizam-se em seguida os processos de coordenação e de subordinação. Coordenação • copulativa

− Fernão Lopes viveu no século XIV e escreveu várias crónicas.

• adversativa

− Gostei das cantigas de amigo, mas não gostei das de amor.

• disjuntiva

− Leia a farsa ou visione a adaptação teatral.

• conclusiva

− Já li o Auto da Feira, logo tenho de fazer a ficha de leitura.

• explicativa

– Recordo-me desta personagem, pois já vi o filme. Subordinação

Oração subordinante − Oração da qual depende(m) a(s) subordinada(s). Orações subordinadas adverbiais • causal

− Li Os Lusíadas porque adoro a poesia épica.

• comparativa

− Gostei tanto das redondilhas como gostei dos sonetos.

• concessiva

− Vi o filme embora tenha gostado mais do livro.

• condicional

− Se fizerem resumos, perceberão melhor a matéria.

• consecutiva

− Leste tão depressa que não consegui perceber o tema.

• temporal

− Depois de conhecermos a literatura medieval, compreendemos melhor a época.

• final

− Fui visitar o novo museu para conhecer melhor os Descobrimentos.

Orações subordinadas adjetivas relativas • restritiva

− Os sonetos que Camões escreveu são decassilábicos.

• explicativa

− Esta redondilha, que retrata uma escrava, é sugestiva.

Orações subordinadas substantivas • completiva

– Perguntei-te se já leste o livro.

• relativa

− Quem ler a obra vai perceber melhor.

CONTACTO DE LÍNGUAS Recorde-se que a língua portuguesa deriva fundamentalmente do latim. Contudo, também sofreu a influência das línguas de substrato e de superstrato.

Substrato* Língua que desaparece após contacto com a língua de um povo invasor/colonizador, aí deixando, no entanto, alguns vestígios. Por exemplo, antes do latim, foram faladas, na Península Ibérica, outras línguas, existindo, portanto, atualmente, em português, palavras de origem celta e ibera.

*NOTA

Num caso e noutro, o termo é por vezes usado para designar o conjunto dos referidos vestígios linguísticos.

Superstrato* Língua de um povo invasor/colonizador que acaba por desaparecer, mas que deixa marcas na do povo invadido/colonizado. Na história do português, esse foi o caso dos idiomas trazidos pelos germanos e pelos árabes, que chegaram à Península nos séculos V e VIII, respetivamente.

277

Bloco informativo

PALAVRAS CONVERGENTES E DIVERGENTES Para se falar de palavras convergentes e divergentes é fundamental saber o que se entende por ÉTIMO. O étimo é uma "palavra da qual deriva, diacronicamente, outra palavra", segundo o dicionário terminológico (DT online — dt.dge.mec.pt).

Palavras convergentes Palavras que apresentam a mesma forma, embora provenham de étimos diferentes, dando origem a palavras homónimas. São exemplos de palavras convergentes: *NOTA

RIVU-

A forma rio pressupõe uma forma reconstituída, *RIDO

FILU-

fio (nome e verbo)

rio* (nome e verbo) RIDEO

FIDO

VANU-

SUNT

são (verbo, nome ou adjetivo = santo)

vão (nome ou adj. e verbo) SANCTU-

VADUNT

Palavras divergentes Palavras que apresentam formas diferentes, apesar de terem o mesmo étimo. São exemplos de palavras divergentes: mácula MACULA-

parábola PARABOLA-

mancha, mágoa

solitário SOLITARIU-

palavra

solteiro

PROFESSOR

PROCESSOS FONOLÓGICOS

A grafia não reflete necessariamente todas as alterações fónicas, pelo que podemos ter grafias conservadoras, que não deixam transparecer mudanças que já ocorreram na língua.

Recorda-se que as alterações/modificações que a língua sofreu podem resultar de processos fonológicos. Tradicionalmente, consideram-se três grandes tipos de processos fonológicos, que ocorrem por INSERÇÃO, SUPRESSÃO e ALTERAÇÃO (na qualidade ou na posição) de unidades fónicas.

Inserção • Prótese − acrescento de uma unidade fónica no início da palavra: SPECULU- > espelho • Epêntese − acrescento de uma unidade fónica no interior da palavra: HUMILE- > humilde • Paragoge − acrescento de uma unidade fónica no fim da palavra: ANTE > antes

278

Bloco informativo

Supressão • Aférese − queda de uma unidade fónica no início da palavra: HOROLOGIU- > relógio • Síncope − queda de uma unidade fónica no interior da palavra: GENERU- > genro • Apócope − queda de uma unidade fónica no fim da palavra: CRUCE- > cruz

Alteração • Assimilação − aproximação de unidades fónicas: NOSTRU- > nosso • Dissimilação − diferenciação de unidades fónicas: nembrar (forma arcaica) > lembrar • Sonorização − transformação de uma consoante surda (por exemplo, /p/, /t/, /k/) na sua corres-

pondente sonora (neste caso, /b/, /d/, /g/): PIETATE- > piedade • Palatalização − passagem a palatal de uma unidade ou sequência que o não é originalmente: FLAMMA- > chama

• Vocalização − transformação de uma consoante em vogal: OCTO > oito

(note-se que, seguindo outra vogal, a unidade que resulta da transformação da consoante funciona como semivogal) • Crase − fusão ou contração de duas vogais numa só: LEGERE > leer > ler • Sinérese − transformação em ditongo de uma sequência formada por duas vogais contíguas (por

semivocalização de uma delas): EGO > eo > eu • Metátese − deslocação, no interior da palavra, de unidades mínimas ou de sílabas: SEMPER > sempre • Redução vocálica − enfraquecimento de uma vogal em posição átona: casa / casinha

ARCAÍSMOS E NEOLOGISMOS Arcaísmos São palavras ou expressões que deixam de ser comummente utilizadas pela comunidade e que, por isso, passam a considerar-se antiquadas. É o caso de coita, forma antiga para referir “sofrimento”, “infelicidade”.

Neologismos São palavras novas ou novas associações de forma e sentido que resultam, fundamentalmente, da necessidade de renovação do léxico. Assim, o neologismo tanto pode resultar da atribuição de um novo sentido a uma palavra já existente, como acontece com alguns termos da área da informática (rato, sítio, portal, navegar, …), como pode decorrer da atuação dos diferentes processos de formação de palavras (cf. europeizar, aerogerador, eurodeputado). Também do contacto com outras línguas pode resultar a integração de novo vocabulário (empréstimos).

279

Bloco informativo

FORMAÇÃO DE PALAVRAS O léxico de uma língua é formado por todos os constituintes morfológicos portadores de significado. Dele fazem parte não apenas as palavras do vocabulário atual mas também as palavras que já não se usam e todas as que podem ser criadas através de processos regulares (derivação e composição) ou através de processos irregulares. Palavra − item lexical que pertence a uma dada classe, com um significado identificável. Palavra simples − palavra formada por um único radical, sem afixos derivacionais, mas podendo exibir afixos flexionais. Palavra complexa − palavra formada por derivação (contém um radical e pelo menos um afixo derivacional) ou por composição (constituída por mais de um radical ou por duas ou mais palavras). Base − constituinte morfológico que contém o significado lexical (exclui os afixos) e a partir do qual se formam novas palavras. Derivação não-afixal Processo de formação de palavras que gera nomes deverbais, acrescentando marcas de flexão nominal a um radical verbal. Exs.: trocabraç(sem junção de afixos)

troca; troco abraço

Conversão Processo de formação de palavras, também chamado derivação imprópria, que procede à integração de uma dada unidade lexical numa nova classe de palavras por via sintática, sem que se verifique qualquer alteração formal. Exs.: olhar

verbo

Estás a olhar para mim.

olhar

nome

Tem um olhar penetrante.

Prefixação Consiste na adição de um prefixo a uma base.

DERIVAÇÃO

Exs.: desinteresse; macroestrutura; bissexual Sufixação Consiste na adição de um sufixo a uma base. AFIXAL

Exs.: cozinheiro; caçada

Processo morfológico que consiste na associação de um afixo a uma forma base

Prefixação e sufixação Consiste na adição de um prefixo e de um sufixo a uma base. Exs.: in>condicional>mente incondicionalmente Parassíntese Processo morfológico de formação de verbos a partir de nomes ou de adjetivos e que consiste na adição simultânea de um prefixo e de um sufixo a uma base. Exs.: a[padrinh]ar; a[podr]ecer

280

Bloco informativo

MORFOLÓGICA

Processo de composição que associa um radical a outro(s) radical(is) ou a uma ou mais palavras. De um modo geral, entre os radicais ou o radical e a palavra associada ocorre uma vogal de ligação. Exs.: [agr]+ i +[cultura] = agricultura; [lus] + o +[descendente]= luso-descendente; [psic]+ o +[pata] = psicopata

COMPOSIÇÃO

MORFOSSINTÁTICA

Processo de composição que associa duas ou mais palavras. A estrutura destes compostos depende da relação sintática e semântica entre os seus membros, o que tem consequências para a forma como são flexionados em número. Exs.: surdo-mudo; guarda-chuva; Via Láctea

PROCESSOS IRREGULARES DE FORMAÇÃO DE PALAVRAS Designação

Definição

Acrónimo

Criação de um vocábulo através da junção de letras ou sílabas de um grupo de palavras, que se pronunciam como uma só palavra. Ex.: ANACOM (Autoridade Nacional de Comunicações)

Sigla

Empréstimo

Criação de uma palavra a partir das iniciais de um grupo de palavras. Exs.: SCP (Sporting Clube de Portugal) / FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia) Processo de transferência de uma palavra de uma língua para outra, com ou sem adaptações às características formais da língua recetora. Ex.: dossiê (do francês dossier)

Extensão semântica

Criação de novos sentidos para uma palavra já existente na língua que, contudo, não perde o(s) significado(s) anterior(es). Ex.: rato (aplicado à informática como comando manual do computador)

Truncação

Amálgama

Criação de um termo que se caracteriza pela eliminação de parte da palavra de que deriva. Ex.: metro (metropolitano) Criação de uma palavra a partir da junção de partes de duas ou mais palavras. Ex.: informática (informação + automática)

PALAVRAS MONOSSÉMICAS E POLISSÉMICAS Palavras monossémicas Palavras que têm um só significado. Predominam nos textos científicos, dado que neles se procura veicular uma mensagem objetiva, que deve ser entendida de modo igual por todos os leitores. Exemplos são os termos: cartografia, biologia, caligrafia.

Palavras polissémicas Palavras que apresentam uma propriedade semântica que lhes permite apresentar vários significados, de acordo com o

contexto em que surgem, havendo, todavia, um elo comum nesses múltiplos sentidos. Veja-se, por exemplo, o termo pé, que pode surgir como: • parte do corpo

Dói-me o pé.

• parte inferior de uma mesa, de uma carteira ou de um

banco

Levanta aí o pé da cadeira.

• sinónimo de zaragata ou zanga

Ele fez um pé-de-

-vento. • posição oposta à de estar sentado

Põe-te de pé.

281

Bloco informativo

CAMPO SEMÂNTICO E LEXICAL Campo semântico Conjunto de significados que uma palavra pode ter, dependendo dos contextos em que ocorre. O campo semântico de mar integra os significados que em situações distintas o nome adquire: Exs.: Andava um mar de gente na baixa. Nem tudo é um mar de rosas.

Campo lexical Reporta-se ao conjunto de palavras que, pelo seu significado, se associam a um determinado conceito ou ideia. Por exemplo, ao campo lexical de escola, associam-se palavras como: professores, alunos, corredores, salas de aula, carteiras, quadros, cadeiras, …

RELAÇÕES SEMÂNTICAS

As palavras estabelecem relações semânticas entre elas, que podem ser de vários tipos. Assim, temos relações de:

Semelhança/oposição • Sinonímia − relação de equivalência de significado entre duas ou mais palavras.

Exs.: bonito/lindo; carro/automóvel; pão/carcaça. • Antonímia − relação semântica de oposição entre duas ou mais palavras.

Exs.: dia/noite; subir/descer; rápido/lento.

Hierarquia: hiperonímia e hiponímia Trata-se de uma relação hierárquica de inclusão. • Hiperónimo − sentido mais genérico. Ex.: peixe • Hipónimo − sentido mais específico. Exs.: pescada, carapau, sardinha, robalo, …

Como se vê, o hipónimo mantém com o hiperónimo traços semânticos comuns. Por isso, as espécies de peixes elencadas são hipónimos do hiperónimo peixe, e vice-versa.

Todo/parte: holonímia/meronímia Trata-se de uma relação de hierarquia semântica entre palavras. • Holónimo − refere o todo, a unidade. Ex.: carro • Merónino − refere uma parte dessa unidade.

Exs.: chassis, volante, assentos, guarda-lamas, para-choques, … Assim, os merónimos correspondem a partes do todo, neste caso o holónimo carro, e este integra todos os elementos referidos, designados de merónimos.

282

II – GÉNEROS TEXTUAIS

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Géneros

Bloco informativo Definição e marcas

Género textual que faz a apresentação de um determinado objeto/assunto evidenciando o seu interesse e as suas características. Possui um caráter apelativo e recorre a múltiplas linguagens (verbal, não verbal).

Domínios

Uso de uma linguagem apelativa. Recurso a frases interrogativas e exclamativas. Uso de recursos expressivos.

Oralidade (Compreensão do Oral)

Utilização de neologismos.

Apreciação crítica

Encadeamento lógico dos tópicos abordados. Texto onde se faz a apreciação valorativa de um determinado objeto (livro, disco, exposição, …), observando-se, sob uma perspetiva crítica, as suas características, funcionalidades e interesse.

Recurso a mecanismos de coesão − conectores, deíticos, ... Uso de uma linguagem valorativa. Utilização expressiva da pontuação e da linguagem.

Oralidade (Expressão Oral)

Leitura Escrita

Texto expositivo sobre um determinado aspeto de uma área do saber com o objetivo de divulgação.

Uso de uma linguagem clara, objetiva e específica de uma determinada área.

Caracteriza-se pelo rigor, pela objetividade e pela informação seletiva e criteriosa.

Hierarquização das ideias e explicitação das fontes.

Texto que faz a apresentação de um determinado assunto/tema colhido da realidade e tratado sob uma determinada perspetiva.

Recurso a variedade de tema, cobertura de um tema ou acontecimento.

Veicula informação criteriosa e seletiva com um fim didático.

Emprego de mecanismos de coesão e de recursos verbais e não verbais.

Utilização de frases declarativas.

Presença do discurso direto e indireto. Diversidade de registos (objetivos/subjetivos).

Leitura

Oralidade (Compreensão do Oral)

Encadeamento lógico dos tópicos abordados. Texto de caráter demonstrativo onde se disserta de forma clara e fundamentada sobre um determinado tema, mobilizando informação relevante sobre o assunto.

Recurso a mecanismos de coesão − conectores, deíticos, …

Leitura

Uso de uma linguagem clara, objetiva e denotativa.

Escrita

Relato de viagem

Texto predominantemente narrativo e descritivo, versando uma variedade de temas, onde se registam as impressões do emissor acerca de lugares visitados.

Reportagem

Predomínio dos nomes e dos verbos e das frases declarativas.

Peça jornalística que se caracteriza pela multiplicidade de temas abordados e de intervenientes, o que implica a diversidade de pontos de vista e a veiculação de informação ampla e seletiva.

Uso de uma linguagem objetiva e clara.

Síntese

Exposição sobre um tema

Documentário

Artigo de divulgação científica

Predomínio dos nomes e dos adjetivos.

Texto que se caracteriza pela condensação das ideias de um texto de partida − redução a cerca de um quarto − através da seleção das ideias essenciais, de forma a manter a informação fundamental.

Encadeamento lógico dos tópicos abordados.

Prevalece o discurso pessoal e, portanto, subjetivo.

Predomínio do discurso de primeira pessoa. Uso de uma linguagem valorativa. Utilização expressiva da pontuação e da linguagem.

Leitura

Predomínio dos nomes e dos adjetivos.

Recurso ao discurso direto e indireto. Recurso à subjetividade do autor.

Oralidade (Compreensão do Oral)

Utilização da primeira e da terceira pessoas.

Recurso a mecanismos de coesão. Recurso às frases declarativas e à linguagem objetiva.

Oralidade (Expressão Oral)

Escrita

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III − RECURSOS EXPRESSIVOS Bloco informativo

Adjetivação – utilização expressiva e recorrente da classe dos adjetivos.

“Um mover d’olhos, brando e piadoso” (Luís de Camões, Rimas)

Alegoria – série de metáforas arrojadas que vão além do sentido aparente ou literal e que têm como objetivo último clarificar, tornando mais concretas, determinadas realidades abstratas e espirituais.

Diabo Serafim

Aliteração – repetição sucessiva de um tipo de sons consonânticos.

“A fermosura desta fresca serra”

Mal Bem (Gil Vicente, Auto da Feira)

(Luís de Camões, Rimas)

Anáfora – repetição de uma palavra ou expressão no início de versos ou de frases sucessivos(as).

“Faz serras floridas, / faz claras as fontes”

Anástrofe – alteração da ordem natural das palavras na frase.

“Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado”

(Luís de Camões, Rimas)

(Luís de Camões, Os Lusíadas)

Antítese – aproximação de duas ideias opostas ou contraditórias.

“e os batéis por lhe fugir, e elas por os tomar” (Fernão Lopes, Crónica de D. João I)

Apóstrofe – interpelação, chamamento do recetor a quem é destinado o discurso.

“E vós, Tágides minhas, […]” (Luís de Camões, Os Lusíadas)

Comparação – relação de realidades, colocadas em paralelo, por meio de um termo comparativo ou verbos como parecer, lembrar, sugerir, entre outros.

“Quer’eu em maneira de proençal / fazer agora um cantar d’amor” (Dom Dinis)

Enumeração – apresentação sucessiva de elementos, frequentemente da mesma categoria gramatical ou com o mesmo tipo de estruturação.

“[…] agora espero, agora desconfio; / agora desvario, agora acerto.” (Luís de Camões, Rimas)

Eufemismo – atenuação na transmissão de uma ideia ou realidade excessiva, semanticamente negativa.

“Alma minha gentil, que te partiste / tão cedo desta vida, descontente” (Luís de Camões, Rimas)

Hipérbole – utilização de termos excessivos para efeito de exagero da realidade.

“Farei que amor a todos avivente, / pintando mil segredos delicados […]” (Luís de Camões, Rimas)

Interrogação retórica – questão que se formula não para obter resposta, mas para melhor orientar/realçar a ideia a transmitir.

“Hui! e que pecado é o meu, / ou que dôr de coração?”

Ironia – expressão de palavra/ideia polemicamente orientada para conclusão diferente daquilo que é o sentido literalmente proferido.

“Roi Queimado morreu com amor […] / mais resurgiu depois, ao tercer dia”.

(Gil Vicente, Farsa de Inês Pereira)

(Pero Garcia Burgalês)

Metáfora – reconstrução, por analogia, do significado normal de uma palavra ou expressão, aproximando-o ou associando-o a um campo semântico distinto.

“Ondados fios de ouro reluzente”

Metonímia – referência a uma realidade através de outra que lhe é próxima (por exemplo, a causa pelo efeito, o escritor pela obra, o produto pela matéria, e vice-versa).

“Não no dá a pátria, não, que está metida / No gosto da cobiça e na rudeza”

Perífrase – utilização de uma expressão composta por vários termos em vez da possibilidade de utilizar uma só palavra.

“[…] no amigo / Curral de Quem governa o Céu rotundo”

(Luís de Camões, Rimas)

(Luís de Camões, Os Lusíadas)

(Luís de Camões, Os Lusíadas)

Personificação – atribuição de sentimentos, ações ou ideias próprias do ser humano a objetos ou elementos da Natureza.

“– Ai flores, ai flores do verde pino”

Pleonasmo – reforço da mesma ideia, através da utilização intencional de palavras ou expressões com o mesmo sentido.

“Vi, claramente visto, o lume vivo.”

Sinédoque – expressão da parte pelo todo, do singular pelo plural, do abstrato pelo concreto, e vice-versa.

“Que da Ocidental praia Lusitana” (= Portugal)

284

(Dom Dinis)

(Luís de Camões, Os Lusíadas)

(Luís de Camões, Os Lusíadas)

IV − NOÇÕES DE VERSIFICAÇÃO

Bloco informativo

Os textos poéticos em verso evidenciam um conjunto de aspetos técnicos versificatórios sistematizados no quadro abaixo. Aspetos técnicos e versificatórios • Extensão do verso pelo número de sílabas métricas (escansão até à sílaba tónica da última palavra do verso, considerando-se ainda a elisão de sons vocálicos quando pronunciados numa só emissão de voz; não é coincidente com o número de sílabas gramaticais) Exs.: “A/que/la/ ca/ti/va” (Luís de Camões, Rimas) — 5 sílabas métricas “que a/ tor/men/ta a/man/sa” (Luís de Camões, Rimas) — 5 sílabas métricas N O

Métrica

“Um/ mo/ver/ d’o/lhos/, bran/do e/ pi/a/do/so” (Luís de Camões, Rimas) — 10 sílabas métricas “Ho/nes/to/ ri/so/, que en/tre a/ mor/ fi/ne/za” (Luís de Camões, Rimas) — 10 sílabas métricas

V E R S O

• Designação do verso pelo número de sílabas métricas: monossílabo (uma); dissílabo (duas); trissílabo (três); tetrassílabo (quatro); pentassílabo ou redondilha menor (cinco); hexassílabo (seis); heptassílabo ou redondilha maior (sete); octossílabo (oito); eneassílabo (nove); decassílabo (dez); hendecassílabo (onze); dodecassílabo ou alexandrino (doze) Acento silábico

Ritmo

Número de versos

verso agudo (oxítono ou masculino); verso grave (paroxítono ou feminino); ou verso esdrúxulo (proparoxítono) verso binário (dois segmentos com uma pausa); verso ternário (três segmentos com duas pausas); verso quaternário (quatro segmentos com três pausas)

Classificação da estrofe pelo número de versos: monóstico (um); dístico (dois); terceto (três); quadra (quatro); quintilha (cinco); sextilha (seis); sétima (sete); oitava (oito); nona (nove); décima (dez); irregular (mais de dez) Rima interna – a correspondência de sons verifica-se no interior dos versos: “irei beber a luz e o amanhecer” (Sophia de Mello Breyner Andresen)

N A

Esquema rimático

E S T R O F E

Rima de sons finais, ou rima externa • emparelhada (rima de sons em pares - aa, bb, cc, ...); • interpolada ou intercalada (um tipo de som final intercala outro diferente – abca); • cruzada (sons alternam entre versos ímpares e pares – ababaca); Rima encadeada – a última palavra de um verso rima com o meio do verso seguinte: "Eu sou a que no mundo anda perdida, / Eu sou a que na vida não tem norte" (Florbela Espanca)

Em função da correspondência de sons Tipo de rima Em função da classe gramatical das palavras

Consoante (rimam vogais e consoantes) Toante (rimam só as vogais tónicas)

Rica (a rima incide em unidades pertencentes a classes de palavras diferentes) Pobre (a rima incide em unidades que pertencem à mesma classe de palavras)

285

V − O TEXTO DRAMÁTICO Bloco informativo

O texto dramático apresenta uma estrutura dialogal, através da qual progride a intriga ou ação dramática, destinando-se, prioritariamente, à representação. Observe o conjunto de elementos que o integram e que permitem distingui-lo de outros textos. ELEMENTOS QUE CARACTERIZAM O TEXTO DRAMÁTICO

• Corresponde aos atos de fala das personagens (as réplicas), pelas quais se dá a progressão dramática. Texto principal

• Integra os acontecimentos, situações ou ações experienciados pelas personagens, que surgem contextualizados num determinado espaço e num determinado tempo. • Desenvolve-se, fundamentalmente, em diálogo (interação estabelecida pelas personagens intervenientes), podendo também surgir o monólogo (expressões associadas à exteriorização de reflexões ou pensamentos da personagem) ou os apartes (interação direta entre a personagem e o leitor/espetador).

• Corresponde ao conjunto de didascálicas (parte do texto marcada graficamente por outro tipo de letra – e/ou – por parênteses). • Representa as indicações cénicas fornecidas pelo dramaturgo, nas quais se encontram informações imprescindíveis à representação do texto principal. • Integra informações dirigidas às personagens, ao encenador, aos atores, aos técnicos e figurinistas, como, por exemplo: Texto secundário

– identificação das personagens; – caracterização física e psicológica dos interlocutores; – indicações sobre o modo como as falas devem ser proferidas; – registo de aspetos paraverbais (movimentação, expressões corporais e faciais, tom de voz, gestos); – caracterização do espaço e do tempo, da intensidade e focalização da iluminação, da disposição dos objetos em cena, vários aspetos a contemplar na representação.

A estrutura do texto dramático pode ainda ser percecionada por outras características, normalmente associadas à sua segmentação e tradicionalmente relacionadas com os seguintes aspetos. ESTRUTURA TRADICIONAL DO TEXTO DRAMÁTICO ATO CENA

286

Associa-se à mudança de cenário ou aos momentos cruciais do desenvolvimento da ação dramática. Corresponde à entrada ou à saída de personagens.

Metas Curriculares

Domínios de Referência, Objetivos e Descritores de Desempenho – 10.° ano Oralidade 1. Interpretar textos orais de diferentes géneros. 1. Identificar o tema dominante, justificando. 2. Explicitar a estrutura do texto. 3. Distinguir informação subjetiva de informação objetiva. 4. Fazer inferências.

4. Explicitar o sentido global do texto, fundamentando. 5. Relacionar aspetos paratextuais com o conteúdo do texto. 6. Explicitar, em textos apresentados em diversos suportes, marcas dos seguintes géneros: relato de viagem, artigo de divulgação científica, exposição sobre um tema e apreciação crítica. 8. Utilizar procedimentos adequados ao registo e ao tratamento da informação.

5. Distinguir diferentes intenções comunicativas.

1. Selecionar criteriosamente informação relevante.

6. Verificar a adequação e a expressividade dos recursos verbais e não verbais.

2. Elaborar tópicos que sistematizem as ideias-chave do texto, organizando-os sequencialmente.

7. Explicitar, em função do texto, marcas dos seguintes géneros: reportagem, documentário, anúncio publicitário. 2. Registar e tratar a informação. 1. Tomar notas, organizando-as. 2. Registar em tópicos, sequencialmente, a informação relevante.

9. Ler para apreciar criticamente textos variados. 1. Exprimir pontos de vista suscitados por leituras diversas, fundamentando. 2. Analisar a função de diferentes suportes em contextos específicos de leitura.

3. Planificar intervenções orais. 1. Pesquisar e selecionar informação.

Escrita

2. Planificar o texto oral, elaborando tópicos de suporte à intervenção.

10. Planificar a escrita de textos.

4. Participar oportuna e construtivamente em situações de interação oral. 1. Respeitar o princípio de cortesia: formas de tratamento e registos de língua. 2. Utilizar adequadamente recursos verbais e não verbais: postura, tom de voz, articulação, ritmo, entoação, expressividade. 5. Produzir textos orais com correção e pertinência. 1. Produzir textos seguindo tópicos fornecidos. 2. Produzir textos seguindo tópicos elaborados autonomamente. 3. Produzir textos linguisticamente corretos, com diversificação do vocabulário e das estruturas utilizadas. 6. Produzir textos orais de diferentes géneros e com diferentes finalidades. 1. Produzir os seguintes géneros de texto: síntese e apreciação crítica. 2. Respeitar as marcas de género do texto a produzir. 3. Respeitar as seguintes extensões temporais: síntese – 1 a 3 minutos; apreciação crítica – 2 a 4 minutos.

Leitura 7. Ler e interpretar textos de diferentes géneros e graus de complexidade. 1. Identificar o tema dominante, justificando. 2. Fazer inferências, fundamentando. 3. Explicitar a estrutura do texto: organização interna.

1. Pesquisar informação pertinente. 2. Elaborar planos: a) estabelecer objetivos; b) pesquisar e selecionar informação pertinente; c) definir tópicos e organizá-los de acordo com o género de texto a produzir. 11. Escrever textos de diferentes géneros e finalidades. 1. Escrever textos variados, respeitando as marcas do género: síntese, exposição sobre um tema e apreciação crítica. 12. Redigir textos com coerência e correção linguística. 1. Respeitar o tema. 2. Mobilizar informação adequada ao tema. 3. Redigir um texto estruturado, que reflita uma planificação, evidenciando um bom domínio dos mecanismos de coesão textual com marcação correta de parágrafos e utilização adequada de conectores. 4. Mobilizar adequadamente recursos da língua: uso correto do registo de língua, vocabulário adequado ao tema, correção na acentuação, na ortografia, na sintaxe e na pontuação. 5. Observar os princípios do trabalho intelectual: identificação das fontes utilizadas; cumprimento das normas de citação; uso de notas de rodapé; elaboração da bibliografia. 6. Explorar as virtualidades das tecnologias de informação na produção, na revisão e na edição do texto. 13. Rever os textos escritos. 1. Pautar a escrita do texto por gestos recorrentes de revisão e aperfeiçoamento, tendo em vista a qualidade do produto final.

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Metas Curriculares

Educação Literária 14. Ler e interpretar textos literários. 1. Ler expressivamente em voz alta textos literários, após preparação da leitura. 2. Ler textos literários portugueses de diferentes géneros, pertencentes aos séculos XII a XVI.

16. Situar obras literárias em função de grandes marcos históricos e culturais. 1. Reconhecer a contextualização histórico-literária nos casos previstos no Programa. 2. Comparar diferentes textos no que diz respeito a temas, ideias e valores.

3. Identificar temas, ideias principais, pontos de vista e universos de referência, justificando.

Gramática

4. Fazer inferências, fundamentando.

17. Conhecer a origem e a evolução do português.

6. Explicitar a estrutura do texto: organização interna.

1. Referir e caracterizar as principais etapas de formação do português.

7. Estabelecer relações de sentido

2. Reconhecer o elenco das principais línguas românicas.

5. Analisar o ponto de vista das diferentes personagens.

a) entre as diversas partes constitutivas de um texto; b) entre características e pontos de vista das personagens. 8. Identificar características do texto poético no que diz respeito a: a) estrofe (dístico, terceto, quadra, oitava); b) métrica (redondilha maior e redondilha menor; decassílabo); c) rima (emparelhada, cruzada, interpolada); d) paralelismo (cantigas de amigo); e) refrão. 9. Identificar e explicitar o valor dos recursos expressivos mencionados no Programa. 10. Identificar características do soneto. 11. Reconhecer e caracterizar textos quanto ao género literário: epopeia e auto ou farsa. 15. Apreciar textos literários. 1. Reconhecer valores culturais, éticos e estéticos manifestados nos textos. 2. Valorizar uma obra enquanto objeto simbólico, no plano do imaginário individual e coletivo.

3. Explicitar processos fonológicos que ocorrem na evolução do português. 4. Identificar étimos de palavras. 5. Reconhecer valores semânticos de palavras considerando o respetivo étimo. 6. Relacionar significados de palavras divergentes. 7. Identificar palavras convergentes. 8. Reconhecer a distribuição geográfica do português no mundo: português europeu; português não europeu. 9. Reconhecer a distribuição geográfica dos principais crioulos de base portuguesa. 18. Explicitar aspetos essenciais da sintaxe do português. 1. Identificar funções sintáticas indicadas no Programa. 2. Dividir e classificar orações. 3. Identificar orações coordenadas. 4. Identificar orações subordinadas. 5. Identificar oração subordinante. 19. Explicitar aspetos essenciais da lexicologia do português. 1. Identificar arcaísmos.

3. Expressar pontos de vista suscitados pelos textos lidos, fundamentando.

2. Identificar neologismos.

4. Fazer apresentações orais (5 a 7 minutos) sobre obras, partes de obras ou tópicos do Programa.

4. Explicitar constituintes de campos lexicais.

5. Escrever exposições (entre 120 e 150 palavras) sobre temas respeitantes às obras estudadas, seguindo tópicos fornecidos. 6. Ler uma ou duas obras do Projeto de Leitura relacionando-a(s) com conteúdos programáticos de diferentes domínios. 7. Analisar recriações de obras literárias do Programa, com recurso a diferentes linguagens (por exemplo, música, teatro, cinema, adaptações a séries de TV), estabelecendo comparações pertinentes.

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3. Reconhecer o campo semântico de uma palavra. 5. Relacionar a construção de campos lexicais com o tema dominante do texto e com a respetiva intencionalidade comunicativa. 6. Identificar processos irregulares de formação de palavras. 7. Analisar o significado de palavras considerando o processo de formação.